João Cândido Felisberto, também conhecido como "Almirante Negro" (Encruzilhada do Sul, 24 de junho de 1880 – Rio de Janeiro, 6 de dezembro de 1969), foi um militar brasileiro da Marinha de Guerra do Brasil, líder da Revolta da Chibata (1910).

Biografia João Cândido nasceu na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, atual estado do Rio Grande do Sul, no município de Encruzilhada, atual Encruzilhada do Sul. Filho dos ex-escravos João Felisberto e Inácia Cândido, nasceu na fazenda Coxilha Bonita, no vilarejo Dom Feliciano – quinto distrito do município Encruzilhada, anteriormente distrito de Rio Pardo, até 1849. Apresentou-se, em 1894, aos 13 anos, na Companhia de Artífices Militares e Menores Aprendizes no Arsenal de Guerra de Porto Alegre, com uma recomendação especial, escrita pelo capitão-de-fragata Alexandrino de Alencar, amigo e protetor, que o encaminhava àquela escola. Em 1895, conseguiu transferência para a Escola de Aprendizes Marinheiros, em Porto Alegre. E, em dezembro do mesmo ano, como grumete, para a Marinha do Brasil, no Rio de Janeiro, então capital da república.

Em declaração para a internação no Hospital Nacional dos Alienados, em abril de 1911, por motivo de doença mental, e em entrevista para a Gazeta de Notícias, de 31 de dezembro de 1912 — ambos no Rio de Janeiro — afirmou ter participado da Revolução Federalista, em 1893. Portanto, antes de entrar para a escola de aprendizes do Arsenal de Guerra de Porto Alegre.

Realizou muitas viagens pelo Brasil e por vários países do mundo, nos 15 anos que esteve na ativa na Marinha de Guerra — 17 anos, se contarmos os 2 anos de prisão, após a Revolta). Muitas foram viagens de instrução: no início, aprendendo, depois, ensinando os procedimentos dos navios de guerra para marinheiros iniciantes.

Em 1908, para acompanhar a construção de navios de guerra, encomendados pelo governo brasileiro, centenas de marinheiros foram enviados ao Reino Unido. No ano seguinte, João Cândido também viajou para aquele país, onde tomou conhecimento do movimento realizado pelos marinheiros russos, em 1905, a bordo do encouraçado , reivindicando melhores condições de trabalho e alimentação. Foi o aprendizado para a Revolta da Chibata, alguns depois.

Tornou-se muito admirado pelos outros marinheiros, que o indicaram para representar o "Deus Netuno", celebração realizada na travessia sobre a linha do Equador. Também foi muito elogiado pelos oficiais, por seu bom comportamento e pelas suas habilidades técnicas, principalmente como timoneiro. Era o mais experiente e de maior trânsito entre marinheiros e oficiais. Ou seja, a pessoa indicada para liderar a revolta, na opinião dos demais líderes do movimento.

O movimento dos marinheiros da Marinha de guerra miniatura|direita|Marinheiros durante a Revolta da Chibata, com João Cândido ao centro, em 1910

O uso da chibata como castigo na Marinha brasileira já havia sido abolido em um dos primeiros atos do regime republicano, o decreto número 3, de 16 de novembro de 1889, assinado pelo presidente marechal Deodoro da Fonseca. Todavia, o castigo cruel continuava de fato a ser aplicado, a critério dos oficiais da Marinha de Guerra do Brasil. Num contingente de 90% de negros e mulatos, centenas de marujos continuavam a ter seus corpos retalhados pela chibata, como no tempo da escravidão. Entre os marinheiros, insatisfeitos com os baixos soldos, com a má alimentação e, principalmente, com os degradantes castigos corporais, crescia o clima de tensão.

Já em 1893, na canhoneira Marajó, um contingente de marinheiros havia se revoltado contra o excesso de castigos físicos, exigindo a troca do comandante que abusava da chibata e outros suplícios. Na época, ainda não queriam o fim da chibata, mas a troca do comandante do navio, para evitar abusos. Definitivamente, não era normal receber chibatadas. E, para piorar, os oficiais extrapolavam o limite de próprio regimento da Marinha, baseado num decreto que nunca foi publicado no Diário Oficial, que estabelecia a criação de Companhias Correcionais que poderiam indicar a punição de até 25 chibatadas, mesmo após a Abolição da Escravatura.

