Júlio Augusto Henriques (Arco de Baúlhe (Cabeceiras de Basto), 15 de Janeiro de 1838 — Coimbra, 7 de Maio de 1928), mais conhecido por Júlio Henriques, foi um botânico, micólogo, pteridólogo e algólogo, professor na Universidade de Coimbra, onde foi o grande impulsionador da introdução dos modernos estudos botânicos em Portugal. Fundou a Sociedade Broteriana e desenvolveu e consolidou o Herbário da Universidade de Coimbra e o Jardim Botânico de Coimbra.Júlio Henriques: o ilustre botânico. Realizou extensas expedições botânicas em Portugal, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.JSTOR: "Henriques, Julio Augusto (1838-1928)".Rui Teles Palhinha (1949). "Júlio Henriques: Botânico e Mestre (Esboço Biográfico)". Portugaliae Acta Biologica, Volume Júlio Henriques, V-XXXV.Natacha Catarina Perpétuo et al., "O contributo de Júlio Henriques para o conhecimento da diversidade vegetal de São Tomé e Príncipe". In: Actas do Colóquio Internacional São Tomé e Príncipe numa perspectiva interdisciplinar, diacrónica e sincrónica (2012), pp. 611-631. Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), Centro de Estudos Africanos (CEA-IUL), Lisboa, 2012 (ISBN: 978-989-732-089-7). Na extensa rede científica que estabeleceu, participaram como colectores naturalistas e amadores de múltiplas regiões portuguesas e das colónias africanas, bem como cientistas de toda a Europa.Aurélio Pereira da Silva Quintanilha, Luiz Wittnich Carrisso (editores), "Júlio Augusto Henriques", Boletim da Sociedade Broteriana, vol. 15, Coimbra, 1943. Biografia Júlio Augusto Henriques nasceu no concelho de Cabeceiras de Basto, filho de António Bernardino Henriques e Maria Joaquina. Completados os estudos primários na sua vila natal, em 1854, foi para Coimbra, completar o ensino secundário e fazer os preparatórios para ingressar na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.Jorge Guimarães, "Henriques, Júlio Augusto, 1838-1928". Biblioteca Digital de Botânica: Universidade de Coimbra, 2008.

Foi admitido como aluno interno no Colégio de São Bento, ao tempo a funcionar no edifício onde hoje se encontra o Departamento de Ciências da Vida (anterior departamento de Botânica) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, onde lhe foi destinado um quarto, que veio a conservar como local de trabalho até falecer.

A 10 de setembro de 1855 matriculou-se na Faculdade de Direito, tendo concluído o bacharelato em Direito em 22 de Junho de 1859. Complementou a sua formação com a frequência de uma especialização em Direito Administrativo, que lhe seria útil na execução de tarefas de gestão inerentes os vários cargos de gestão universitária de que se ocupou ao longo da vida.

Apesar de formado em Direito, optou por não exercer advocacia e iniciou um percurso que o levaria às ciências da natureza. Como ao tempo o currículo do curso de Direito incluía as cadeiras de Química, Física, Mineralogia, Zoologia, Botânica e Agricultura, ministradas da Faculdade de Filosofia, o interesse que já detinha por estas matérias cresceu ao ponto de em 1861 reingressar na Universidade de Coimbra, agora visando uma formação na área das ciências exactas, ou, como ao tempo estas eram designadas, em Filosofia Natural.

Com esse objectivo, a 10 de Julho de 1861, matriculou-se no curso de Matemática, mas, poucos meses depois, a 25 de Outubro de 1861, formalizou nova matricula, ingressando na Faculdade de Filosofia, que então ministrava as disciplinas da área da História Natural, onde conclui o bacharelato a 12 de Julho de 1864.

Interessou-se especialmente pela Botânica e, sob a orientação do professor António de Carvalho e Vasconcelos, optou por continuar os estudos nesta área, concluindo a licenciatura em Filosofia, que ao tempo incluía as Ciências da Natureza, em 26 de Junho de 1865. Nesse mesmo ano completou a sua formação académica obtendo em 30 de Julho de 1865 o grau de Doutor em Filosofia com a aprovação de uma dissertação intitulada «As espécies são mutáveis?».Júlio Henriques, As espécies são mutáveis?. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1865.Bento Cavadas, "O darwinismo nos manuais escolares portugueses de Zoologia (1859-1909)". Caderno de Investigação Aplicada, 2009, 3, pp. 63-95. Júlio Henriques defendeu a sua dissertação de doutoramento apenas seis anos após a publicação da obra de Charles Darwin, podendo ser considerado o primeiro darwinista na conservadora comunidade académica portuguesa.Ana Leonor Pereira et al. (2007). A Natureza, as suas Histórias e os seus Caminhos. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra. A admiração por Charles Darwin esteve presente em toda a sua carreira.Henriques, Júlio (1882). "Charles Darwin". Jornal de Horticultura Pratica, volume XIII. Porto, pp. 41-44.

No ano imediato, 1866, concorreu a um lugar de lente substituto extraordinário da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra apresentando como dissertação para o concurso a tese intitulada «Antiguidade do Homem».Júlio Henriques, Antiguidade do Homem. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1866.

