thumb|302px|Mapa dos movimentos dos exército que se enfrentaram na batalha

A Batalha de Manzicerta (ou de Manzikert; ) foi travada entre os impérios Bizantino e Seljúcida em 26 de agosto de 1071 perto de Manzicerta (hoje na província de Muxe, Turquia), algumas dezenas de quilómetros a norte do lago de Vã. O confronto terminou com uma pesada derrota do exército bizantino, que contribuiu decisivamente para minar a autoridade bizantina na Anatólia e abriu o caminho para a invasão turca e progressiva "turquificação" da Anatólia.

O exército seljúcida foi comandado pelo sultão Alparslano e o exército bizantino pelo imperador , que foi capturado durante os combates. No lado bizantino, os principais combatentes foram os soldados profissionais das tagmata orientais e ocidentais, pois grande parte dos mercenários e recrutas anatólios fugiram no início do combate e sobreviveram à batalha.

A debandada de Manzicerta foi desastrosa para os bizantinos, tendo resultado em conflitos civis e crise económica que debilitaram severamente a capacidade do império para defender as suas fronteiras. Isso possibilitou um movimento massivo de turcos para a Anatólia Central e em 1080 os turcos seljúcidas tinham tomado uma área de . Só após 30 anos de guerras civis é que o império voltou a ter estabilidade, sob o governo de . Embora os historiadores mais recentes rejeitem a opinião dos seus antecessores que consideravam a derrota em Manzicerta como um revés catastrófico para os bizantinos, continuam a considerá-la como um acontecimento com consequências muito dolorosas.

Contexto Apesar do Império Bizantino ter permanecido uma entidade forte e poderosa durante a Idade Média, começou a declinar durante o reinado do militarmente incompetente e depois durante o reinado de . Durante o breve reinado de foram feitas algumas reformas, que mais não fizeram do que apenas adiar a deterioração das forças armadas bizantinas. O primeiro contacto dos bizantinos com os seljúcidas ocorreu durante o reinado de Constantino IX, quando os seljúcidas tentaram tomar Ani, a capital arménia. O imperador bizantino acordou tréguas com o seljúcidas que duraram até 1064, quando estes conquistaram Ani. No reinado de Constantino X os bizantinos perderam para os seljúcidas a Arménia, em 1067, e depois Cesareia.

Em 1068, Romano IV Diógenes tomou o poder em Constantinopla e, após ter feito algumas reformas militares rápidas, nomeou Manuel Comneno (sobrinho do falecido Isaac I) para comandar uma expedição contra os seljúcidas, autorizando-o a conquistar a cidade de Hierápolis Bambice, na Síria. Um ataque turco a Icónio foi repelido quando um contra-ataque bizantino lançado da Síria redundou em vitória. No entanto, a campanha acabou num fiasco, pois Manuel foi derrotado e preso por seljúcidas comandados pelo sultão Alparslano. Não obstante o fracasso da campanha, o sultão procurou rapidamente fazer a paz com os bizantinos, pois considerava que o seu principal inimigo era o Califado Fatímida e não tinha qualquer ensejo de se envolver em hostilidades desnecessárias com os bizantinos. Em 1069 foi assinado um tratado de paz entre os impérios seljúcida e bizantino.

Em fevereiro de 1071, Romano enviou uma embaixada a Alparslano para renovar o tratado de 1069. Os enviados encontraram-se com o sultão no exterior de Edessa, que estava cercada pelos seljúcidas. Interessado em proteger o seu flanco norte contra ataques bizantinos, Alparslano concordou de bom grado com os termos do acordo proposto, após o que levantou o cerco e liderou o seu exército imediatamente para Alepo, para atacar os fatímidas do Egito. No entanto, a oferta de renovação do tratado de paz era um elemento chave do plano de Romano para distrair o sultão durante tempo suficiente para que os bizantinos pudessem conduzir um grande exército para a Arnénia para recuperarem as fortalezas perdidas, antes que os seljúcidas tivessem tempo de ripostar.

