thumb|290px|Terreno em erosão em Drumheller, Canadá, onde se observa o nível K-Pg, registro da passagem do Cretáceo para o Paleogeno.|alt=Colinas erodidas, camadas sedimentares distintas bem perceptíveis, pastagem crescendo na base das colinas. A extinção do Cretáceo-Paleógeno (K-Pg), anteriormente chamada de extinção do Cretáceo-Terciário (K-T), foi uma extinção em massa, ocorrida há mais ou menos 65,5 milhões de anos, que marca o fim do período Cretáceo (K, abreviação tradicional) e o início do Paleógeno (Pg). Este evento teve um enorme impacto na biodiversidade da Terra e vitimou boa parte dos seres vivos da época, incluindo os dinossauros e outros répteis gigantes. O registro estratigráfico mostra que o desaparecimento abrupto das espécies que foram extintas coincide com um nível estratigráfico, denominado nível K-Pg, rico em irídio, um elemento químico pouco abundante na TerraMark J. Winter (2006), Geological information about Iridium - Abundances (Dados oficiais sobre a abundância do irídio na crosta terrestre e nos corpos extraterrestres), WebElements.com e geralmente associado a corpos extraterrestres ou a fenômenos vulcânicos. Diversas teorias tentam explicar a extinção K-Pg, sendo que a mais aceita atualmente é a que justifica a catástrofe como sendo resultado da colisão de um asteroide com a Terra.
A partir de 1989, a Comissão Internacional de Estratigrafia deixou de reconhecer o período Terciário. Em seu lugar foram estabelecidos dois períodos, o Paleógeno (constituído pelas épocas Paleoceno, Eoceno e Oligoceno) e o Neógeno (constituído pelas épocas Mioceno e Plioceno). Com isso, muitos geólogos passaram a adotar o termo extinção K-Pg (onde Pg representa o período Paleógeno) em substituição ao termo extinção K-T.
Padrões de extinção 250px|esquerda|thumb|Intensidade das extinções marinhas através do tempo. O gráfico azul mostra a percentagem aparente (não o número absoluto) de géneros de animais marinhos que se tornaram extintos durante cada um dos intervalos temporais. Não representa todas as espécies marinhas, apenas aquelas que são facilmente fossilizadas.
Apesar de o evento ter sido severo, houve variabilidade significativa na taxa de extinção entre e dentro de clados. Como as partículas atmosféricas bloquearam a luz do sol, reduzindo a quantidade de energia solar que chega à superfície da Terra, as espécies que dependem da fotossíntese sofreram declínio ou extinguiram-se. Organismos capazes da fotossíntese, incluindo fitoplâncton e plantas terrestres, formavam os alicerces da cadeia alimentar no fim do Cretáceo tal como hoje em dia. Evidências sugerem que animais herbívoros morreram quando as plantas das quais dependiam se tornaram raras; consequentemente, predadores do topo da cadeia tais como o Tiranossauro rex também pereceram.
Cocolitóforos e moluscos, incluindo amonitas, rudistas, caracóis de água doce e mexilhões, e organismos cuja cadeia alimentar incluía estes construtores de carapaças, tornaram-se extintos ou sofreram perdas consideráveis. Por exemplo, pensa-se que amonitas foram a fonte principal de comida de mosassauros, um grupo de répteis marinhos gigantes que se extinguiram na transição.
Onívoros, insetívoros e animais que se alimentam de carniça sobreviveram à extinção em massa, talvez devido ao aumento da disponibilidade das suas fontes de alimento. No fim do Cretáceo, parecia não haver mamíferos puramente herbívoros ou carnívoros. Os mamíferos e aves que sobreviveram à extinção alimentaram-se de insetos, minhocas e caracóis, que se alimentavam de plantas mortas e matéria animal em decomposição. Cientistas colocam a hipótese de que estes organismos sobreviveram ao colapso das cadeias alimentares baseadas nas plantas porque se alimentavam de detritos.
