thumb|150px|Vênus de Dolní Věstonice Estabelecimento Como espécie humana, descendemos primariamente de um pequeno grupo moderno da família Homo, que apareceu na África há mais de 200 mil anos atrás. Uma população muito bem sucedida que se expandiu para os cinturões tropicais da Ásia e Austrália e depois, há cerca de 50-30 mil anos atrás, seguiu para o que era o cinturão frio e seco da Europa e norte da Ásia. Nesse processo, eles não encontraram apenas o rigoroso frio que permeava a região, mas também os Neandertais (Homo neanderthalensis).SVOBODA, Jiří: Dolní Věstonice - Pavlov: Place: South Moravia; Time: 30 Thousand Years Ago. 1ª edição, Mikulov, República Checa. Museu Regional de Mikulov, 2010

Quem percorre a paisagem ao norte de Danúbio em direção à Porta Morávia, se depara com os impressionantes montes de Pálava. Os sítios arqueológicos e antropológicos de Dolní Věstonice ficam na encosta dos morros e constituem uma das zonas mais importantes para o povoamento inicial na Europa do Homo sapiens moderno. Sob os depósitos de calcário, encontram-se os contornos do povoamento, fogueiras domésticas, restos de oficinas de produção e restos de ossos de animais mortos para consumo. Dentre os achados mais notáveis estão os esqueletos das próprias pessoas, evidências de novas tecnologias utilizadas pela primeira vez neste sítio e objetos artísticos que evidenciam a sensibilidade estética do povoado.

História e contextualização Dolní Věstonice está predominantemente associada ao que se refere ao sítio I, que ficou famoso a partir das escavações de Karel Absolon, e é onde o artefato mais notável da região foi encontrado, a Vênus de Věstonice. No conceito de Absolon, as encostas dos montes de Pálava eram na realidade um mega-assentamento gigante. Hoje em dia, nas áreas de Dolní Věstonice , Pavlov e Milovice, são diferenciadas estruturas de assentamentos Gravetianos, aproximadamente da mesma idade e conectados internamente de acordo com algum tipo de funcionalidade.

Aproximadamente em 1659, foram encontradas referências periódicas a enormes ossos perto de Mikulov, e há aproximadamente um século atrás foram encontrados apenas pequenos ossos e “facas” ou “flechas” de pedra nos sítios abaixo dos morros de Pálava. Nesse momento já estavam acontecendo grandes projetos de escavação em Moravia no sítio de Predmostí e em diversas cavernas Moravianas.

As escavações em Dolní Věstonice começaram em 1924 e foram lideradas por Karel Absolon, que conduziu uma pesquisa sistemática a cada ano em nome da instituição Tchecoslovaca, o Museu Provincial Moraviano. Absolon impressionou o mundo todo com uma série de achados únicos até 1938, quando Dolní Věstonice foi ocupada pelo exército alemão.

Os achados da Vênus (em 1925) não impressionam apenas pela beleza, mas também a tecnologia de sua produção, o conhecimento sobre a queima da cerâmica em momentos tão profundos na história humana. Junto da peça também foram encontradas diversas cerâmicas representando humanos e animais, além de outras miniaturas simbólicas cravadas a partir de presas de mamute. Absolon publicou suas descobertas na imprensa Tcheca e na estrangeira, e apresentou ao público na íntegra através da feira de Brno, como parte da exibição especial chamada “Anthropos”. A concepção de toda a mostra por Absolon era inovadora: não era apenas uma coleção de rochas e figuras, mas sim uma reconstrução da vida dentro de assentamentos pré-históricos e de seus habitantes. Dessa forma, Karel Absolon fundamentou as bases para a paleoetnologia Moraviana.

Durante o período da Guerra, muitas descobertas únicas, especialmente restos de esqueletos humanos foram levados para o castelo de Mikulov para armazenamento, mas foram destruídos quando o castelo foi queimado no final da Guerra.

Depois, a pesquisa foi expandida para os novos sitios Pavlov I e II. Uma nova coleção foi organizada com objetos artísticos menores e ornamentos junto dos primeiros enterros ritualísticos de homens e mulheres.

