Diógenes de Campos Ayres (Itapetininga, 1 de outubro de 1881 --- São Paulo, 28 de outubro de 1944) foi um pintor, desenhista e professor brasileiro.
Beneficiado com bolsa de estudos concedida pelo Pensionato Artístico do Estado de São Paulo em 1909, estudou em Paris na Academia Julian com Henri Roeyer, Robert Fleury e Jean-Paul Laurens.
Foi essencialmente um paisagista apreciado por alguns críticos e considerado com menores méritos por outros. Campos Ayres foi alvo de muitas críticas por sempre criar acerca das mesmas temáticas, tendo grandes predileções por pintar águas paradas e correntes, árvores, plantas aquáticas, montanhas, campos e nuvens. Todos esses elementos apareciam em um ambiente de luz difusa.
Carreira Campos Ayres entrou em contato com a pintura logo na infância. Começou a pintar por conta própria em Avaré, São Paulo, por ser de família originária do interior paulista. No ano de 1906, expôs pela primeira vez, também em são Paulo, na Casa Bevilacquia. Três anos depois, conseguiu uma bolsa e foi estudar no Pensionato Artístico do Estado de São Paulo, que foi regulamentado em 1912. No mesmo ano viajou a Paris, onde desenvolveu suas habilidades na Académie Julian, até 1910, tendo aulas com Tony Robert-Fleury, renomado pintor especializado em retratos, com Paul Albert Laurens, presidente da Sociedade dos Artistas Franceses e com Henry Paul Roeyer, que era um dos integrantes da Escola de Nancy.
thumb|Campos Ayres (1881-1944). Terreiro com galinhas e arado (aiveca), arredores de Paris (prov.), óleo sobre tela colada em painel, 26 x 21,7cm, 1913. Coleção particular. Foto Gedley Braga
Vale mencionar que a Escola Nancy tinha grande apresso pelas representações históricas referentes a tradições regionais, bem como pela experiência contida nos centros urbanos. Ao longo desse tempo estudando na capital francesa, Campos Ayres capacitou suas técnicas no exercício da figura, sendo muito influenciado pela paisagem ambiente, onde encontrava inspiração para criar e retratar os locais pelos quais passou. Suas frequentes idas ao famoso Museu do Louvre também o ajudaram a compor suas criações, uma vez que pode entrar em contato com obras de paisagistas locais do século XIX, principalmente com as de Jean-Baptiste-Camille Corot.
Em 1914 o pintor volta ao Brasil, expondo individualmente na Casa Mascarani, em São Paulo. Três anos depois se apresenta na Casa Verde e em 1919 dá continuidade aos seus trabalhos, na exposição Autos, que ocorreu na Casa di Franco, uma loja paulista de instrumentos musicais. Nesse mesmo ano, com a repercussão e conhecimento de suas obras, Ayres se destaca, chamando atenção de Monteiro Lobato, que escreve sobre ele em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo.
Características miniaturadaimagem|322x322px|Paisagem (PBSA 2) - Campos Ayres As pinturas de Campos Ayres são permeadas por fatores marcantes, que as tornam facilmente reconhecíveis. Ao mesmo tempo em que consolidou sua individualidade com a retratação de recantos tipicamente brasileiros, de verdes claros leitosos e cores em tons pastéis, não esqueceu as lições que aprendeu na França, especialmente as que observou nos quadros de Corot, pintor que o influenciou fortemente ao longo da carreira. As brumas, por exemplo, eram características marcantes e frequentes nas obras de Ayres. Muitos críticos que tinham dificuldade em detectá-las, conseguiram tal feito por meio da obra do pintor paulista.
As pinceladas, que davam a impressão de manchas de tamanhos distintos e as formas não delineadas se faziam constantes em suas obras, com figuras que quase não se desprendiam do fundo, o que as faziam menos nítidas para o observador. Outros pintores com essa mesma marca eram: Paulo do Valle Jr, José Marques Campão, Monteiro França, Lopes de Leão e Torquato Bassi.
A luz também era um fator importante em suas pinturas, sendo usada de forma considerada poética, deixando subentendido um outro estado da alma, que para os críticos, era um tanto quanto contemplativo, o que possivelmente vinha de sua admiração por uma natureza vista como silenciosa, traduzida em linguagem personalíssima.
