Tendais é uma povoação portuguesa sede da Freguesia de Tendais do Município de Cinfães, freguesia com 31,77 km² de área e 697 habitantes (censo de 2021), tendo, por isso, uma densidade populacional de .

Tendais foi vila e sede de concelho, extinto em 1826, passando a integrar o concelho (atual município) de Cinfães

Demografia A população registada nos censos foi:

Distribuição da População por Grupos Etários Ano 0-14 Anos 15-24 Anos 25-64 Anos > 65 Anos2001 111 107 388 2882011 99 70 350 2882021 52 81 308 256

História A recente publicação de uma monografia sobre a paróquia de Tendais, no âmbito do centenário da construção da sua igreja matriz (1777-2017) permitiu alcançar um maior conhecimento sobre este território, concelho até 1826. Antes desta obra só em breves notas (Bertino Daciano Guimarães, 1954; Guido de Monterey, 1988; Monografia de Cinfães - vários autores, 2000) havia sido apresentado, intermitentemente, o percurso histórico desta unidade administrativa que mantém, praticamente inalterada, a sua jurisdição desde a Idade Média. A ausência de fontes, por via da destruição compulsiva de património documental, (de que se destaca os acervos outrora depositado nas instituições locais: capitania-mor, câmara municipal, casas senhoriais ligadas à governança, etc.) impedem possa reconstituir-se, com rigor, a trajectória destas comunidades.

A origem de Tendais, um conjunto de aldeias fundadas em redor dos ribeiros dos Prados e da Bestança, deve procurar-se no rescaldo do movimento da Reconquista a que se seguiu um reordenamento territorial com base em presúrias, terras reguengas e outras entregue a nobres e, depois, às casas monásticas. Pela documentação medieval, nomeadamente o primeiro documento que refere «Tendales», de 1109 nota-se a influência regional, primeiro, dos de Ribadouro, prole de Egas Moniz, (a quem uma certa historiografia concede preeminência junto de Afonso Henriques) e, depois, dos Pintos de Riba-Bestança, que tiveram aqui o seu solar, tendo tomado para si o domínio de vastas propriedads e o controle das instituições num vasto território entre o Paiva e o Balsemão.

Pelo século XIII Tendais separou-se da terra de São Salvador, a Norte, também dividida em duas paróquias: São Cristóvão de Nogueira e São João de Cinfães. Esta autonomização ter-se-á devido, talvez, à acção de D. Cristina Rodrigues, ou das Astúrias, mulher de Mem Moniz, irmão do famoso Egas Moniz, dito o Aio, que deixou o seu nome ligado à patrona da nova paróquia, Santa Cristina.

Mas a evolução para o município, tal qual o conhecemos a laborar em plena Idade Média, é lento. Ainda nos séculos XI e XII, a comunidade estava dividida entre o núcleo principal, «o aro», que circundava o promontório do Castêlo (cujo topónimo, e vestígios arqueologicos recolhidos na década de 1930, por Eugénio Jalhay, denunciam fortificação de tipo castrejo) e as aldeias serranas de Aveloso, Macieira e Marcelim inseridas num processo de arroteamento e «humanização» da serra, por nobresque pretendiam delas retirar proveitos. É nesse sentido que surgem cartas de aforamento - documentos que pretendiam regrar a exploração da propriedade e assegurar a estabilidade económica e social dos habitantes locais para que ali permanecessem sobretudo em lugares inóspitos, como Aveloso a 1000 metros de altitude - povoação que no século XVI estava despovoada, como se infere da leitura do foral de D. Manuel I. A municipalização de Tendais construiu-se destruindo este estado de coisas, aglutinando as aldeias honradas de Macieira, Marcelim e Aveloso e incluindo a zona da «Ribeira» com Enxidrô e Vila de Mures.

