A prensa de tipos móveis, ou somente prensa móvel, é um dispositivo que aplica pressão numa superfície com tinta, transferindo-a para uma superfície de impressão, geralmente papel ou tecido. Ela é normalmente utilizada para imprimir textos ("a reprodução técnica da escrita"),BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica. In: ADORNO et al. Teoria da Cultura de massa. Trad. de Carlos Nelson Coutinho. São Paulo: Paz e Terra, 2000. p. 221-254 mas também foi adaptada para impressão em larga escala de imagens, mapas, diagramas e tabelas matemáticas.EISENSTEIN, Elizabeth L. A Revolução da Cultura Impressa: Os Primórdios da Europa Moderna. Editora São Paulo: Editora Ática, 1998. Da mesma maneira, a xilogravura, criada na Idade Média, e a litografia, do , fazem reprodução em massa de imagens mas com técnicas um pouco diferentes da técnica utilizada pela prensa móvel. thumb|Rapaz trabalhando como compositor tipográfico
A invenção da prensa móvel A prensa de tipos móveis foi inventada pelo alemão Johannes Gutenberg por volta de 1450, com base nas prensas de vinhos. A técnica de impressão já existia na China e no Japão (acredita-se que desde o ), porém, o método usado era diferente, chamado de “impressão em bloco” usando um bloco de madeira talhado, para imprimir uma página com determinado texto. Essa técnica era mais adequada para alfabetos constituídos de vários ideogramas, possivelmente por esse motivo não foi tão difundido na China do como na Europa, que possuía um alfabeto com limitados números de caracteres.Briggs, Asa e Burke, Peter, Uma História social da mídia, Rio de Janeiro, Zahar, 2006. Ressalta-se ainda que os blocos feitos de madeira tinham uma qualidade inferior aos metálicos, pois se desgastavam e iam sofrendo alterações na forma ao longo do uso.
Mas, os desenvolvimentos de Johannes Gutenberg, um ourives de profissão, se diferenciam dos métodos já usados pelos chineses em dois aspectos: a invenção da máquina impressora e o uso de tipos alfabéticos e não ideográficos. Além disso, ele desenvolveu um sistema de impressão completo, que aperfeiçoou o processo de impressão em todas as etapas, adaptando as tecnologias existentes (como por exemplo a tradicional prensa de parafuso, conhecida na Europa desde o ) às invenções de sua autoria. A inovadora Matriz (tipografia) possibilitou, pela primeira vez, maior agilidade no processo de cópias, usando tipos móveis metálicos em grandes quantidades, um elemento chave para a lucratividade da imprensa no mundo inteiro, já que os tipos móveis de metal absorvem muito menos tinta e o processo de fabricação envolvia um número menor de pessoas. Com o tempo, esses detalhes técnicos foram aperfeiçoados de diversas maneiras, contudo, os princípios básicos da prensa de Gutenberg permaneceram em uso por mais de três séculos.
thumb|Tipos móveis justapostos num componedor, do ponto de vista do compositor tipográfico (ou chapista). Sob o componedor vê-se a caixa de tipos. HEITLINGER, Paulo. Glossário de termos de tipografia. ARTIAGA, Larissa. Tipógrafo e linotipista: profissões do tipo "em extinção". STIGJ. Profissões que fazem parte do setor gráfico, conforme a CBO − Classificação Brasileira de Ocupações. (Chapista: código 7686-05).|alt=Tipos móveis em composição feita no componedor, do ponto de vista do compositor tipográfico (ou chapista). Sob o componedor vê-se a caixa de tipos.
