thumb|direita|273px|Em laranja, a distribuição da língua Yathê à época dos primeiros contatos dos fulni-ô com os não índios. A língua Yaa:thê (ou Yathê, ou Iatê, em português moderno) é uma língua indígena falada pelos povos originários Fulni-ô, que vivem no município de Águas Belas, no oeste-sudoeste de Pernambuco, a cerca de 300 quilômetros de Recife, a capital do Estado. Segundo os linguistas Palácio e Rodrigues , os Fulni-ô são os únicos povos originários do Nordeste (sem considerar as línguas dos povos do Maranhão) que mantêm intacta a sua língua. A língua Yathê é ainda falada pela maior parte da população Fulni-ô (cerca de 91,5% dos indígenas são falantes ativos ou passivos da língua original do grupo). O Yathê, devido à tentativa de apagamento identitário pelo processo de colonização e aculturação, enfrentou pelo menos 500 anos de repressão, tendo chegado a ser proibido por décadas. Entretanto, devido às ações para manter a sobrevivência da língua (como o seu ensino incluído na matriz curricular escolar da aldeia Fulni-ô, cantos, o festival sagrado e hermético do Ouricuri, a criação do Coletivo Fulni-ô de Cinema e entre outros), o Yathê permanece como uma das poucas línguas indígenas intactas remanescentes do Nordeste, sendo considerada símbolo de resistência.

Etimologia A designação Yathê significa literalmente “nossa fala”, de ya “possessivo, 1ª pessoa do plural” e atʰe, “fala”. O fato de a língua ter, para os índios Fulni-ô, uma função ritual muito importante, faz com que ela seja denominada por eles, também, de Yaathelya yaatʰeʎa, de ya, “marcador de posse”, mais atʰe “fala” e ʎa, marcador de status, significando “de respeito, sagrado”.

Histórico de pesquisa miniaturadaimagem|Representante da etnia Fulni-ô falando sobre a cultura do seu povo para alunos de uma escola pública, no Jardim Botânico, em Brasília. A apresentação foi parte das comemorações do Dia do Índio. Na década de 1960, alguns trabalhos acerca da língua foram produzidos. Um casal de missionários-linguistas norte-americanos, Douglas e Doris Melland, produziram um vocabulário, um esboço da fonologia e um esboço da gramática, além de terem elaborado uma tradução da bíblia. Geraldo Lapenda, professor da UFPE, escreveu uma gramática intitulada “Perfil da língua Iatê”, publicado pela Editora Universitária da Universidade Federal de Pernambuco, em 1968, e reeditado postumamente em 2005. Nos anos 1990, Eurípedes Barbosa, da UnB, sob a orientação do Prof. Aryon Rodrigues, escreveu uma dissertação de mestrado sobre a Fonologia do Yathê, e a pesquisadora Januacele Francisca da Costa começou seus estudos sobre a língua, na UFPE, sob a orientação da Profa. Adair Palácio. Seu primeiro trabalho foi uma dissertação de mestrado, cuja pesquisa objetivou definir a situação sociolinguística da língua Yathê, e os resultados mostraram que a língua era falada pela grande maioria da população e convivia com o português em uma situação de bilinguismo estável. Em seguida, empreendeu, como tese de doutorado, ainda na UFPE e sob a direção da Profa. Adair Palácio, uma descrição da língua, que buscou descrever o sistema fonológico, identificando os sons da língua, depreendendo os fonemas, definindo o padrão silábico e procurando descrever os processos fonológicos. O índio fulni-ô Aluízio Caetano de Sá publicou, recentemente, um dicionário yathê-português.

Fonologia

Consoantes A maior parte das consoantes simples do Yathê são produzidas basicamente da mesma forma que suas equivalentes em português e distribuem-se formando sílabas com todas as vogais. Destas consoantes simples, apenas a oclusiva glotal [ʔ] não tem realização em português. Com relação aos sons complexos da língua, pode-se citar os fenômenos da labialização (as labializadas, de modo geral, só ocorrem em posição medial. Nos dados encontrados nas pesquisas realizadas foram encontrados os seguintes casos de labialização: [tʷ], [dʷ], [kʷ], [fʷ], [tʃʷ], [tʃʰʷ], [dʒʷ]) e de palatalização (as palatalizadas dividem-se em dois tipos: nas coronais, que ocorrem em posição tanto inicial quanto medial – [tʲ ] e [dʲ] –, e na dorsal, que só ocorre em posição medial – [kʲ]:

