O primeiro governo blanco é a denominação dada ao período político do Uruguai entre 1959 e 1962, que ficou assim conhecido em função do predomínio dos representantes da Unión Blanca Democrática (UBD) no Conselho Nacional de Governo.
Em 1958, após 93 anos de governo colorado, a vitória do Partido Nacional concretizava pela primeira vez a possibilidade de mudança dos partidos no poder.
Encerrava-se o período neobatllista (1947-1958), depositário de grandes esperanças e expectativas de desenvolvimento econômico e social, e seguido de um desprestígio geral. A forte liderança de Luis Batlle Berres não conseguiu reverter o acelerado e desgastante processo de fragmentação dentro do coloradismo. Talvez porque nele se concentravam simultaneamente as maiores possibilidades, mas também, paradoxalmente, seus limites: era pólo de grandes atrações, mas ao mesmo tempo, de fortes rechaços.
O batllismo teve de governar um país em que começavam a golpear cada vez com mais força os primeiros sinais de uma crise econômica e social sem precedentes. Se viu cercado não só pela crítica virulente e incisiva realizada pelo nacionalismo e o pujante ruralismo, este último desde Radio Rural e os "cabildos abiertos", mas também por suas próprias filas partidárias. As profundas discrepâncias com o catorcismo, liderado pelos filhos de José Batlle y Ordóñez, se tornaram cada vez mais notórias na última fase da administração batllista, quando ocorreu a ruptura total entre os dois grupos. Isso obrigou o quincismo a governar sem apoio parlamentar, comprometendo gravemente suas possibilidades de levar adiante uma gestão positiva.
Enquanto o Partido Colorado mostrava uma imagem debilitada, causada por uma luta interna de hegemonias, o Partido Nacional aparecia fortalecido na disputa eleitoral com uma proposta unificada, pela incorporação do Nacionalismo Independente, que se havia separado do tronco comum em 1930, e o apoio do Ruralismo. Oferecia aos cidadãos duas opções, à da Unión Blanca Democrática, de tom urbano e principista, e a do herrero-ruralismo, que apelava à representação dos interesses – ainda que não exclusivos – do meio rural.
Em 30 de novembro de 1958, o Nacionalismo alcançou a tão desejada vitória. Essa noite produziu um feito singular. Os primeiros cômputos dos resultados eleitorais faziam pensar na vitória da UBD. Uma grande manifestação de simpatizantes se lançou às ruas a festejar o êxito obtido. Porém, no dia seguinte, à medida que se iam completando os dados provenientes do interior do país, se produziu uma insólita reviravolta: o triunfo correspondia ao herrero-ruralismo, que superou em pouco mais de onze mil votos o ubedismo, absorvendo a diferença de trinta mil votos que a UBD tinha a seu favor em Montevidéu.
Um dos candidatos da UBD ao governo comentaria mais tarde, em tom de brincadeira:
Fim da aliança Uma vez alcançado o triunfo, o Partido Nacional teve de fazer frente a disputas internas que foram desgastando uma unidade que demonstrou estar construída sobre fracas bases políticas.
A aliança herrero-ruralista que alcançou a maioria dos cargos no Conselho Nacional de Governo (Martín Echegoyen, Eduardo Víctor Haedo e Justo Alonso, pelos herreristas; Benito Nardone, Faustino Harrison e Pedro Zabalza pelo ruralismo), se rompeu antes de ocupar o poder. A luta pelos espaços políticos que cada setor deveria ocupar acendeu nos meses de janeiro e fevereiro de 1959. O jornal herrerista El Debate iniciou uma forte campanha contra o ruralismo e seu líder Benito Nardone, em que o qualificava como "intruso", e a seus dirigentes, de "turma sem lema e nem divisa". Aconteceu que a maioria dos que ocuparam o Conselho Nacional de Governo era resultado de uma coalizão entre duas correntes. Por um lado, uma força partidária, o herrerismo, e por outro, uma força gremial lançada recentemente em torno de uma disputa político-partidária e organizada sobre bases independentes.
A situação era complexa para os conselheiros ruralistas, pois não contavam com o apoio de uma representação parlamentar própria, como o tinham o herrerismo ou os conselheiros catorcistas (César Batlle Pacheco) ou quincistas (Ledo Arroyo Torres, Manuel Rodríguez Correa), pertencentes ao Partido Colorado. Isso ficou evidente quando, frente às primeiras desavenças no bloco herrero-ruralista, os deputados e senadores pertencentes à legenda apoiaram o herrerismo, por razões de "disciplina partidária". O ruralismo pode, sem dúvida, reivindicar essas dificuldades ao estabelecer uma aliança com a UBD. A Unión Blanca Democrática estava formada pelo Movimento Popular Nacionalista, liderado por Daniel Fernández Crespo, e o Movimento de Construção Branca, de Washington Beltrán. Enfrentava, também, o herrerismo e, por não ter representação no Conselho Nacional de Governo, oferecia-lhe seu apoio parlamentar. Diante da iminente transmissão de poder em 1 de maio, a aliança de ambos os setores impôs ao herrerismo um acordo sobre a futura integração de entes autônomos, cargos ministeriais, etc.
