thumb|upright=2.0|Expansão dos francos 481-870
Os merovíngios foram uma dinastia franca que governou os francos numa região correspondente à antiga Gália, onde estão localizadas atualmente a França, a Bélgica, uma parte da Alemanha e da Suíça.Asimov, Isaac (1968). «3. Llega la oscuridad». La Alta Edad Media. Alianza. p. 75. Governaram da metade do à metade do IX. Seus governantes se envolveram com frequência em guerras civis entre os ramos da família. No último século de domínio merovíngio, a dinastia foi progressivamente empurrada para uma função meramente cerimonial. O domínio merovíngio foi encerrado por um golpe de Estado em 751 quando Pepino o Breve formalmente depôs Quilderico III, dando início à Dinastia Carolíngia.
Eles eram citados às vezes por seus contemporâneos como os "reis de cabelos longos" (em latim reges criniti), por não cortarem simbolicamente os cabelos (tradicionalmente, os líderes tribais dos francos exibiam seus longos cabelos como distinção dos cabelos curtos dos romanos e do clero). O termo "merovíngio" deriva do latim medieval Merovingi ou Merohingi ("filhos de Meroveu"), alteração de uma forma não atestada do baixo franconiano ocidental antigo, relacionada ao nome da dinastia em inglês antigo, Merewīowing,Babcock, Philip (ed). Webster's Third New International Dictionary of the English Language, Unabridged. Springfield, MA: Merriam-Webster, Inc., 1993: 1415 com o final -ing sendo um sufixo típico patronímico. Por descender de Meroveu, a primeira dinastia dos reis francos é denominada Dinastia Merovíngia.
Origens thumb|Tremisse Franca de Ouro, Imitação do tremisse do Império Bizantino, meados do thumb|Moeda de Clotário II, 584-628. Museu Britânico
A partir das migrações germânicas do , os francos estabeleceram seu território no Império Romano, fundando um reino que alcançou a maior longevidade. A dinastia merovíngia é a primeira do Reino Franco, e o fundador desta dinastia é Meroveu, líder dos francos sálios, que tem uma origem semi-lendária, já que se tem poucos registros de sua existência. Foi pai de Quilderico I (457-481) que não teve muito destaque. Os Merovíngios ainda afirmavam ser descendentes dos troianos.
O filho de Quilderico, Clóvis I, é quem inicia a expansão dos francos; ele começou a governar no território da Nêustria, e conseguiu unir sob seu controle a maior parte da Gália ao norte do Loire por volta de 486, quando ele derrotou Siágrio, o governante romano daquela região. Ele também venceu a Batalha de Tolbiac contra os alamanos em 496. Com tantas batalhas ganhas, Clóvis tornou-se, de fato, o rei dos francos (seu pai só governava um reino, o da Bélgica Segunda). Decisivamente derrotou o Reino Visigodo de Tolosa, que era um de seus principais rivais, na Batalha de Vouillé em 507; além de também ter derrotado os Alamanos e os Renanos, e fazer aliança com os Burgúndios para só depois derrotá-los. O imperador bizantino Anastácio reconheceu Clóvis como rei neste mesmo ano, isto não valia muita coisa para os romanos, mas já garantia uma legitimidade do seu governo em todo o território franco, gerando uma unidade. Após a morte de Clóvis, seu reino foi dividido entre seus quatro filhos, ficando divididos na Turíngia (530); Borgonha (534); Provenha (536); Bavária e Suária (555). A tradição da divisão do reino entre os herdeiros continuaria no século seguinte, e essa instabilidade de sucessão entre os herdeiros, marcou caracteristicamente o reino franco.
