O Mausoléu de Gala Placídia é um célebre monumento paleocristão de Ravena, na Itália. Localiza-se na Piazza Arcivescovado 1, e pertence à Igreja Católica.Decorazione musiva parietale di Galla Placidia. Centro Internazionale di Documentazione sul Mosaico da ENEA Tem a planta em forma de cruz latina e é coberto por uma cúpula. O exterior despojado contrasta com o luxo da decoração interna, cujas superfícies são revestidas de mosaicos que representam vários personagens e cenas da cristianismo, com uma rica simbologia associada.

A despeito de o Mausoléu já ter gerado grande bibliografia e ter sido objeto de repetidas investigações, ainda pairam dúvidas sobre vários de seus aspectos, especialmente sobre quem o mandou construir, para que finalidade e em que data. Entretanto, formou-se um consenso de que foi erguido no segundo quartel do por ordem de Gala Placídia, imperatriz romana esposa de Constâncio III, para um uso fúnebre.West, Lisa Onontiyoh. Re-evaluating the Mausoleum of Galla Placidia. Dissertação de Mestrado em Artes. Louisiana State University and Agricultural and Mechanical College, maio de 2003, pp. x-xi; 1

É uma das oito estruturas da cidade que foram declaradas pela Unesco como Patrimônio Mundial, considerando-a um exemplo raríssimo e de excepcional qualidade em seu gênero. Seus mosaicos estão entre os mais antigos e os mais bem preservados da tradição paleocristã, sendo especialmente celebrada a cena que mostra o Bom Pastor. O edifício atesta a transição entre as estruturas fúnebres imperiais e os oratórios cristãos primitivos, e sua decoração, em termos de estilo, é uma sequência lógica, porém inovadora e original, da arte helenística e romana, com alguma influência do oriente, sendo importante também por constituir uma das primeiras ilustrações de alta qualidade artística da apropriação das referências pagãs pela arte cristã.

Gala Placídia e o Mausoléu thumb|Gala Placídia (à direita) e os seus dois filhos, Valentiniano e Honória thumb|Moeda com a efígie de Gala Placídia e no verso a cruz, c. 425-435

Élia Gala Placídia (), nasceu entre 388 e 393 em Constantinopla ou Salonica, filha do imperador e sua segunda esposa Gala, que era filha do imperador Valentiniano I .West, p. 2 Era também meia-irmã de Honório e Arcádio . Viveu no período em que o Império Romano já sofria com a ameaça bárbara e havia tido seu território muito reduzido. A participação de Gala na vida imperial iniciou em 408, quando os visigodos de Alarico estavam sitiando Roma. No saque da cidade ela foi capturada como parte do butim, mas recebeu um tratamento digno. Pouco depois Alarico morreu, sendo sucedido por Ataulfo , o qual, convencido da superioridade da estrutura administrativa romana, ofereceu-se como associado de Honório e solicitou suprimentos em troca de Gala. Mas sua oferta não foi aceita e ela por fim casou com Ataulfo, aparentemente por vontade própria, em uma suntuosa cerimônia em Narbona que uniu tradições romanas e bárbaras e que indignou os romanos. Em 415 nasceu um filho da união, Teodósio, que viveu poucos meses, e em seguida Ataulfo foi assassinado. Seu sucessor, Sigerico , a tratou como uma prisioneira comum, impondo-lhe vexames públicos, mas logo também foi morto, e ela, transferida para Tolosa e finalmente entregue a Constâncio III em Ravena, em troca de 600 mil medidas de trigo. Em 417 foi forçada a desposar Constâncio, mas logo tiveram um filho, Valentiniano, e uma filha, Justa Grata Honória, e ela passou a exercer sua influência sobre Honório para favorecer seu marido. Em 421, ambos foram elevados à condição de Augustos e associados a Honório como co-imperadores. Apenas sete meses depois da morte de Constâncio, iniciaram atritos entre ela e seu meio-irmão. Acusada de traição, foi exilada em Constantinopla, onde reinava seu sobrinho Teodósio II . Honório morreu em 423, e seu sucessor natural deveria ser Valentiniano, mas o trono foi usurpado pelo primicério dos notários João . Teodósio decidiu apoiar as pretensões de Gala para tornar seu filho o imperador legítimo e enviou o então menino para Ravena junto com exércitos, e ali ele foi consagrado como Valentiniano III em 425. Sendo ainda menor, a regência passou para as mãos de Gala, que governou de facto até 433, quando Flávio Aécio iniciou uma campanha militar para derrubá-la, saindo vitorioso e obrigando a regente a retirar-se da vida pública. Faleceu em Roma em 450.Fines, John. Who's who in the Middle Ages. Barnes & Noble Publishing, 1995. pp. 176-178