Em suas obras, é possível observar a captação de trechos de águas sem movimentação, campos repletos de árvores ralas ou barba-de-bode, nuvens, e uma luz não muito intensa, que se faz evidente através do amanhecer, com a presença de bruma ou geada. Há ainda forte aparição de elementos como garoa, neblina, orvalho e vento.
Devido a essas suas predileções, as cores aparecem em tons mais suaves, com verdes esbranquiçados e sem a presença de contrastes bruscos. Nos raros quadros onde há Sol, a luz ainda é fraca, uma vez que se faz visível pelo pintor como se estivesse encoberta por uma espécie de lente opaca.
A pintura de paisagem miniaturadaimagem|323x323px|Paisagem - Campos Ayres Em meados do século XVII, a paisagem era considerada um gênero de arte inferior, detendo o penúltimo lugar no ranking de temas pictóricos, seguido apenas pela natureza-morta. Porém, houve uma reviravolta em sua significância para o mundo das artes, o que a consolidou uma representação, com autonomia própria, ou seja, tema central e principal das obras, e não mais plano de fundo ou complemento para figuras humanas ou de entidades santas e divinas.
A paisagem, como natureza-morta, foi tachada como uma forma burguesa de representação. Ela também foi significada como uma maneira de representar a calma, principalmente após um período intenso de guerra. Na Inglaterra, juntamente da paisagem, ocorreram estudos acerca do ar e da luz, retratados por meio de tonalidades distintas de cores. Na Escola de Barbizon, a paisagem foi distanciada do sentimentalismo e de idealizações, inicialmente por meio das práticas do francês Jean-François Millet.
Na Itália, um grupo de pintores fazia suas obras de paisagem ao ar livre, com o uso de manchas, que originou o nome macchiaioli. No sul do país, os artistas se dedicaram mais ao estudo da luz, principalmente os pintores da Escola de Posillipo. Cores refletidas e refratadas também foram estudadas. Essas técnicas que eram constantes nas obras do impressionismo influenciaram de forma significativa a estilização da pintura de paisagem desenvolvida no Brasil, que se tornou recorrente somente depois da metade do século XIX, com a segunda geração de pintores adeptos à Missão Francesa. Na Academia Imperial de Belas-Artes, existia a cadeira de paisagem, ministrada primeiramente por Vitor Meireles e depois por Zeferino da Costa. Entretanto, foi com o pintor alemão George Grimm que criou-se o hábito de pintar ao ar livre. Ele foi convidado a ministrar a cadeira de paisagem, porém acabou abandonando a academia e consequentemente seus alunos devido as restrições de suas saídas para pintar, que não eram bem vistas por outros membros da instituição.
Em São Paulo, os pintores que se dedicaram a paisagem foram esquecidos rapidamente, entretanto, uma outra geração reforçou a prática, com características marcantes encontradas nas obras de cada pintor, desde a eternização de morros e campos floridos, de Clodomiro Amazonas, das pinturas de amanhecer e anoitecer de Torquato Bassi até as paisagens repletas de bruma, de Campos Ayres.
Exposições Durante sua carreira, Diógenes Campos Ayres foi um artista ativo, que realizou exposições e diferentes atividades de forma individual e coletiva. Suas principais exposições individuais aconteceram na Casa Bevilacqua, em 1906; Casa Verde, em 1917 e 1919; Galeria Blanchon, em 1933; Rua Quitanda, em 1934; Rua João Brícola, em 1940 e Rua Barão de Itapetininga, em 1942. Todas elas ocorrerão em São Paulo.
As exposições coletivas também se concretizaram em sua maioria em São Paulo, com exceção de uma, que teve o solo carioca como anfitrião. Entre suas principais contribuições coletivas estavam a Exposição Nacional, que ocorreu em 1908; a Mostra no Salão Mascarini, em 1914 e a 25ª Exposição Geral de Belas Artes, que se deu em 1918, no Rio de Janeiro. A Exposição Altos, na Casa Di Franco, a Mostra na Casa Editora O Livro e o 1º e 6º Salão Paulista de Belas Artes, realizados respectivamente em, 1919, 1922, 1934 e 1939, em SP, também foram eventos importantes para a carreira do pintor de Itapetininga. Em 1940 ocorreram o 7º Salão Paulista de Belas Artes, no Salão de Arte Almeida Júnior da Prefeitura Municipal de SP e a Exposição Retrospectiva - obras dos grandes mestres da pintura e seus discípulos. Enquanto que o período entre 1941 a 1943 foi marcado pelo Salão Paulista de Belas Artes - grande medalha de prata; 8º e 9º Salão Paulista de Belas Artes - Galeria Prestes Maia.
