thumb|upright|200px|Acampamento em Gilwell Park, verão de 2006.
Gilwell Park é um parque e centro de atividades escotistas situado em Sewardstonebury, na área de Epping Forest, no nordeste de Londres, Inglaterra, próximo de Chingford. Pertence à The Scout Association e é utilizado para acampamentos, atividades ao ar livre, formação de dirigentes escotistas, conferências e outros eventos.
O parque ocupa atualmente cerca de 44 hectares (108 acres) e inclui áreas de acampamento, alojamentos, instalações para atividades de aventura, edifícios históricos e numerosos monumentos e elementos relacionados com a história do escotismo. É também utilizado por escolas, organizações juvenis e outros grupos.
Gilwell Park tornou-se particularmente conhecido pela sua ligação à formação de dirigentes escotistas. Em 1919 realizou-se no local o primeiro curso experimental que conduziu ao sistema da Wood Badge (Insígnia da Madeira), desenvolvido por Robert Baden-Powell, Francis Gidney e outros responsáveis da The Scout Association. A partir daí, Gilwell tornou-se um dos principais lugares de referência na formação de adultos do movimento escotista internacional.
História
Da Idade Média ao século XVIII A história documentada de Gilwell remonta a 1407, quando John Crow era proprietário de uma parcela de terreno conhecida como Gyldiefords. Por volta de 1422, a propriedade passou para Richard Rolfes e passou a ser conhecida como Gillrolfes. No final do século XV, a designação Gilwell já se encontrava estabelecida.
A origem do nome é geralmente relacionada com palavras do inglês antigo: gill, associado a um vale estreito ou ravina, e wella, associado a uma nascente ou fonte. A propriedade correspondia aproximadamente à área atualmente conhecida como Essex Chase.
Uma quinta existia no local de Gilwell Farm desde este período. Junto da propriedade encontrava-se uma parcela de cerca de 5,6 hectares, adquirida por Richard Osborne, que construiu ali, na década de 1420, uma residência conhecida como Osborne Hall.
Uma tradição local afirma que, no início do século XVI, Henrique VIII de Inglaterra teria sido proprietário da área e construído um pavilhão de caça para o seu filho, o futuro Eduardo VI de Inglaterra. Não existem, contudo, provas documentais suficientes para confirmar esta tradição.
A floresta de Gilwell fazia parte da área de Epping Forest, tradicionalmente utilizada para caça e atravessada por estradas que conduziam a Londres. A tradição local associa a propriedade ao salteador de estrada Dick Turpin, que teria utilizado a floresta como esconderijo e para assaltar viajantes. A associação de Turpin com o local deve, contudo, ser distinguida dos elementos historicamente documentados da propriedade.
Em 1754, William Skrimshire adquiriu Great Gilwell, Little Gilwell e parte da antiga propriedade de Osborne. Demoliu a Osborne Hall existente e construiu uma nova residência no local, também chamada Osborne Hall, que viria a ser conhecida como White House. A estrutura atualmente preservada da White House contém elementos construtivos datáveis deste período.
Os Tresilian e os Chinnery Em 1771, Leonard Tresilian adquiriu a propriedade e aumentou a sua extensão e a residência. Tresilian procurou assegurar que Gilwell passasse para a sua filha mais velha, Margaret, através de disposições legais relacionadas com o seu casamento.
Após a morte de Tresilian, em 1792, a propriedade passou para Margaret Tresilian e para o seu marido, William Bassett Chinnery, irmão mais velho do pintor George Chinnery. Os Chinnery transformaram Gilwell numa propriedade rural de grande dimensão, ampliando os terrenos, jardins, caminhos e edifícios.
William e Margaret Chinnery tinham relações com círculos sociais elevados e Gilwell recebeu durante este período diversos membros da aristocracia britânica. Jorge III visitou a propriedade e o futuro Jorge IV, então príncipe regente, esteve também entre os seus visitantes. O príncipe Adolfo, filho de Jorge III, manteve relações próximas com a família e chegou a residir temporariamente em Gilwell.
