A romana de São Cucufate, igualmente conhecida como Ruínas de Santiago, é um monumento histórico em Vila de Frades, no município da Vidigueira, em Portugal. Consiste nas ruínas de um complexo do período romano, composto por uma mansão, termas, um templo e uma zona de produção agrícola. A villa é provavelmente a maior em Portugal, e um exemplar único no país, estando integrada na tipologia de uma villa áulica. Ao contrário das villas romanas típicas, que se organizavam em redor dos peristilos, o complexo de São Cucufate apresenta uma composição única, marcada pela verticalidade, com dois pisos. No piso térreo encontrava-se uma zona produtiva, conhecida como pars rustica, que incluía alojamentos para servos e escravos, armazéns, uma olaria e um lagar de vinho. O primeiro andar correspondia à residência do senhor da propriedade, que contava com grandes varandas ao longo das suas fachadas. Nas traseiras, esta varanda era suportada por uma série de arcos de volta inteira. O acesso à pars urbana era feito através de uma escada estreita e íngreme.AZEVEDO, 2008:194

A ocupação romana do local iniciou-se provavelmente no , e terá terminado nos séculos V a VI, durante as invasões bárbaras da Península Ibérica. Porém, o sítio continuou a ser habitado durante este período, tendo o antigo templo romano sido convertido numa basílica paleocristã. A antiga casa romana foi depois ocupada por dois mosteiros cristãos dedicados a São Cucufate, fundados em períodos diferentes, e cada um com a sua própria igreja, construídas em locais diferentes dentro das ruínas. De acordo com os vestígios encontrados no local, o primeiro mosteiro terá sido instalado entre os séculos IX e X, durante a época islâmica, e depois abandonado no , na sequência da Reconquista. O segundo mosteiro foi estabelecido no , como parte de um programa de D. Afonso III para o repovoamento da região após a Reconquista, tendo funcionado até aos séculos XVI ou XVII. A igreja esteve aberta ao culto até ao , tendo permanecido num razoável estado de conservação. Os vestígios arqueológicos foram classificados como Monumento Nacional em 1947, embora então ainda se tinha a ideia errada que correspondiam apenas ao segundo mosteiro de São Cucufate.

Importância O sítio arqueológico de São Cucufate tem uma grande importância para o estudo da antiga civilização romana em Portugal, tendo permitido, por exemplo, aprofundar os conhecimentos sobre a evolução da arquitectura romana, devido à presença de três fases distintas de construção. Também possibilitou o estudo dos sistemas de exploração dos recursos, da organização administrativa e do povoamento durante aquela época, e é de uma relevância vital para a compreensão da forma como se introduziu e desenvolveu o cristianismo em território nacional, até se tornar a religião dominante. A villa em si é considerada a estrutura deste tipo em melhores condições de conservação, não só a nível nacional como no estrangeiro. Este grau de conservação deve-se em grande parte à utilização quase constante do edifício desde a antiguidade tardia até ao período cristão, apesar de ter sido profundamente transformado pela instalação dos dois mosteiros no seu interior.

Além disso, também é considerado de grande valor cultural para a região, devido à sua ligação ao vinho de talha, um método de produção vinícola praticado desde o período romano na região. Com efeito, foram descobertos vestígios de vinho de talha em São Cucufate, cuja presença foi registada no dossier da candidatura do Vinho de Talha a património cultural e imaterial da UNESCO, que estava a ser preparado pela autarquia da Vidigueira em Janeiro de 2020. O Centro Interpretativo do Vinho de Talha, em Vila de Frades, inaugurado em 2020, é dedicado àquele método de produção vinícola, incluindo a sua evolução histórica, com destaque para a antiga villa romana. Em 2013, a autarquia da Vidigueira criou um percurso temático sobre a produção vinícola no concelho, o Itinerário Cultural da Vinha de São Cucufate, que começa nas ruínas romanas.

Localização O sítio arqueológico de São Cucufate ocupa uma extensa área no topo de uma plataforma, que apesar da sua reduzida elevação permitia controlar a planície em redor, principalmente para Sul, no sentido de Pax Júlia (Beja). Situa-se no lugar também denominado de São Cucufate, a cerca de um quilómetro de distância da aldeia de Vila de Frades, tendo acesso pela estrada entre aquela localidade e Vila Alva, no concelho de Cuba. No período romano, este local estava afastado das povoações, mas situado perto de um importante cruzamento de vias,PEREIRA, 2017:85 estando ligado por estrada à cidade de Pax Julia.

