Lúcio Valério Flaco (m. 84 a.C.; ) foi um político da gente Valéria da República Romana eleito cônsul sufecto em 86 a.C. para servir com Lúcio Cornélio Cina depois da morte de Caio Mário. Era irmão mais velho de Caio Valério Flaco, cônsul em 93 a.C, e pai de Lúcio Valério Flaco, que foi defendido por Cícero em sua obra "Pro Flacco". Lúcio Valério Flaco, cônsul em 100 a.C. e príncipe do senado em 86 a.C., era seu primo. Foi enviado como procônsul na Ásia e acabou assassinado num motim incitado por Caio Flávio Fímbria durante a guerra civil de Sula e a Primeira Guerra Mitridática.

Família Evidências epigráficas de Magnésia no Meandro sobre este Lúcio Flaco ou sobre seu filho, que também foi procônsul na Ásia, revela que ele foi casado com uma filha de Lúcio Saufeio e teve uma filha chamada Valéria Paula; sua mãe, uma Bébia, também foi citada. Flaco é chamado de ("anthupatos"), um termo grego para "procônsul", o que indica que a inscrição trata do pai e não do filho (defendido por Cícero)T.R.S. Broughton, The Magistrates of the Roman Republic, vol. 2, 99 B.C.–31 B.C. (New York: American Philological Association, 1952), p. 178, note 2..

Vida e carreira thumb|direita|upright=1.3|Mapa da porção oriental da República Romana e seus vizinhos, incluindo o Reino do Ponto, imediatamente antes do início da Primeira Guerra Mitridática. Lúcio FlacoBroughton, MRR, vol. 2, pp. 1, 18–19, 629. foi um tribuno militar em algum momento antes de 100 a.C.. No ano seguinte, foi edil curulCícero, Pro Flacco 77; Bobbio Scholiast 95 e 105 (Stangl).. No final de seu mandato, Flaco foi processado, sem sucesso, por Caio Apuleio DecianoCícero, Pro Flacco 51, 70ss., mas a acusação é vaga e o caso talvez seja melhor compreendido no contexto das duras perseguições politicamente motivadas da década de 90 a.C., que transferiu a violência política da década anterior para as cortesErich S. Gruen, "Political Prosecutions in the 90's BC," Historia 15 (1966), pp. 36–37.Caio Apuleio Deciano, "Caso contra L. Valério Flaco".. Este julgamento não atrapalhou a carreira de FlacoMichael Charles Alexander, The Case for the Prosecution in the Ciceronian Era (University of Michigan Press, 2002), p. 80 online.. Ele foi eleito pretor em 92 a.C. e foi propretor na Ásia por volta de 92-91 a.C., num curto intervalo do mandato de seu irmão, Caio Valério Flaco, cônsul em 93 a.C., em que deteve o mesmo postoT. Corey Brennan, The Praetorship in the Roman Republic (Oxford University Press, 2000), p. 555..

Governador da Ásia Durante o mandato de Flaco na Ásia e antes da Primeira Guerra Mitridática, impostos foram cobrados para subsidiar um festival e jogos e os recursos amealhados foram depositados em Trales (moderna Aydin). O dinheiro não parece ter sido gasto como planejado, pois Cícero alega que a cidade emprestou o dinheiro com juros em benefício próprioT. Corey Brennan, The Praetorship in the Roman Republic (Oxford University Press, 2000), pp. 553–554 online.. Três décadas depois, o filho de Flaco foi também governador na mesma província; Cícero o defendeu contra múltiplas acusações de improbidade financeira durante sua administração, especialmente alegando que ele estaria apenas "recuperando" estes fundos quando os trálios o acusaram de desfalqueCícero, Pro Flacco 55–57..

Tanto Lúcio Flaco quando seu irmão, Caio Flaco, foram reconhecidos como patronos de Colofão na LídiaClaude Eilers, Roman Patrons of Greek Cities (Oxford University Press, 2002), p. 79 online e p. 137 online.. Os dois são os primeiros governadores romanos a serem reconhecidos como patronos de uma cidade livre, uma prática que tornar-se ia mais comum na década de 60.Richard Gordon with Joyce Reynolds, "Roman Inscriptions 1995–2000," Journal of Roman Studies 93 (2003), p. 225..

