A unha-de-gato (Uncaria tomentosa) ou cat's claw, é uma planta nativa das florestas da América Central e do Sul, milenarmente utilizada pelos povos da Amazônia Peruana e Brasileira. Foi primeiramente descrita como Nauclea aculeata HBK, sendo nomeada Uncaria tomentosa apenas em 1830. O gênero Uncaria pertence à família Rubiaceae e compreende 34 espécies distribuídas nas regiões tropicais da América do Sul e Central, Ásia e África.
Os registros mais antigos indicam que indígenas peruanos foram os primeiros a isolar os princípios ativos desses arbustos trepadores. Há registros que indicam que os indígenas consumiam principalmente o chá das cascas do caule e raízes para tratamento de inflamações, asma, úlceras, irregularidades no ciclo menstrual, entre outros.
Duas espécies pertencentes ao gênero Uncaria são aproveitadas suas propriedades medicinais nas florestas: U. tomentosa e U. guianensis. Sendo que a U. guianensis é do tipo rasteira e a U. tomentosa do tipo trepadeira. Sendo ambas denominadas erroneamente pela população por unha de gato, mas apenas a primeira sendo a correspondente oficial desse nome.
Atualmente, a Uncaria tomentosa tem sido utilizado como adjuvante no tratamento do HIV desde a década de 1990. Além de inúmeros outros trabalhos tanto in vivo como in vitro, inclusive desenvolvidos na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), no Brasil, apontando seus efeitos anti-inflamatórios, imunoestimulantes, anticancerígenos e contra a Herpes. Além disso, no início de 2009 estudos publicados indicaram seu uso terapêutico contra a dengue. Atualmente, existem pesquisas que avaliam seu efeito neuroprotetor, considerando a possibilidade da unha-de-gato ser um candidato em potencial para o tratamento fitoterápico da doença de Alzheimer.
Aspectos Morfológicos Suas folhas são simples e opostas, lâmina ovada, elíptica, de consistência cartácea, papirácea ou coriácea, pecíolos curtos ou longos
Possuem par de estípulas interpeciolares, livres na base, deltóide, obovada ou cordada, caducas, seção da ramagem terminal quadrangular.
Flores bissexuais ou funcionalmente unissexuais, em capítulos densos e globosos, axilares ou terminais de inflorescência do tipo panículas
Fruto com cápsula alargada, sementes aladas, com margem inteira, dentada, ou irregular, embrião craviforme, cotilédone pequneo e tadícula obtusa.
• Sinônimo botânico:
Nauclea aculeata, Nauclea tomentosa (Wild), Ouroparia tomentosa, Uncaria surinamenesis
• Nomes vulgares:
BRASIL: Acre: espera-aí, unha-de-gato; Amapá: jupinda, jupindá; Amazonas: espera-aí, unha-de-gato; BOLÍVIA: bereoquida
PERU: garabato amarillo, jipotatsa, mischo mentis, paotati mosha, samento, toron tsachk, uma de gato, ungananngui.
• Características botânicas:
Liana: lenhosa trepadeira, às vezes arbusto rasteiro, típico em floresta primária ou explorada, ou em florestas secundárias antigas, raramente em florestas novas, requer luz solar moderada, pertence ao grupo ecológico das heliófitas duráveis; pode alcançar até 35 m de comprimento e 12 cm de diâmetro; caule cilíndrico
Ramos terminais: seção quadrada, verde-amareladas ou verde-pálido, folhinhas terminais em forma de lança, densamente pubescentes.
