O denominado Ano sem Verão, Ano sem um Verão, Ano da Pobreza ou Ano em Que não Houve Verão, foi o ano de 1816, devido a graves anomalias climáticas que fizeram com que as temperaturas médias globais diminuíssem em 0,4-0,7 ºC. Neste ano, anormalidades climáticas severas do verão destruíram plantações na Europa Setentrional, no nordeste dos Estados Unidos e leste do Canadá. As temperaturas de verão na Europa naquele ano foram as mais frias já registradas entre 1766 e 2000, resultando em quebras de safra e grandes escassezes de alimentos em todo o Hemisfério Norte. O historiador John D. Post chamou tal fenômeno de "a última grande crise na subsistência no mundo ocidental".
Para a grande maioria das autoridades no tema, o ocorrido parece ter sido causado por uma combinação de inverno vulcânico e atividade solar anormal. Evidências sugerem que a anomalia foi predominantemente causada pela imensa erupção do Monte Tambora, nas Índias Orientais Holandesas (atual Indonésia), em abril de 1815. Esta erupção foi a maior em pelo menos 1 300 anos (desde a hipotética erupção que causou o inverno vulcânico de 536) e seu efeito sobre o clima pode ter sido agravado pela erupção de 1814 do Mayon nas Filipinas. A quantidade significativa de cinza vulcânica e gases liberados na atmosfera bloqueou a luz solar, levando ao resfriamento global.
Países como o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda e a França da Restauração passaram por dificuldades significativas, com revoltas por alimentos e fome tornando-se comuns. A situação foi agravada pelo fato de a Europa ainda estar se recuperando das Guerras Napoleônicas, somando-se ao estresse socioeconômico.
A América do Norte também enfrentou condições meteorológicas extremas. No leste dos Estados Unidos, uma "névoa seca" persistente obscureceu a luz solar, causando frio incomum e geadas ao longo dos meses de verão. As colheitas fracassaram em regiões como a Nova Inglaterra, levando à escassez de alimentos e ao sofrimento econômico. Essas condições forçaram muitas famílias a deixar seus lares em busca de melhores oportunidades agrícolas, contribuindo para a expansão para o oeste.
Descrição O Ano sem Verão foi um desastre agrícola que, segundo o historiador John D. Post, foi "a última grande crise de subsistência do mundo ocidental". As aberrações climáticas incomuns de 1816 tiveram seus efeitos sentidos em maior escala no norte dos Estados Unidos, nas Províncias marítimas do Canadá, Terra Nova e Labrador e ao norte da Europa. Tipicamente, as temperaturas máximas diurnas no meio do verão ao norte dos EUA e sul do Canadá ficam, em média, entre 20 e 27 °C. Já as mínimas noturnas geralmente permanecem acima de 10 °C e neve de verão é um evento extremamente raro fora das montanhas e do extremo norte.
Em maio de 1816, geadas destruíram a maior parte das plantações e, em junho, duas grandes tempestades de inverno no leste do Canadá e na Nova Inglaterra resultaram em muitas mortes humanas. Quase 30 cm de neve foi observado em Quebec em meados de junho, com consequente perda adicional de colheitas. A maior parte das plantas de verão possuem paredes celulares que se rompem com geadas fracas, sendo destruídas quando uma nevasca cobre o solo. O resultado foi carestia regional, fome, epidemias e aumento da mortalidade.
Causas Geralmente, considera-se que a principal causa do Ano Sem Verão foi um inverno vulcânico criado graças a erupção do Monte Tambora em abril de 1815 na ilha de Sumbava, Indonésia (na época, parte das Índias Orientais Neerlandesas). A erupção teve um índice de explosividade vulcânica (IEV) de 7 e ejetou pelo menos 37 km3 de material na atmosfera. O fato da erupção de 1815 ter ocorrido num período de atividade solar usualmente baixa, também foi significante. Continua sendo a mais recente erupção IEV-7 confirmada até o momento.
Outras grandes erupções vulcânicas, de escala 4 no mínimo, durante o mesmo período de tempo, foram:
1812, La Soufrière em Ilha de São Vicente (São Vicente e Granadinas); 1812, Aboe nas Ilhas Sangihe, Indonésia; 1812, Awu nas Ilhas Sangihe, Índias Orientais Holandesas; 1813, nas Ilhas Ryukyu, Japão; 1814, Vulcão Mayon nas Filipinas.
Junto com essas erupções vulcânicas, uma quantidade substancial de poeira se acumulou na atmosfera. Como é comum a seguir de grandes erupções vulcânicas, as temperaturas caíram no mundo inteiro, à medida que o material suspenso no ar bloqueava a luz solar na estratosfera. De acordo com uma análise de 2012 do Berkeley Earth, a erupção do Tambora em 1815 causou uma queda temporária de cerca de um grau Celsius na temperatura média da superfície terrestre, quedas menores de temperatura foram registradas nas erupções de 1812–1814.Berkeley Earth Releases New Analysis , 29 de julho de 2012
A Terra já estava em um período de resfriamento de séculos que começou no século XIV, conhecido hoje como a Pequena Idade do Gelo, este já havia causado consideráveis dificuldades agrícolas na Europa. A erupção do Tambora ocorreu perto do fim da Pequena Idade do Gelo, agravando o resfriamento global do período.
Este período também ocorreu durante o , um período de atividade solar relativamente baixa de 1790 a 1830. O mês de maio de 1816 teve o menor número de Wolf (0,1) até então desde o início dos registros de atividade solar. Ainda não se sabe, no entanto, se e como mudanças na atividade solar afetam o clima da Terra e essa correlação não prova que uma atividade solar mais baixa produza resfriamento global.
