Zófimo José Consiglieri Pedroso Gomes da Silva (Lisboa, 10 de março de 1851 – Sintra, 3 de setembro de 1910), mais conhecido por Consiglieri Pedroso,O nome ao tempo era grafado Zophimo ou Zóphimo. foi um político, etnógrafo, ensaísta, escritor, professor e diretor do Curso Superior de Letras. Inicialmente militante do Partido Progressista e depois militante republicano, foi deputado às Cortes da Monarquia, eleito pelo círculo eleitoral de Lisboa. Orador de grande qualidade e de improviso fácil, raramente escrevia os discursos, ficando famoso pela acutilância dos seus folhetos doutrinários e como doutrinador republicano conhecido pela sua verve e recorte literário, tendo publicado várias obras e folhetos de pendor propagandístico. Para além da história, dedicou-se à etnografia e foi um dos introdutores da antropologia em Portugal, estudando os mitos, tradições e superstições populares, atividades em que era um típico letrado do último quartel do século XIX, profundamente imbuído de valores humanistas e revelando-se um ensaísta brilhante. Foi presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa e sócio efetivo da Academia de Ciências de Lisboa.

Biografia Consiglieri Pedroso nasceu em Lisboa, filho de Mariana Justa Consiglieri, uma senhora de origem genovesa (de onde lhe vem o apelido Consiglieri), e de Zófimo Pedroso Gomes da Silva, médico da Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses e membro destacado do Partido Progressista, que representou como deputado nas Cortes na legislatura de 1880 a 1882. O seu pai foi também vereador da Câmara de Lisboa (1871-1878, 1886-1890 e 1892-1896), tendo sido depois seu presidente no período 1897 a 1898. Considerado homem ideologicamente avançado para o seu tempo, defendeu a criação de uma cadeira de medicina legal e de toxicologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e nas Escolas Médico-Cirúrgicas de Lisboa e do Porto, entre outras iniciativas na área da educação e da saúde. Não é acidental que Consiglieri Pedroso lhe tenha dedicado o seu Brado contra a pena de morte em 1874.

Consiglieri Pedroso terá tido em sua mãe uma figura muito próxima e amada, ao ponto de ter considerado abandonar a carreira política que então iniciava quando ela faleceu em 1884. É o próprio Consiglieri Pedroso que em 1901, no elogio fúnebre de Luciano Cordeiro, contou: Recordo-me que em 1884, quando Luciano Cordeiro e eu tínhamos assento na Câmara dos Deputados, estava eu para fazer a minha estreia parlamentar numa questão das mais melindrosas que então nos preocupavam, e veio ferir-me o golpe mais rude que tenho sofrido, a morte da minha mãe. A violência do choque quebrantou-me o ânimo, e estive a ponto de desistir da luta para que me havia preparado. Um dos que me ampararam foi Luciano Cordeiro, e lembra-me que ele me disse: "A melhor maneira de honrar a memória de um ente querido é continuar trabalhando", fazendo-me assim compreender que também isso era o cumprimento de um dever sagrado. Essas palavras mitigaram a minha dor e restabeleceram o meu ânimo. E entrei na luta…

Apesar de descrito pelos seus contemporâneos como tendo aspeto débil e constituição fraca,D. Francisco de Noronha afirmou que era de corpulência quase minúsculo. cedo se revelou de enorme tenacidade, escolhendo significativamente para seu lema a frase "Chi dura vince".

Frequentou o ensino secundário no Liceu Nacional de Lisboa, onde conheceu José Benoliel, que além de docente liceal dava lições de Literatura Oriental no Curso Superior de Letras, com quem depois aprenderia árabe e hebraico e que teria grande influência na sua decisão de estudar filologia e linguística.

Terminado o curso liceal, iniciou os seus estudos no Curso Superior de Letras, na altura sediado no edifício da Academia Real das Ciências de Lisboa, onde teve como professores, nas cinco cadeiras nucleares, Rebelo da Silva, Augusto Soromenho, Sousa Lobo, Jaime de Freitas Moniz e António José Viale. Concluiu o curso em 1869, mas continuou estudos na área da filologia e a aprendizagem de línguas.