Em 1258 já se refere o julgado de Tendais e as Inquirições de D. Afonso III indicam o aro e praticamente todas as aldeias que ainda hoje existem: Aveloso, Marcelim, Mourelos, Valverde, Vila de Muros, Meridãos, Macieira, Casais, Sá, Fermentãos, Quinhão- onde se localiza a sede da paróquia - e Soutelo. Exceptuava-se a Granja, «quimta da Granja», como é referida no século XVI, fruto da intervenção dos premonstratenses que, perto, (na Ermida do Paiva) tinham a sua casa-mãe e daí geriam os seus padroados e propriedades, grande parte deles na serra do Montemuro, e em particular, (o caso de Alhões) na cabeceira do vale da Bestança.

A influência monástica era aqui sentida pela existência de foros e foreiros vinculados aos conventos de Paço de Sousa (Marcelim e Meridãos), Ancede, Alpendurada, Salzedas (Meridãos), etc - sendo por isso forte a espiritualidade beneditina e cisterciense - não que tal tivesse influenciado a escolha do orago principal, Santa Cristina, como vimos, mas que poderá ter influído na presença do orago Santíssimo Salvador (em Soutelo) e no de São Pedro Apóstolo - este o patrono de uma ermida num altiplano a mais de 1000 metros de altitude, que se tornou regionalmente um dos principais locais regionais de romagem.

No século XVI o inquérito populacional ordenado por D. João III refere Vila Verde (Valverde) como cabeça de concelho. De facto à semelhança de outros concelhos a sede acompanhou o cargo de juiz ou de capitão-mor, sedeando-se no seu solar, dada a frequente escassez de recursos com que os municípios podiam satisfazer a construção de uma casa comunitária. De resto era em Quinhão que os homens bons se reuniam, fosse no adro ou próximo a alguma árvore simbólica, fosse junto à picota, onde ainda hoje subsistem, muito mal tratados, os vestígios do pelourinho manuelino de Tendais.

Num espaço tão diminuto como era Tendais, a escolha dos elegíveis revolvia-se numa autêntica autofagia, que aumentava à medida que as famílias nobres se consorciavam entre si. Mas os altos níveis de consanguinidade (por estudar) não eram apanágio das famílias terra-tenentes. Fosse por uma necessidade de manter o património indiviso, ou para evitar a fuga de mão-de-obra, durante séculos a população de Tendais foi criando, por uniões legítimas ou ilegítimas, sucessivas gerações em que os indivíduos apresentavam um parentesco, algumas vezes extremamente próximo, entre si. O estudo mais aprofundado deste tema, localmente, poderia, inclusive, lançar luz sobre casos de deficiências congénitas, físicas e mentais que ainda hoje se verificam.

Mas, em meados do século XVIII, a distinção entre categorias sociais é evidente, muito embora se registasse alguma mobilidade social, sobretudo devido às altíssimas taxas de ilegitimidade que ocorrem transversalmente até ao século XX - o que diluiria a distância entre «classes» ocasionando a ascensão de indivíduos de estrato inferior. Sendo extraído de um romance, não podemos deixar de destacar a apreciação que dela fez Abel Botelho em 1888, quando passou por Aveloso e nesta povoação fez situar o seu conto «A Fritada», chamando-lhe «reles freguezia sertaneja, de menos de dois mil habitantes, pola maior parte morigerados nos costumes e regrados no viver» . A narrativa ficcional, mas verosímil, descreve o amor impossível entre uma simples rapariga do povo, Eufrásia, e o filho dos senhores da «Casa branca» de Aveloso, o Joãosinho que, por atavismo ideológico do autor, representa mais uma certa aristocracia que Abel Botelho republicano repudiava. Porém, não sendo morigerada, nem regrada (como vimos os números de ilegítimos são elevadíssimos), houve sempre, na «historiografia» e nas incipientes análises antropológicas locais, a tentativa de fazer passar a ideia de um espaço comunitário cuja organização se aproximava, não ao comunitarismo, mas ao comunismo.

Tal não é, de modo algum verdade, havendo profundas clivagens que se traduziam num clima de conflituosidade ao nível de partilha de espaços, acesso a matérias, ou mesmo tentativas de conquista de espaços simbólicos. Muitos destes casos resultavam em agressividade, ou manifestações conjuntas de repúdio ou desconfiança para com os da comunidade vizinha.