Até aquele momento, a escavação sob os montes de Pálava haviam sido sistematicamente e cientificamente planejados, mas nos anos 80 a situação mudou. Quando os lagos artificiais estavam sendo construídos no rio Dyje no pé das encostas, o material foi retirado dos montes e levado a dois novos sítios, que receberam os nomes de Dolní Věstonice II e Milovice I. Isso fez com que os arqueólogos estivessem sob grandes pressões de tempo, e assim juntassem forças para concluir as escavações no local. E assim os esforços dos arqueólogos levaram à descoberta em 1986 de um sepultamento triplo, e um ano depois o sepultamento de um homem.

Em 1995, um novo Centro de Paleontologia Paleolítica foi fundado no Instituto Arqueológico da Academia das Ciências da República Tcheca próximo ao sítio original de Dolní Věstonice. O centro continuou as pesquisas em sitios recentemente descobertos na região (Dolní Věstonice II, IIa, III, Pavlov II, VI e Milovice IV). As camadas da cultura gravetiana continuam a ser descobertas e ameaçadas pelo desenvolvimento, construção de esgotos, trabalho no terreno e acidentes, como quando uma rodovia colapsou sob um assentamento em Milovice em 2009.

O desenvolvimento da ciência e aplicação de novos métodos científicos requer que sítios sejam reabertos para que novas amostras sejam retiradas e estudadas.

Descobertas feitas no local desde 1994 estão sendo publicadas como parte da série interdisciplinar The Dolní Věstonice Studies, que até agora consiste em 17 volumes. Em 1979 o Museu Regional de Mikulov organizou uma exposição para apresentar as descobertas ao público. Essa exposição foi extensamente reorganizada em 1997.

Sítios de pesquisa

Dolní Věstonice I (sítio de Absolon): Complexo de povoações gravettianas e depósitos de ossos de mamute situa-se numa longa encosta na parte mais oriental do cadastro da aldeia, pelo que os primeiros relatórios sobre eles falam sobre a localização na povoação vizinha de Pavlov. Nas partes média e alta distinguiram-se unidades de povoamento independentes (cabanas). Elevação: 200-235 metros acima do nível do mar. Investigação: 1924-1938 Karel Absolon; 1939-1942 Assien Bohmers;1945-1946 Karel Žebera com um coletivo; 1947-1952, 1966, 1971-1979 Bohuslav Klíma; 1990, 1993 Jiří Svoboda. Dolní Věstonice II (Cihelna, Nad cihelnou, Pod lesem): Complexo de povoações Gravettianas no limite oriental da aldeia, que se estende desde o "Calendário dos tempos", sobre o terreno em socalcos da crista e da encosta ocidental e a encosta ocidental até ao campo abaixo da floresta (localidade IIa). Nesta zona, existem habitações individuais (cabanas), e no barranco ao lado há um depósito de ossos de mamute (uma das unidades de habitação data evidentemente do Aurignaciano tardio). Altitude: 200-250 m. Investigação: 1959-1960, 1985-1988 Bohuslav Klíma; 1985- 1991, 1999, 2005 Jiří Svoboda. Dolní Věstonice III (Rajny): Unidades individuais de povoamento Gravettiano (e a camada subjacente evidentemente Aurignaciana) situadas numa encosta íngreme com vinha entre as localidades I e II. Os achados de superfície continuam no campo até ao bosque (evidentemente Aurignaciano). Altitude: 215-290 m. Investigação: Bohuslav Klíma, 1993 Jiří Svoboda, 1994-1995 P. Škrdla. Pavlov I: Povoação gravettiana intensamente habitada com duas grandes concentrações, no campo a oeste adjacente à aldeia. As unidades de povoamento (cabanas) sobrepõem-se principalmente na parte sudeste, onde os seus traçados formam um palimpsesto de difícil leitura. Altitude: 190-205 m. Investigação: 1952-1965, 1971-1972 Bohuslav Klíma. Pavlov II: Pequeno povoado gravetiano no limite oriental da aldeia, hoje se constrói gradualmente casas de família. Elevação: 205-215 m. Investigação: 1966-1967 Bohuslav Klíma; 2009 Jiří Svoboda. Pavlov III: Ferramentas de pedra Gravetiana dispersas e ossos da parede do antigo poço de argila, agora coberto, ao longo da estrada de Pavlov para Milovice. Elevação: 180 m. Výzkum: 1966, 1977-1980 Bohuslav Klíma. Pavlov IV: Achados à superfície de utensílios de pedra no vale ao longo do limite sudeste da povoação. Elevação: 210-250 m. Investigação de superfície em curso. Pavlov V (D􀄌vičky): Achados de superfície de ferramentas de pedra abaixo do castelo. Elevação de cerca de 360 m. Pesquisa de superfície em curso. Pavlov VI: Unidade de povoamento gravettiano isolada e completamente preservada no limite oriental da aldeia, junto à estrada para Milovice. Elevação: 215 m. Pesquisa: 2007 Jiří Svoboda. Milovice I (Mikulovsko): Complexo de assentamento e depósitos de ossos de mamute no vale a sul da povoação ao longo da representação gráfica das colinas de Pálava e a posição de vários sitios em Dolní Věstonice, Pavlov e a estrada para Mikulov. Abaixo do Gravettiano encontra-se uma camada discreta de Aurignaciano. Elevação: 230-240 m. Investigação: Bohuslav Klíma, 1986-1991 Martin Oliva. Milovice II (Waldfl eck, Marktsteig): Achados superficiais de ferramentas de pedra no pequeno cume a norte do sítio I. Elevação: 220 m. Investigação de superfície em curso. Milovice III (Brn􀄌nský, Strážný Hill): Achados isolados. Elevação: 220-265 m. Investigação de superfície em curso. Milovice IV (no interior da povoação): Evidentemente, uma grande povoação gravettiana sob a aldeia atual. Elevação: 180 m. Pesquisa: 2009 Jiří Svoboda.

