Salmane ou Salmão, dito o Persa ou Alfarsi (; ; m. ), foi um companheiro de Maomé de origem persa, tradicionalmente identificado como um dos primeiros persas a se converterem ao islamismo. Segundo os relatos acerca de sua vida, nasceu numa família zoroastrista e, após converter-se ao cristianismo e percorrer diferentes regiões em busca de mestres religiosos, chegou à Península Arábica, onde foi escravizado. Posteriormente encontrou Maomé em Medina, converteu-se ao islamismo e obteve sua liberdade. A tradição islâmica atribui-lhe papel destacado na Batalha da Trincheira, durante a qual teria proposto a escavação da trincheira utilizada na defesa de Medina, embora a participação de Salmane nesse episódio não seja mencionada nos relatos mais antigos.
Também lhe são atribuídas participação nas conquistas da Pérsia e do Iraque e a função de governador de Almadaim, notícias cuja historicidade é igualmente incerta. Morreu provavelmente em 35 ou 36 A.H. (655–657), e seu túmulo nas proximidades de Baguedade deu origem à localidade de Salmane Paque. Salmane adquiriu grande importância na tradição islâmica posterior. A declaração atribuída a Maomé de que "Salmane é dos nossos, da Ahl al-Bayt" contribuiu para sua posição particularmente elevada entre os xiitas, enquanto diferentes tradições sufis o incorporaram às suas cadeias espirituais. Tornou-se ainda figura importante na futua, patrono tradicional dos barbeiros e personagem de destaque em diferentes correntes religiosas islâmicas. Sua origem persa também contribuiu para sua ampla popularidade entre os muçulmanos persas e para o desenvolvimento de numerosas tradições em torno de sua vida.
Vida
300px|miniatura|Salmane e seu instrutor religioso leem um livro sagrado que prediz a vinda do profeta e discutem o assunto (ca. 1595) 300px|miniatura|Salmane traduziu o Alcorão para o persa, tornando-se assim a primeira pessoa a interpretar e traduzir o Alcorão para uma língua diferente do árabe
O nome original de Salmane era Mabe ibne Budaquexane, embora outras tradições lhe atribuam o nome persa Rusbe/Rusbi. Depois de se converter ao islamismo, apresentava-se como Salmane ibne Alislame ("Salmane, filho do Islã") e também ficou conhecido pelos epítetos Salmane Alcair, Salmane Paque e Salmane Alhaquime. Nasceu em , numa família persa rica e influente. Seu pai, adepto do zoroastrismo, era o degã de sua aldeia. Ainda criança, Salmane deixou Rame-Hormoz com a família e estabeleceu-se em , aldeia situada nas proximidades de Ispaã. Há, contudo, divergências nas tradições acerca de sua origem: a versão que Della Vida considera mais completa faz dele filho do degã persa de Jai, enquanto outras o vinculam às proximidades de Rame-Hormoz; seu nome persa também aparece como Mabe ou Rusbe. Segundo a tradição acerca de sua conversão, Salmane foi inicialmente encarregado de conservar aceso o fogo sagrado de um templo zoroastrista, mas começou a procurar outra religião e, apesar da forte oposição da família, converteu-se ao cristianismo. Fugiu primeiro para Damasco e depois passou por Moçul, Nísibis e Amório, procurando sucessivamente mestres cristãos. Em Amório, um sacerdote com quem estudava teria lhe anunciado, pouco antes de morrer, a proximidade do aparecimento na Península Arábica de um último profeta que seguiria a religião de Abraão. Segundo esse relato, o sacerdote indicou como sinais desse profeta o fato de aceitar presentes, mas não esmolas, e a existência do selo da profecia entre seus ombros.