Pro-mariano e cônsul sufecto Em 87 a.C., durante a Primeira Guerra Civil de Sula, um Valério, que comandou uma guarnição de cavalaria, entregou Óstia a Mário ("traiçoeiramente", segundo PlutarcoPlutarco, Marius 42.1Lívio, Ab Urbe Condita Epit. LXXIX; Apiano, Bellum civile 1.67; Paulo Orósio 5.19.17.Broughton, MRR pp. 51 e 53, nota 12.Michael Lovano, The Age of Cinna: Crucible of Late Republican Rome (Franz Steiner Verlag, 2002), p. 56, nota 13.). Durante a década de 90 e, em meados da década 80, os Valérios Flacos já pareciam firmemente alinhados com a facção dos populares de Mário. Quando seu primo mais velho, Lúcio Flaco foi cônsul junto com Mário em 100 a.C., foi acusado de ser "mais um servo do que um colega"Segundo Públio Rutílio Rufo, citado por Plutarco, Marius 28.8.. E. Badian considera os Valérios Flacos como "uma das mais proeminentes famílias pró-marianas"E. Badian, "Notes on Provincial Governors from the Social War down to Sulla's Victory," publicado originalmente em Proceedings of the African Classical Associations (1958), republicado em Studies in Greek and Roman History (New York, 1964), p. 94..

Em 86 a.C., Lúcio Flaco tornou-se cônsul sufecto para completar o mandato de Caio Mário, que morreu inesperadamente em meados de janeiro, logo no começo de seu sétimo mandato. Seu colega de consulado foi Lúcio Cornélio Cina.

Crise de crédito da década de 80 a.C. O mais controverso ato de Flaco como cônsul provavelmente foi a Lex Valeria de aere alieno, uma reestruturação radical das dívidas da República. Logo depois de assumir o cargo, Flaco precisou confrontar uma crise de crédito em Roma, exacerbada por vários fatores. O sistema de crédito em Roma era baseado na quantidade dinheiro em circulação, preços estáveis das terras e na confiança ("fides"), a "confiança geral no pagamento final dos empréstimos e na força da economia", um conceito comparável à crença na confiança do consumidor no século XXI. Terra era o principal valor mobiliário para empréstimos, mas a enorme quantidade de terras conquistadas na Guerra Social (91–88 a.C.) desvalorizaram brutalmente o seu valor como garantia. Com a perda da renda das fazendas, os valores das propriedades caíram e os credores começaram a solicitar o pagamento antecipado de seus empréstimos. Na mesma época, a incerteza social resultou numa onda de acumulação de valores monetários (moedas); conforme a quantidade de dinheiro em circulação diminuía, os devedores encontravam cada vez mais dificuldades para pagar ou renegociar seus empréstimosCharles T. Barlow, "The Roman Government and the Roman Economy, 92–80 B.C.," American Journal of Philology 101 (1980), pp. 212–213.. Além disto tudo, a economia romana foi também duramente atingida pelas consequências da Primeira Guerra Mitridática, que devastou muitas relações comerciais com o oriente e diminuiu ainda mais as receitas de impostos vindas da província da ÁsiaLovano, The Age of Cinna, pp. 70–75..

Flaco tomou medidas drásticas: com o sestércio de prata valendo quatro asses de cobre, os devedores foram autorizados a pagar seus empréstimos à taxa de um asse por sestércio. Os débitos do governo foram incluídos no plano, o que reduziu o déficit governamentalSalústio, Bellum Catilinae 33.2; Cícero, Pro Fonteio 1–5.. O historiador Salústio, que nasceu no ano do consulado de Flaco, afirma que os optimates, a aristocracia conservadora, aprovou o planoSalústio, Cat. 33;. Escrevendo mais de cem anos depois do fato, na época de Augusto, o historiador Veleio Patérculo caracterizou o plano de Flaco como "turpissima", ou seja, "absolutamente vergonhoso"Veleio Patérculo, 2.23.2;Lovano, The Age of Cinna, pp. 72-73 online..

Motim e assassinato thumb|direita|upright=1.3|Percurso das tropas romanas na Primeira Guerra Mitridática. No final de seu mandato, Flaco recebeu a província da Ásia como uma forma de contrapor às operações militares e diplomáticas do antigo cônsul, na época exilado, contra Mitrídates VI do Ponto, o principal adversário de Roma na épocaBrennan, The Praetorship in the Roman Republic, p. 526.. Embora Sula tenha estado operando ilegalmente e tenha até mesmo sido declarado inimigo público, Cina parece ter reconhecido que a ameaça representada por Mitrídates requeria cooperação entre os romanosRobin Seager, "Sulla," in The Cambridge Ancient History (Cambridge University Press, 1994), vol. 9, p. 181 online..