Prelúdio Um dos acompanhantes de Romano na expedição era Andrónico Ducas, o co-regente e um rival direto de Romano. O exército era composto por cerca de 40 mil homens, repartidos da seguinte forma: cinco mil soldados profissionais bizantinos das províncias ocidentais e provavelmente o mesmo número das províncias orientais; 500 mercenários francos e normandos comandados por Roussel de Bailleul; mercenários turcos (pechenegues e cumanos) e búlgaros; infantaria sob o comando do duque de Antioquia; um contingente de tropas georgianas e arménias; e parte da guarda varegue. a 70 mil O número de soldados das unidades dos temas (thémata, províncias) tinha diminuído nos anos anteriores de Romano ascender ao poder, pois o governo central desviava recursos para recrutamento de mercenários por se considerar que havia menos risco destes se envolverem em golpes de estado ou lutas entre fações dentro do império. Mas até quando eram usados mercenários, estes eram dispensados depois dos combates para poupar dinheiro.

esquerda|thumb|O sultão Alparslano que comandou os turcos seljúcidas vitoriosos em Manzicerta

Após terem negociado a paz com os bizantinos, os seljúcidas preparavam-se para atacar o Egito quando Alparslano soube do avanço bizantino em Alepo. O exército seljúcida voltou para nordeste e encontrou o exército bizantino a norte do lago de Vã.

A marcha pela Ásia Menor foi longa e difícil e Romano não facilitou a vida às suas tropas ao transportar um comboio para a sua bagagem luxuosa. As populações locais também foram alvo de alguns saques pelos mercenários francos de Romano, o que o levou a despedi-los. A expedição descansou em Sebasteia, nas margens do rio Hális, antes de chegar a Teodosiópolis em junho de 1071, onde alguns do generais de Romano sugeriram continuar a marcha até território seljúcida e encontrarem Arslã antes dele estar preparado. Outros generais, entre os quais Nicéforo Briénio, sugeriram esperar ali e fortificar a sua posição. A decisão acabou por ser continuarem a marcha.

Pensando que Alparslano estava mais longe ou nem sequer ia vir, Romano encaminhou-se para o lago de Vã, esperando conquistar Manzicerta rapidamente, bem como a fortaleza vizinha de Queliate (atual Aquelate), se possível. Mas na realidade Alparslano encontrava-se na região, com aliados e 30 mil cavaleiros de Alepo e Moçul. Os espiões de Alparslano sabiam exatamente onde Romano estava. enquanto que este não fazia ideia dos movimentos do seu adversário.

Romano ordenou ao seu general José Tarcaniota (Tarchaneiotes) que se dirigisse para Queliate com algumas das tropas bizantinas, varegues pechenegues e francas, enquanto ele e encabeçou o resto do exército para Manzicerta. Isso dividiu as tropas em duas metades, cada uma com cerca de 20 mil homens. Desconhece-se o que aconteceu às forças que acompanharam José Tarcaniota. Segundo fontes islâmicas, foram esmagadas por Alparslano, enquanto que as fontes bizantinas não referem qualquer encontro, mas Miguel Ataliata sugere que Tarcaniota se pôs em fuga quando avistou o sultão seljúcida, um evento improvável tendo em conta a reputação daquele general. Em qualquer dos caso, o exército de Romano ficou reduzido a menos de metade dos seus 40 a 70 mil homens.

A batalha thumb|upright=1.2|Mapa das movimentações de tropas seljúcidas e bizantinas na Anatólia em 1067, 1069 e 1071

Romano não soube da perda de Tarcaniota e continuou a dirigir-se para Manzicerta, que conquistou facilmente em 23 de agosto. Os seljúcidas ripostaram com enérgicas incursões com arqueiros. No dia seguinte, algumas unidades comandadas por Briénio que procuravam alimentos descobriram o exército seljúcida e foram forçadas a retirar de volta para Manzicerta. O general arménio Basilácio (Basilakes) foi enviado com alguns cavaleiros ao local onde estaria o exército inimigo, pois Romano não acreditava que se tratasse do principal exército de Arslan. Os cavaleiros foram desbaratados e Basilácio foi feito prisioneiro. Romano colocou as suas forças em formação de batalha e mandou sair a ala esquerda, comandada por Briénio, que foi quase cercado pelos turcos que se aproximaram rapidamente e foi mais uma vez obrigado a retirar. As forças seljúcidas esconderam-se nas colinas próximas para ali passarem a noite, tornando praticamente impossível um contra-ataque por parte dos bizantinos.

