Plano-sequência, em cinema e audiovisual, é um plano que registra a ação de uma sequência inteira, sem cortes.

Conceito Segundo o teórico Jacques Aumont,"Dicionário teórico e crítico de cinema", de Jacques Aumont e Michel Marie, Papirus Editora, 2003, pp. 231-232 o que caracteriza o plano-sequência não é apenas a sua duração, mas o fato de ele ser articulado para representar o equivalente de uma sequência. Conviria, portanto, distingui-lo do plano longo "onde nenhuma sucessão de acontecimentos é representada", tais como planos fixos de duração acima da média envolvendo diálogos ou simples localizações de personagens e cenários.

Mas o próprio Aumont adverte que esta distinção é difícil e que por isso, muitas vezes, o conceito de plano-sequência é confundido com o de plano longo.

Histórico Se fosse considerada apenas a duração, seria forçoso concluir que os primeiros filmes dos irmãos Lumière, já em 1895, eram formados por planos-sequência, uma vez que eram filmes inteiros rodados num único plano de 40 a 45 segundos de duração. Mas seria uma conclusão imprecisa, pois o próprio conceito de plano ainda não tinha sido formulado.

Muitos historiadores consideram que o filme "Aurora", de Murnau (1927) conteria um dos primeiros verdadeiros planos-sequência filmados, no trecho em que o Homem (George O'Brien) corre em direção à Mulher da Cidade (Margaret Livingston), acompanhado pela câmara em movimento de travelling.

Já em "Ninotchka" (1939), de Ernst Lubitsch, há um longo plano em que o Conde d'Algout (Melvyn Douglas) tenta fazer rir a agente soviética representada por Greta Garbo, contando-lhe piadas das quais ela não acha graça, mas que termina com o conde caindo da cadeira e, finalmente, provocando na moça uma gargalhada.

Em 1948, Hitchcock tentou fazer o longa-metragem "Festim diabólico" rodado num único plano-sequência. Como os maiores rolos de película fabricados eram (e continuam sendo) de 1000 pés (aproximadamente 11 minutos), o filme acabou sendo rodado em 12 planos, com durações entre 4 e 10 minutos cada, e com cortes "invisíveis" entre eles, dando a impressão de um único plano."Hitchcock-Truffaut, entrevistas", editora Brasiliense, 1983, pp. 107-111

Roberto Rossellini no cinema italiano, Kenji Mizoguchi no japonês e Mikhaïl Kalatozov no soviético são exemplos de cineastas que utilizaram o plano-sequência em seus filmes rodados entre as décadas de 1950 e 1960.

Discussão estética Mas foi principalmente a partir dos longos e elaborados planos filmados por Orson Welles e seu fotógrafo Gregg Toland em "Cidadão Kane" (1941) que se desenvolveu a teoria do plano-sequência. O teórico André Bazin, em vários artigos escritos para a revista Cahiers du Cinéma a partir de 1951, defendeu a ideia de que o plano-sequência e a profundidade de campo seriam os grandes instrumentos do realismo cinematográfico, evitando a fragmentação do real que ocorreria através da montagem e respeitando a realidade e a liberdade do espectador.

Apesar da importância histórica da reflexão de Bazin (reunida em "O que é o cinema", obra em 4 volumes publicada a partir de sua morte, em 1958), vários autores posteriores chamaram atenção para o fato de que esta concepção de realismo cinematográfico (do plano-sequência e da profundidade de campo) era apenas uma entre outras possibilidades. Jean-Louis Comolli afirmou inclusive que o plano-sequência não é tão "realista" quanto se chegou a acreditar, já que o seu valor depende das normas estéticas em vigor."Ver e poder, a inocência perdida", de Jean-Louis Comolli, Editora da UFMG, 2008

No cinema atual O plano-sequência continua sendo usado no cinema contemporâneo, mas normalmente sem a defesa ideológica que costumava acompanhá-lo nos anos 1960. Cineastas como Brian De Palma, Stanley Kubrick, Alfonso Cuarón, Martin Scorsese, Paul Thomas Anderson, etc, souberam utilizar planos-sequências em momentos-chave de seus filmes, provocando no espectador a sensação de uma mudança na relação entre o tempo do filme e o tempo da história que ele conta, que normalmente é estabelecida pela decupagem e pela montagem. Já diretores como Theo Angelopoulos, Jim Jarmusch e Andrei Tarkovski tornaram-se conhecidos por rodarem filmes inteiros estruturados em um pequeno número de longos planos-sequência.