Folhas: simples, opostas e dísticas; oblongas, oblongo-ovadas ou elíptico abovadas, de 6 a 16 cm de comprimento e 4 a 10 cm de largura; margem inteira e ligeiramente sinuada; ápice agudo raramente acuminado; base redonda ou cordada; consistência membranosa, nervura pedatinérvea oblíqua, nervuras secundárias de 7 a 10 pares; na parte adaxial cor verde pálida ou verde amarelada, pouca ou nenhuma pubescência; na parte abaxial verde-clara, com espinhos densos e abundantes nas nervuras. Pecíolo de 6 a 26 mm de comprimento e 1 a 2 mm de largura, ligeiramente pubescente. Estípulas interpeciolares, caducas ou persistentes, de forma deltoide, de 5 a 10 mm de comprimento e 3 a 8 mm de largura; apresentam um par de espinhos, opostos, curvo-retos e pontiagudos, de consistência lenhosa, com 8 a 10 mm de comprimento e 3 a 6 mm de largura
Inflorescências: terminais ou axilares, compostas em racimos ou cimas de capítulos globosos, de 6 a 20 cm de comprimento; capítulos com diâmetro de 1,3 a 3 cm; pedúnculo de 1,2 a 3 mm de comprimento e 1 a 2 mm de largura, tomentoso
Flores: bissexuais e actinomorfas com hipantos tubulares, sésseis. Cálices gamossépalos, tubulares de 0,8 mm a 1,3 mm de comprimento e 0,7 mm a 1,1 mm de diâmetro; com cinco lóbulos em forma de dentes pontiagudos, com pelos vilosos longos nas margens e mais longo na base. Corola gamopétala, com cinco lóbulos redondos, de 6 mm a 12 mm de comprimento e 2,5 mm a 6 mm de largura, cor amarelada, densamente pubescente na parte exterior, parte interior glabra. Androceu com cinco estames adnatos a garganta da corola, alternipétalas, com filetes curtos; anteras oblongas, dorsifixas, com base prolongada e divergente, de 0,8 mm a 1,0 mm de comprimento e 0,3 mm a 0,4 mm de largura. Gineceu com um pistilo de estigma elipsoide de 0,4 mm a 0,6 mm de comprimento, estilo linear, excerto, até 4 mm de comprimento; ovário ínfero, 2 carpelar, 2 locular, sincárpico e placentação axilar (Obregon Vilches, 1997)[
Frutos: secos, deiscentes, tipo cápsula elipsoides de 4 a 8 mm de comprimento e 2,5 a 7 mm de largura; deiscência longitudinal septícida, com cálice persistente e acrescente, com numerosas sementes. Sementes fusiformes com asas membranosas, um extremo linear e o outro bi linear, de 2 a 3 mm de comprimento e 0,4 a 0,6 mm de largura.
Casca: externa marrom, ou marrom-escura, de aparência fissurada, fissuras longitudinais bem marcadas, ritidoma persistente; casca externa de cor ouro-avermelhada, textura fibrosa-laminar, ligeiramente pulverulenta quando seca. Com o corte do caule, exsuda uma secreção aquosa de consistência fluida e de sabor adstringente (Obregon Vilches, 1997)
Fenologia A importância do conhecimento da fenologia permite prever a época de produção de sementes para o abastecimento oportuno do material reprodutivo e para o estabelecimento de áreas de manejo de regeneração natural. A fenologia relaciona as mudanças fisiológicas (floração, frutificação, troca de folhas) que ocorrem na planta durante o ano.
Conforme descrito por Miranda et al. (2001), os períodos de floração e frutificação da Uncaria guianensis ocorrem de fevereiro a maio e de abril a junho, respectivamente (Flores, 1995; Quevedo, 1995). No caso da U. tomentosa, a floração ocorre no mês de setembro e a frutificação em outubro. Tem-se observado que os insetos são os principais agentes polinizadores, apesar de o vento, também, ter influência. Após a polinização, o desenvolvimento dos frutos até o estágio de maturação ocorre entre 6 a 8 semanas. O ciclo de produção de sementes para as duas espécies é anual, ressaltando-se que a unha-de-gato é uma espécie perenifólia (Flores, 1995). A propagação de ambas espécies pode ser feita por sementes ou por meios vegetativos (Revilla, 2001).
Clima e solo Essas espécies são próprias de climas úmidos tropicais e subtropicais. Elas necessitam, para seu desenvolvimento, de temperaturas médias anuais de 17,0 ºC a 25,7 ºC e de precipitações médias anuais de 1.200 mm a 4.000 mm, suportando até 6.000 mm (Zavala & Zevallos, 1996; Zevallos et al., 2000), em classes altitudinais de 0 a 1.500 m (Villachica et al., 1998). São espécies que se desenvolvem em solos de origem coluvial ou aluvial de textura franco-arenosa ou franco-argilosa (Shunke, 1998), pH variando de fortemente ácido a ligeiramente alcalino, com abundante matéria orgânica, em áreas de pouca drenagem ou alagadas (Zevallos et al., 2000).
