O Reino Arménio da Cilícia(PE) ou Reino Armênio da Cilícia(PB) (também chamado de Arménia Menor, Reino da Arménia Menor, Reino da CilíciaDictionary of the Middle Ages (em inglês) ou Nova Arménia Em 1080 Ruben, primo dos reis bagrátidas, instaurou no monte Taurus (nas margens do mar Mediterrâneo) o reino da Nova Arménia, que durou 300 anos. (em Arménio clássico: Կիլիկիոյ Հայկական Թագաւորութիւն) foi um estado formado na Idade Média por refugiados arménios das invasões dos turcos seljúcidas à Arménia. Diferentemente do Reino da Armênia da antiguidade clássica, o Reino Arménio da Cilícia localizava-se ao redor do golfo de Alexandreta, no mar Mediterrâneo (atualmente, sul da Turquia), e permaneceu independente de 1078 a 1375.

O reino foi fundado pela dinastia dos rubênidas, um ramo dos Bagrátidas armênios, que detiveram por diversas vezes os tronos da Arménia e da Geórgia. Inicialmente com a capital em Tarso e posteriormente em Sis (actual Kozan, na província de Adana), a Cilícia foi um forte aliado dos cruzados europeus e considerava-se um bastião do cristianismo no Médio Oriente. Também serviu como ponto focal do nacionalismo e da cultura dos arménios, cuja nação original se encontrava sob o domínio muçulmano.

Origens da presença arménia na Cilícia Durante um curto período de tempo no , o poderoso Reino da Arménia conquistou uma vasta região no Levante, incluindo a área da Cilícia. Em , após um conflito sangrento pelo trono da Síria, governada pelos selêucidas, a aristocracia grega da Síria decidiu escolher o arménio Tigranes, o Grande como protector do seu reino e oferecer-lhe a coroa da Síria.

250px|thumb|O Reino da Arménia na sua maior extensão, sob o reinado de Tigranes, o Grande

Posteriormente Tigranes conquistou a Fenícia e a Cilícia, dissolvendo o Império Selêucida, apesar de algumas cidades resistentes terem aparentemente reconhecido o jovem rei Seleuco VII Filómetor como o seu soberano legítimo. A fronteira sul deste domínio chegava até Ptolemaida (S. João de Acre no tempo das cruzadas). Muitos dos habitantes das cidades conquistadas por Tigranes foram enviadas para a sua nova metrópole, Tigranocerta, com o objectivo de helenizar o seu reino.

No seu auge, o império estendia-se dos montes Pônticos (no nordeste da actual Turquia) à Mesopotâmia, e do mar Cáspio ao Mediterrâneo. Tigranes terá conseguido invadir até Ecbátana e tomou o título de Rei dos Reis. Pensa-se que algumas colónias arménias na região da Cilícia datam desta época.

A Cilícia foi reconquistada aos árabes pelo imperador bizantino em cerca de 965. Este expulsou os muçulmanos que viviam na região e encorajou a colonização por cristãos da Síria e da Arménia. O seu sucessor tentou expandir os seus domínios até Vaspuracânia a oriente e pela Síria a sul. Como resultado das campanhas bizantinas, os arménios chegaram até à Capadócia e à região montanhosa do norte da Síria e Mesopotâmia.

A imigração arménia intensificou-se com a anexação formal do Reino da Arménia pelo Império Bizantino em 1045 e pela conquista pelos seljúcidas dezenove anos depois, em dois novos movimentos de migração. Depois da queda da dinastia Bagrátida da Armênia, e durante os séculos seguintes, o estado arménio não conseguiu restabelecer a sua soberania, permanecendo sob o governo das tribos túrquicas.

Estados arménios da Cilícia Os arménios foram gradualmente servindo os bizantinos como oficiais militares e governadores, sendo-lhes concedido o controlo de cidades importantes na fronteira oriental do império. Quando o poder bizantino na região enfraqueceu na sequência da batalha de Manzicerta, alguns usaram a oportunidade para se estabelecerem como soberanos, enquanto outros permaneceram leais ao império, pelo menos nominalmente.