Ainda na Grã-Bretanha, e depois, ao retornarem ao Brasil, os marinheiros que lá estiveram para acompanhar a construção dos encouraçados Minas Gerais e São Paulo, e do cruzador Bahia, iniciaram um movimento conspiratório com vistas a tomar uma atitude mais efetiva no sentido de acabar com a chibata na Marinha de Guerra do Brasil.

As eleições presidenciais de 1910, embora vencidas pelo candidato situacionista marechal Hermes da Fonseca, expressaram o descontentamento da sociedade com o regime vigente, além das denúncias de fraude e violação de urnas nos bairros em que ele não tinha maioria de simpatizantes. O candidato oposicionista, Rui Barbosa, realizou intensa campanha eleitoral, reforçando a esperança de transformações do povo brasileiro.

Esgotadas as tentativas pacíficas e propositivas dos marinheiros, incluindo uma audiência de João Cândido no Gabinete do presidente anterior, Nilo Peçanha, e na presença do ministro da Marinha, Alexandrino de Alencar. Sem qualquer providência efetiva para o fim dos castigos físicos, os marinheiros decidiram que iriam fazer uma sublevação, uma revolta pelo fim do uso da chibata em 25 de novembro de 1910. Inicialmente os comitês revolucionários pensaram no dia 14, depois dia 15, depois 19, e por fim fixaram o dia 25.

Entretanto, menos de uma semana após a posse do marechal Hermes da Fonseca, o marinheiro Marcelino Rodrigues de Menezes foi punido a 21 de novembro com 250 chibatadas,Livro de 1982, ainda sob efeito da Censura da ditadura militar, "1910, a revolta dos marinheiros: uma saga negra" de Mário Maestri Filho, introduziu uma data errada para o chibateamento de Marcelino, 16 de novembro, erro reconhecido pelo próprio Mário Maestri posteriormente aplicadas na presença de toda a tripulação do Encouraçado Minas Gerais, nau capitânia da nova Esquadra, e que não se interromperam nem mesmo com o seu desfalecimento, conforme noticiado pelos jornais da época. Este fato antecipou a data programada de 25 para 22 de novembro de 1910. Seria na noite deste dia porque o comandante do navio Minas Gerais, o Capitão João Batista das Neves dormiria fora do navio, e então os marujos tomariam posse das armas, dominariam os oficiais em seus camarotes, e teriam o controle do navio mãe e depois de todos os demais que estavam na Bahia da Guanabara. Entretanto o comandante Batista das Neves voltou mais cedo do que eles esperavam, e um marinheiro mais descontrolado partiu para cima do oficial de serviço, pois não queria mais o adiamento da revolta. O comandante ouve os barulhos, assim como os outros oficiais e todos vêm para o convés. Mesmo aconselhado pelo marinheiro Bulhões a se abrigar, Batista das Neves diz que não sairia de bordo do navio, insistindo em tentar fazer os marinheiros formarem e obedecerem às suas ordens. Os marinheiros, já muito exaltados, ao ver que o comandante feriu um dos marinheiros, começam a jogar objetos nele, e por fim um marinheiro dá-lhe um tiro na cabeça. Morrem no Minas Gerais, além do comandante, mais dois oficiais e três marinheiros (da patente de sargento para baixo, na simplificação usual). Durante os combates, morrem mais um oficial e um marinheiro no navio Bahia, sob responsabilidade do marinheiro Francisco Martins, e um oficial no navio São Paulo, sob responsabilidade do marinheiro Manoel Nascimento. Terminado o confronto, e diante da gravidade da situação, com a morte do comandante e outros oficiais, João Cândido, que havia participado das reuniões conspiratórias, cujo chefe era Vitalino José Ferreira, é indicado pelos demais líderes como o comandante-em-chefe de toda a esquadra revoltada, inicialmente composta por seis navios, e depois concentrando as guarnições em quatro, entre eles os dois encouraçados fabricados na Inglaterra, considerados os mais potentes do mundo à época: Minas Gerais e São Paulo.