Uncaria guianensis é uma espécie considerada heliófita efêmera e invasora de capoeiras de vegetação arbustiva e com alta capacidade de regeneração natural (Quevedo, 1995). A espécie Uncaria tomentosa é heliófita durável, exclusivamente trepadeira, pela forma dos espinhos (Zavala & Zevallos, 1996).
O crescimento da Unha de gato foi modificado pela intensidade de sombreamento. A altura das plantas e a massa seca das raízes aumentaram linearmente com a intensidade de sombreamento. Sombreamentos entre 55 a 60% proporcionaram melhores crescimentos para as variáveis: diâmetro do coleto, massa seca da parte aérea e massa seca total. Não houve variação na distribuição de massa seca entre a parte aérea e o sistema radicular das plantas em função do sombreamento. Verificou-se que o sombreamento na faixa de 55 a 60% é o mais indicado para o seu crescimento inicial.
Formas de reprodução
Reprodução sexuada As sementes de unha-de-gato requerem um tratamento germinativo. Flores, (1995) conseguiu germinação de 65% a 85%, no período de 10 a 25 dias, quando foi aplicado um tratamento com água e Cupravit (0,1g L-1), à temperatura ambiente. Dentro dessa solução, se introduziu 1 g de sementes por litro; cada grama de semente corresponde de 5.000 a 7.000 sementes. Para o plantio das sementes, recomendam-se bandejas de isopor e substrato composto de areia grossa e terra agrícola na proporção 1:1. Devem-se deixar as plântulas desenvolverem-se durante dois meses (2 a 3 cm de altura), época em que se realiza o desbaste. Após três meses, as plantas estão prontas para o plantio definitivo (Torrejon, 1997).
Reprodução vegetativa Para realização de ensaios de propagação de unha-de-gato, recomenda-se o método de propagação via estaquia, em casa de vegetação com ambiente adequado, temperatura do ar até 25 ºC, penetração suficiente de luz, boa drenagem e perda mínima de umidade da estaca que se vai utilizar (Torrejon, 1997).
Obtenção de estacas Para a obtenção das estacas, é conveniente observar as condições fenológica e fitossanitária da planta durante o ano. É necessário, também, selecionar a planta e parte da planta de onde se obtêm as estacas, de preferência um ano antes, para trazer o segmento do crescimento e a preparação dos ramos. Geralmente, os ramos de unha-de-gato se desenvolvem mais rápido nos meses de abril e maio (Silva et al., 1998).
Tipo de corte e tamanho da escada O corte da estaca é muito importante para o êxito do enraizamento, evitandose fendas na casca da planta. O comprimento da estaca é de 25 a 35 cm, e é conveniente considerar um mínimo de duas gemas por estaca. Aconselha-se que a estaca seja cortada na forma de bisel (Cuéllar, 1996).
Cultivo in vitro Esse processo consiste em cultivar órgãos vegetais ou fragmentos de tecidos em um meio sólido ou líquido que contenha uma solução nutritiva de sais minerais, açúcar, vitaminas e hormônios vegetais. O cultivo se desenvolve em condições assépticas.
Atividades farmacológicas
Constituintes químicos de U. tomentosa Estudos relataram que os constituintes químicos de várias espécies de Uncaria e reconheceram as diversidade de moléculas presentes em diferentes partes da planta. Vale ressaltar que mais de 50 moléculas fitoquímicas já foram identificadas e isoladas de U. tomentosa , algumas delas consideradas novas para aquela espécie. As folhas de U. tomentosa contêm maior teor de alcalóide oxindol do que o presente na casca do caule e ramos. Esse resultado é compatível com estudo previamente descrito por Laus et al, que documentou o acúmulo de especiofilina e uncarina F (os principais alcalóides oxindólicos) em folhas que podem ocorrer como derivados de alcaloides oxindólicos tetracíclicos (TOA) ou alcalóides oxindólicos pentacíclicos (POA). Tanto o TOA quanto o POA são passíveis de isomerização que depende principalmente da polaridade do meio, pH e temperatura. Um dos alcaloides mais reconhecidos na Uncaria é o alcaloide oxindólico mitrafilina, que foi identificado em 20 das 34 espécies miniaturadaimagem|Estrutura química do alcaloide oxindólico mitrafilina.