A história da aviação nos Açores inscreve-se na história da aviação em Portugal.
Encontrando-se o arquipélago dos Açores em posição estratégica no oceano Atlântico, entre a Europa e a América do Norte, assumiu papel fundamental desde o início da navegação aérea transatlântica.
A Primeira Guerra Mundial thumb|250px|A "1st. U.S. Aeronautical Company" em Ponta Delgada (21 de janeiro de 1918), uma das primeiras unidades completamente equipadas da aviação dos EUA a operar além-mar durante a Primeira Guerra. thumb|250px|O Curtiss NC-3, um dos três hidroaviões sob o comando de Read, em Ponta Delgada (19 de maio de 1919). thumb|250px|O Amiot 123 de Idzikowski-Kubala (1929). thumb|250px|Savoia-Marchetti S-55. thumb|250px|Dornier J "Wal". thumb|250px|O Lockheed 8 Sirius "Tingmissartog", de Charles e Anne Morrow Lindbergh. thumb|250px|Boeing 314 Clipper "Flying Boat".
No contexto da Primeira Guerra Mundial a cidade da Horta, na ilha do Faial, sofreu bombardeamento por parte do Império Alemão (dezembro de 1916). No ano seguinte, a cidade de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, foi bombardeada pelo "Deutschland ", um submarino alemão classe U-155 (4 de julho de 1917).
Desse modo, já em 1918, tendo os Estados Unidos ingressado no conflito, Ponta Delgada recebeu uma base aeronaval da US Navy, guarnecida pela 1st. Marine Aeronautical Company (150 homens), e equipada com 2 peças de artilharia de costa, navios, submarinos e 12 hidroaviões Curtiss HS2L, com a missão de patrulhamento anti-submarino: identificar e combater os U-Boots da Marinha da Alemanha que incursionavam em águas do arquipélago. Os aparelhos chegaram a Ponta Delgada no navio-transporte "USS Hancock" no dia 23 de janeiro de 1918, e foram montados na rampa do Corpo Santo, junto ao Forte de São Brás. As primeiras aeronaves levantaram voo a 16 de fevereiro, embora outras fontes afirmem ter sido no dia 23 de fevereiro."Os pioneiros da aviação na História dos Açores…" Correio dos Açores, 4 abr 2010. Consultado em 26 abr 2011. O público pôde testemunhar a experiência ao assistir, no Coliseu Avenida, à projeção das imagens filmadas pelo tenente Matson C. Terry durante um voo de reconhecimento. Com a assinatura do Armistício (11 de novembro de 1918) deu-se início ao processo gradual de desmobilização da Base Naval Americana, comandada pelo almirante Omar Herbert Dunn.
Ainda no contexto do conflito, e nos anos subsequentes, a Marinha Portuguesa projetou instalar na Horta um Centro Aero-Naval, que nunca se concretizou. Do mesmo modo, em 1919, a Real Força Aérea britânica projetou adquirir uma ilha nos Açores, para instalação de uma base terrestre para apoio às operações aéreas no meio do Atlântico.
O período entre-Guerras Nesse período, uma verdadeira corrida pela travessia aérea do Atlântico teve lugar, graças ao incentivo de periódicos como o londrino Daily Mail, que promoveu um concurso com um prémio de dez mil libras esterlinas ao aviador que conseguisse fazer o primeiro voo sem escalas, em menos de 72 horas, entre os Estados Unidos, o Canadá, ou a Terra Nova e as Ilhas Britânicas.
Nesse contexto, uma esquadrilha de três hidroaviões quadrimotor da Marinha dos Estados Unidos tentou fazer a primeira travessia do Atlântico Norte, por etapas. Para esse fim, partiu de Nova Iorque para a Terra Nova, de 16 para 17 de maio de 1919. Duas das aeronaves (NC1 e NC2) necessitaram fazer uma amaragem de emergência na altura da ilha das Flores. A NC1 acabou por ficar completamente danificada e a NC2 logrou alcançar o porto de Ponta Delgada, a 19 de maio, mas estava incapacitada para prosseguir o voo. Apenas a NC4, batizada como "Liberty", sob o comando do capitão-tenente Albert Cushing Read, conseguiu completar o percurso, tendo feito escala na baía da Horta a 17 de maio, seguindo para Ponta Delgada, onde fez escala a 20. Após uma semana de repouso, partiu na madrugada do dia 27 em direção a Lisboa, tendo fundeado nessa noite nas águas do rio Tejo.ENES, Carlos (coord.). A República: Figuras e Factos. Presidência do Governo Regional dos Açores; Direcção Regional da Cultura, 2010. p. 22-23.