A invenção e a difusão da prensa móvel é amplamente considerada como o acontecimento mais influente do segundo milênio d.C.,Ver People of the Millennium . Em 1999, a A&E Network classificou Gutenberg no. 1 on their "People of the Millennium" countdown . Em 1997, Time–Life magazine elegeu Gutenberg's invention as the most important of the second millennium ; the same did four prominent US journalists in their 1998 resume 1,000 Years, 1,000 People: Ranking The Men and Women Who Shaped The Millennium . A entrada Johann Gutenberg na Catholic Encyclopedia descreve a sua invenção com uma influencia sem paralelo na Era cristã. revolucionando a maneira como as pessoas concebem e descrevem o mundo, e inaugurando a Idade Moderna. Porém, seu sucesso e sua sobrevivência dependeram da capacidade de mercantilizar efetivamente formas simbólicas. Logo, tal invenção contribui em parte no crescimento da economia no início da Europa moderna. Simultaneamente, estas se tornaram as novas bases do poder simbólico, que possuía relações ambivalentes com as instituições políticas dos estados emergentes, por um lado, e com aquelas instituições religiosas que reivindicavam certa autoridade sobre o exercício do poder simbólico, por outro. miniaturadaimagem|esquerda|Prensa manual de Gutemberg
Como funciona uma prensa móvel Essencialmente consistia em pequenos blocos metálicos esculpidos em relevo (com letras, símbolos e também áreas de espacejamento) que seriam organizados em placas que receberiam então o nome de matriz. Essa placa (matriz) com todos os caracteres necessários para formação de uma página já organizados e fixados seria levada a uma máquina chamada prensa, que iria aplicar uma pressão na matriz contra diversas folhas de papel gerando assim uma sequência de páginas que seriam armazenadas para utilização futura. Após esta etapa, a matriz era inteiramente desmontada e receberia uma nova organização de caracteres para a impressão de uma nova sequência de páginas que daria continuidade ao texto anteriormente impresso e formaria um futuro impresso ou meio de comunicação como um jornal, revista, livro ou outro. Conforme os tipos (bloquinhos metálicos, em geral, de chumbo) se desgastassem, poderiam ser fundidos novamente e remodelados. Apesar de inicialmente parecer trabalhoso, esse processo permitiu a produção sequencial de páginas de uma forma sem precedentes na história.
A difusão da prensa móvel miniaturadaimagem||Produção de livros impressos por cidade até 1500Incunabula Short Title Catalogue, consultado em 2 Março de 2011miniaturadaimagem|Proporção dos livros impressos no por região
As técnicas de impressão foram originalmente desenvolvidas na China e logo depois se espalhou para Coréia (os coreanos foram os primeiros a usar formas de tipo móvel). Mas somente nos séculos XVI, na China e no XVII, no Japão é que os impressos tomaram uma direção comercial. Embora não exista prova direta da transferência das técnicas de impressão da China e da Coréia para a Europa, tais métodos podem ter sido disseminados com a difusão do papel-moeda, das cartas de jogo e dos livros impressos na China e com a gradual expansão dos contatos comerciais e diplomáticos entre oriente e ocidente.
Em torno de 1450, Gutenberg já tinha desenvolvido suficientemente as suas técnicas para explorá-las comercialmente, e poucos anos depois estavam operando em Mainz diversas oficinas tipográficas. As técnicas de impressão se espalharam rapidamente, já que os tipógrafos carregavam seus equipamentos e seus conhecimentos de uma cidade para outra. Da cidade de sua origem, Mogúncia na Alemanha, as prensas gráficas se espalharam por grande parte do continente europeu. Por volta de 1500, havia uma máquina de impressão gráfica em mais de 250 lugares da Europa. Em poucas décadas toda a Europa Ocidental já havia produzido mais de vinte milhões de volumes.Febvre, Lucien; Martin, Henri-Jean 1976 by Anderson, Benedict 1993, 58f. No , com prensas popularizadas ainda mais longe, a produção aumentou dez vezes, para um número estimado de 150-200 000 000 de exemplares. Com o tempo as impressoras chegaram na América Espanhola - México e Peru - durante o .Ribeiro, Ana Paula Goulart e Herschmann (org.), Comunicação e História - Interfaces e Novas Abordagens, Rio de Janeiro:Mauad X, 2008 Contudo, houve uma grande dificuldade de entrada dos impressos no mundo muçulmano e ortodoxo. Na Turquia, a prática de impressão era vista como heresia pelos fiéis e chegou a ser decretada punição com pena de morte para quem a praticasse. Somente no início da Era Moderna que foi permitida a entrada dos impressos nos países muçulmanos e, no , no mundo ortodoxo. Na Europa, alguns também não eram a favor da prensa. Os escribas, por exemplo, se sentiam ameaçados pela nova invenção desde o início. Até 1808 as prensas foram proibidas no Brasil, os livros que existiam no país vinham de Portugal.