Esta obra de Júlio Henriques, que acabaria por ser bem recebida nos meios académicos portugueses, está concebida numa perspectiva da antropologia física, analisando as evidências fósseis e arqueológicas relevantes para o estudo da evolução humana então conhecidas. A abordagem segue uma linha ecológica, analisando o enquadramento da espécie Homo sapiens face ao que se conhecia dos paleoambientes associados à presença humana, defendendo as teorias evolucionistas das espécies. Esta abordagem, inovadora no contexto do ensino da Zoologia então corrente em Portugal, afasta-se do Criacionismo e Fixismo estão dominantes e introduz em Portugal a problemática da evolução do homem. De forma corajosa e em claro contraponto com as crenças religiosas ao tempo arreigadas, depois de passar em revista os principais achados arqueo-antropológicos na Europa defendeu que à origem do homem era aplicável a teoria da transformação, «tão conforme ao plano geral da organização dos seres vivos e aos factos paleontológicos».José M. Brandão, "Dois Likes de Darwin aos Trabalhos de Carlos Ribeiro : ainda a questão do Homem do Terciário". In: História da Arqueologia Portuguesa, II Série (18), Tomo 1, julho de 2013.

Admitido em 1866 como assistente eventual, foi nomeado em 1869 lente substituto extraordinário das cadeiras de Botânica e Agricultura, Zoologia, Química e Mineralogia da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra, iniciando assim a sua carreira docente. Leccionou em 1872, pela primeira vez como lente, a cadeira de Botânica, iniciando o seu percurso no ramo da Biologia em que desenvolveria a sua carreira científica e docente.

Na década de 1860, em que Júlio Henriques ingressou na Universidade de Coimbra, primeiro como aluno e depois como docente, aquela instituição, mas em particular a sua Faculdade de Filosofia, passavam por um tempo de crise, prelúdio de grandes mutações e profundas reformas educativas. A Faculdade de Filosofia, que ainda tinha no seu âmbito o ensino das ciências naturais, com destaque para a Biologia e a Geologia, tinha perdido o prestígio que em tempos tivera e a qualidade do seu ensino era percebida como tendo decaído. Os seus docentes procuravam retirar a Faculdade da a condição precária em que vivia e renovar os métodos de ensino, visando a elevação do ensino teórico e da criação de laboratórios, mas a falta de apoio financeiro do estado constituía um entrave aparentemente inultrapassável.

No caso da Botânica, área em que o prestígio da instituição vinha decaindo desde os tempos de Avelar Brotero, o seu ensino não era levada a sério em Portugal e desde os tempos daquele pioneiro que pouco ou nada se tinha feita em prol do seu ensino e estudo. A Universidade não tinha um museu botânico, não dispunha de laboratórios, os herbários não estavam organizados, nem havia uma biblioteca especializada de botânica, faltando em absoluto as condições para um ensino digno da ciência.

O professor de Botânica, orientador de Júlio Henriques, que o viria a suceder no cargo, era o doutor António de Carvalho e Vasconcelos, que viria a falecer em 1873, aos 46 anos de idade, após doença prolongada. Este professor, apesar de não ser considerado um bom botânico, favorecia o clima de mudança na instituição e era um excelente pedagogo, capaz de incentivar os seus alunos e de apoiar o seu estudo. Estas características pedagógicas influenciaram Júlio Henriques, que com ele colaborou estreitamente, já que este quando o sucedeu no cargo foi um docente sempre prestável para com todos os alunos e um guia incondicional para quem mostrasse interesse e vontade de trabalhar.

Entre 1866 e 1873, ano do falecimento do seu antecessor na cátedra, Júlio Henriques exerceu o cargo de Secretário da Faculdade de Filosofia, ao mesmo tempo que auxiliava no ensino das cadeiras de Filosofia Natural, particularmente quando a doença do lente titular se agravou. Neste período os seus interesses em matéria de investigação foram gravitando para o estudo das plantas das regiões tropicais e a sua aclimatação a cultura, especialmente no caso daquelas que tinham interesse agrícola nas possessões portuguesas em África.

Este interesse pela agricultura colonial acompanharia Júlio Henriques ao longo de toda a sua carreira. Em consequência, produziu várias publicações visando apoiar os agricultores ultramarinos, entre as quais Agricultura colonial, meios para a fazer progredir e Instruções práticas para a cultura das plantas que dão a quina.

Em 17 de Janeiro de 1873 foi nomeado lente catedrático da Faculdade de Filosofia e o Conselho da Faculdade entregou-lhe a regência da cadeira de Botânica e Agricultura e, posteriormente, a direcção do Jardim Botânico.

Entretanto, o Colégio de São Bento fora extinto, permitindo a ampliação da Faculdade de Filosofia, que tomou para si grande parte das instalações. Júlio Henriques, que ali residira enquanto estudante, instalara-se no edifício, o que lhe permitiu um mais apropriado espaço de trabalho para pôr em marcha o conjunto de reformas por ele proposto, baseadas em modelos de instituições botânicas de referência na Europa, que nas décadas seguintes transformariam o Instituto Botânico da Universidade de Coimbra numa das mais proeminentes instituições do género. Em poucos anos, a secção universitária dirigida por Júlio Henriques encontrava-se suficientemente habilitada para constituir-se como centro propulsor e orientador dos estudos de Botânica em Portugal.

Sob a sua direcção, o Jardim Botânico de Coimbra passa a ser o centro da investigação botânica e local de ensaio agronómico, dedicando-se ao estudo e cultivo de plantas com interesse agrícola nas regiões tropicais, visando o aproveitamento das potencialidades agrícolas das colónias portuguesas em África. Durante as quatro décadas em que dirigiu o Jardim Botânico de Coimbra, milhares de plantas com interesse para a agricultura colonial nasceram e foram criadas nas suas estufas e enviadas para as colónias, nomeadamente para Angola e para a ilha de São Tomé.