Ainda nesse ano (1919), um hidroavião que viajava entre a Inglaterra e os Estados Unidos, fez escala na baía da Horta. A partir de então, as travessias oceânicas passaram a suceder-se com frequência cada vez maior, utilizando as ilhas dos Açores como escala, nomeadamente com amaragens na baía da Horta.
Com o advento do dirigível, o arquipélago foi sobrevoado em 1924 (modelo ZRIII, Angra do Heroísmo, 13 de outubro), 1927 e 1930, pelos Zeppelin que faziam a ligação entre a Alemanha e os Estados Unidos.
Em abril de 1926 partiu de Lisboa o voo de um hidroavião Fokker T.III, batizado Infante de Sagres, pilotado pelo tenentes da Marinha Portuguesa, Moreira de Campos e Neves Ferreira, às ilhas da Madeira e dos Açores.,A Capital, 20 Abr. 1926 Consultado em 18 Out. 2009. tendo chegado a Ponta Delgada em 9 de maio.
No ano seguinte (1927), o marquês Francesco De Pinedo, coronel da Força Aérea Italiana, foi forçado a amarar a cerca de 200 km da ilha das Flores, após ter partido da Terra Nova. O hidroavião Savoia-Marchetti S.55, batizado como "Santa Maria II", foi rebocado para a Horta, onde chegou a 13 de maio e sofreu reparações.Portugal na rota da "Crociera Aerea De Pinedo" (1927) Consultado em 18 Out. 2009. No mesmo ano, em novembro, um hidroavião Junkers D 1230, pilotado pela austríaca Lilly Dillenz (primeira mulher a voar sobre o Atlântico) e um Heinkel D 1220 fizeram escala também na Horta, onde encontraram a pioneira da aviação norte-americana Ruth Elder, que tentava imitar o feito de Charles Lindbergh pilotando o monoplano "American Girl", acompanhada pelo piloto, capitão George Haldeman, que fora forçada a amarar na costa norte da ilha Terceira devido a problemas mecânicos, tendo-se a aeronave incendiado.Biografia de Ruth Elder. Consultada em 18 out. 2009.
Em 1928, escalam na Horta o inglês Frank T. Courtney, pilotando um Dornier Wal G-CAGIFlight 28 jun. 1928 Consultada em 18 out. 2009. (junho) e o tenente da Marinha Francesa De Paris, num pequeno hidroavião, o "La Frégate" (julho).
Na Graciosa, registou-se um acidente fatal quando, ao anoitecer de 13 de julho de 1929 um biplano Amiot 123 capotou durante uma aterragem de emergência, tentada nuns campos próximos do lugar da Brasileira. A aeronave, tripulada pelos aviadores polacos Ludwik Idzikowski e Kazimierz Kubala, tinha descolado na madrugada daquele dia do campo de Le Bourget, nos arredores de Paris, com destino a Nova Iorque, na segunda tentativa polaca de fazer o primeiro voo transatlântico de leste para oeste. O major Idzikowski faleceu no acidente e o co-piloto, Kazimierz Kubala, sofreu ferimentos ligeiros. A aeronave foi consumida pelas chamas durante a operação de resgate quando alguém aproximou um archote dos destroços. Atualmente, um cruzeiro marca o lugar do acidente.
Ainda em 1929, as forças armadas portuguesas apoiam a construção do Campo de Aviação da Achada, na Terceira, com uma pista de 600 metros de extensão por 70 metros de largura, e de onde, a 4 de outubro de 1930, descola o primeiro avião, o biplano monomotor Avro 504 K "Açor", pilotado pelo Capitão Frederico Coelho de Melo.O Capitão Coelho de Melo era natural da freguesia dos Altares, na Terceira. "Os pioneiros da aviação na História dos Açores…" Correio dos Açores, 4 Abr. 2010. Consultado em 26 Abr 2011.
Neste período, em voo de regresso dos Estados Unidos para a Alemanha, o gigantesco Dornier Do X amarou na Horta, na freguesia da Ribeirinha (21 de maio de 1932).
