As variantes (ou dialetos ou vernáculos) do árabe são os sistemas linguísticos que os falantes de árabe, língua semítica dentro da família afro-asiática originária da Península Arábica, falam nativamente. Há variações consideravelmente de região para região, com graus variados de inteligibilidade mútua (e alguns são mutuamente ininteligíveis). Muitos aspectos da variabilidade atestada nessas variantes modernas podem ser encontrados nos antigos dialetos árabes da península. Da mesma forma, muitos dos recursos que caracterizam (ou distinguem) as diversas variantes modernas podem ser atribuídos às línguas originais des antigos povos ou colonos. Para algumas organizações, como a Ethnologue e a Organização Internacional de Padronização, as aproximadamente 30 variantes da língua árabe são de facto idiomas diferentes. Já outras instituições, como a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, consideram todas essas como dialetos do árabe. Enquanto as variantes vernaculares diferem substancialmente uma das outras, o árabe moderno padrão (فصحى, transl. fuṣ-ḥā) é padronizado e universalmente entendido por quem é alfabetizado em árabe. Embora estudiosos ocidentais façam distinção entre árabe padrão moderno e árabe clássico, falantes de árabe normalmente não façam essa diferenciação.

Em termos sociolinguísticos, há uma grande diferença entre os diversos vernáculos do árabe, usados para situações de fala cotidiana, e a linguagem padronizada formal, encontrada principalmente na escrita e em outras situações formais — variando de país para país, de falante para falante (de acordo com suas preferências pessoais, sua educação e cultura), e dependendo do tópico e da situação. Ou seja, o árabe costuma ocorrer, em seu ambiente natural, em uma situação de diglossia, o que significa que os seus falantes nativos aprendem e utilizam com frequência duas formas linguísticas substancialmente diferentes entre si, em diferentes aspectos de suas vidas. No caso do árabe, a variedade que prevalece em determinada região é aprendida como língua materna do falante, e usada para quase todas as situações cotidianas que envolvam a língua oral, além de alguns filmes, peças teatrais e (raramente) alguma literatura, enquanto a linguagem culta / formal é posteriormente aprendida na escola. Essa situação do árabe é geralmente exemplificada pelo latim, que manteve por séculos uma variante culta e diversas versões vernaculares, até desaparecer como língua falada, enquanto línguas românicas derivadas tornaram-se em novos idiomas, como o português, o castelhano, o francês, o italiano e o romeno. Mas embora tenha produzido dialetos locais, a variante culta do árabe não desapareceu.

As maiores diferenças entre o árabe moderno padrão / clássico e suas variantes coloquiais estão na perda de casos gramaticais; em uma ordem de palavras diferente e restritiva; na perda do sistema anterior de modo verbal, juntamente com a evolução de um novo sistema; na perda da voz passiva flexionada, exceto por alguns vestígios em variantes; na restrição ao uso do número duplo e — para a maioria das variantes — a perda do plural feminino. Muitos dialetos árabes, principalmente no agrupamento árabe magrebino, também apresentam mudanças vocálicas significativas e encontros consonantais incomuns. Ao contrário de outros grupos de dialetos, no árabe magrebino, os verbos singulares em primeira pessoa começam com um n- (ن). Existem ainda diferenças substanciais adicionais entre as falas beduína e a sedentária, o campo e as principais cidades, grupos étnicos, grupos religiosos, classes sociais, homens e mulheres, e jovens e idosos. Essas diferenças são até certo ponto solucionáveis. Frequentemente, os falantes de árabe podem ajustar sua fala de várias maneiras, de acordo com o contexto e suas intenções — por exemplo, falar com pessoas de diferentes regiões, demonstrar seu nível de educação ou se basear na autoridade da língua falada.