Efeitos por região
África Nenhuma evidência direta das condições na região do Sahel foi encontrada, embora as condições em áreas vizinhas sugiram chuvas acima do normal. Abaixo do Sahel, as regiões costeiras da África Ocidental provavelmente tiveram níveis de precipitação abaixo do normal. Tempestades severas afetaram a costa sul-africana durante o inverno do Hemisfério Sul. Em 29–30 de julho de 1816, ocorreu uma violenta tempestade perto da Cidade do Cabo, África do Sul, que trouxe fortes ventos do norte e granizo, causando graves danos à navegação.
Ásia Na China, o inverno gelado matou árvores, colheitas de arroz e até búfalos, especialmente ao norte do país. Enchentes destruíram muitas das colheitas restantes. A erupção do Monte Tambora afetou o período de chuvas na China, resultando em enchentes gigantescas no vale do Rio Yangtzé em 1816 e temperaturas baixas no verão e outono devastaram a produção de arroz em Yunnan no sudoeste, resultando em fome generalizada. O Forte de , hoje na província de Heilongjiang, relatou campos prejudicados por geadas e soldados conscritos desertando como resultado. A queda de neve no verão ou precipitação mista foram registradas em várias localizações em Jiangxi e Anhui, ambos no sul do país. Em Taiwan, que possui clima tropical, neve foi registrada em Hsinchu e Miaoli, enquanto geadas foram registradas em Changhua. Uma fome em larga escala em Iunã ajudou a reverter a sorte da dinastia Qing governante.
Na Índia, o período de monções atrasado causou chuvas torrenciais que agravaram a disseminação da cólera perto do Rio Ganges, em Bengala, até em Moscou. Em Bengala, foram relatados frio anormal e neve na monção de inverno.
No Japão, que havia passado pela grande fome de Tenmei relacionada ao frio entre 1782–1788, o frio danificou as colheitas, mas nenhuma quebra de safra foi relatada e não houve efeito adverso sobre a população.
Europa Como resultado da série de erupções vulcânicas na década de 1810, as colheitas haviam sido ruins por vários anos; o golpe final veio em 1815 com a erupção do Tambora. A Europa, ainda se recuperando das Guerras Napoleônicas, sofreu com a escassez generalizada de alimentos, resultando em sua pior fome do século. Baixas temperaturas e chuvas intensas resultaram em colheitas fracassadas na Grã-Bretanha e na Irlanda. Distúrbios por comida ocorreram no Reino Unido e França e armazéns foram saqueados. A fome era prevalente no norte e sudoeste da Irlanda, após o fracasso das colheitas de trigo, aveia e batata. Os preços dos alimentos subiram acentuadamente em toda a Europa. Com a causa dos problemas desconhecida, pessoas famintas manifestaram-se em frente a mercados de grãos e padarias. Revoltas por alimentos ocorreram em muitas cidades europeias e, embora as revoltas fossem comuns em tempos de fome, as revoltas por alimentos de 1816 e 1817 foram o período mais violento no continente desde a Revolução Francesa.
Entre 1816 e 1819, uma grande epidemia de tifo ocorreu em partes da Europa, incluindo Irlanda, Itália, Suíça e Escócia, precipitada pela fome. Estima-se que mais de 65 000 pessoas morreram à medida que a doença se espalhava para fora da Irlanda.
O antigo registro de temperatura da Inglaterra Central relatou o décimo primeiro ano mais frio já registrado desde 1659, bem como o terceiro verão mais frio e o julho mais frio já registrado. Enchentes generalizadas dos principais rios da Europa são atribuídas ao evento, assim como geadas em agosto. A erupção de Tambora também fez com que a Hungria registrasse neve marrom. A Itália também passou por um evento semelhante, com neve vermelha caindo durante o ano. Acredita-se que isto foi causado por cinzas vulcânicas na atmosfera.
As enchentes impediram a navegação de grandes rios como o Reno, incluindo o transporte de grãos. Nas terras de língua alemã (particularmente no interior), os preços subiram e, embora apenas Vurtemberga tenha visto as mortes superarem os nascimentos, a emigração causou uma perda populacional maior do que a mortalidade excessiva. A Áustria evitou a fome.
Na Suíça, a fome ficou limitada ao leste, que era densamente povoado e mais industrializado. No oeste da Suíça, os verões de 1816 e 1817 foram tão frios que uma formou-se abaixo do até o Vale de Bagnes, criando um lago. Apesar dos esforços do engenheiro Ignaz Venetz para drenar o lago crescente, a barragem de gelo desmoronou catastroficamente em junho de 1818, matando quarenta pessoas na enchente resultante.
As colheitas não foram afetadas em todos os lugares. Na Escandinávia e nas regiões do norte do Báltico estas foram quase normais, assim como no Leste Europeu e na Rússia Ocidental. O imperador russo Alexandre I pôde doar grãos para o Leste Europeu. Os efeitos da erupção não tiveram um impacto tão significativo em Portugal quanto em outras partes do continente, já que este também exportou cereais para os países mais afetados. Ainda assim, o relato do padre José Manuel da Silva Tedim, em julho de 1816, revela um verão incomumente frio: "Tenho 78 anos e nunca vi tanta chuva e tanto frio, nem mesmo em meses de Inverno".
América do Norte Na primavera e no verão de 1816, uma persistente "névoa seca" foi observada em partes do leste dos Estados Unidos. A névoa avermelhava e obscurecia a luz solar de tal forma que as manchas solares eram visíveis a olho nu. Nem o vento nem a chuva dispersavam a "névoa", retrospectivamente caracterizada por Clive Oppenheimer como um "véu estratosférico de aerossol de sulfato"..