Em comunidades de riachos, poucos grupos de animais se tornaram extintos; porque estas comunidades dependem menos diretamente em comida de plantas vivas e mais em detritos vindos da terra. Padrões similares, mas mais complexos, foram também encontrados nos oceanos. A extinção foi mais severa entre animais vivendo na coluna de água, do que entre animais que vivem em cima ou no fundo oceânico. Os animais na coluna de água são quase inteiramente dependentes de produção primária de fitoplâncton vivo, enquanto que os animais que vivem no fundo oceânico se alimentam de detritos ou podem mudar para uma alimentação à base de detritos.
Os maiores animais que respiram ar sobreviventes deste evento, crocodilianos e Choristodera, eram semiaquáticos e tinham acesso a detritos. Crocodilianos modernos podem viver como detritívoros e podem sobreviver durante meses sem comida, e os seus juvenis são pequenos, crescem devagar e alimentam-se principalmente de invertebrados e organismos mortos ou fragmentos nos seus primeiros anos. Foi feita uma ligação entre estas características e a sobrevivência dos crocodilianos no fim do Cretáceo.
Após o evento K-Pg, a biodiversidade precisou de uma quantidade substancial de tempo para se recuperar, apesar da existência de nichos ecológicos vagos em abundância.
Impacto na biodiversidade direita|thumb|320px|O tarbossauro foi um dos gêneros que se extinguiram no evento K-Pg.
A extinção K-Pg, apesar de não ser a maior extinção em massa da história, é a mais conhecida devido ao desaparecimento dos dinossauros. Este evento vitimou cerca de 26% das famílias existentes e pelo menos 75% das espécies,David A. Kring e Jake Bailey, Understanding the K-T Boundary (Entendendo o limite K-T), The University of Arizona Website tanto de organismos terrestres como marinhos. As classes mais afetadas foram a dos répteis e a dos moluscos. Segue-se uma lista dos grupos que se extinguiram no final do Cretáceo:
Dinossauros: foram as principais vítimas da extinção K-Pg; quase todo o grupo desapareceu da Terra, com exceção apenas das aves, das quais foram extintas as ordens enantiornithes e hesperornithiformes. Várias análises de fósseis de pássaros mostraram o surgimento de duas ordens de aves atuais antes do limite K–Pg: os primeiros Anseriformes e Galiformes coexistindo com dinossauros não aviários. As demais ordens de aves atuais surgiriam após o evento de extinção em massa. Entretanto, a longa escala de evolução que ocorreu nos últimos milhões de anos apagou a maior parte das semelhanças morfológicas externas que deveriam existir entre as aves atuais e os dinossauros; Plesiossauros: répteis pré-históricos marinhos; grupo eliminado; Pterossauros: répteis pré-históricos voadores; grupo eliminado; Mosassauros: répteis escamados marinhos; grupo eliminado; Rudistas: moluscos bivalves construtores de recifes; grupo eliminado; Amonites: cefalópodes de concha espiralada; grupo desaparecido; Belemnites: cefalópodes com concha em forma de bala; grupo desaparecido.
Observação: os ictiossauros, pliossauros e estegossauros já haviam sido extintos milhões de anos antes desta extinção em massa.
Para além destes grupos, desapareceram também muitas famílias de foraminíferos, equinodermes, corais e esponjas. Os números de cefalópodes, equinodermos e gêneros de bivalves apresentaram diminuição significativa após o evento K-Pg. A maioria das espécies de braquiópodes, um pequeno filo de invertebrados marinhos, sobreviveu ao evento de extinção K-Pg e se diversificou durante o Paleoceno. Exceto pelos nautiloides (representados pela ordem moderna Nautilida) e coleoides (que já haviam divergido em polvos modernos, lulas e sépias), todas as outras espécies da classe Cephalopoda extinguiram-se no evento K-Pg. Houve uma diminuição de 10% na diversidade de peixes ósseos e de 20% na de peixes cartilaginosos. Há provas contundentes de perturbação global de comunidades de plantas no evento K-Pg. As extinções são vistas tanto em estudos de pólen fóssil e folhas fósseis. Na América do Norte, os dados sugerem devastação maciça e extinção em massa de plantas nas seções de fronteira K-Pg, embora houvesse mudanças substanciais megaflorais antes do limite. Na América do Norte, aproximadamente 57% das espécies de plantas tornou-se extinta. Mas a extinção de animais e vegetais não foi o único impacto deste evento na biodiversidade. Os desaparecimentos possibilitaram a radiação adaptativa dos grupos que sobreviveram nos nichos ecológicos que ficaram vagos. O melhor exemplo deste fenômeno foi a explosão de diversidade dos mamíferos placentários - que, até então, eram, em sua maioria, animais de pequeno porte, solitários e noturnos.
