A Igreja Católica na China (oficialmente, República Popular da China) é parte da Igreja Católica universal, parcialmente em comunhão com a liderança espiritual do Papa, em Roma, e da Santa Sé, especialmente devido à interferência do governo, por meio da Associação Patriótica Católica Chinesa, instituída desde o governo de Mao Tsé-Tung. O catolicismo chinês consiste basicamente em igreja "patriótica", fiel ao Partido Comunista Chinês, e igreja clandestina, fiel ao Papa, que tem de praticar a fé em sigilo. A questão da liberdade religiosa no país é um tema complexo, já que a Constituição permite garante essa liberdade, proíbe a discriminação, porém, também afirma que o Estado protege "atividades religiosas normais", sem definir o que considera "normal". A lei também proíbe o uso da religião em atividades que "perturbem a ordem pública, prejudiquem a saúde dos cidadãos ou interfiram com o sistema educativo estatal". Além do mais, proíbe que organizações e atividades religiosas estejam "sujeitas a qualquer domínio estrangeiro". A constituição também afirma proteger apenas as cinco religiões oficialmente reconhecidas — Budismo, Taoísmo, Islamismo, Protestantismo e Catolicismo. Há sete "associações patrióticas" estatais que regem essas religiões, e a prática de qualquer religião fora do controle do governo torna-se ilegal, sujeita a punições, repressões e perseguições. O relatório de perseguição religiosa de 2025 da fundação Portas Abertas considerou a China como o 15.º país que mais persegue os cristãos no mundo. A Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre afirma que a situação da liberdade religiosa no país é a pior desde a Revolução Cultural.
Terminologia chinesa O catolicismo é denominado 天主教, transliterado para tiānzhǔ jiào, e que pode ser traduzido para religião do Senhor do Céu.
Os termos usados para se referir a Deus em chinês são diferentes entre os chineses. Ao chegar ao país, o missionário jesuíta fundador das missões católicas, Matteo Ricci, resolveu aprender o conceito chinês das divindades com base na crença do confucionismo, e concluiu que a designação era supersticiosa e imprópria para o conceito católico de Deus; disso veio a decisão de estudar a interpretação das palavras Deus e Céu e suas traduções pelos conceitos filosóficos e teológicos no idioma chinês a fim de expressarem o conceito católico. Inicialmente, Ricci optou pelos termos Seong-tai (上帝, Governador no Alto); T’ien-chü (天主, Senhor do Céu); T’ien-san (天神, Espírito do Céu) e Leng-wan (灵魂, Espírito que vivifica ou dá vida). Os dois primeiros termos citados são os mais usados até a atualidade. Os padres são chamados de shénfu (神父, literalmente pai espiritual).
A transliteração de Cristo no chinês mandarim, utilizada por todos os cristãos, é Jīdū (基督).
História Dinastia Yuan (1271–1368) Os primeiros registos da entrada de missionários europeus católicos na China datam do , quando a China era governada pela dinastia Yuan. Enviado pelo Papa Nicolau IV, o padre franciscano italiano João de Montecorvino chegou a Pequim () em 1294. Em 1299, ele construiu uma igreja em Cambalique e em 1305 uma segunda, desta vez em frente ao Palácio Imperial. Ele estudou e aprendeu a língua chinesa e começou a traduzir, para o chinês, a Bíblia. Também buscou ensinar o latim e o grego a cerca de cento e cinquenta meninos, para cantarem salmos e hinos, formar um coral e despertar vocações sacerdotais. Feliz com os resultados da missão de evangelização, o Papa Clemente V enviou, em 1307, sete bispos franciscanos para consagrar João de Montecorvino como arcebispo de Pequim e Patriarca de Todo o Oriente. Os três que sobreviveram à viagem realizaram esta consagração em 1308, tornando-se também sufragâneos de João. Em 1312, mais três bispos franciscanos foram enviados, mas apenas um conseguiu chegar à China. A missão católica na China, sob a orientação de Montecorvino, conseguiu grande êxito na evangelização no Norte e no Leste da China. Além de três igrejas na região de Pequim, os missionários ainda estabeleceram missões em Formosa e no porto de Xiamen.