Salmane encontrou posteriormente um comerciante árabe e entregou-lhe seus animais em troca de ser conduzido através do deserto. Ao chegarem a Uádi Alcura, contudo, foi traído pelos guias, identificados pela EI2 como beduínos calbitas, e vendido como escravo a um judeu. Este, por sua vez, vendeu-o a outro judeu, , pertencente aos curaizaítas e residente em Medina. Ao avistar a cidade, Salmane acreditou reconhecer nela o lugar que lhe fora descrito pelo sacerdote de Amório. Quando soube que Maomé havia chegado a durante sua migração para Medina, foi ao seu encontro e, depois de reconhecer nele os sinais que lhe haviam sido indicados, converteu-se ao islamismo. Por permanecer escravo, Salmane não participou das batalhas de Badre e Uude. Antes da Batalha da Trincheira, celebrou, por recomendação de Maomé, um contrato de alforria com seu senhor, considerado possivelmente um dos primeiros contratos de mukataba do período islâmico. O preço estipulado incluía o plantio de trezentas tamareiras, realizado sob a supervisão de Maomé e com o auxílio de seus companheiros, e o pagamento de quarenta uqiyyas, fornecidas pelo Baite Almal. Salmane obteve assim a liberdade. A tradição também atribui ao próprio Maomé participação no pagamento do preço de sua alforria. Maomé estabeleceu ainda uma relação de fraternidade entre ele e Abu Adarda.
A tradição posterior atribui a Salmane participação na Batalha da Trincheira e em todas as campanhas subsequentes de Maomé. Durante a preparação da defesa de Medina, teria proposto a escavação de uma trincheira, método de fortificação conhecido no mundo persa, e se destacado pessoalmente nos trabalhos. Della Vida, seguindo a análise de Josef Horovitz, observa, contudo, que os relatos mais antigos da batalha não mencionam qualquer intervenção de Salmane e considera provável que a tradição tenha surgido posteriormente para atribuir a um persa a introdução de uma técnica defensiva de origem persa. Sua força física e atuação na escavação teriam feito com que ançares e emigrantes disputassem a qual dos dois grupos deveria ser associado. Segundo a tradição, Maomé encerrou a disputa declarando: "Salmane é dos nossos, da Ahl al-Bayt". Com fundamento nessa tradição, o califa Omar posteriormente lhe concedeu uma pensão semelhante à atribuída aos membros da família de Maomé. Salmane, contudo, distribuía o dinheiro recebido como esmola e preferia sustentar-se confeccionando e vendendo esteiras de fibras de tamareira. As fontes islâmicas ressaltam seu ascetismo, interesse pelo conhecimento e apego à suna. Salmane integrou os companheiros da Sufa e adquiriu reputação por sua vida austera, característica que teria conservado mesmo depois de assumir funções administrativas. Sua experiência adquirida em diferentes regiões também lhe foi atribuída como fonte de conhecimentos técnicos. Durante a conquista de Taife, teria recomendado o emprego de manganelas e de máquinas de cerco conhecidas como dabbaba, participando pessoalmente de sua construção.
Salmane permaneceu em Medina até o início das conquistas do Iraque e da Pérsia. Durante o califado de Omar, teria retornado à região de sua origem e participado da Batalha de Cadésia, da conquista de Almadaim, da Batalha de Jalula e da campanha de . Por determinação de Omar, teria desempenhado também papel importante durante a fundação de Cufa e nos primeiros tempos da cidade, sendo posteriormente nomeado governador de Almadaim. A historicidade desses episódios, contudo, é incerta. Della Vida observa que as referências à participação de Salmane nas conquistas do Iraque e da Pérsia e ao seu governo de Almadaim são tardias e derivam quase todas do historiador Ceife ibne Omar, cuja autoridade é considerada duvidosa. Mesmo como governador, Salmane teria conservado o estilo de vida ascético pelo qual se tornara conhecido, circunstância à qual as fontes atribuem sua popularidade entre a população. Permaneceu à frente de Almadaim até os últimos anos do califado de Otomão . Segundo a cronologia considerada mais provável pela TDV, morreu na própria Almadaim no final de 35 A.H. ou no início de 36 A.H. (656), embora também tenham sido transmitidas datas anteriores e posteriores. A EI2 igualmente situa sua morte em 35 A.H. (655–656) ou 36 A.H. (656–657), observando, porém, que essa data não se concilia facilmente com as tradições que lhe atribuem uma longevidade extraordinária. Seu túmulo tornou-se o núcleo de uma localidade próxima de Baguedade posteriormente conhecida como . O mausoléu construído sobre sua sepultura foi reconstruído pelo sultão otomano em 1632 e novamente por em 1904–1905. Existem ainda cenotáfios atribuídos a Salmane em Ramla e em Nísibis.