Revolta da Chibata

No dia 22 de novembro de 1910, João Cândido, ao assumir por indicação dos demais líderes, o comando geral de toda a esquadra revoltada, controla o motim, faz cessar as mortes, e envia radiogramas pleiteando a abolição dos castigos corporais na Marinha de Guerra brasileira. Por quatro dias, os navios de guerra Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Deodoro apontaram os seus canhões para a Capital Federal. No ultimato dirigido ao presidente Hermes da Fonseca, os revoltosos declararam:

A rebelião terminou com o compromisso do governo federal em acabar com o uso da chibata na Marinha e de conceder anistia aos revoltosos. Entretanto, em 28 de novembro, dia seguinte ao desarmamento dos navios rebelados, o governo promulgou um decreto permitindo a expulsão de marinheiros que representassem risco, descumprindo assim o que havia sido acordado pelo texto da lei de anistia aprovada no dia 25 pelo Senado da República e sancionada pelo presidente Hermes da Fonseca, conforme publicação no diário oficial de 26 de novembro, e levado ao Minas Gerais pelo capitão Pereira Leite.

Expulsão da Marinha thumb|Jornal "Gazeta de Notícias" - 31/12/1912

Pouco tempo depois do decreto que quebrou a anistia e de boatos de que o Exército iria se vingar dos marinheiros, houve a eclosão de um novo motim entre os fuzileiros navais, ligados à Marinha, no quartel da ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, em 9 de dezembro de 1910. Não tinha ligação com a Revolta da Chibata, exceto que ali na Ilha estavam algumas dezenas de marinheiros participantes da revolta presos apesar de anistiados. A "segunda revolta" nada exigia, não tinha qualquer organização, baseava-se em boatos de que o Exército atacaria a qualquer momento navios e batalhão naval como resposta à vergonha que significou a revolta para o Governo Hermes da Fonseca. Durante o dia 10 o motim foi reprimido pelas autoridades, Marinha e Governo, com um bombardeio implacável sobre pouco mais de duas centenas de amotinados ilhados (na Revolta da Chibata eram 2.379 homens, 3 encouraçados e um cruzador, alvos móveis e fortemente armados), e serviu de justificativa para Hermes da Fonseca demandar e obter do Senado aprovação do estado de sítio (lei marcial) neste mesmo dia. João Cândido chegou a ordenar tiro de canhão sobre os marinheiros-fuzileiros amotinados na Ilha das Cobras para provar sua lealdade ao governo. Mas de nada adiantou. Com o estado de sítio, centenas de marinheiros foram dados como mortos ou desaparecidos e 2000 marinheiros foram expulsos da Marinha. Onze foram fuzilados a bordo do Navio Satélite, que levava 105 marinheiros rebeldes para serem jogados nos seringais do Acre, destino dos 96 que lá ainda chegaram vivos.

Apesar de não haver participado de uma suposta conspiração deste segundo levante, João Cândido foi expulso da Marinha, sob a falsa acusação de ter favorecido os fuzileiros rebeldes. Foi preso em 13 de dezembro no quartel do exército, e transferido no dia 24 de dezembro de 1910 para uma masmorra (cela 5) na Ilha das Cobras, onde dezesseis de seus dezessete companheiros de cela morreram asfixiados numa tentativa de os assassinar. De seu depoimento ao jornal Gazeta de Notícias e outras fontes, descobre-se que 29 marinheiros e fuzileiros navais foram submetidos ao envenenamento intencional por cal em duas celas da Ilha das Cobras. Numa cela, morreram dezesseis. Da outra cela, morreram mais dois. Em abril de 1911 foi transferido para o Hospital dos Alienados, como louco, mas recebeu alta e voltou para a Ilha das Cobras, de onde foi solto em 1912. À época, o seu defensor foi o rábula e socialista Evaristo de Moraes, contratado pela Ordem de Nossa Senhora do Rosário e dos Homens Pretos, que declinou o recebimento dos honorários que lhe eram devidos.

Banido da Marinha, João Cândido sofreu grandes privações, vivendo precariamente, trabalhando como estivador e descarregando peixes na Praça XV, no centro do Rio de Janeiro.