Dinastias Ming (1368–1644) e Qing (1644–1911) thumb|left|200px|Matteo Ricci com as suas vestes de um letrado chinês confuciano.
Porém, em 1368, foi implantada a Dinastia Ming e os mongóis foram expulsos da China. Até 1369, todos os cristãos, quer sejam católicos ou orientais, foram expulsos pelos novos governantes Ming. No entanto, seis séculos mais tarde, Montecorvino inspirou um outro franciscano, o Venerável Gabriele Allegra, para ir para a China e completar a primeira tradução da Bíblia católica inteira para a língua chinesa em 1968.
Durante a grande expansão do trabalho missionário em todo o mundo, na altura da Contrarreforma católica, os jesuítas e outros missionários católicos tentaram outra vez entrar na China. Eles tiveram pouco sucesso no início, mas acabou por ter um forte e duradouro impacto na China, especialmente no diálogo e intercâmbio cultural, científico e artístico com os intelectuais chineses e com a corte da dinastia Ming.
Em 23 de janeiro de 1576, o Papa Gregório XIII erigiu a Diocese de Macau, sendo esta a primeira diocese na China, com jurisdição eclesiástica inicial sobre toda a China, a Coreia e o Japão. Estando vinculada ao Padroado português, era sufragânea da Arquidiocese de Goa até 1975, quando ela passou a estar na dependência imediata da Santa Sé. Desde a sua criação, a Diocese de Macau, que era na altura uma colónia portuguesa, teve um papel fundamental na evangelização católica do Extremo Oriente, nomeadamente da China. Foi em Macau que os jesuítas, chefiados por Alessandro Valignano, fundaram o Colégio de São Paulo, que foi a primeira instituição universitária de tipo ocidental no Oriente e em Macau. Valignano chegou a Macau em 1578, depois ao Japão, no ano seguinte; ele faleceu em Macau em 1606. Foi através dele que Matteo Ricci, o apóstolo da China, chegou ao país. Esta instituição tinha por principal objetivo a formação adequada dos missionários destacados ao Extremo Oriente. Esta formação académica e espiritual incluía a aprendizagem das culturas e línguas orientais, como o chinês) e de diversas disciplinas como a literatura chinesa.
A missão católica permanente em Pequim foi criada em 1601 pelos esforços de Matteo Ricci. O seu método de evangelização foi bastante subtil e inteligente: despertou primeiro o interesse do Imperador e dos intelectuais chineses pela ciência e cultura ocidentais, fazendo desse interesse e curiosidade o ponto de abertura para a doutrina católica. Ele também fez tentativas de conciliar o catolicismo com os textos clássicos chineses do confucionismo (uma filosofia que ele estudou profundamente), embora ele fosse hostil, juntamente com os outros jesuítas, ao taoismo e ao budismo.
Ricci morreu em 1610, mas a missão dos jesuítas conseguiu tornar-se numa parte importante da burocracia imperial. Esta importância só acabou no . Em 1644, um jesuíta alemão, Adam Schall von Bell, foi nomeado Presidente do Tribunal das Matemáticas pela nova dinastia Chingue. Este organismo importante era um conselho imperial para matérias científicas, nomeadamente para a organização do calendário chinês, para a previsão de eclipses e para a observação astronómica. O Tribunal das Matemáticas também foi presidido mais tarde por outro jesuíta, o padre Ferdinand Verbiest. Outros jesuítas também foram empregados pela corte imperial como matemáticos, astrónomos, mecânicos, músicos, pintores, fabricantes de instrumentos (principalmente de relógios e mapas), e em outras áreas que exigiam um grau superior de competência técnica. Os jesuítas tiveram também um papel importante na assinatura do Tratado de Nerchinsk (1689), considerado o primeiro tratado subscrito pela China com uma potência da Europa, neste caso com o Império Russo.
