right|250px|Insígnia oficial do programa conjunto Mir-Shuttle Programa Shuttle-Mir ou Programa Mir-Shuttle (; ) foi um programa espacial conjunto entre a Rússia e os Estados Unidos que teve o objetivo de realizar missões do ônibus espacial à estação orbital russa Mir e transportar cosmonautas russos nos ônibus espaciais e astronautas norte-americanos nas naves Soyuz, para participarem de temporadas de longa duração em órbita terrestre.
O Programa, também chamado por vezes de 'Fase Um', pretendia permitir aos Estados Unidos aprender com os russos sobre voos de longa duração e aumentar o espírito de cooperação entre as agências espaciais das duas superpotências, a NASA e a Roscosmos. Ele prepararia o caminho para a 'Fase Dois', especificamente, a futura construção da Estação Espacial Internacional (ISS).
Anunciado em 1993 e com sua primeira missão realizada em 1994, o Programa teve a duração de quatro anos, até 1998, início da construção da ISS. Nele foram realizados onze missões dos ônibus espaciais, um voo conjunto com uma nave Soyuz e cerca de mil dias passados no espaço por astronautas norte-americanos na Mir. Em seus quatro anos de existência, muitos primeiros foram conquistados no espaço pelas duas nações, entre eles o primeiro astronauta a fazer 'caminhadas espaciais' em trajes russos e o primeiro norte-americano a subir ao espaço numa nave Soyuz.
Houve, entretanto, alguns percalços, causados particularmente pela segurança na estação Mir após um incêndio e uma colisão a bordo, por problemas financeiros no programa espacial russo e receio dos astronautas com relação a atitudes dos administradores do Programa. De qualquer maneira, uma grande quantidade de conhecimento científico, de experiência para a construção de estações e de conhecimento para trabalhar conjuntamente no espaço em objetivos futuros foi assimilado durante as operações combinadas, permitindo que a construção da ISS fosse realizada de maneira bem mais tranquila e eficiente do que se imaginava anteriormente.
O Programa Em junho de 1992, os presidentes George H. W. Bush e Boris Yeltsin concordaram em juntar esforços na exploração espacial, assinando um "Acordo entre os Estados Unidos da América e a Federação Russa pela cooperação e uso do espaço exterior para propósitos pacíficos". Este acordo criava um breve programa espacial conjunto, durante o qual um astronauta norte-americano ficaria a bordo da estação russa Mir e dois cosmonautas russos voariam nos ônibus espaciais. Em setembro de 1993, porém, o vice-presidente do então governo Clinton, Al Gore, e o primeiro-ministro da Rússia, Viktor Chernomyrdin, anunciaram planos para a construção conjunta de uma nova estação espacial, que viria a ser chamada de Estação Espacial Internacional. Eles também concordaram que, como preparação para este novo projeto, nos anos seguintes os Estados Unidos se envolveriam a fundo no programa Mir, sob o nome de código 'Fase Um', sendo a construção em si da ISS a 'Fase Dois'.
Durante o andamento do Programa, onze missões do ônibus espacial voaram até a Mir, fazendo trocas de participantes das tripulações permanentes, transportando um novo módulo de acoplamento e um novo conjunto de painéis solares, além de realizarem diversas experiências científicas a bordo da estação. Durante os anos do Programa, dois novos módulos foram também conectados à estrutura, sendo usados pelos norte-americanos como aposentos para seus astronautas e como laboratórios para implementar a qualidade e alcance das pesquisas. Estas missões permitiram à NASA e à Roscosmos aprender como trabalhar como parceiros no espaço e como minimizar os riscos para a construção de uma estação espacial em órbita. Além destes avanços científicos, o Programa serviu como um artifício político para o governo norte-americano, criando um canal diplomático para que a NASA pudesse dispor fundos para o combalido programa espacial russo. Isto permitiu que o governo russo mantivesse a Mir em operação, além de seu programa espacial como um todo, assegurando que a Rússia continuasse – e continua – com sua política amigável em relação aos Estados Unidos. thumb|250px|right|Os sete astronautas norte-americanos que participaram de estadias na estação russa Mir Além dos voos propriamente ditos dos ônibus espaciais até a Mir, os Estados Unidos também tiveram sete 'acessórios' a bordo da estação, sete voos de longa duração feitos por astronautas norte-americanos. Os sete astronautas que tomaram parte nas missões foram Norman Thagard, Shannon Lucid, John Blaha, Jerry Linenger, Michael Foale, David Wolf e Andrew Thomas, cada um deles indo em turnos à Cidade das Estrelas, perto de Moscou, para fazer o treinamento em vários aspectos operacionais da Mir e das naves Soyuz, usadas para o transporte de ida e volta à estação.
Os astronautas também receberam treinamento para as caminhadas espaciais realizadas fora da nave e aulas de russo, a serem usados em suas próprias missões na comunicação com os cosmonautas a bordo da estação e com o controle de terra. Durante suas missões, eles realizaram diversos experimentos, entre eles o crescimento de cristais e de cabelos, e tiraram centenas de fotografias da Terra. Também ajudaram nos reparos e na manutenção da estação, enfrentando diversos incidentes como incêndios, queda de eletricidade, colisões, rotações incontroláveis e vazamentos tóxicos.