Como o governo de Cina estava operando quase sem recursos, só havia condições de fundear cinco legiões, duas das quais foram enviadas com Lúcio Flaco para a Ásia. Flaco estava em grande inferioridade em relação às forças de Sula e perdeu grande parte de suas tropas ainda em trânsitoBrennan, The Praetorship in the Roman Republic, p. 526; Lovano, The Age of Cinna, p. 98; Charles T. Barlow, "The Roman Government and the Roman Economy, 92–80 B.C.," American Journal of Philology 101 (1980), p. 207.: uma guarda avançada havia se separado da frota principal, impedida de avançar por tempestades e seus navios foram queimados pela marinha pôntica de Mitrídates VI. Este grupamento conseguiu chegar até a Tessália e imediatamente desertou para SulaArthur Keaveney, Sulla, the Last Republican (Routledge, 2nd edition 2005), p. 77 online.. O exército consular conseguiu finalmente atravessar o Epiro Antigo, Macedônia e Trácia até chegar em Bizâncio, com tensões crescentes entre as tropas e os oficiaisJohn G.F. Hind, "Mithridates," in The Cambridge Ancient History (Cambridge University Press, 2nd edition 1994), vol. 9, p. 160 online.. O mais poderoso legado de Flaco, por vezes identificado como seu questor, Caio Flávio Fímbria, um devotado mariano, aproveitou-se do descontentamento das tropas para se posicionar como uma alternativa ao comando. Os motivos reais de Fímbria, contudo, são difíceis de perceber pelas fontes e são geralmente reduzidos a uma veemência irracional; é possível que ele tenha considerado a posição de Flaco em relação a Sula como "conciliatória demais", uma vez que Flaco pode ter tido um papel nas tentativas anteriores de seu primo, o príncipe do senado, de chegar a um acordo pacífico com Sula<ref>Seager, "Cambridge Ancient History, p. 181.</ref> e este, por sua vez, não reagiu aos movimentos de FlacoMary Taliaferro Boatwright, Daniel J. Gargola, Richard J. A. Talbert, The Romans: From Village to Empire (Oxford University Press, 2004), p. 188 online..

Segundo Diodoro Sículo, durante a travessia da Trácia, no inverno de 85-86 a.C., Fímbria liderou o avanço das tropas cuja lealdade ele tentava conquistar permitindo que eles saqueassem "o território dos aliados como se fosse território inimigo, escravizando todos os que encontrassem". Quando o povo reclamou do abuso, Flaco advertiu Fímbria. O relato de Diodoro está estrutura por um padrão moral preferido por ele na interpretação dos eventos, lembra Liv Mariah Yarrow: "o abuso dos aliados por Fímbria numa tentativa de chegar ao poder na hierarquia militar na realidade leva à desintegração da estrutura militar"Liv Mariah Yarrow, Historiography at the End of the Republic: Provincial Perspectives on Roman Rule (Oxford University Press, 2006), p. 246 online..

No Helesponto, Flaco dispensou Fímbria e ordenou que ele voltasse a Roma, substituindo por Quinto Minúcio Termo, irmão de Marco Minúcio Termo, que ficou encarregado do comando de Bizâncio. Porém, Fímbria continuou inflamando as tropas até que elas desertaram e ele conseguiu tomar o comando de Termo. Flaco, que havia avançado até a Calcedônia, na Bitínia, retornou rapidamente para lidar com a situaçãoBrennan, The Praetorship in the Roman Republic, pp. 556–557.. O relato mais sensacional dos eventos conta que Fímbria teria tomado os fasces de Flaco, que fugiu para Calcedônia e depois para Nicomédia. Fímbria teria perseguido-o e o encontrou escondido num poço. Depois de ordenar a sua decapitação, Fímbria assume o comando consular antes mesmo que Flaco tivesse conseguido chegar em sua província romana.Hind, The Cambridge Ancient History, p. 160; Brennan, The Praetorship in the Roman Republic, p. 557; Broughton, p. 18..