A Igreja também era contra, pois assim daria aos fiéis , normalmente indivíduos que ocupavam uma posição hierárquica social baixa a possibilidade de ler os textos por conta própria ao invés de acreditar no que as autoridades diziam. Para manter o controle sobre as informações que poderiam ser obtidas, foi criado um sistema de censura considerado o mais difundido do período, o "Index dos Livros Proibidos". Trata-se de um catálogo com os títulos que os fiéis não eram permitidos a ler. Nele estavam, principalmente, os livros com conteúdos heréticos, imorais e mágicos.
As tipografias primitivas eram, em sua grande maioria, comerciais organizadas nos moldes capitalistas. A operação de uma prensa de tipos móveis tornou-se tão sinônimo da empresa de impressão que emprestou seu nome a todo um novo ramo da mídia, a imprensa.
Impactos do desenvolvimento da prensa móvel
Meios técnicos como a escrita, o pergaminho e o papel já contribuíam muito para a reprodutibilidade e retenção das formas simbólicas, mas o passo crucial foi a invenção da máquina impressora que permitiu a reprodução em velocidade e escala jamais vistas até então.A mídia e a modernidade (1995) - Thompson, John B. A mecanização levou à primeira produção em massa de livros na história,McLuhan, Marshall (1962), The Gutenberg Galaxy: The Making of Typographic Man (1st ed.), University of Toronto Press, ISBN 978-0802060419 estes que antes eram manuscritos, caros e em pouca quantidade, passaram a ser impressos em menos tempo, em grandes quantidades e com um menor custo. No renascimento, uma só prensa móvel podia produzir 3 600 páginas por dia,Wolf 1974, 67f. muito em comparação as quarenta cópias feitas manualmente por um escriba.Ch'on Hye-bong 1993, 12 miniaturadaimagem|direita|Produção de livros impressos até 1800 na Europa.Buringh, Eltjo; van Zanden, Jan Luiten: "Charting the “Rise of the West”: Manuscripts and Printed Books in Europe, A Long-Term Perspective from the Sixth through Eighteenth Centuries", The Journal of Economic History, Vol. 69, No. 2 (2009), pp. 409–445 (417, table 2)
O impacto da prensa de Gutenberg na história é difícil de apreender na globalidade. Tentativas de analisar seus efeitos múltiplos incluem a noção de uma "revolução da impressão". E essa "revolução" causada pela impressão gráfica não se relaciona apenas com a tecnologia. Foi necessário a existência de condições sociais e culturais específicas. A estas condições, pode-se atribuir o fato de existir uma parcela da população letrada na Europa em meados do , que viabilizou tal êxito.
A disponibilidade e acessibilidade ao público em geral da palavra impressa impulsionou a democratização do saber e lançou as bases materiais para a moderna economia do conhecimento, pois além de tornar o conhecimento acessível a um público maior também permitiu que as gerações seguintes conhecessem o trabalho das gerações predecessoras de forma sistemática e cumulativa. As pessoas poderiam aprender por conta própria, os alunos universitários tiveram a oportunidade de avançar no conteúdo dado por seus professores. Além disso, ao longo de toda a idade média livros manuscritos tinham sido produzidos por escrivãs e copistas trabalhando em sistemas de produção para comerciantes leigos, que forneciam livros para as faculdades universitárias e para as ordens mendicantes, o que fez com que os primeiros impressores vissem o mercado como potencial e quisessem entrar nele. Ademais, esta invenção também contribuiu para a alfabetização, neste período foram criadas campanhas para incentivar a população.