Impacto de asteroide com a Terra
O físico estadunidense Luis Walter Alvarez, vencedor do Prêmio Nobel de Física de 1968, e seu filho Walter Alvarez foram os primeiros a propor oficialmenteAlvarez, L. W.; Alvarez, W.; Asaro, F.; Michel, H. V. (1980), Extraterrestrial Cause for the Cretaceous Tertiary Extinction, Science, v. 208, n. 4448 que os dinossauros teriam sido extintos devido ao impacto de um asteroide com a Terra. Essa ideia, formulada em 1980 e publicada em 1982, evoluiu e atualmente desponta como a melhor teoria para explicar o fim dos dinossauros. O primeiro indício de que essa teoria estaria correta surgiu em 1978 com a descoberta de uma fina camada de irídio nas rochas que se formaram no fim do período Cretáceo. O irídio é um elemento raro no planeta Terra, mas é encontrado com frequência em asteroides e cometas. A segunda evidência a favor dessa teoria veio com a descoberta de uma enorme cratera soterrada em Chicxulub, no Estado de Iucatã, México, medindo cerca de 180 quilômetros de diâmetro.A. R. Hildebrand, M. Pilkington, M. Connors, C. Ortiz-Aleman e R. E. Chavez (3 de Agosto de 2002), Size and structure of the Chicxulub crater revealed by horizontal gravity gradients and cenotes, Nature, n. 376, p. 415 - 417 De acordo com diversos estudos, o asteroide que caiu no México tinha mais de 10 quilômetros de diâmetro e o impacto dele com a Terra liberou energia equivalente à da explosão de cinco bilhões de bombas atômicas como as usadas sobre Hiroshima e Nagasaki em 1945 (o que corresponde a cerca de 100 mil gigatons de TNTTimothy J. Bralower, Charles K. Paull e R. Mark Leckie (1998), The Cretaceous-Tertiary boundary cocktail: Chicxulub impact triggers margin collapse and extensive sediment gravity flows , p. 4. ). Um impacto dessas dimensões teria erguido poeira e terra suficientes para tapar a luz do Sol durante anos, matando assim a maior parte das espécies vegetais que necessitavam fazer fotossíntese para viver. Sem os vegetais, os dinossauros herbívoros acabaram morrendo de fome e, sem esses, os dinossauros carnívoros morreram também. Essa reação em cadeia teria causado a extinção total dos dinossauros.
A colisão do asteroide com a Terra desencadeou uma série de tragédias ecológicas.Ronald G. Prinn e Bruce Fegley Jr. (1987), Bolide impacts, acid rain, and biospheric traumas at the Cretaceous-Tertiary boundary (Impacto de asteróide, chuva ácida e traumas biosféricos na passagem do Cretáceo para o Terciário), Earth and Planetary Science Letters, n. 83, p. 1-15 Com o impacto, alguns detritos foram arremessados até o espaço e entraram na órbita da Terra, onde ficaram por algum tempo e só depois caíram. Os incêndios em escala global e a liberação de grandes quantidades de gás carbônico (CO2) na atmosfera causaram o efeito estufa. Com o calor, as moléculas de nitrogênio e oxigênio se quebraram e se combinaram com o hidrogênio formando o ácido nítrico (HNO3). Sucederam-se então longos períodos de chuva ácida, prejudicando ainda mais a vida terrestre. Paralela e consecutivamente, o aumento da acidez e da temperatura dos oceanos afetou gravemente os ecossistemas marinhos. miniaturadaimagem|O evento de impacto.