Assim que a tecnologia digital superou a limitação dos rolos de 11 minutos, experiências mais radicais puderam ser tentadas: em 2002, Alexander Sokurov rodou "A Arca russa" em um único plano-sequência de 96 minutos; antes ainda, em 2000, Mike Figgis realizou "Timecode" em 4 planos-sequência de 97 minutos cada, rodados ao mesmo tempo com quatro câmaras digitais e, no filme, exibidos simultaneamente numa tela dividida em quatro.

No Brasil, em 2008, Gustavo Spolidoro dirigiu "Ainda orangotangos", rodado em um único plano-sequência de 81 minutos.

Em 2014, Birdman foi gravado em planos-sequências. Ganhou o Oscar de Melhor Filme.

Na televisão o plano-sequência também apareceu em 2016 no nono episódio da 6ª temporada da aclamada série Game of Thrones no episódio intitulado "Battle of the Bastards", um espetacular plano-sequência de quase 30 minutos.

Outra série televisiva que se destaca por utilizar plano-sequência nos episódios, cada um com aproximadamente 1 hora de duração, é Adolescência, lançada em 2025.

Exemplos Planos-sequência "reais"

Ano Título Duração Diretor País Ref. 1982 Macbeth 57 min. Bela Tarr Hungria 1998 Big Monday 74 min. Michael Rehfield Estados Unidos 2000 Timecode 97 min. Mike Figgis Estados Unidos 2002 Russian Ark 96 min. Alexander Sokurov Rússia 2003 Sábado, una película en tiempo real 65 min. Matías Bize Chile 2005 The Magicians 96 min. Song Il-gon Coréia do Sul The Circle 103 min. Yuri Zeltser França 2007 PVC-1 85 min. Spiros Stathoulopoulos Colômbia 2008Ainda Orangotangos81 min.Gustavo Spolidero Brasil 2011 21 Brothers 96 min. Michael McGuire Canadá2011A Cova12 minLuís AlvesPortugal2013 Rati Chakravyuh 102 min. Ashish Avikunthak Índia Fish & Cat 134 min. Shahram Mokri Irã El triste olor de la carne 87 min. Cristóbal Arteaga Espanha Ana Arabia 85 min. Amos Gitaï Israel 2014 Agadam 123 min. Mohamad Issack Índia 2015 Victoria 140 min. Sebastian Schipper Alemanha Anino sa likod ng buwan 120 min. Jun Lana Filipinas Daksha S. Narayan Índia 2016 Eight 81 min. Peter Blackburn Austrália Immortality 145 min. Mahdi Fard Ghaderi Irã King Dave 99 min. Podz Canadá 2017Fourever77 min.Dean RonaldsEstados Unidos The Wedding Party 119 min. Thane Economou Lost in London 100 min. Woody Harrelson One Shot-Fear Without Cut 140 min. Haroon Rashid Índia Invasion90 min.Shahram MokriIrã2018 A Boy. A Girl. A Dream: Love on Election Night 89 min. Qasim Basir Estados Unidos Utøya: July 22 90 min. Erik PoppeNoruega Blind Spot 98 min. Tuva Novotny Tatort: Die Musik stirbt zuletzt 87 min. (versão Alemã)Dani LevySuíça 88 min. (versão padrão) comparação entre as versões suíça e alemã: https://www.youtube.com/watch?v=jRcsqnJeQZw 2020 Limbo 89 min. Tim Dünschede Alemanha

Planos-sequência editados

Ano Título Duração Diretor País Ref. 1948 Rope 80 min. Alfred Hitchcock Reino Unido / Estados Unidos 1991 Homework 85 min. Jaime Humberto Hermosillo México 1997 Running Time 70 min. Josh Becker Estados Unidos2002Irréversible97 min.Gaspar NoéFrança2009Enter the Void161 min. 2010 La Casa Muda 86 min. Gustavo Hernández Uruguai 2011 Silent House 87 min. Chris Kentis, Laura LauEstados Unidos 2014 Birdman 119 min. Alejandro G. IñárrituMéxico2017"eps3.4_runtime-error.r00" (Mr. Robot) 43 min. (episódio de TV)Sam EsmailEstados UnidosBushwick 94 min.Cary Murnion, Jonathan MilottEstados Unidos2018"Two Storms" (The Haunting of Hill House ep. 1.6) 57 min. (episódio de TV) Mike FlanaganEstados Unidos20191917 118 min.Sam MendesReino Unido

Obras com plano-sequência que não são filmes Ano Título Notas Ref. 2016 Tony Hinchcliffe: One Shot Comédia Especial 2018 God of War Jogo eletrônico de ação-aventura 2022 God of War Ragnarök Jogo eletrônico de ação-aventura

Categoria:Processos cinematográficos