História esquerda|thumb|Anel com sinete de Quilderico I. Monnaie de Paris Os francos eram um povo pagão, entretanto Clóvis se converte ao cristianismo niceno, graças ao bispo Remígio. Com isso, o reino franco foi se cristianizando aos poucos. Quando Clóvis morreu em 511, o reino merovíngio incluía todos os francos e toda a Gália exceto a Borgonha. O reino, mesmo quando dividido sob diferentes reis, manteve a unidade e conquistou a Borgonha em 534. Após a queda dos ostrogodos, os francos também conquistaram Provença. A partir daí, suas fronteiras com a Itália (governada pelos lombardos desde 568) e com a Septimânia visigoda permaneceram bastante estáveis.Archibald R. Lewis, "The Dukes in the Regnum Francorum, A.D. 550-751." Speculum 51.3 (July 1976, pp. 381-410) p 384.
Internamente, o reino foi dividido entre os filhos de Clóvis. O único filho que sobreviveu foi Clotário I, que governou um grande reino, mas sua sucessão gerou grandes guerras civis. A morte de um rei criava conflitos entre os irmãos sobreviventes e os herdeiros do falecido, com consequências variadas. Depois, os conflitos foram intensificados pelas contendas que tiveram como figura central Brunilda da Austrásia. No entanto, as guerras constantes muitas vezes não se constituíam em devastação geral e tomavam uma característica quase ritual, com 'regras' e normas estabelecidas.Guy Halsall, Warfare and Society in the Barbarian West, 450-900 (Routledge, London, 2003)
thumb|esquerda|Triens de Dagoberto I e Romanos moneyer, Augaune, 629-639, ouro 1,32g. Monnaie de Paris
Finalmente, em 613, Clotário II reuniu todo o reino franco sob um único rei. Divisões posteriores produziram as unidas estáveis da Austrásia, Nêustria, Borgonha e Aquitânia.
As guerras frequentes enfraqueceram o poder real, enquanto a aristocracia lucrava e adquiria enormes concessões dos reis em troca de seu apoio. Estas concessões viram o poder absoluto do rei ser dividido e entregue aos principais comites e duces (condes e duques).
O filho de Clotário II, Dagoberto I (morto em 639), que enviou tropas à Península Ibérica e aos territórios eslavos pagãos no leste, é geralmente visto como o último rei merovíngio poderoso. Depois dele, a tendência é que a dinastia entre em declínio. Os reis que o sucederam são conhecidos como rois fainéants ("reis preguiçosos", "reis que nada fazem. Os reis, mesmo os voluntariosos como Dagoberto II e Quilperico II, não eram os principais agentes dos conflitos políticos, começando a surgir agora as aristocracias locais, deixando esta função para seus prefeitos do palácio, que progressivamente substituíram os interesses dos seus reis pelos seus.
Muitos reis chegaram ao trono muito jovens e morreram no verdor dos anos, enfraquecendo ainda mais o poder real. Isto fez com que a galeria de reis merovíngios também fosse ocupada por mulheres esposas ou viúvas dos reis, que mantinham o poder juntamente com os prefeitos de Palácio enquanto seus filhos ainda não tinham idade para governar. A sucessão tinha um caráter sagrado, para ser rei era preciso ser descendente de Meroveu, por isso o povo até aceitava um rei que "não fizesse nada".
O prefeito do Palácio agia como uma forma de primeiro-ministro, sendo chefe da administração no território que comandava, de forma quase que independente; por isso que os reis assumiram uma figura de ociosidade. O conflito entre os prefeitos terminou quando os austrasianos sob Pepino de Herstal triunfaram em 687 na batalha de Tertry. A partir daí, Pepino, mesmo não sendo rei, era o governante político do reino franco e legou esta posição como herança a seus filhos. Agora eram os filhos do prefeito que dividiam o reino entre eles sob um rei único.
Território Após a morte de Dagoberto o território franco não seria mais unificado; sempre haveria diferentes reis na Nêustria, Austrásia, Borgonha, Aquitânia. O historiador Jean Favier afirma que "em 263 anos, só durante 72 anos os merovíngios conheceram um reino dos francos que tinham à frente um único rei."
A Nêustria foi o primeiro território conquistado pelos Merovíngios, Clóvis a dominou no ano de 486. Com Dagoberto ela torna-se, de fato, um reino; e após sua morte ganham destaques os grandes senhores e ganha destaque pelo seu embate com a Austrásia. Com a morte de Carlos Martel, ela deixa de existir enquanto entidade política.