Em 1871 estreou-se como jornalista, iniciando a sua colaboração nos periódicos da esquerda liberal e do então incipiente movimento republicano de Lisboa. Ao longo da década de 1870 foi afirmando a sua reputação como articulista, tornando-se próximo de intelectuais de esquerda como José Carrilho Videira e Teófilo Braga, com quem colaborou no periódico República (1874-1875) e como redator dos folhetos da Bibliotheca Republicana Democratica (1876-1877), uma publicação panfletária que serviu para tornar Consiglieri Pedroso famoso pela acutilância dos seus escritos doutrinários e para o posicionar claramente no campo republicano, em cujo partido se filiou em 1875.

Entretanto, também em 1875 e por proposta do republicano Elias Garcia, entrou na carreira de oficial administrativo para, na secretaria da Câmara Municipal de Lisboa, organizar a instrução primária de Lisboa. Foi curta a sua permanência na função, pois logo em Janeiro de 1876 foi exonerado a seu pedido. Manifestando grande propensão para a escrita, nesse ano traduziu e prefaciou a obra História da Revolução Francesa, de Ernest Hamel.

Consiglieri Pedroso continuou o estudo das línguas e quando ingressou na atividade política, com 27 anos de idade, tinha conhecimentos de grego e latim, falava castelhano, italiano, francês, alemão, dinamarquês, sueco e sânscrito. Para além disso conhecia os rudimentos do persa e de algumas línguas industânicas e estudava russo e polaco.

Foi membro da Maçonaria, pertencendo à Loja Simpatia, n.º 4, de Lisboa, para onde entrou em 1888. Também manteve atividade empresarial, sendo sócio da Companhia Carris de Ferro de Lisboa, a cuja administração pertenceu e na qual foi o proponente da substituição da tração animal pela tração elétrica na rede de transportes coletivos de Lisboa, estando assim na origem do aparecimento dos elétricos de Lisboa.

Cordato e austero, mas afável e afetuoso, foi um poliglota, conhecedor de múltiplos idiomas europeus, cujas literaturas apreciava na versão original. Para além das línguas do norte da Europa, conhecia o russo e estudou o japonêsCaminhos do português, p. 170. Ao longo da sua carreira afirmou-se como filólogo, escritor, publicista e político que ainda assim manteve ao longo da vida o fascínio do maravilhoso infantil, que as suas recolhas de contos e o entusiasmo com coros infantis corroboram. Não prezava os prazeres da boa mesa, sendo vocacionado para o estudo, a investigação e a aprendizagem contínua.

Sofrendo de diabetes, faleceu em Sintra, um dos seus locais preferidos para veraneio e descanso, vítima de uma infeção por antraz que terá levado a uma septicemia e ao colapso cardíaco.Maria Filomena Mónica (coordenadora), Dicionário Biográfico Parlamentar (1834-1910), vol. III, pp.731-735. Lisboa : Assembleia da República, 2006 (ISBN 972-671-167-3). Depois de uma vida de luta pelo ideal republicano, faleceu a um mês da implantação da República Portuguesa, triunfo que não conheceria. A carreira académica e literária Em 1878 concorreu à cadeira de História Universal e Pátria do Curso Superior de Letras, tendo como júri Teófilo Braga, António da Silva Túlio, Manuel Pinheiro Chagas e Augusto Carlos Teixeira de Aragão. Ao concurso foram admitidos três candidatos: José Maria da Cunha Seixas, com uma dissertação intitulada Princípios Gerais da Filosofia da História; Manuel de Arriaga, com Renovação histórica: da necessidade da intervenção das ciências naturais na história universal dos povos para se fundamentar em bases positivas e dar-lhe um caráter científico; e Consiglieri Pedroso com A Constituição da Família Primitiva. Todos os candidatos obtiveram aprovação de mérito e pela votação de preferência, Consiglieri Pedroso foi escolhido, tornando-se o primeiro diplomado do Curso Superior de Letras a ingressar no seu corpo docente.