A prosperidade da família terminou em 1812, quando William Chinnery foi acusado de desviar uma quantia considerável de dinheiro do Tesouro do Reino Unido. Foi afastado dos seus cargos e, posteriormente, a propriedade foi entregue ao Exchequer para cobrir as dívidas resultantes do desfalque.
Gilwell foi vendida em hasta pública em 1815 a Gilpin Gorst. Em 1824, passou para Thomas Usborne. Quando a antiga Ponte de Londres foi substituída, em 1826, Usborne adquiriu elementos da balaustrada da ponte, que datavam da reconstrução medieval, e instalou-os na propriedade, onde alguns permanecem junto do Buffalo Lawn.
Durante o século XIX, a propriedade mudou várias vezes de proprietário e entrou progressivamente em declínio. Por volta de 1900, Gilwell encontrava-se em estado de abandono. Em 1911 foi adquirida pelo reverendo Cranshaw, o último proprietário particular antes da aquisição pelos escoteiros.
Aquisição pelos escoteiros A aquisição de Gilwell pela organização escotista ocorreu no contexto da expansão do movimento após a Primeira Guerra Mundial.
Em novembro de 1918, William de Bois Maclaren, empresário escocês e comissário escotista, ofereceu 7000 libras para a aquisição de um terreno destinado a proporcionar instalações de acampamento aos escoteiros do East End de Londres, que tinham poucas oportunidades de realizar atividades ao ar livre.
A procura concentrou-se inicialmente em áreas de floresta próximas de Londres. Depois de várias tentativas, Gilwell foi identificada como uma propriedade adequada. O terreno, então com cerca de 21 hectares (52 acres), encontrava-se degradado, mas a sua localização junto de Epping Forest e a existência de edifícios tornavam-no particularmente apropriado.
Maclaren adquiriu a propriedade no início de 1919 para a The Boy Scouts Association. Em 17 de abril desse ano, Rover Scouts dirigidos por Percy Bantock Nevill chegaram a Gilwell para iniciar os trabalhos de limpeza e recuperação. Na primeira noite, devido às más condições meteorológicas, não conseguiram montar as tendas e dormiram num pequeno abrigo de jardineiro que passou a ser conhecido como The Pigsty.
Maclaren contribuiu posteriormente com mais 3000 libras para as obras de recuperação. A abertura oficial, inicialmente prevista para 19 de julho, ocorreu em 26 de julho de 1919, depois de ter sido adiada para permitir a participação dos escoteiros nas celebrações do fim da guerra. A propriedade tinha então 53 acres, incluindo a White House, o Training Ground, o Orchard e o campo de acampamento.
Maclaren pretendia sobretudo criar um campo de acampamento. Robert Baden-Powell, porém, viu no local a possibilidade de estabelecer também um centro permanente para a formação de dirigentes escotistas.
Formação de dirigentes e Wood Badge O primeiro curso de formação realizado em Gilwell ocorreu em 18 e 19 de maio de 1919, antes do primeiro curso associado à Wood Badge. Foi organizado por Percy Nevill e destinava-se a complementar uma formação teórica realizada por correspondência.
O primeiro curso-piloto que conduziu à Wood Badge decorreu de 8 a 19 de setembro de 1919. Participaram 18 dirigentes. O curso foi organizado pelo primeiro Camp Chief de Gilwell, Francis Gidney, com a colaboração de Percy Everett e a participação de Baden-Powell.
A formação combinava conhecimentos teóricos com competências práticas, incluindo técnicas de acampamento, pioneirismo, jogos, orientação, trabalho de campo e outras atividades destinadas a reproduzir a experiência de funcionamento de uma patrulha escotista.
Os participantes que completavam a formação recebiam pequenas contas de madeira enfiadas numa correia de couro. Este sistema deu origem à Wood Badge, que se tornou uma das formas mais conhecidas de reconhecimento da formação de dirigentes no movimento escotista.
