História de Cubatão, município do estado de São Paulo.
Antiguidade É ponto pacífico entre os estudiosos que a região do atual município de Cubatão foi ocupada, há pelo menos 7000 anos, pelo chamado Homem do Sambaqui: eram grupos seminômades, que tinham sua vida cotidiana ligada ao mangue, donde tiravam sua subsistência, marcada por siris, conchas bivalves, berbigões e peixes, os quais aproveitavam para desenvolver sua manufatura de peças mistas – líticas e orgânicas – caracterizadas por ferramentas de pedra polida (do Mesolítico), adornos e outros equipamentos.DUARTE,1968
Sua principal característica, que dá nome ao grupo, é o fato de serem construtores de sambaquis – palavra indígena que significa TAMBA-A-AQUI: "monte de conchas";MADRE DE DEUS, 1923 os sambaquis não eram o local de moradia desse grupo; eram simplesmente os "lixões" onde eram depositadas as sobras da alimentação, as carcaças dos crustáceos e as ossadas de peixes e pequenos mamíferos que serviam de alimento; por motivos desconhecidos, passaram a abrigar enterramentos humanos, sendo que a intempérie dissolveu as camadas superiores do sambaqui, fazendo uma petrificação por cálcio dos esqueletos imersos no núcleo do sambaqui, conservando-os, e a seus adornos funerários, pelos milênios.
No século XIX, esses monumentos pré-históricos foram visitados pelo imperador Pedro 2.º, exímio naturalista, que deles se encantou; no século XX, foram alvos de estudos por parte da Universidade de São Paulo (a USP), e atraíram inclusive a atenção de Paul Rivet, o lendário Diretor do Museu do Homem de Paris, e "pai" da moderna Antropologia americana.RIVET, s/d Na disputa pela ocupação do espaço do litoral, há aproximadamente 1.000 anos, os índios, oriundos do Planalto Brasileiro, desceram a Serra do Mar e se estabeleceram temporariamente na Baixada, donde retiravam peixe e sal; neste estabelecimento, faziam diversas viagens entre o Planalto e o Litoral, e abriram diversos caminhos na Muralha do Atlântico que, segundo se fala, iam do litoral até a Cordilheira dos Andes. O mais conhecido desses caminhos era o Caminho do Piaçaguera de cima, que desse lugar subia a Serra pelo secular trilho dos Goianases, no Vale do Ururaí (atual Mogi).COSTA E SILVA SOBRINHO, s/d Descendo a Serra do Mar, os índios ocuparam a região e exterminaram (ou absorveram) o grupo do Homem do Sambaqui.
Embora haja provas abundantes da ocupação indígena, deles temos poucas informações, exceto aquelas que nos são outorgadas pelos invasores portugueses; sabemos, grosso modo, que foram testemunhas das expedições pré-coloniais e da chegada da expedição colonizadora de Martim Afonso de Sousa.
Século XVI O primeiro documento oficial que cita Cubatão é a Carta de Doação de Sesmaria, passada por Martim Afonso em 10 de fevereiro de 1533, onde ele concede a Rui Pinto as terras do Porto de "Apiaçaba", e as terras situadas "na Barra do Cubatão", entre os rios Ururaí e Perequê.BORGES, 2002 Em 4 de março, Martim Afonso doa outra sesmaria a Francisco Pinto (irmão de Rui Pinto), sesmaria que ia do Rio Perequê ao Rio das Pedras.
Em 1556, durante o Governo Geral, foi doada a Antonio Rodrigues de Almeida uma sesmaria cujas terras partem do rio das Pedras, até o rio Pilões; essa sesmaria foi adquirida em 1643 pelos padres da Companhia de Jesus, sendo o embrião da Fazenda Geral dos Jesuítas, também chamada de Fazenda Geral do Cubatão. As terras jesuíticas margeavam o rio Cubatão, o que lhes dava controle sobre a navegação fluvial que ligava a escarpa da Serra do Mar e o Porto de Santos: em realidade, com o tempo, os jesuítas passaram a controlar o comércio (essencial) entre o Planalto e os corredores de exportação e importação – os jesuítas tiveram a brilhante ideia de cobrar pela passagem fluvial, além de alugar botes e canoas que faziam a passagem entre a Ilha de Goiaó e o Cubatão.