São Paulo serviu em sua totalidade para a execução de exposições póstumas:
•1944: Paisagens de Itapetininga (Galeria Benedetti);
•1945: 11º Salão Paulista de Belas Artes (Galeria Prestes Maia);
•1956: Exposição Cinquenta Anos de Paisagem Brasileira (MAM/SP);
•1978: A Paisagem na Coleção da Pinacoteca (Pinacoteca do Estado);
•1980: A Paisagem Brasileira: 1650-1976 (Paço das Artes);
•1985: 100 Obras Itaú (Masp);
•1986: Dezenovevinte: Uma Virada no Século (Pinacoteca do Estado);
•1987: A Trama do Gosto: um outro olhar sobre o cotidiano (Fundação Bienal);
•1989: Pintura Brasil Século XIX e XX: obras do acervo do Banco Itaú, (Itaugaleria);
•1991: Imagens Paulistas (Paço das Artes);
•1995: Da Marinha à Natureza Morta.
Mais recentemente, em 2013, a Pinacoteca de São Paulo recebeu a exposição intitulada “O Pensionato Artístico Paulista na República Velha (1889-1930)”, na Luz, Centro de SP. O evento expôs 17 obras que foram criadas de 1889 a 1925, período em que alguns artistas ativos na capital paulista receberam bolsas de estudo do governo, concedendo assim, obras à Pinacoteca, como forma de retribuição.
Não só trabalhos de Campos Ayres compuseram a exposição, outros artistas como Dario Villares Barbosa, Lopes Leão, Helena Ohashi, e Túlio Mugnaini também tiveram suas obras contempladas. Mario Villares Barbosa, Marcelino Vélez, Oswaldo Pinheiro e Valle Júnior foram representados na mostra junto dos artistas citados.
É importante mencionar, que atualmente há nove obras de Campos Ayres no acervo da Pinacoteca, sendo elas:
•Nenufares-Bois de Bologne: óleo sobre tela, incorporado ao acervo em 1914;
•Matin D´Automne: óleo sobre tela, incorporado ao acervo em 1914;
•Arrozal: óleo sobre tela, comprado pelo Governo do Estado de São Paulo em 1952;
•Estudo de torso masculino: carvão sobre papel, doado em 1952, por Paulina Cruz Ayres;
•Estudo de nu masculino: carvão sobre papel, doado em 1952, por Paulina Cruz Ayres;
•Estudo de torso masculino: carvão sobre papel, doado em 1952, por Paulina Cruz Ayres;
•Estudo de nu feminino: carvão sobre papel, doado em 1952, por Paulina Cruz Ayres;
•Paleta: madeira e tinta a óleo, doado em 2007, por Ruth Sprung Tarasantchi;
•Obra sem título, doada em 2008, pela Associação dos amigos da pinacoteca do Estado.
Locais importantes na carreira de Campos Ayres As obras de Campos Ayres foram expostas em diferentes galeiras e instituições, sendo umas conhecidas e outras nem tanto. Entre esses locais por onde o pintor paulista já passou, vale destacar:
•Pensionato Artístico do Governo do Estado: o Pensionato Artístico era o único órgão oficial de proteção às artes em São Paulo, além de ser um local onde bolsas de estudos eram concedidas aos artistas paulistas. Assim, com essa oferta, o artista contemplado com a bolsa deveria enviar projetos e atividades desenvolvidas nos cursos, periodicamente. Cópias de obras de artistas europeus renomados também eram mandadas ao órgão.
É importante lembrar que para conseguir a bolsa, o artista deveria criar um trabalho individualmente, para que suas habilidades e qualidades técnicas pudessem ser avaliadas. Caso já tivesse realizado uma encomenda bem aceita pelos demais, o pintor também poderia participar do processo.