A conceção da insígnia foi inspirada num colar de contas associado a Dinuzulu, chefe zulu que Baden-Powell conhecera durante o seu serviço militar na África Austral. A história da insígnia foi posteriormente envolvida por várias tradições, mas a investigação realizada pela própria The Scout Association confirmou a ligação entre o desenho inicial e as contas provenientes desse colar.
A Wood Badge continua a ser atribuída a dirigentes que completam a formação exigida pelas respetivas organizações escotistas. A tradição tornou-se internacional e a Organização Mundial do Movimento Escutista reconhece a Wood Badge como um dos principais sistemas de formação de adultos do movimento.
1st Gilwell Park Scout Group e Gilwell Reunion Francis Gidney esteve também na origem do 1st Gilwell Park Scout Group, grupo simbólico associado aos dirigentes que concluíram a formação de Gilwell. Os membros são frequentemente designados por Gilwellians ou Wood Badgers.
A primeira Gilwell Reunion realizou-se em 1921 e tornou-se um encontro anual de antigos participantes nos cursos e outros dirigentes associados a Gilwell Park. A reunião realiza-se tradicionalmente no primeiro fim de semana de setembro.
O símbolo do machado e do tronco Um dos símbolos mais associados a Gilwell Park é o machado cravado num tronco. A imagem foi adotada por Francis Gidney nos primeiros anos da década de 1920.
Gidney pretendia distinguir a identidade de Gilwell Park da sede administrativa da organização escotista, associando o parque às atividades ao ar livre e às técnicas práticas do escotismo. Durante os cursos de Wood Badge, os machados eram frequentemente protegidos colocando a lâmina num tronco. A imagem acabou por ser adotada como símbolo de Gilwell Park e da formação de dirigentes.
O símbolo continua a ser utilizado em certificados, bandeiras, insígnias e outros materiais associados a Gilwell.
Gilwell Park no período entre guerras Durante a década de 1920 foram construídos e adaptados diversos edifícios e instalações. O parque começou a desenvolver uma identidade própria dentro do movimento escotista, com monumentos, esculturas e estruturas oferecidas por organizações escotistas britânicas e estrangeiras.
Em 1929, Baden-Powell recebeu o título de 1.º Barão Baden-Powell de Gilwell, incorporando o nome da propriedade no seu título nobiliárquico.
No mesmo período foi construído o Gidney Cabin, posteriormente dedicado a Francis Gidney. O escultor e entalhador Don Potter trabalhou durante décadas em Gilwell Park, sendo responsável por numerosos elementos de madeira, entre eles os Leopard Gates, o Jim Green Gate e o Gidney Cabin.
A expansão foi limitada durante a Grande Depressão, devido às dificuldades financeiras da organização.
Segunda Guerra Mundial e expansão do parque Em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, Gilwell Park foi requisitado pelo War Office britânico. A propriedade foi utilizada como centro local de comando, formação e armazenamento de material militar até 1945.
Um dos vestígios mais conhecidos desse período é o chamado Bomb Hole, uma depressão resultante da queda de uma bomba da Luftwaffe. O local foi posteriormente ampliado e adaptado para atividades aquáticas, incluindo canoagem e construção de jangadas.
Em 1945, a The Scout Association adquiriu Gilwellbury e terrenos adjacentes. Nas décadas seguintes foram compradas novas parcelas, incluindo The Quick, New Field e Hilly Field. Uma aquisição adicional e uma doação proveniente da África do Sul contribuíram para a configuração atual da propriedade.
A expansão permitiu aumentar consideravelmente a capacidade de acampamento e criar novas instalações para formação e alojamento.
Desenvolvimento depois de 1945 Durante as décadas de 1950 e 1960, Gilwell Park recebeu novos monumentos e instalações associados ao escotismo internacional. Em 1951 foi instalado o Māori Gateway, oferecido pelos escoteiros da Nova Zelândia. Em 1966, os Boy Scouts of America ofereceram a estátua The Ideal Scout, obra de R. Tait McKenzie.