Do ponto de vista administrativo, o antigo complexo integrava-se na província romana da Lusitânia, mais concretamente na subdivisão do Convento Pacense, cuja capital era a cidade de Pax Júlia.

miniatura|Pormenor de um criptopórtico, na fachada principal. É visível o aparelho construtivo, utilizando fiadas alternadas de tijolos e de alvenaria de xisto

Composição Uma villa romana típica tinha pelo menos duas funções, servindo como local de residência habitual ou temporária de um grande proprietário e a sua família, e como centro industrial, onde se transformavam e armazenavam os produtos vindos da zona em redor. Este também era o caso de São Cucufate, que conjugava uma mansão palacial com um núcleo produtivo, dedicado ao processamento e armazenamento dos géneros agrícolas, principalmente vinho. Os vários edifícios das villas romanas normalmente estavam organizados em torno de um espaço central, o pátio (patium).PEREIRA, 2017:53-54

As villas romanas estavam normalmente divididas em três zonas distintas: a pars urbana, onde residiam os proprietários, de forma sazonal ou permanente; a pars rustica ou parte produtiva, onde viviam e trabalhavam os servos, contando com várias estruturas de apoio, como cozinhas, armazéns e instalações para os animais; e a zona de armazenamento, que frequentemente era integrada na pars rustica em vez de ser uma área autónoma. Originalmente, o complexo romano de São Cucufate seguia esta regra, mas as últimas grandes obras mudaram totalmente a sua organização, passando o edifício central a concentrar não só a pars urbana mas também uma parcela da pars rustica. Além da casa principal e das estruturas produtivas, o conjunto romano também incluía um complexo termal, um templo, um tanque de grandes dimensões e um espaço ajardinado. Em redor da villa situava-se o ager, o domínio territorial onde se situavam os recursos económicos da propriedade, como campos e florestas. Junto dos terrenos agrícolas situavam-se as habitações para os escravos e serviçais.

Foram igualmente identificados dois palheiros, estruturas de piso elevado onde se armazenavam os cereais, e que foram construídos em períodos diferentes. O palheiro da época alto-imperial situa-se num local isolado, enquanto que o segundo foi construído mais perto da mansão.

miniatura|left|Galeria na fachada principal, situada ao longo do corpo central, entre os criptopórticos. Do lado esquerdo encontram-se os vestígios de uma das três escadarias Mansão A mansão romana é na realidade composta por três edifícios, correspondentes a três fases de construção sucessivas, durante as quais foram demolidas as antigas estruturas, e construídas novas em cima dos alicerces das antigas. Assim, a casa visível é na realidade a que foi construída em último lugar, embora tenham sobrevivido vestígios dos primeiros dois edifícios, podendo as três fases ser distinguidas através das diferentes formas de construção. A segunda casa utilizava um aparelho de xisto irregular, sendo a ligação entre as alvenarias feita através de argamassa de cal, enquanto que a terceira utilizou camadas de alvenaria de xisto alternadas com fiadas de tijolo, em redor de um núcleo de cimento. O edifício foi construído de forma a ficar orientado de Leste para Oeste.

O edifício mais recente corresponde a uma villa áulica, ou seja, uma residência de dimensões e aparência monumentais, apresentando uma natureza especialmente refinada e luxuosa, até em comparação com os restantes formatos de casas de campo romanas, servindo para demonstrar o elevado estatuto de poder e de riqueza a que tinham chegado os seus proprietários. Com efeito, as villas áulicas são as menos comuns entre as estruturas daquele tipo na Lusitânia, tendo a de São Cucufate sido provavelmente a única no território que produzia vinho,PEREIRA, 2017:57 possuindo uma arquitectura ímpar no território português. A maior parte dos edifícios deste tipo tinha uma organização fechada, com os vários compartimentos em redor de peristilos, configuração que a villa de São Cucufate apresentava inicialmente, só ganhando a sua aparência distinta, verticalizada, após a terceira fase de obras. A casa de São Cucufate não é o único exemplo de uma villa áulica em Portugal, tendo as ruínas romanas de Santo André de Almoçageme, em Colares, sido igualmente identificadas como sendo daquela tipologia.

A casa principal apresentava uma planta alongada, em forma de U, constituída pelo corpo central e por dois laterais, salientes em relação ao central, e que são quase totalmente iguais, salvo pela presença de uma ábside semicircular, na fachada Norte do corpo ocidental, que rematava a capela. Esta fachada poderá ter sido inspirada por um teatro. A fachada Sudoeste do corpo central possuía uma galeria e patamar com três escadas, uma no centro e duas nos extremos, que faziam a ligação entre a casa e os jardins, servindo talvez como sala de recepção. Na fachada posterior existia uma outra galeria, ainda com vestígios da cobertura em abóbada. O edifício tinha dois pisos, com a pars urbana a ocupar o primeiro andar, enquanto que a pars rustica estava situada no piso térreo, podendo ter-se alongado para Sul. Os criptopórticos, que normalmente eram construídos de forma subterrânea, em São Cucufate foram instalados acima do solo, de forma a permitir um alteamento da pars urbana, garantindo assim aos proprietários uma maior visibilidade sobre os terrenos em redor.

O conjunto habitacional foi considerado como o maior do período romano desta tipologia, na Península Ibérica. As villas romanas em território nacional que mais se assemelham às de São Cucufate são as do Rabaçal, na Beira Litoral, e de Milreu, no Algarve.

Pars rustica miniatura|Traseiras da mansão romana, vendo-se as coberturas em ábobada no piso térreo, correspondente à pars rustica