Paisagem durante a era do gelo Análises paleobotânicas de carvão e grãos de pólen mostraram que durante a era no auge de Dolní Věstonice as condições climáticas não eram tão drasticamente frias e secas como esperado inicialmente. Provavelmente as primeiras ondas quentes na Era do Gelo que permitiram as migrações dos Homo sapiens modernos a adentrar a Europa e que estes formassem sua cultura. As grandes camadas de gelo glacial temporariamente ficaram ao norte na Escandinávia e ao sul pelos Alpes, e assim as áreas abertas de estepe e tundra foram quebradas por ilhas e até cinturões compactos de florestas. A enchente temporária, que partia do Rio Dyje, era delineada por povoamentos de amieiros e salgueiros; as encostas dos montes de Pálava foram colonizadas por abetos, lariços e pinheiros, deixando apenas o cume de Devín e a planície de Stolová desprotegidos, altos sobre o terreno que os rodeavam. Os montes e encostas do monte de Pálava se tornaram abrigos para árvores como carvalho, faia e até mesmo teixos. Conchas de moluscos também ressaltam os aspectos frios desse clima.

Alimentação A ocupação das terras baixas do Danúbio foram motivadas pela grande quantidade de animais do local. Enquanto grandes predadores, como leões, hienas e ursos competiam com os caçadores e precisavam ser afastados, existe evidência de consumo de pequenos animais, como lebre, passarinhos e peixes, ou até lobos raposas para o uso da pele para roupas e abrigos, porém a principal fonte de alimentação eram grandes animais da estepe, como rinocerontes, bisões, renas, cavalos e mamutes.

Não existem evidências diretas para o consumo de plantas, mas a disponibilidade delas na região e a necessidade de alimentar crianças pequenas, também como a impossibilidade de uma nutrição somente de carne, fazem pensar que elas faziam parte da dieta.

Os mamutes ocupavam uma parte especial da vida desses humanos. A caça desses animais consistia em separar indivíduos jovens do rebanho, encurralar e matar nas ravinas nas colinas de Pálava, seus resquícios eram depositados em vales pantanosos ou lagos para sua preservação quando a água congelava, podendo acumular ossada entre 12 a mais de 100 mamutes. Eles eram frequentemente retratados em pinturas em cavernas e esculturas de argila e marfim.

Materiais As armas de caça eram feitas principalmente de marfim de mamutes e às vezes de ossos. Foram encontrados muitos fragmentos de prováveis lanças, a principal arma do começo do paleolítico, e pequenos projetos que não estragariam a pelagem ou para serem utilizados em animais pequenos. Alguns vestígios sugerem o uso de arco e flecha e redes para captura.