A Batalha de Cuito Cuanavale foi o maior confronto militar da Guerra Civil Angolana, ocorrido entre e ."MiG-21 de Cuba em acção" O local da batalha foi o sul de Angola, na região do Cuíto Cuanavale, província de Cuando-Cubango, onde se confrontaram os exércitos de Angola (FAPLA) e Cuba (FAR) contra a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) e o exército sul-africano. Foi a batalha mais prolongada que teve lugar no continente africano desde a Segunda Guerra Mundial. É considerada também a segunda maior batalha de terreno do século XX, superada apenas pela batalha de Kursk.
Seguindo uma série de tentativas frustradas de dominar a região em 1986, oito brigadas da FAPLA realizaram uma ofensiva, conhecida como "Operação Saludando Octubre" em agosto de 1987 contra as bases da UNITA em Jamba e Mavinga, contando com apoio de armas e tanques T-62 soviéticos, bem como unidades motorizadas cubanas. A África do Sul, que fazia fronteira com Angola por meio do território em disputa da atual Namíbia, estava determinada em prevenir que a FAPLA ganhasse controle da região e permitisse que a Organização do Povo do Sudoeste Africano atuasse no local, o que colocaria o regime do Apartheid em cheque.Saney, Isaac. "African Stalingrad: The Cuban Revolution, Internationalism, and the End of Apartheid." Latin American Perspectives 33.5 (2006): 81-117.
Ambos os lados do conflito reivindicaram vitória, e até hoje as narrativas e memórias sobre a batalha são objeto de debate.Baines, Gary. South Africa's' Border War': Contested Narratives and Conflicting Memories. Bloomsbury Publishing, 2015. Não obstante, o evento tornou-se o ponto de viragem decisivo na guerra que se arrastava há longos anos, incentivando um acordo entre Sul Africanos e Cubanos para a retirada de tropas e a assinatura dos Acordos de Nova Iorque, que deram origem à implementação da resolução 435/78 do Conselho de Segurança da ONU, levando à independência da Namíbia e ao fim do regime de segregação racial, que vigorava na África do Sul.
Preludio A Guerra Civil Angolana Até 1975, Angola foi um dos territórios coloniais africanos do Império Português tal como Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, regidas por Portugal. No entanto surgiu uma guerra de guerrilha entre o governo colonial e três movimentos revolucionários armados, a FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola), a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) e o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), com um acréscimo no norte, na região de Cabinda levada a cabo pela FLEC (Frente de Libertação do Enclave de Cabinda); um movimento separatista que reclamava a independência autónoma de Cabinda em relação a Angola.
Angola foi só uma das frentes da Guerra do Ultramar, durante a qual, o Estado português tentou manter os seus territórios coloniais ao contrário da tendência das outras nações europeias como a Grã-Bretanha e a França que estavam a entregar a independência gradualmente às suas colónias.
O preludio da guerra civil angolana, tem a sua origem em 1974 quando se deu em Portugal a Revolução dos Cravos, derrubando o regime salazarista. A junta militar que ocupou o poder provisoriamente, decidiu acabar a Guerra do Ultramar mas deixar as tropas nas colónias até à sua independência. No entanto, devido a pressões internas, decidem abandonar Angola até o outono de 1975, sem que nenhum dos movimentos revolucionários estivesse no controle da nação. Uma decisão problemática que afetou o desfecho da guerra civil em Angola.
O MPLA no poder Em o MPLA controlava onze das quinze províncias de Angola, incluindo a capital Luanda e a cidade de Cabinda, sendo por isso a escolha óbvia para tomar o poder em Angola. No entanto, a decisão de Portugal de entregar o poder aos três movimentos, provou ser um erro crasso, dando inicio à Guerra Civil Angolana.Porter, Bruce D. The USSR in Third World Conflicts: Soviet Arms and Diplomacy in Local Wars, 1945-1980. 1986, p. 149.
A 10 de Novembro uma ofensiva da FNLA que tinha o apoio do Zaire com um reforço do exército zairense de 1 200 soldados, num célebre confronto que viria do norte de Luanda que ficou conhecido pela Batalha de QuifangondoBridgland, Fred. "CIA man Roberto: Burying the Last of Angola's 'Big Men'". Indymedia. . não aconteceu por ordem dos USA a FNLA. Os USA mandaram a FNLA recuar e não engajar em luta armada.
Nos anos seguintes, o governo do MPLA e as suas forças militares lutaram contra guerrilheiros armados pelo Zaire, Estados Unidos da América e pela África do Sul, até que em 1984 a FNLA de Holden Roberto reconheceu a derrota, mantendo-se no entanto a guerra contra a UNITA de Jonas Savimbi.
Até 1987 entraram no conflito angolano outras nações e organizações interessadas, a saber: ao lado do governo angolano encontravam-se as Forças Armadas Revolucionárias de Cuba, o braço armado do Congresso Nacional Africano, a Lança da Nação, e o braço armado da Organização do Povo do Sudoeste Africano (SWAPO), o Exército Popular de Libertação da Namíbia (PLAN); ao lado da UNITA estava o exército sul africano e os seus aliados.
FAR A intervenção da FAR começou apenas com 652 tropas de elite na Operação Carlota, uma manobra militar levada a cabo em contra a incursão sul africana,George, Edward. em: The Cuban Intervention in Angola, 1965-1991. Frank Cass, London, New York, 2005, pás. 77-78. porém com a expansão da guerra nos anos seguintes Cuba, a pedido do governo angolano, reforçou as suas forças militares de uma forma permanente, tendo participado na batalha de Cuito Cuanavale 15 000 tropas cubanas.Saney, Issac. em: African Stalingrad: The Cuban Revolution, Internationalism and the End of Apartheid, Latin American Perspectives, Vol. 33, No. 5. Setembro 2006. pás. 81-117 A força cubana em Angola chegou a ter 36 000 tropas activas.