O concelho resistiu até ao ano de 1826, a partir do qual, na sequência da reforma administrativa então operada (que justificava a extinção com o baixo índice populacional), passou a integrar o Concelho (atual Município) de Cinfães. Era, como já vimos, constituído apenas por uma freguesia e paróquia e tinha, em 1801, 1 499 habitantes.

Mas a passagem para o liberalismo e a organização de 1855, que definiu a dimensão actual do município cinfanense, agregando Ferreiros de Tendais e Sanfins da Beira (ver Sanfins (Cinfães) ) não arredou do poder, as elites de Tendais: os «Resende Figueiredo», os «Morgados de Aveloso e Mourelos», ou os «Pinto da Fonseca», etc, que constituíram os novos órgãos decisórios agora transferidos para o pequeno lugarejo de Cinfães - até pela sua condição de maiores contribuintes locais, que os tornava eleitores e elegíveis.

Esta permanência e premência de algumas famílias perdurou até 25 de Abril de 1974, tendo enfraquecido ao longo da III República, quando a influência social destas deu lugar a novos grupos, formados segundo estratégias políticas e partidárias.

Essencialmente conservadora, onde a Igreja tem uma palavra maior, a freguesia aceitou durante mais de 25 anos, o governo do Partido Social Democrata sendo recentemente eleito o primeiro presidente de Junta (independente) com apoio do Partido Socialista.

Paróquia A Paróquia tem como padroeira Santa Cristina, mártir de Bolsena e a igreja matriz, edificada em 1777, está situada no extremo sul do lugar de Quinhão.

Descrição cultural A freguesia e paróquia de Tendais é, assim composta na actualidade por 15 lugares habitados, na sua maioria localizados na margem esquerda do rio Bestança, à excepção do lugar de Soutelo, o único implantado na margem direita daquele curso de água. Tendais não existe enquanto povoação, correspondendo à designação da freguesia que congrega todas as aldeias acima nomeadas.

Com um tipo de povoamento concentrado que caracteriza o curso superior do Vale da Bestança, é a influência do mesmo rio e da Serra do Montemuro, em cujas encostas se implantam, que tem condicionado o carácter das várias aldeias de Tendais.

Região essencialmente rural, os seus habitantes ainda hoje se dedicam na sua maioria a actividades agrícolas (sendo as de maior peso as culturas do milho, do centeio, da batata e da castanha) e pecuárias, com especial destaque para a criação de gado bovino da característica raça arouquesa, a par do chamado "gado miúdo"- ovinos e caprinos.

Não obstante o progresso corrosivo, ainda se observam algumas práticas comunitárias.

Destes, destaca-se a "vigia"- prática (observável ainda em Aveloso, Sá e Casais) de apascentar em rebanho comum todas as cabeças de gado miúdo de uma determinada aldeia ao cuidado diário de cada um dos proprietários em tempo directamente proporcional ao número de animais que possuem-; a "partilha das águas"- engenhoso e antigo sistema de divisão horária das águas de rega provenientes dos afluentes do Rio Bestança, distribuídas por complexos sistemas de levadas, algumas de provável origem medieval, o qual regula a equitativa utilização deste bem no seu período de maior escassez, entre os dias de S. João (24 de Junho) e de S. Miguel (29 de Setembro)-, ou ainda a prática de moagem em moínho de água de uso colectivo, ou de "herdeiros", em que várias famílias partilham entre si, em sequência pré-determinada, o usufruto da moagem em períodos sequenciais ao longo da semana.

Na freguesia situam-se alguns dos lances geomorfológicos da serra de Montemuro, entre os quais se destaca o alto do Perneval - segundo ponto mais alto da Serra do Montemuro com 1278 m de altitude - e o planalto de S. Pedro de Campo, caracterizadas pela presença de vegetação arbustiva pobre e de abundantes afloramentos de blocos graníticos, em geral de grandes dimensões, por vezes com configurações zoomórficas- como os popularmente conhecidos penedos da Cabeça de Cão e da Tromba do Elefante, no termo da freguesia.