A Aquitânia virou um ducado do reino franco, mas o seu duque era praticamente independente, reforçando a ideia das administrações locais.
Já a Borgonha era unida à Austrásia, mas foi um período de conflitos, então ela firmou seu território no ano de 613.
Sem muita importância no começo do reino franco, a Austrásia teve grande destaque a partir do final do , principalmente pelos seus reis quererem ter uma hegemonia sobre todo o reino franco. Embora com seu próprio palácio, a Austrásia não deixou de fazer parte do reino franco. Mas foi neste território que surgiu a figura de Pepino, causando a futura decadência da dinastia.
Decadência A sequência de reis que não governava só fazia crescer cada vez mais, e os prefeitos do Palácio assumiam grande força política. Com a morte de Quilperico II, Teodorico IV assume o reino mas fica em um posto totalmente ocioso, dando espaço para total controle do prefeito do Palácio.
Após o longo governo de Pepino de Herstal, seu filho Carlos Martel assumiu o poder, lutando contra a nobreza e contra sua própria madrasta. Sua reputação de crueldade tornou questionável sua posição de prefeito. Durante os últimos anos de sua vida ele até mesmo governou sem um rei, apesar de não ter assumido a dignidade real. Seus filhos Carlomano e Pepino novamente nomearam um rei merovíngio (Quilderico III) para sanar rebeliões na periferia do reino. Carlomano logo saiu do poder e Pepino ficou à frente da administração de todo o reino.
Mas em 751, Pepino, o Breve finalmente destronou o último rei merovíngio. Mandou uma carta para o papa Zacarias para perguntar se quem merecia o título de rei era quem tinha o título ou quem detinha o poder. Então, com o apoio da nobreza e a bênção do papa Zacarias, assumiu o título de rei dos francos. O rei merovíngio deposto foi enviado a um monastério, sendo despojado de seus simbólicos cabelos longos. Com Pepino, os carolíngios passaram a governar os francos como reis e a dinastia Merovíngia chegou ao fim.
Governo e lei thumb|esquerda|Reinos merovíngios thumb|Antiga basílica merovíngia em Metz, capital do reino da Austrásia O rei merovíngio era o senhor dos espólios de guerra, responsável pela redistribuição das riquezas conquistadas entre seus seguidores, apesar de estes poderes não serem absolutos. "Quando ele morria, suas propriedades eram divididas igualmente entre seus herdeiros como se fosse propriedade privada: o reino era uma forma de patrimônio."Rouche 1987, p. 420 Alguns acadêmicos atribuem isso à falta de senso merovíngia de res publica, mas outros historiadores criticam este ponto de vista como uma simplificação demasiada.
O rei indicava magnatas para serem condes, incumbindo-os da defesa, administração e do julgamento de disputas. Isto acontecia contra o pano de fundo de uma Europa recentemente isolada, sem os sistemas romanos de impostos e burocracia, que os francos foram empregando em sua administração à medida que penetravam nas regiões completamente romanizadas do oeste e sul da Gália. Os condes tinham que fornecer exércitos, alistando suas milites e doando-lhes terras no seu retorno. Estes exércitos estavam submetidos ao chamado do rei por apoio militar. Havia assembleias nacionais anuais dos nobres do reino e seus exércitos onde decidia-se as principais políticas de guerra. O exército também aclamava os novos reis, erguendo-os sobre seus escudos em continuação a uma antiga prática que fazia do rei o líder do bando guerreiro. Além disso, esperava-se que o rei se mantivesse com os produtos de seus próprios domínios (royal demesne), o que era chamado de fisc. Este sistema evoluiu gradualmente para o feudalismo, e as expectativas da auto-suficiência real duraram até a Guerra dos Cem Anos. O comércio declinou com a queda do Império Romano e as propriedades agrícolas eram em sua maioria auto-suficientes. O comércio internacional que persistiu era dominado por mercadores do Oriente Médio.