Tem sido muito debatido entre os historiadores quem teria sido o verdadeiro patrono do Mausoléu que leva o nome de Gala Placídia, mas existem boas evidências que apoiam a teoria de que sua construção foi ordenada ou por ela mesma ou pela Casa Imperial. É sabido que Gala financiou a construção de várias igrejas e capelas,Kammer, Regina Maria Ursula. Reconsidering the Ornamental Mosaics of the Mausoleum of Galla Placidia. Dissertação de Mestrado em Artes. San Jose State University, dezembro de 2003, p. 93 e a sua localização, na área dos palácios imperiais de Ravena, é fortemente sugestiva. Entretanto, é um edifício que se desvia da tradição anterior de mausoléus régios da Roma tardo-imperial, tanto por suas dimensões reduzidas como pela sua planta cruciforme. Porém, Gala era uma devota da Santa Cruz, tendo a ela dedicado sua capela privada no palácio imperial de Ravena, construída também sobre a forma da cruz. Além disso ela havia oferecido ricos dotes à Basílica da Santa Cruz em Jerusalém, e nas moedas onde é representada a cruz sempre aparece. A estrutura do Mausoléu remete a um precedente similar que fora erguido em Constantinopla como capela mortuária imperial, e a outro muito parecido na mesma cidade que serviu como mausoléu de Arcádio e sua família, e ambos devem ter sido conhecidos por Gala. Mas não existe nenhuma evidência direta de que a estrutura aqui em questão foi de fato erguida a seu mando. Tampouco a data precisa de sua construção pôde ser assegurada. Se foi mesmo obra sua, duas datas são mais prováveis: entre 417 e 421, quando estava casada com Constâncio, e o período em que assumiu a regência em nome de Valentiniano, a partir de 425.Mackie, pp. 172-179 Alguns estudiosos, especialmente o biógrafo de Gala, Stewart Oost, levantaram a possibilidade de que o Mausoléu foi erguido por ordem de Valentiniano III, seu filho, ou pelo seu meio-irmão Honório. É de notar também que fontes coevas que narraram a vida da imperatriz não mencionaram o Mausoléu.Kammer, pp. 14-15 Mesmo entre dúvidas, a maior parte dos historiadores modernos considera a atribuição a Gala pelo menos bastante plausível.

thumb|esquerda|Representação romântica de Vasiliy Smirnov, c. 1880, mostrando a imperatriz homenageando seus ancestrais no interior do Mausoléu

Da mesma forma é uma incógnita seu uso original. A cumeeira em forma de pinha era típica das estruturas funerárias romanas, e as janelas pequenas e seu programa iconográfico reforçam esta ideia. Além disso, escavações no revelaram no subsolo remanescentes de elementos arquitetônicos similares aos que eram usados nos nichos das catacumbas. Uma das hipóteses é de que tenha sido a tumba da própria Gala. Uma antiga tradição dizia que ela havia sido enterrada diante do altar deste Mausoléu, num dos sarcófagos que ali ainda existem, ataviada com trajes imperiais e sentada em um trono. Esse sarcófago permaneceu intacto até o , quando crianças, aproveitando-se de uma abertura que ele possui, atearam fogo ao seu conteúdo. Mas as conclusões tiradas a partir da sua análise estilística não concordam com a época em que viveu a imperatriz, apontando uma data de execução pelo menos um século posterior à conclusão do Mausoléu e sugerindo uma origem estranha ao edifício, sendo possivelmente uma transferência de uma necrópole vizinha ou da Basílica de São Vital. Se seu corpo foi trasladado para ali em algum momento, terá sido depois de um sepultamento anterior.