Em termos de classificação tipológica, os dialectologistas especialistas em língua árabe distinguem entre duas normas básicas: beduína e sedentária. Essa classificação é baseada em um conjunto de características fonológicas, morfológicas e sintáticas que distinguem as duas normas, no entanto, no modelo moderno, especialmente para variantes urbanas do árabe, não é realmente possível manter essa classificação, em parte porque os dialetos modernos são tipicamente um amálgama de características de ambas as normas. Geograficamente, as variantes árabes modernas são classificadas em cinco grandes ramos: peninsular (com quatro subgrupos), mesopotâmico, levantino (com três subgrupos), nilo-egípcio (com quatro subgrupos) e magrebino (com dois subgrupos). Falantes de áreas distantes podem ter dificuldade para entender os dialetos um do outro — além de fronteiras nacionais, dentro dos países e até entre cidades e aldeias.

Misturas e mudanças O árabe é caracterizado por um grande número de variantes. No entanto, falantes de árabe costumam manusear a maneira como falam com base nas circunstâncias. Pode haver várias motivações para mudar a fala: a formalidade de uma situação; a necessidade de se comunicar com pessoas de diferentes dialetos; para se obter aprovação social; para se diferenciar do ouvinte; na citação de um texto escrito; para diferenciar assuntos pessoais e profissionais ou gerais; para esclarecer um ponto e mudar para um novo tópico.Bassiouney, 2009, p. 29.

Um fator importante na mistura ou na mudança do árabe é o conceito de um dialeto de prestígio. Refere-se ao nível de respeito concedido a um idioma ou dialeto dentro de uma comunidade de fala. A língua árabe formal tem um prestígio considerável na maioria das comunidades de língua árabe, dependendo do contexto. Contudo, esta não é a única fonte de prestígio.Abdel-Jawad, 1986, p. 58. Muitos estudos mostraram que, para a maioria dos falantes, existe uma variedade de prestígio do árabe vernacular. No Egito, para aqueles que não são do Cairo, o dialeto de prestígio é o árabe falado na capital egípcia. Para as mulheres jordanianas de beduínos ou de origem rural, podem ser os dialetos urbanos das grandes cidades, especialmente a capital Amã.Bassiouney, 2009, p. 19. Além disso, em certos contextos, um dialeto relativamente diferente do árabe formal pode ter mais prestígio do que um dialeto mais próximo da língua formal — por exemplo, no Bahrein.Holes, 1983, p. 448.

O idioma mistura-se e muda de maneiras diferentes. Falantes de árabe costumam usar mais de uma variedade de árabe em uma conversa ou até mesmo uma frase. Esse processo é chamado de alternância de código linguístico. Por exemplo, uma mulher em um programa de TV poderia apelar para a autoridade da linguagem formal usando elementos desta em seu discurso para impedir que outros falantes a interrompessem. Outro processo em ação é o "nivelamento", a "eliminação de características dialéticas muito localizadas em favor de outras mais regionalmente gerais". Isso pode afetar todos os níveis linguísticos — semântico, sintático, fonológico, etc.Holes 1995: 39, p. 118. A mudança pode ser temporária, como por exemplo na comunicação entre falantes de árabes substancialmente diferentes, ou pode ser permanente, como geralmente acontece quando pessoas do campo se mudam para a cidade e adotam o dialeto urbano de maior prestígio, possivelmente ao longo de algumas gerações.

Esse processo de acomodação às vezes apela à linguagem formal, mas muitas vezes não. Por exemplo, moradores da Palestina central podem tentar usar o dialeto de Jerusalém, e não o deles, quando falam com pessoas com dialetos substancialmente diferentes, principalmente porque podem ter uma compreensão muito fraca da linguagem formal.Blanc, 1960, p. 62. Em outro exemplo, grupos de falantes instruídos de diferentes regiões geralmente usam formas dialéticas que representam um meio termo entre seus dialetos, em vez de tentar usar a linguagem formal, para tornar a comunicação mais fácil e compreensível. Por exemplo, para expressar a construção existencial com o verbo haver (como em "há um lugar onde..."), os falantes de árabe têm acesso a muitas palavras diferentes:

Árabe moderno padrão: Kuwait e Iraque: Iêmen: Egito, Levante e a maior parte da península Arábica: Tunísia: Marrocos e Argélia:

Nesse caso, é mais provável que seja usado, pois não está associado a uma região específica e é o mais próximo de um meio termo dialético para esse grupo de falantes. Além disso, dada a prevalência de filmes e programas de TV em árabe egípcio, é provável que todos os falantes estejam familiarizados com isso.Holes, 1995, p. 294. O aku do árabe iraquiano, o fīh do árabe levantino e o kayn do árabe magrebino evoluíram das formas árabes clássicas (yakūn, fīhi, kā'in respectivamente), mas agora soam muito diferentes. Às vezes, um certo dialeto pode estar associado ao atraso e não possuir prestígio popular - ainda assim continuará sendo usado, pois carrega uma espécie de prestígio secreto e serve para diferenciar um grupo do outro quando necessário.

Classificação Tipológica Uma divisão dialetal básica que traça uma divisão ao longo de toda a geografia do mundo arabofalante se dá entre as variantes 'sedentárias' e beduínas do árabe. Por todo o Levante e o Norte da África (isto é, as áreas de colonização pós-islâmica), isto se reflete principalmente na forma de uma divisão relativamente simples entre o idioma urbano (sedentário) e o rural (beduíno), porém a situação fica mais complexa no Iraque e na Arábia. Esta diferenciação se originou com os padrões de colonização e assentamento que seguiram-se às conquistas árabes. À medida que as regiões iam sendo conquistadas, os acampamentos militares que eram montados nestes novos territórios transformavam-se em cidades, e o povoamento das áreas rurais pelos beduínos veio logo em seguida. Em certas áreas, os dialetos sedentários também são divididos em variantes rurais e urbanas.

A diferença fonética mais óbvia entre estes dois grupos dialetais é a pronúncia da letra ق (qaaf), que é sonora nos dialetos beduínos (quase sempre , embora às vezes ocorra uma variante palatalizada ou ), porém surda nos dialetos sedentários ( ou ); a primeira é mais associada com a fala rústica do campo, enquanto a segunda é considerada tipicamente urbana. A outra principal diferença fonética é que os dialetos beduínos preservaram as interdentais do árabe clássico, ث () e ذ (), e fundiram os sons enfáticos ض () e ظ (), transformando-os em , em vez do usado pelos dialetos sedentários.

Existem diferenças significantes na sintaxe; os dialetos sedentários, em particular, partilham com o árabe clássico diversas inovações comuns - o que levou à sugestão de que uma espécie de koiné ("língua comum") simplificado teria surgido nos acampamentos militares árabes no Iraque, a partir de onde as partes restantes do mundo árabe atual foram conquistadas.

Os dialetos beduínos, no geral, são mais conservadores que os sedentários, e os dialetos beduínos dentro da Arábia são ainda mais conservadores que em qualquer outro lugar. Dentro dos dialetos sedentários, as variantes ocidentais, em particular o árabe marroquino, são menos conservadoras do que as ocidentais.

Geográfica thumb|530px|right|Mapa (em inglês) com os dialetos do árabe no mundo árabe. Inicialmente, as variações do árabe eram regionalmente divididas em apenas dois grupos: mashriqi (العامية; transliteração: (al-)`āmmiyya, "oriental") que incluem falantes da Península Arábica, Mesopotâmia, Levante, Egito e Sudão e maghrebi (الدارجة; transliteração: (ad-)dārija, ocidental) que agregam falantes do norte da África (Magrebe) a oeste do Egito.

Contudo, dialectologistas árabes têm adotado uma classificação mais particular para as variantes modernas do idioma, dividida em cinco grandes ramos: peninsular (com quatro subgrupos), mesopotâmico, levantino (com três subgrupos), nilo-egípcio (com quatro subgrupos) e magrebino (com dois subgrupos).

Ramo magrebino (maghrebi)