Os missionários católicos, nomeadamente os jesuítas, conseguiram estabelecer-se em várias cidades chinesas e converteram muitos chineses: em 1617, a Igreja contava com 13 mil convertidos; em 1650, já conseguiu 150 mil novos convertidos; e de 1650 até 1664, o número de convertidos aproximava-se dos 255 mil. Em 1650, abriu-se a primeira igreja pública em Pequim, cuja construção foi financiada pelo Imperador Shunzhi, que era um grande simpatizante e protector de Adam Schall. Esta igreja, construída no sítio onde esteve a primeira capela de Pequim (construída por Matteo Ricci), tornou-se mais tarde na Catedral da Imaculada Conceição, que é a atual sede da Arquidiocese de Pequim. Em 1692, o Imperador Kangxi publicou o Édito de Tolerância ao Cristianismo, que concedia a liberdade religiosa aos católicos.
thumb|left|300px|Mapa das Dioceses e Vicariatos Apostólicos na China, em 1696. As três dioceses estavam sob a proteção do Padroado português, enquanto que os vicariatos apostólicos estavam sob a supervisão da Propaganda Fide. Devido ao grande dinamismo e crescimento da Igreja chinesa, o Vicariato Apostólico de Nanquim foi erigido em 1659 pelo Papa Alexandre VII, a partir da Diocese de Macau. E, em 1690, o Papa Alexandre VIII promoveu este vicariato a Diocese de Nanquim e, a partir do vicariato apostólico, erigiu a Diocese de Pequim. A partir desta profunda restruturação eclesiástica, o território chinês passou a ser servido e abrangido por 3 dioceses: Nanquim, Pequim e Macau, todas elas vinculadas ao Padroado português e dependentes da Arquidiocese de Goa. Mais tarde, estas dioceses perderam território para constituir novos vicariatos apostólicos.
Até 1622, a missão católica na China estava sob protecção exclusiva de Portugal, ou seja, estava vinculada ao Padroado português. Porém, em 1622, foi fundada em Roma a Congregação de Propaganda Fide, que passou a ser responsável pela coordenação e envio de missionários para terras não conquistadas por europeus. E, em 1659, foram erigidos três vicariatos apostólicos (Tonquim, Cochinchina e Nanquim) a partir da Diocese de Macau, mas todos eles chefiados por missionários franceses da Sociedade para as Missões Estrangeiras de Paris, que era apoiada pela Congregação de Propaganda Fide. Porém, em 1690, o vicariato apostólico de Nanquim foi promovido a Diocese de Nanquim e esta diocese foi novamente vinculada ao Padroado português. O Padroado português sofreu um novo golpe em 1685: o Rei francês Luís XIV começou a proteger e enviar jesuítas franceses para a China, rivalizando com os restantes jesuítas e missionários protegidos por Portugal. Esta crescente rivalidade entre a França e Portugal contribuiu também para a controvérsia dos ritos na China. No , o Padroado português na China, já sucessivamente enfraquecido pelas políticas anti-clericais de Portugal (em 1762 com a supressão da Companhia de Jesus e em 1834 com a extinção das ordens religiosas masculinas), perdeu imensa influência e ficou circunscrito apenas à Diocese de Macau. Por isso, grande parte da evangelização na China passou a ser da responsabilidade dos missionários protegidos por França. Devido às disputas entre o Padroado português e a Congregação de Propaganda Fide, em 1856, as dioceses de Nanquim e de Pequim foram transformadas em vicariatos apostólicos (Kiangnan e Chi-Li Setentrional) e desvinculadas do Padroado português. Em 1890-1891, os missionários alemães na China passaram a ser protegidos pelo Governo alemão, desvinculando-se assim da proteção francesa.
250px|thumb|right|Uma ilustração da missão dos jesuítas na China, mostrando, em cima, o Padre Matteo Ricci (à esquerda), o Padre Adam Schall (no centro) e o Padre Ferdinand Verbiest (à direita); e em baixo, os leigos chineses Xu Guangqi (à esquerda) e Candide Hiu (à direita; era a neta de Xu Guangqi).