Entre 1930 e 1933, a companhia de aviação norte-americana Pan American World Airways (PanAm) realizou testes na baía da Horta para a implantação de uma base de apoio para a operação de uma rota comercial transatlântica. Nesse contexto, Charles Lindbergh acompanhado pela sua esposa, Anne Morrow, ao serviço da PanAm, amarou no local a 21 de novembro de 1933, com um monoplano Lockheed 8 Sirius. Na base que aí foi implantada, de 1937 a 1944, foram atendidos os Boeing 314 Clipper ("Flying Boat") que faziam a rota Nova Iorque - Marselha e Nova Iorque - Londres, ambas com escala em Lisboa.O voo entre Nova Iorque e Lisboa tinha uma duração de 23 horas e 55 minutos, incluindo uma hora e trinta minutos de escala técnica no Faial. De Lisboa a Marselha eram consumidas mais sete horas. VALDEZ, F.. Apresentando a Ilha de Santa Maria. O Baluarte de Santa Maria, ano XXXVII, 2ªa série, nº 400, 19 Out 2010, p. 23-24. Ao final da Segunda Guerra Mundial, com a entrada em operação do Aeroporto Internacional de Santa Maria, essas aeronaves anfíbias foram substituídas, e a base de operações da Companhia transferida para o novo aeroporto. Nesse período entre a década de 1930 e a década de 1940, diversas companhias aéreas passaram a utilizar as águas das ilhas, nomeadamente o canal entre as ilhas do Pico e do Faial, como ponto de apoio para as suas rotas entre a Europa e a América do Norte.
Em abril de 1931, no contexto da Revolta das Ilhas, a baía da Horta foi a base de três pequenos hidroaviões da Marinha Portuguesa, que se deslocaram à Terceira com a missão de sobrevoar Angra do Heroísmo e o Monte Brasil, lançando panfletos convidando os militares sublevados a renderem-se.
Em 1933, sob o comando do Marechal Italo Balbo, realizou-se um raid destinado a mostrar o vigor da Força Aérea Italiana aquando da Exposição Mundial de Chicago, nos EUA. A esquadrilha era composta por 24 hidroaviões Savoia-Marchetti S.55 X, que descolaram de Orbetello. Na rota de regresso à Itália, fizeram escala nos Açores para repouso e reabastecimento, tendo 9 amarado na baía da Horta, seguindo os restantes para Ponta Delgada. Em ambos os portos se encontravam navios italianos de apoio à esquadrilha, e nas duas cidades organizaram-se recepções oficiais de boas-vindas. No final da escala em Ponta Delgada, na altura da descolagem, o I-RANI embateu numa pequena onda e capotou, resultando na morte do piloto, o tenente Enrico Squaglio."Férias de Verão no Muesu: o hidroavião I-RANI", in: "Correio dos Açores", ano 93, nº 2882, 28 de agosto de 2013, p. 14. Acerca deste funesto acidente, uma revista ilustrada à época chegou a dar a notícia do desastre como tendo acontecido na baía da Horta.
Anos mais tarde, a 19 de maio de 1938, amarou nas águas do porto de Ponta Delgada uma esquadrilha francesa de quatro trimotores de reconhecimento aéreo Bréguet 521 Bizerte, pertencentes à 1ª Esquadra Ligeira do Atlântico. De Ponta Delgada uma aeronave partiu rumo à Horta e outra rumo a Angra do Heroísmo."Os pioneiros da aviação na História dos Açores…" Correio dos Açores, 4 abr. 2010. Consultado em 26 abr 2011.
A Segunda Guerra Mundial thumb|250px|Junkers Ju 52.
thumb|250px|Caças Hawker Sea Hurricane em formação (1941). thumb|250px|Consolidated PB4Y-1 Liberator do esquadrão de bombardeiros de patrulha VPB-114, exibindo as insígnias dos EUA e da Grã-Bretanha, na Base das Lajes (1944-45).
Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, a Marinha Portuguesa instalou um Centro Aero-Naval em Ponta Delgada. Ao mesmo tempo, no norte da ilha, foi implantado o Aérodromo Militar de Santana, o primeiro aeroporto na ilha de São Miguel, no lugar de Santana, em Rabo de Peixe, no Concelho da Ribeira Grande. Operou como aeroporto militar, de 1939 a 1945, quando constituiu a Base Aérea nº 4."Opinião de António Pedro Costa: E o aerovacas?" in Correio dos Açores, 27 ago 2009. Consultado em 25 jan 2012.