Insistentes rumores de golpe de Estado precederam a mudança de governo. Registrava-se que alguns chefes militares se opunham à ascensão do Partido Nacional ao poder, já que era incapaz até de formar o gabinete. Dizia-se que, na mesma manhã de 1 de março, teve de se atrasar o desfile militar de saudação às novas autoridades na Casa de Goberno (na praça Independencia) já que não se tinha chegado a um acordo sobre a provisão de alguns ministérios.
A morte de Luis Alberto de Herrera, em 8 de abril de 1959, provocou um profundo impacto nas posições do partido governante, determinando o surgimento de novos realinhamentos nos anos seguintes.
Apesar das distensões produzidas ao longo do período, a orientação política desse primeiro governo blanco esteve nas mãos dos grupos herrero-ruralistas.
Política econômico-social A política econômico-social deste período se caracterizou pela implantação dos primeiros elementos de um modelo econômico liberal e pela desarticulação gradual do modelo batllista. A Lei de Reforma Cambial e Monetária, aprovada em 1959, o anti-industrialismo e o abandono das práticas protecionistas, assim como a promoção da produção agropecuária e a retração do intervencionismo do Estado na esfera econômica, foram os elementos que mais se destacaram no novo governo. Se plantou também a reestruturação do sistema tributário, implantando-se o imposto de renda e suprimindo-se cerca de cinquenta impostos (sobre o consumo, sobre lucros elevados, sobre as sociedades de responsabilidade limitada, etc.). O imposto sobre a renda, principal ponto da reforma tributária do governo blanco, começou a ser aplicado em 1961 com forte oposição dos setores batllistas e do setor empresarial.
Em abril de 1959, inundações gravíssimas afetaram o território uruguaio. Os departamentos do litoral e centro do país foram os mais castigados pelo transbordamento de rios e arroios. Enormes perdas materiais, milhares de pessoas tiveram de ser evacuadas (estimadas em 41 mil, em todo o país), provocaram sérios problemas ao governo recém-instalado. Em 15 de abril, se adotaram as Medidas Prontas de Seguridad, com o objetivo de buscar soluções à catástrofe e assegurar alimentação, abrigo, assistência médica e transporte, de forma mais rápida e efetiva. As "medidas buenas", como foram chamadas, permaneceram enquanto subsistiam as graves sequelas do desastre (seriam revogadas em 23 de junho de 1959), não implicando, como dizia em seu artigo segundo, "nenhuma supressão de garantias que não fosse absolutamente indispensável". Foi constituída uma comissão em favor dos atingidos, e como forma de obter recursos para recuperar os danos causados pelas inundações, foi lançado um empréstimo patriótico (em 2 de abril) e se aprovou uma lei de reparações urgentes (em 23 de julho). O desabastecimento e as restrições energéticas foram alguns dos efeitos negativos que a população uruguaia teve de enfrentar, em consequência das graves inundações. As circunstâncias impuseram a popularização da jornada contínua em oficinas e comércios, que, embora autorizado por um decreto-lei em 1942, sempre teve aplicação efetiva muito restrita.
Durante o período, o retrocesso nas práticas de desenvolvimento social e a emergência de recursos menos equitativos de distribuição, agravados pelo aprofundamento da crise econômica, provocaram uma persistente agitação social. Tornaram-se comuns acusações de infiltração comunista no âmbito sindical e no sistema de ensino. Surgiam grupos de direita, como o Movimento Estudantil de Defesa da Liberdade (MEDL), que protagonizaria um ataque à universidade, em outubro de 1960. Alguns dirigentes do governo pediam maior rigidez na repressão aos conflitos sindicais. Assim como fizera Benito Nardone, em já em 1959, que a partir dos microfones da Radio Rural, condenava a atitude condescendente do ministro do interior, Nicolas Storace Arrosa. Defendia um endurecimento dos procedimentos policiais, um maior controle por parte do governo nas reuniões sindicais e a demissão dos grevistas dos órgãos estatais.
Os contínuos conflitos sindicais, que ocorreram tanto no setor privado como no setor público, provocaram uma dura resposta do governo.
Ante a ameaça da UTE de paralisação dos serviços de energia e de telefonia, o governo reimplantou as Medidas Prontas de Seguridad em agosto de 1959 (revogando no mês seguinte). Por outro lado, se elaboraram projetos de regulamentação do direito de greve. O presidente do Conselho Nacional de Governo assim pronunciou-se a respeito:
E sobre a greve nos serviços públicos:
Em 1960, o diretório do herrerismo se pronunciou a favor da regulamentação sindical. O tema estava no centro do debate nacional quando a Câmara dos Deputados, no início de uma discussão de uma lei sobre ordenamento financeiro, inseriu um projeto naquele sentido, que acabou por ser rejeitado. Os setores de esquerda e batllistas se lhe opuseram, ainda que dentro do nacionalismo não-herrerista surgiam posições mais misturadas.
A crise econômica que havia atingido em princípio os setores mais frágeis da sociedade, chegou aos pecuaristas. O apoio inicial que haviam oferecido a um governo que lhes prometera defender os interesses rurais, foi-se extinguindo. No último ano do governo blanco, houve enfrentamentos com a Federação Rural, de quem o presidente se queixava pelos aumentos nos preços. Em janeiro de 1962, o organismo decidiu "suspender totalmente os pagamentos de compromissos e obrigações fiscais e bancárias com todos os organismos públicos". Essa animosidade crescente teve influência na derrota do herrero-ruralismo nas eleições de 1962 e na vitória de outros setores do Partido Nacional.
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