O mais bem sucedido destes primeiros senhores arménios foi Filareto Bracâmio, antigo general de Romano IV Diógenes. Entre 1078 e 1085, Filareto criou um principado que se estendia de Melitene a norte até Antioquia a sul, e da Cilícia a oeste até Edessa a leste. Convidando outros nobres arménios para colonizarem estes territórios, concedeu-lhes terras e castelos, mas este estado começaria a ruir ainda antes da sua morte em 1090. e depois o restante destes domínios se desintegraria em senhorios locais.

200px|thumb|Príncipe Ruben I da Arménia

Um destes príncipes locais foi Ruben I da Arménia, que tinha relações familiares estreitas com o último rei bagrátida da Arménia mas, julgando impossível recuperar o poder desta dinastia, rebelou-se independentemente contra o Império Bizantino na Cilícia. Conseguindo o apoio de diversos nobres e senhores arménios, em 1080 Ruben fundou um principado independente na Cilícia, que se tornaria reino sob a soberania dos seus descendentes (a chamada dinastia dos rubênidas). No final do havia assim vários importantes principados arménios na região:Runciman. A History of the Crusades, pp. 195-201 Lampron (posteriormente chamado Namrun, actualmente Camliyayla) e Babaron (Candir Kale), na extremidade sul das Portas da Cilícia, eram controladas pelo antigo general bizantino Oshin, fundador da dinastia dos Hetúmidas, que sucederia aos rubênidas no trono da Cilícia. A nordeste encontrava-se o principado de Constantino I da Arménia, filho de Ruben I. As suas bases eram as fortalezas de Partzapert e Vahka. Mais a nordeste, fora da Cilícia, encontrava-se o principado de Maraş, governado por Teodoro de Maraş, um antigo oficial bizantino. A leste de Maraş, o barão arménio Gogh Vasil controlava as fortalezas de Raban e Kaisun como vassalo dos seljúcidas. A norte destas, na porção norte da bacia do rio Eufrates, localizava-se o principado de Melitene, sob o domínio de Gabriel, antigo oficial de Filareto, também sob a suserania seljúcida. Entre o rio Tigre e o Eufrates ficava Edessa, na posse de Teodoro, outro oficial de Filareto e genro de Gabriel de Melitene.

Com a excepção de Gogh Vasil e Constantino, estes senhores arménios tinham relações frias com a maioria dos seus compatriotas arménios e sofriam a antipatia dos cristãos sírios, porque seguiam a Igreja Ortodoxa Grega ou detinham títulos oficiais cedidos pelo imperador bizantino.Runciman. A History of the Crusades, p. 196

Dinastia dos rubênidas

thumb|esquerda|330px|Balduíno de Bolonha a receber homenagem dos arménios em Edessa (iluminura da crónica de Guilherme de Tiro, 1286)

Com o advento da Primeira Cruzada em 1096-1099 a percorrer a Anatólia, os arménios ganharam poderosos aliados cristãos, a quem forneceram guias, provisões e cavalos, pelo que receberiam louvor do papa Gregório XIII no . Com o auxílio dos cruzados, defenderam-se contra os turcos, tanto em acções militares conjuntas na Cilícia como pelo estabelecimento dos estados cruzados em Antioquia e Edessa. Apesar deste início auspicioso, nos dois séculos seguintes as relações entre cruzados e arménios oscilariam entre a aliança e a rivalidade.

Gradualmente a Cilícia foi desenvolvendo um governo centralizado na dinastia rubênida, que durante o competia com os bizantinos pelo poder na região. O príncipe Leão I anexou as cidades costeiras da Cilícia ao principado, consolidando assim a liderança arménia na região.

Leão I acabaria por ser derrotado pelo imperador João II Comneno em 1137, que considerava a Cilícia como uma província bizantina. Foi aprisionado, juntamente com vários outros membros da sua família, e morreu no cárcere três anos depois. Teodoro II, filho e sucessor de Leão I, também foi aprisionado, mas evadiu-se em 1141 para voltar a lutar contra Constantinopla. Inicialmente obteve vitórias, mas em 1158 acabaria por se declarar vassalo de Manuel I Comneno. Entretanto a Cilícia tinha-se tornado tão importante que, em 1151, o líder da Igreja Arménia transferiu a sua sé para Hromgla.

thumb|300px|O Reino Arménio da Cilícia (em castanho) em 1200

O primeiro membro da dinastia dos rubênidas a obter o título de rei seria Leão II, que subiu ao poder em 1187 ainda como príncipe. Durante o seu reinado teve de enfrentar conflitos com os governantes de Icônio, Alepo e Damasco, durante os quais aumentou o poderio militar da Cilícia e anexou novos territórios, duplicando a faixa costeira desta nação.