Mir
left|thumb|225px|A Mir vista da Discovery em junho de 1998, na última missão do Programa Shuttle-Mir, STS-91. A Mir foi a primeira estação orbital modular - montada a partir da conexão de módulos - do mundo, construída entre 1986 e 1996. Foi também a primeira estação habitada de pesquisa, consistente e de longa duração da Humanidade, em atividade por quase dez anos. O objetivo de sua construção era proporcionar um grande e habitado laboratório de pesquisas no espaço e, contando com colaborações diferentes, incluindo a 'Fase Um' do Programa Shuttle-Mir, tornou-se internacionalmente acessível a cosmonautas e astronautas de dezenas de países. A estação existiu até o dia 21 de março de 2001, quando foi deliberadamente retirada de órbita e caiu na Terra, sendo volatilizada durante a reentrada na atmosfera.
A estação foi baseada na Salyut, uma série de sete pequenas estações espaciais lançadas ao espaço pela União Soviética a partir de 1971, e mantida em funcionamento por expedições das naves tripuladas Soyuz e de naves-cargueiro Progress. Os ônibus espaciais norte-americanos visitantes da estação, usavam um engate para acoplagem semelhante ao construído pelos soviéticos para o Buran, o ônibus espacial russo que nunca foi ao espaço, montado num suporte de aço originalmente construído para a estação espacial Freedom, projeto da NASA nunca concretizado e transformado no projeto da ISS.
Com o ônibus espacial acoplado à Mir, os aumentos temporários de espaço para trabalho, tarefas individuais e descanso, transformavam o complexo no que era a maior espaçonave já existente na história da era espacial, com uma massa combinada de 250 toneladas métricas.
Ônibus espacial
200px|right|thumb|O conjunto lançador do ônibus espacial visto de cima, na plataforma de lançamento O ônibus espacial (space shuttle) da NASA, oficialmente chamado de Sistema de Transporte Espacial (Space Transportation System - STS) foi um veículo lançador de missões tripuladas do governo dos Estados Unidos. Um total de seis deles foi construído – Enterprise (usado apenas para testes), Columbia (destruído durante a reentrada atmosférica em 2003), Challenger (explodiu pouco após o lançamento em 1986), Atlantis, Discovery e Endeavour – esses três últimos foram utilizados até 2011.
A nave em si, chamada de Orbitador, era lançada verticalmente, normalmente transportando entre cinco e sete astronautas – e planejada para transportar onze em caso de emergência – e cerca de 22 toneladas de carga, numa órbita terrestre baixa. Quando a missão se encerrava, ele acionava seus próprios retrofoguetes de manobra para deixar a órbita e reentrar na atmosfera. Durante a descida e pouso, ele atuava como um planador, e fazia uma aterrissagem sem motores ligados.
O ônibus espacial foi a primeira espaçonave desenhada para uma reutilização parcial. Ele era capaz de transportar grandes volumes de carga para várias órbitas e durante os programas Shuttle-Mir e ISS, providenciou a rotatividade de várias tripulações habitantes das estações e transportou vários tipos de suprimentos, módulos estruturais e peças de equipamentos para as estações. Cada um deles foi planejado para uma vida útil operacional de dez anos ou cem missões ao espaço.
Durante a 'Fase Um' do Programa, a Mir foi visitada por três destas naves - Atlantis, Endeavour e Discovery - com a Atlantis voando sete missões consecutivas até ela entre 1995 e 1997. A Columbia, a mais antiga e pesada da frota, destruída em 2003, não era capaz de operações na inclinação orbital padrão da Mir (51,6º) e não era equipada com o cilindro pressurizado que permite a passagem de pessoas e objetos entre a estação e a nave, possibilitando a acoplagem.
Cronologia A nova cooperação começa (1994) thumb|left|250px| O início do Programa Shuttle-Mir: a STS-60 Discovery é lançada ao encontro da Mir. A Fase Um do programa Shuttle– Mir começou em 3 de fevereiro de 1994, com o lançamento do Ônibus Espacial Discovery em sua 18ª missão, a STS-60. A missão de oito dias foi o primeiro voo do ônibus espacial daquele ano, o primeiro voo de um cosmonauta russo, Sergei Krikalev, a bordo do ônibus espacial americano, e marcou o início de uma maior cooperação no espaço para as duas nações, 37 anos após a Corrida Espacial . começou. Parte de um acordo internacional sobre voos espaciais humanos, a missão foi o segundo voo do módulo pressurizado Spacehab e marcou a centésima carga útil "Getaway Special" a voar no espaço. A principal carga útil da missão foi o Wake Shield Facility (ou WSF), um dispositivo projetado para gerar novos filmes semicondutores para eletrônica avançada. O FSM voou na extremidade do braço robótico do Discovery durante o vôo. Durante a missão, os astronautas a bordo do Discovery também realizaram vários experimentos a bordo do módulo Spacehab no compartimento de carga útil do Orbiter e participaram de uma conexão bidirecional de áudio e vídeo downlink ao vivo entre eles e os três cosmonautas a bordo da Mir, Valeri Polyakov . Viktor Afanasyev e Yury Usachev (voando expedições Mir LD-4 e EO-15).
Os Estados Unidos chegam à Mir (1995) O ano de 1995 começou com o lançamento em fevereiro da STS-63, a segunda missão do Programa e o primeiro voo de um ônibus espacial com uma mulher como piloto, a astronauta Eileen Collins, levando a bordo o cosmonauta Vladimir Titov. Nesta missão de oito dias, a nave Discovery realizou o primeiro encontro entre o ônibus e a estação, a um distância mínima de onze metros, e Collins fez um voo em volta da Mir. Concebida como um ensaio para a primeira acoplagem real entre as duas naves, que seria feita pela STS-71, foram testadas várias técnicas e equipamentos que seriam usados nas missões de acoplagem seguintes.
thumb|right|225px|Módulo russo de acoplagem instalado na área de carga da Atlantis, em posição para conexão com a Mir