Século XVIII Os comerciantes da Vila de Santos foram os primeiros a reclamar dessa cobrança, e a Câmara da Vila de Santos enviou Ofício ao Rei de Portugal, mas tudo foi em vão: desde 1745, os jesuítas solicitavam permissão preventiva para a cobrança; mesmo após a Reforma Pombalina, que expulsa os jesuítas de todo o Império Português, em 1759, Cubatão é a primeira Alfândega do Brasil, cobrando impostos de passagem dos bens e produtos que sobem ou descem a Serra do Mar.
A própria existência de uma Alfândega já era sinal do desenvolvimento acelerado da antiga Capitania de São Vicente, agora chamada de São Paulo: o desenvolvimento da vila de São Paulo de Piratininga, acelerado, gerava necessidades e riqueza, nas expedições de caça ao índio e de prospecção dos Bandeirantes; em vista disso, desde 1560, o governador-geral Mem de Sá, julgando o Caminho dos Goianases muito inseguro, por estar infestado de índios hostis aos portugueses, mandara que ele fosse abandonado, e que fosse utilizado o chamado Caminho do Padre José, no Vale do Rio Perequê, também chamado de "Estrada do Cubatão Geral".
Porém, no século XVIII, D. Maria I, Rainha de Portugal envia ao Brasil o fidalgo Bernardo José Maria de Lorena, Conde de Sarzedas, como Governador da Capitania de São Paulo. Lorena, assombrado com o desenvolvimento da Capitania, não aceitava a existência de um caminho de serra tão escarpado e dificultoso quanto o Caminho do Padre José; aproveitando a estada do Real Corpo de Engenheiros, veteranos da reconstrução de Lisboa após o terremoto de 1790, e incumbidos da delimitação do Tratado dos limites do Brasil com a América Espanhola, Lorena se propõem a construir uma estrada calçada de pedra pela Serra do Mar, no trecho entre o Rio das Pedras e o Rio Cubatão.
Essa obra, pelo seu ineditismo e sua grandeza, ficou conhecida como "Calçada do Lorena", com 8.000 metros de extensão e 3 metros de largura, toda calçada em pedra. Lorena escrevia assim seu nome na História, sendo o mentor daquela que fora, em sua época, a estrada mais moderna da América. A Calçada do Lorena prosseguiu em sua importância, pois passa, em 1822, a ser a "Estrada da Independência": é por ela que trafega o Príncipe D.Pedro, em sua histórica jornada de 7 de setembro, quando parte de Santos, da casa de José Bonifácio, passa pelos ranchos no atual Largo do Sapo em Cubatão e se dirige a São Paulo, quando é interceptado, nas margens do Ipiranga pelo mensageiro real. Por pouco, a Independência não é proclamada em solo cubatense.
Século XIX thumb|200px|direita|Cubatão no século XIX, por Benedito Calixto. Em 1803, em decreto de 19 de janeiro, o Governador da Capitania, Antonio José de Franca e Horta, numa política de povoamento e desenvolvimento da Capitania, ordena a edificação do Povoado de Cubatão, na extinta Fazenda dos Jesuítas, entre os rios Capivari e Santana, na margem direita do rio Cubatão; se alguém mereceria o epíteto de "fundador" seria Franca e Horta: é dele a iniciativa de formar o povoado. Em Edital de 22 de agosto, ele convida famílias de Iguape para povoarem Cubatão.
Mas somente em 17 de janeiro de 1819, em pleno Período Joanino, cinco famílias da Ilha dos Açores vêem para Cubatão: são os famosos "cinco Manuéis" – Manuel Espíndola Bittencourt, Manuel do Conde, Manuel Correia, Manuel Gomes e Manuel Antônio Machado, que segundo consta, não seria "Manuel", mas simplesmente Antonio Machado – o erro seria de transcrição do nome, e permaneceu na História de Cubatão. A riqueza de Cubatão, seu solo, foi explorada pelos portugueses na forma de seu produto mais tradicional: a banana.