Entretanto Saladino debilitou os estados cruzados, o que provocou a proclamação da Terceira Cruzada. Leão II aproveitou a situação para melhorar as relações com os europeus e, com o apoio dos imperadores do Sacro Império Romano-Germânico Frederico Barba Ruiva e Henrique VI, em 1198 conseguiu elevar o estatuto do Estado para reino, passando a se intitular rei Leão I.No entanto, esta prática não parece ter sido generalizada aos restantes monarcas. Como exemplos, Teodoro III foi o primeiro rei de nome Teodoro, e Constantino III foi o primeiro rei de nome Constantino. Deste modo optou-se por classificar o Príncipe Leão II da Arménia (Rei Leão I da Arménia) com o numeral II do seu primeiro título. Seria o papa Celestino III quem lhe ofereceria o brasão de armas do Reino Arménio da Cilícia.

Dinastia dos Hetúmidas

Isabel, a filha de Leão II, seria a chave para a tomada do poder da dinastia dos Hetúmidas, rivais dos rubênidas. Depois de o seu primeiro marido ter sido envenenado em 1225 por Constantino de Baberon, foi forçada no ano seguinte a casar-se com o filho deste, que passou a partilhar o governo do reino sob o nome de Hetum I.

thumb|esquerda|270px|Fortaleza de Corícia, construída no

Durante este reinado conjunto, o Império Mongol estava em rápida expansão na Ásia e chegara ao Médio Oriente. Tendo conquistado rapidamente a Mesopotâmia, Bagdá e a Síria, avançava sobre o Egito. Estas conquistas tiveram efeitos devastadores para o Reino da Arménia, mas a Arménia Cilícia não teria o mesmo destino, uma vez que Hetum sujeitou-se voluntariamente ao novo poder da região, enviando o seu irmão Sempad para a corte mongol em 1247 para negociar uma aliança. (em 1260) os barões francos recusaram uma aliança com os mongóis, com a excepção dos arménios e do príncipe de Antioquia e Trípoli Os arménios, na pessoa do seu rei Hetum, tomaram o partido dos mongóis, assim como o príncipe Boemundo, seu genro. No entanto, os francos de S. João de Acre adoptaram uma posição de neutralidade favorável aos muçulmanos.

Hetum combateu com o seu exército sob o comando de Hulagu Khan na conquista da Síria e na tomada de Alepo e Damasco aos muçulmanos em 1259-1260.<ref> O rei da Arménia e o príncipe de Antioquia foram ao compo militar dos tártaros, e foram todos tomar Damasco.</ref> A Arménia também se envolveu em uma batalha económica com o Sultanato Mameluco do Egito pelo controlo da rota das especiarias.Cambridge Medieval History, Volume IV, p.634

Em 1266, Baibars intimou Hetum I a renegar a sua vassalagem aos mongóis, aceitar a suserania mameluca e devolver os territórios e fortalezas conquistadas aos muçulmanos quando ao serviço dos mongóis. Hetum I foi então visitar a corte do Ilcanato na Pérsia para obter apoio militar, mas durante a sua ausência os mamelucos marcharam sobre a Cilícia. Liderados por Almançor II e pelo comandante mameluco Qalawun Alfi, derrotaram os arménios na batalha de Mari, matando Teodoro, filho de Hetum, e aprisionando o seu outro filho Leão, juntamente com dezenas de milhares de soldados arménios.

Como resgate pelo seu filho, Hetum pagou uma grande soma em dinheiro e cedeu várias fortalezas. Pouco depois, um grande sismo em 1268 devastou o país, matando mais de pessoas. Hetum I abdicou no ano seguinte em favor do seu filho Leão II, que foi forçado a pagar avultados tributos anuais aos mamelucos, que mesmo assim continuaram a realizar incursões esporádicas na Cilícia.

thumb|300px|O enclave cristão da Nova Arménia cercado pelos territórios do Ilcanato mongol em 1300