As tradições divergem amplamente acerca de sua idade. Algumas o incluem entre os indivíduos excepcionalmente longevos e lhe atribuem idades entre 150 e 553 anos, havendo inclusive autores que consideraram difundida a tradição de que teria vivido mais de 250 anos. A EI2 registra especificamente tradições que lhe atribuem 200, 300, 350 ou mesmo 553 anos de vida e considera evidente o caráter lendário dessas idades. Adaabi, entretanto, apoiando-se numa tradição transmitida por , sustentou que Salmane morreu antes de alcançar os oitenta anos e provavelmente chegou ao Hejaz quando tinha cerca de quarenta. Para Adaabi, sua força física durante a escavação da trincheira também favorecia uma idade mais moderada. As narrativas sobre uma longevidade extraordinária, por sua vez, remontariam a relatos desconectados e desprovidos de cadeia de transmissão atribuídos a . Salmane teria aprendido grego e hebraico e adquirido conhecimento das escrituras dos persas, romanos, judeus e cristãos. Por essa razão, foi descrito como sahib al-kitabain, isto é, conhecedor dos "dois livros", o Alcorão e a Bíblia, e como possuidor de amplo conhecimento das tradições anteriores e posteriores. Também se registra que traduziu a Fatiha para o persa e que Maomé não teria proibido essa tradução.
Transmitiu hádices de Maomé e teve entre os transmissores de suas tradições sua esposa Bucaira, Xurabil ibne Assimete Alquindi, , , , , Ibne Abas, Abuçaíde Alcudri, , Anas ibne Maleque e , além de numerosos tabis. Tradições atribuídas a Salmane estão incluídas nas seis coleções canônicas de hádices, e Amade ibne Hambal reuniu 37 delas em seu Musnade. A obra de Baqui ibne Maclade teria registrado sessenta tradições suas. Autores xiitas consideram Salmane o primeiro a organizar sistematicamente tradições escritas. Ibne Hajar de Ascalão menciona a existência de uma coleção relativamente extensa intitulada Juz'an min hadith Salman, enquanto um pequeno tratado denominado Masa'il al-ruhban também lhe é atribuído. Autores xiitas atribuem-lhe ainda a autoria do Kitab Hadith al-Jathaliq. Salmane pertenceu a uma família abastada antes de deixar a Pérsia e posteriormente se casou com duas mulheres, uma delas quindaíta e a outra chamada Bucaira, que estava junto dele quando morreu. Teve um filho chamado Abedalá e três filhas, uma das quais vivia em Ispaã e as outras duas no Egito. Seu neto Abederramão, filho de Abedalá, transmitiu a narrativa tradicional acerca da conversão do avô.
Recepção posterior
A figura de Salmane adquiriu importância particular em diferentes tradições religiosas islâmicas. Sua extraordinária fortuna posterior foi relacionada à sua origem persa: segundo Della Vida, Salmane tornou-se uma espécie de herói nacional dos persas muçulmanos, que haviam desempenhado papel importante no desenvolvimento do Islã, e uma das figuras prediletas da . A tradição segundo a qual Maomé teria declarado "Salmane é dos nossos, da Ahl al-Bayt" contribuiu ainda para incorporá-lo simbolicamente à família do profeta. Por ter exercido, segundo a tradição, a função de cortar os cabelos de Maomé, tornou-se considerado o patrono dos barbeiros e ocupou posição relevante no desenvolvimento das organizações de . Nelas, aparece como um dos fundadores do sistema e como o naqib dos barbeiros. Também foi incorporado às cadeias espirituais de numerosas tradições sufis, nas quais figura como um dos principais elos da silsila.