Em 1827, para facilitar o escoamento de produtos que desciam ou subiam a Calçada do Lorena, foi inaugurado um aterrado, que ligava Santos à Cubatão; esse aterrado é a origem da atual Avenida Nove de Abril, pois dá início à Calçada do Lorena, no Largo do Sapo, no local hoje marcado por uma mureta verde e branca.
Em 12 de agosto de 1833, a Regência Trina Permanente, instituída após a abdicação de D.Pedro I, sanciona a Lei n. 24, que elevava o Porto Geral de Cubatão à categoria de município, desmembrando-o de São Vicente; mas a penúria em que se encontra o Povoado, faz com que a autonomia seja tolhida pela Lei Regencial n.167, de 1o. de março de 1841, que incorpora o Povoado de Cubatão à cidade de Santos.
Em realidade, o marasmo que toma conta do povoado, justifica a atitude; poucas informações se fazem deste momento, ficando atreladas às duas visitas do Imperador D. Pedro II: a primeira em 1846, quando é inaugurada a "Estrada da Maioridade", o antigo Caminho do Vergueiro; até hoje, com sucessivos melhoramentos, ela é conhecida como Estrada Velha de Santos. Em 1992, um temporal faz com que parte de seu piso asfáltico ceda, e dê origem a uma cratera de nove metros; assim, ela é fechada ao público, permanecendo assim até nossos dias.
A segunda visita do Imperador ocorre em 1876, quando D.Pedro II visita os sambaquis da Ilha dos Casqueirinhos, atualmente área da COSIPA.
Nesse meio tempo, em 1867, é inaugurada a Estrada de Ferro São Paulo Railway, que corta o povoado e sobe a Serra do Mar – seu objetivo era trazer do interior de São Paulo a riqueza do café, embarcada pelo Porto de Santos.
A situação do povoado é tão modorrenta, que pouco temos conhecimento do cotidiano do final do século XIX; porém, na esteira da liberdade e do abolicionismo santista, Cubatão abriga quilombos e negros fugidos – no Vale do Rio Mogi subsistiriam as ruínas de um antigo quilombo e de um engenho de açúcar. A evolução da cidade de Santos acaba segregando Cubatão como um bairro distante da Sede do Município, abrigando no Cemitério de Cubatão inclusive o Cemitério Israelita, o qual, acredita-se, sepultava os despojos das "polacas" – prostitutas judias trazidas da Europa Oriental.
Embora durante a República Velha, a riqueza do Brasil tenha sido o café, trazido pelos trilhos da "ingleza" que atravessa Cubatão em direção ao Porto de Santos, no bairro a riqueza é personificada pela banana – na fruta tropical uma atividade lucrativa, e durante muito tempo é a maior riqueza da terra, facilmente exportada pelos trens para Santos e outras localidades. Até hoje o brasão da cidade mantém essa herança, simbolizada nas duas folhas de bananeira que o ladeiam, assim como qualquer passante desavisado pode notar pelas ruas e terrenos da cidade. A bananicultura foi introduzida em Cubatão por Henrique Muniz de Gusmão Brunken (avô de Afonso Schmidt); além da bananicultura, outra fonte de renda era a extração de areia e pedras.
No final do século XIX, surgem diversos pequenos curtumes em Cubatão; em 1895, se instala a Companhia Curtidora Max, que no século XX é adquirida pela Costa Muniz, posteriormente se dedicando a produzir cintos, mangueiras, correias, fios e cordas de couro. A Cia. Max é a primeira grande indústria a se instalar na região de Cubatão, mas é seguida, em 1916, pela Companhia Anilinas de Productos Chimicos do Brasil, que se instala em vasta gleba, no centro do povoado (na atual avenida 9 de abril); ela produz até 1964 tintas, vernizes e outros compostos, mas não é a grande absorvedora de mão de obra: em 1918, se instala numa das falhas da Serra do Mar, a Companhia Santista de Papel, numa área em que se possa construir uma usina hidrelétrica, em vista da abundância de recursos hídricos e a proximidade tanto do Porto de Santos, quanto da capital – São Paulo.PASSERANI, 2004 Essa industrialização traz forasteiros e um progresso acelerado para a região.
Século XX