Na docência distinguiu-se pelo seu gosto linguístico, memória prodigiosa e inteligência acima do vulgar, características que foram frequentes por parte de mestres, alunos e amigos. Para além do ensino e da política, distinguiu-se em várias áreas da cultura e da ciência, nomeadamente na etnografia, tendo sido um dos fundadores e um importante dinamizador da Antropologia em Portugal. Dedicou-se sobretudo ao estudo dos mitos, das tradições e das superstições populares do mundo rural português, tendo publicado no jornal O Positivismo uma grande parte das suas análises etnográficas. Assumiu também vários cargas académicos no Curso Superior de Letras, tendo sido seu secretário (1879-1881), diretor-vogal (1897-1899) e diretor (1881-1883 e 1901-1910).

Também se dedicou ao estudo da História, tendo publicado fragmentos extraídos de processos setecentistas da Inquisição de Lisboa que endossam a mesma utilização, de um imaginário peculiar aos séculos XVII e XVIII, feita por Manuel Bernardes nos seus exempla.

Para utilização pelos seus alunos do Curso Superior de Letras, publicou em 1883 a obra As Grandes Épocas da História Universal, com a qual Consiglieri Pedroso introduz ruturas fundamentais na matéria tratada face àquela que era a tradição historiográfica portuguesa. Sendo um lente de História Universal e Pátria do Curso Superior de Letras, e não como era tradição no tratamento da matéria um lente de Teologia da Universidade de Coimbra, Consiglieri Pedroso aborda a história antiga longe do campo da Teologia e do discurso catequético que tradicionalmente lhe estava associado. No processo recusou as autoridades bibliográficas tradicionais e usou abundantemente os dados vindos da linguística, apoia-se no trabalho de Jean-François Champollion e assume, pela primeira vez em Portugal, uma cronologia histórica que aponta explicitamente para datações anteriores a 4004 a.C., contrariando as interpretações bíblicas então vigentes que davam aquele ano como o da criação do Mundo.

Como publicista, colaborou em diversos periódicos ligados à esquerda liberal. Republicano convicto e adepto do positivismo, escreveu e publicou dezenas de panfletos doutrinadores sob o título Biblioteca de Propaganda Democrática (1886-1888) e prestou a sua colaboração em publicações de caráter doutrinário e filosófico, como O Positivismo (1879-1882), chegando mesmo a escrever, em 1884, uma obra que intitulou Uma Crítica Positivista. Foi diretor e proprietário do periódico Os Debates (1888-1891) e colaborou nas revistas: FroebelFroebel : revista de instrucção primaria (1882-1885) cópia digital, Hemeroteca Digital (1882-1885), A Arte Musical (1898-1915), Brasil-Portugal (1899-1914), Serões (1901-1911) e no Jornal dos Cegos (1895-1920).

A sua atividade de publicista levou a que em 1882 fosse eleito presidente da comissão diretora da Associação de Jornalistas e Escritores Portugueses. A sua produção literária e jornalística granjeou-lhe grande popularidade, sendo listado entre os autores mais populares num inquérito realizado em 1884 pelo periódico O Imparcial de Coimbra.

Embora tenha mantido ao longo da sua vida uma intensa atividade política, em particular na Câmara dos Deputados, Consiglieri Pedroso dedicou-se com igual diligência ao estudo da etnografia e da mitografia, tendo dedicado a maior parte da sua carreira académica ao estudo dos mitos e superstições populares, de que deu conta em artigos eruditos, alguns dos quais traduzidos e publicados em revistas francesas e inglesas. O mérito da sua investigação levou-o a ser membro de várias agremiações científicas e culturais, entre as quais a Sociedade de Geografia de Lisboa, de que foi vice-presidente (1900-1909) e presidente (1909), e a ser eleito em 1905 como sócio efetivo da Academia de Ciências de Lisboa. Entre as suas obras de cariz etnográfico, contam-se Tradições Populares Portuguesas, Estudos de Mitografia Portuguesa, Contribuições para Uma Mitologia Popular Portuguesa, Contos de Fadas e Contos Populares Portugueses.