É certo que ela faleceu em Roma, e para alguns ela foi ali sepultada, em uma capela imperial ao lado da Basílica de São Pedro. Essa teoria é apoiada através de uma cadeia de eventos sugestivos. Pouco antes de sua morte em Roma houve o enterramento de um certo Teodósio nessa capela imperial, uma cerimônia que segundo os registros contou com a presença de uma "Placídia" (não é garantido tratar-se da mesma Placídia), membros do senado romano e do papa, eminências que só estariam presentes para honrar uma figura também ilustre. No essa capela foi escavada e nela foi encontrado um sarcófago revestido de grande quantidade de prata e contendo dois caixões, um grande e um pequeno, cujos corpos estavam ataviados com trajes de ouro que pesavam dezesseis libras, uma riqueza indicativa de serem personagens imperiais. Isso parece corroborar a tese de que pertenciam a Gala e ao filho que tivera com Ataulfo, mas sua identificação permanece hipotética, porque em seguida a tumba foi desmantelada e os metais preciosos removidos por ordem do papa, impedindo uma confirmação moderna.

Alternativamente, como há evidências de que ela sempre lamentara o precoce desaparecimento do pequeno Teodósio, filho que tivera com Ataulfo, de que trouxera o seu corpo com ela quando foi devolvida à Itália e que o mantivera em Ravena, terá precisado de um local digno para depositar o defunto antes de mudar-se com ele para Roma, e o Mausoléu é um edifício que parece bastante adequado para isso. Um viajante italiano visitou-o no e relatou ter visto uma inscrição com o nome de Teodósio, mas ela já não é mais visível. Como os locais de sepultamento dos outros Teodósios da família imperial são conhecidos — Teodósio I e Teodósio II, ambos em Constantinopla — parece lícito supor que esse Teodósio se tratasse do primeiro filho de Gala, e que o Mausoléu tenha sido o local de repouso temporário desta criança. As próprias dimensões modestas do edifício poderiam explicar seu uso como sepulcro não de um imperador, cujos sepultamentos se davam usualmente em edifícios monumentais, mas para o filho de um rei bárbaro.Mackie, p. 192 Finalmente, vários dos motivos decorativos do interior têm similares em tradições funerárias visigóticas, sendo encontrados em sarcófagos e outros objetos.Kammer, pp. 100-101

Estrutura e história do edifício thumb|270px|Planta do edifício. thumb|270px|Outro ângulo O Mausoléu é uma pequena estrutura de tijolos aparentes, com 12,75 m de comprimento e 10,20 m de largura e com uma cúpula interna de 4,4 m de diâmetro. É coberta com telhas cerâmicas e sua planta possui a forma da cruz latina, com um braço ligeiramente mais comprido que os outros, constituindo uma diminuta nave. Os braços possuem fachadas em forma de edícula, com uma base retangular dividida em dois arcos cegos nas laterais e um arco central em sua maior parte cego, perfurado apenas por uma estreita janela vertical. Sobre essa base repousa um frontão clássico com um pequeno óculo retangular ao centro. A fachada principal não apresenta arcos cegos, apenas uma porta no centro com um lintel decorado por um friso em relevo, que mostra dois animais fantásticos semelhantes a felinos em torno de uma representação de um vaso, entre motivos fitomórficos. Sobre o cruzamento dos braços se ergue uma estrutura cúbica com pequenas janelas e coberta por um telhado em quatro águas, contendo em seu interior a cúpula.Kauffmann, Georg. Emilia-Romagna, Marken, Umbrien: Baudenkmäler u. Museen Stuttgart. Reclam, 1987. pp. 524-525West, pp. 14-15