+Fonemas ConsonantaisLabialAlveolarPalatalVelarGlotalPlosivapt dkʔNasalmnFricativafsʃhAfricadatstʃ dʒAproximante laterallʎAproximantejɰ

Vogais Atualmente, os sons vocálicos do Yathê não apresentam distinções notáveis em relação à pronúncia dos fones vocálicos do português, exceto pelo fato de que na língua portuguesa não existem vogais longas. +Fonemas VocálicosAnteriorCentralPosteriorbrevelongabrevelongabrevelongaFechadaiiːuuːSemifechadaeeːooːSemiabertaɛɔAbertaaaː

Escrita Ao longo de sua história, a língua não apresentou uma tradição escrita, sendo apenas utilizada na forma oral. Entretanto, recentemente, Marilena Araújo, responsável, há quase 20 anos, pelo ensino da língua Yathê na Escola Bilíngue Antônio José Moreira, criou o alfabeto Yathê e escreveu uma cartilha para auxiliar as crianças no processo de leitura e escrita da língua.

Gramática

Pronome

Pronomes Pessoais Todos os pronomes pessoais das três pessoas do singular flexionam-se em gênero, enquanto que os pronomes do plural não possuem marca desta categoria. Na língua Yathê, os pronomes pessoais, com relação à sua função, não podem ocorrer como sujeito ou objeto, já que seu funcionamento é basicamente o dos pronomes enfáticos. Os “verdadeiros” pronomes  pessoais –os pronomes autônomos ou do caso reto– podem co-ocorrer com os átonos quando um sujeito pronominal está sendo enfatizado (como no francês: “Moi, je suis petit”). Os pronomes em Yathê são, nesse sentido, semelhantes aos pronomes enfáticos do francês, como moi, toi, etc. +Pronomes PessoaisNúmeroMasculinoFemininoSingularoweo:soawaa:sasasasaPluraljoowootʰoo owe i sideja-towa (eu sou preguiçoso)

owe-so i sideja-to-so-wa (eu sou preguiçosa)

Substantivo

Afixação e Derivação no Nome A derivação é predominantemente realizada pela afixação de um elemento a uma “raiz nua” (serve para o processo de derivação na língua, mas não existe separadamente como uma palavra). O elemento que é afixado à raiz, em Yathê, é um sufixo. Os nomes são gerados ao acrescentar-se um sufixo participial a uma raiz:

Significado atribuídoSufixo adicionadoExemplo nome de agenteraiz+howe > e we-ho (matar > o matador)nome de instrumento/lugarraiz+setake, kane > se take kane-se (roupa, botar > o onde se bota a roupa/mala) nome de pacienteraiz+dowa kafka > e kfafa-dowa (dormir > o dormido) nome de profissãoraiz+towatfone> tfone-towa (caçar > o caçador)privaçãoraiz+dowadʒa > e dʒa-dowa (erro > o sem erro/deus)  semelhançaraiz+tsowatfe > i tfe-tsowa (pai > como o meu pai/padrasto) O sufixo [-dowa] de “privação”(subcategorizado para bases nominais) é homófono ao sufixo [-dowa] “particípio adjetival” (subcategorizado para bases verbais).

Flexão de gênero Em Yathê, alguns nomes flexionam-se em gênero. Para isso, há três sufixos: /-ne/, /-sV/ e /-neka/. O sufixo /-ne/ é o mais geral, uma vez que pode ser associado a nomes que se referem tanto a pessoas quanto a animais e coisas.

i' ʃi i' ʃine (irmão/irmã) wale wa'lene (porco/porca) i' ka ika' sa (irmão/irmã) setso setso:kja (índio/índia)

Classes semânticas de posse Os nomes pertencem a três classes, com relação à obrigatoriedade e opção de marcação de posse ou sua ausência. Pode-se classificar, assim, os nomes da línguas em três classes:

Nomes alienáveis nomeiam entidades cuja posse pode ser transferida; esses nomes podem ser ou não marcados para posse:i ma' kʰaj (meu arco), ja ma' kʰaj (nosso arco) Nomes inalienáveis nomeiam entidades cuja posse é intransferível, como nomes de partes do corpo e termos de parentesco; são obrigatoriamente marcados para posse. Alguns nomes de objetos também podem ser tratados como inalienáveis. São nomes como “casa”, “terra”, alguns animais são considerados inalienavelmente possuídos. As restrições aparentam ser de cunho mais cultural, ou mesmo pragmático, do que semântico-linguístico. Exemplos: ika' sa (minha filha), eka' sa (filha dele/dela), ka' sa (filha). Uma terceira classe de nomes nunca pode ser marcada para posse, como os nomes de seres da natureza. Exemplos: 'fuli (rio), tʃaj (céu), 'tʃhale (mar). Relações de Posse No Yathê, existem formas variadas de se estabelecer relação de posse, como por:

Pronomes possessivos e determinantes Os índices possessivos, ou pronomes possessivos, indicam a posse com relação à categoria pessoa; o nome-genitivo é utilizado apenas para não-humanos. A ordem entre o índice de posse e o nome é: índice de posse-nome: i wapɛla (meu livro), tʃʰa kʰawa (a comidinha deles); entre nome-núcleo e nome-genitivo, a ordem é nome-nome-genitivo: thlɛka tdiatsa (árvore do caminho); entre o nome-núcleo e o nome possuído, é nome-nome possuído: ɔtska itʰlo (cachorro do homem), mali e ka (o filho de Maria).

Observações quanto ao genitivo: o genitivo é marcado morfologicamente por um sufixo /-desa/ sobre o segundo termo de uma relação. Ele serve para introduzir o complemento do nome, mas seu emprego é restrito à utilização com não-humanos e não-animados. Além disso, seu uso dá a ideia de localização ou proximidade. +Pronomes PossesivosNúmeroPessoaPOS./ REF. DEFSingular1i2a3ePlural1ja2wa3tʰ

A língua também não possui um verbo “ter” para expressar a noção de posse. Esta relação é expressa de duas formas, basicamente: “processualmente”, como uma situação existencial de circunstância, e “de forma atributiva”, como uma situação relacional de identidade.

Posse Processual No caso de a relação de posse ser expressa como processo, a estrutura é: participante locativo –que pode ter  função  gramatical de sujeito –e um participante objeto, sem função representacional– /sa/. O verbo é pleno, embora genérico, /ne-ka/. O expletivo, sem função representacional, está em distribuição complementar com o objeto expresso nominalmente, pronominalmente ou de outra forma permitida pela língua.

a ke sa ne-ka (ele tem, literalmente: em ele alguma coisa existe)

Posse Atributiva Diferente do português, por exemplo, onde a relação de posse pode ser expressa atributivamente – o livro é dele –, o primeiro termo sendo um tema e o segundo um possuidor, com a relação entre os dois termos estabelecida pelo verbo ser ou equivalente, em Yathê, a construção é também atributiva, mas o segundo termo é um locativo. Em lugar do verbo “ser”, por exemplo, do Português, há o marcador temporal que se integra ao expletivo da língua.

A posse é expressa como atributo, com um participante não-marcado, que em Yathê pode ser sujeito ou objeto. A ordem sujeito-objeto é fixa  nessas orações: na posição sujeito, há um participante marcado como locativo. Esse participante só pode vir antes do verbo, nunca depois.

do:kʲa > ta ke sa-sa-he do:kʲa (panela > a panela é dela)

Verbo De modo geral, no Yathê, o verbo pode apresentar uma série de morfemas, interpretados como sufixos, pois são colocados depois da raiz “nua” do lexema, que exprimem diferentes noções. Esta “raiz nua” só se atualiza como uma das classes de palavras da língua a partir dos morfemas que lhe são juntados – ou da sua ausência.

Tempo Falando especificamente de “tempo absoluto”, sua distinção na língua é feita entre presente, passado e futuro. O presente é não-marcado, expresso  por um morfema zero (que se opõe aos demais morfemas de tempo); o passado e o futuro são marcados por sufixação dos elementos -/se/ e -/he/ ,  respectivamente. Seguem alguns exemplos:

a feja ma tʰa ja etʰle-taka-ka (nossa terra eles querem nos tomar) adedʷa no-ka-se ʃʰlɛ'ka tuji  (o menino foi para a árvore) sõ:ma i kfafa-ka-he owe ke (amanhã eu dormirei aqui)

Aspecto As noções de aspecto que são codificadas na morfologia verbal são:

imperfectivo, expressa pelo sufixo -/kʰia/: i feetone-ka-kʰia owa feja te (eu trabalhava nesta terra)