Em 25 de agosto, alguns dos mercenários turcos ao serviço dos bizantinos tiveram contactos com os seljúcidas e desertaram para o lado seljúcida. Depois disso, Romano rejeitou uma embaixada seljúcida que pretendia negociar a paz. O imperador queria resolver de vez a questão oriental e acabar com as persistente incursões e assentamentos turcos com um vitória militar decisiva e entendia que reunir outro exército seria difícil e dispendioso. Romano tentou chamar de volta Tarcaniota, que já não se encontrava na área. Não houve confrontos nesse dia, mas no dia 26 o exército bizantino reuniu-se em formação de batalha e começou a marchar sobre as posições seljúcidas, com a ala esquerda comandada por Briénio, a ala direita por Teodoro Alíates e a central por Romano. Nesse instante, um soldado turco teria dito a Alparslano «Meu Sultão, o exército inimigo aproxima-se», ao que o sultão teria respondido «Então nós também estamos a aproximar-nos deles». Andrónico Ducas comandava as unidades de reserva na retaguarda, um erro insensato tendo em conta as lealdades dos Ducas. Os seljúcidas estavam organizados numa formação em crescente, a cerca de quatro quilómetros das linhas bizantinas. Os arqueiros seljúcidas atacaram os bizantinos à medida que estes se aproximaram; o centro do seu crescente moveu-se continuamente para trás enquanto que as alas se moveram para cercar as tropas bizantinas.

Os bizantinos repeliram os ataques de flechas e tomaram o acampamento de Alparslano no fim da tarde. No entanto, as alas esquerda e direita, onde as flechas tinham causado mais estragos, quase que se romperam quando unidades individuais tentaram forçar os seljúcidas para uma , mas a cavalaria seljúcida parava de combater quando desafiada, adotando a tática clássica de ataque e fuga, típica dos guerreiros da estepe. Com os seljúcidas evitando a batalha, Romano foi forçado a retirar quando a noite caiu. No entanto, a ala direita percebeu mal a ordem e Ducas ignorou deliberadamente o imperador e retirou para o acampamento fora de Manzicerta, em vez de proteger a retirada de Romano. Tirando partido da completa baralhação dos bizantinos, os seljúcidas atacaram. A ala direita bizantina debandou quase imediatamente, pensando que tinham sido traídos pelos arménios ou pelos auxiliares turcos do exército. De facto, os arménios foram os primeiros a pôr-se em fuga e todos lograram pôr-se a salvo, ao passo que os auxiliares turcos permaneceram leais até ao fim. A ala esquerda comandada por Briénio resistiu um pouco mais tempo mas foi também rapidamente destroçada. O que restava da parte central da formação bizantina, onde se encontrava o imperador e a guarda varegue, foi cercada pelos seljúcidas e Romano foi ferido e feito prisioneiro. Os sobreviventes foram os muitos que fugiram do campo de batalha e foram perseguidos ao longo da noite, mas não depois disso. Ao nascer do sol o núcleo profissional do exército bizantino tinha sido destruído e muitas das tropas compostas por camponeses e os seus auxiliares que estavam sob o comando de Andrónico tinham fugido.

Cativeiro de Romano Diógenes Quando o imperador Romano IV foi conduzido à presença de Alparslano, este recusou-se a acreditar que aquele homem esfarrapado, ensanguentado e sujo fosse o poderoso imperador dos romanos. Depois de descobrir a sua identidade, o sultão pôs a sua bota em cima do pescoço de Romano e forçou-o a beijar o chão. Uma conversa famosa teria então tido lugar:

Alparslano tratou Romano com grande simpatia e voltou a oferecer os termos de paz que tinha apresentado antes da batalha.