URSS A participação da União Soviética no conflito angolano, limitou-se a um grupo de conselheiros militares soviéticos colocados em Angola, à formação de quadros superiores em território da URSS e à ajuda em armamento militar. As relações entre os dois países nunca foram totalmente claras, havendo suspeitas de envolvimento soviético numa tentativa de golpe de estado, preconizado pelo Ministro do Interior do MPLA Nito Alves, culminando num período negro da história angolana conhecido por Fraccionismo.Georges A. Fauriol and Eva Loser. Cuba: The International Dimension. 1990. p. 164. Não obstante esses desentendimentos, estiveram presentes na batalha conselheiros soviéticos que tiveram um papel muito importante na organização das FAPLA e na planificação da batalha.
A Jamba Os EUA não reconheceram o governo angolano, acusando-os de comunistas, receando que Angola se tornasse uma ponta de lança da União Soviética em África. Henry Kissinger, Secretário de Estado dos Presidentes Richard Nixon e Gerald Ford, chegou mesmo a afirmar que o governo do MPLA era uma ameaça à liberdade em África.Relatório do Departamento de Estado dos EUA Nos anos oitenta a administração de Ronald Reagan promoveu a guerra de guerrilha nos países com ligações ao Bloco de Leste, em países como a Nicarágua e Angola. Já desde 1977 que os Estados Unidos da América apoiavam UNITA, vindo a reforçar esse apoio no governo Regan.Brittain, Victoria. Death of Dignity: Angola's Civil War. 1998, p. 11. Um dos projectos mais importantes da ajuda americana foi a Jamba do Cuando, o refúgio e quartel-general das forças da UNITA no sudoeste de Angola."Jamba falls to Angolan forces after heavy fighting in border region". ACT South Africa. . Na Jamba-Cueio, Jonas Savimbi líder da UNITA, construiu uma base militar bem defendida para lutar contra o governo MPLA e criou um mini-estado.
Em 1985 na Jamba do Cuando, Savimbi foi o anfitrião da Internacional Democrática, um encontro de chefes de alguns movimentos anti-comunistas través o mundo, oficializando dessa forma o seu mini-estado.J. Easton, Nina. Gang of Five: Leaders at the Center of the Conservative Crusade. 2000, ps. 165-167. A presença semi-oficial de um mini-estado criado pela UNITA em território angolano era considerado uma afronta ao governo de José Eduardo dos Santos, presidente de Angola à altura do conflito. Em 1987, o governo angolano decidiu eliminar esse mini-estado e retomar o controle do sudoeste angolano.Walker, John Frederick. A Certain Curve of Horn: The Hundred-Year Quest for the Giant Sable Antelope. Grove Press, 2004. p. 177. ISBN 0802140688. O resultado foi a batalha de Cuito Cuanavale, uma povoação situada na Jamba do Cuando na província do Cuando.
A batalha thumb|right|170px|O C-54 Skymaster norte-americano, utilizado pela UNITA na Batalha de Cuito Cuanavale. Mavinga A primeira acção militar da campanha do governo angolano, foi a ocupação da antiga base portuguesa de Mavinga, onde estavam sediados 8 000 guerrilheiros da UNITA, porém até a chegada das forças angolanos, Mavinga recebeu um reforço de 4 000 tropas da SADF (South African Defence Force), vindo a confrontar uma força de 18 000 soldados angolanos.Walker, John Frederick. p. 177. Mavinga foi o primeiro passo no caminho para a Jamba do Cuando e para penetrar a Faixa de Caprivi.
O ataque a Mavinga foi uma derrota total para as forças angolanas, com baixas estimadas em 4 000 mortos.Crocker, Chester A. High Noon in Southern Africa: Making Peace in a Rough Neighborhood. W. W. Norton, 1992. A manobra de contra-ataque das SADF, nomeada Operação Modular foi um êxito, forçando as tropas das FAPLA e das FAR a retroceder 200 quilómetros de volta a Cuito Cuanavale numa perseguição constante através da Operação Hooper.
O cerco de Cuito Cuanavale Sabendo que caindo Cuito Cuanavale o inimigo seguiria para Menongue, uma base aérea importante do governo, as FAPLA restabeleceram-se ai, retendo com dificuldade o avanço da UNITA e das SADF.Radu, Michael and Anthony Arnold. The New Insurgencies: Anticommunist Guerrillas in the Third World. 1990. p. 149. As três brigadas sobreviventes da força original barricaram-se a leste do Rio Cuito, do outro lado da povação de Cuito Cuanavale, aguentando as forças rivais durante três semanas, sem blindagem nem artilharia para se defenderem e sem provisões.Bole-Richard, Michel. "Angola: une importante garnison gouvernementale serait sur le point de tomber aux mains de l'UNITA. Le Monde. 23 de janeiro, 1988. (em francês) O presidente de Cuba Fidel Castro, apedido do governo angolano, enviou mais 15 000 soldados de elite para ajudar ao esforço da batalha, dando o nome a essa movimentação de tropas de Manobra XXXI Aniversário da FAR.Benemelis, Juan. Las Guerras Secretas de Fidel Castro. p. 18. Com o reforço cubano, o número de tropas no país passava de 50 000.Treaster, Joseph B. "Castro Faults Soviet Tactis in War in Angola." New York Times. 28 de julho, 1988. A 5 de dezembro de 1987 o primeiro reforço militar chegou ao posto das FAPLA em Cuito Cuanavale.