thumb|upright|Catedral de Estrasburgo, França
thumb|upright|Detalhe de rosácea do , ilustração de 1856
O termo traceria, ou arrendado, refere-se ao trabalho decorativo em pedra (também por vezes madeira) composto por elementos geométricos e utilizado na arquitectura, especialmente de grande desenvolvimento na arquitectura gótica. Este ornamento pode subdividir aberturas (como em rosáceas) em forma de renda perfurada ou revestir áreas com formas em relevo podendo-se encontrar aplicado a coroar janelas, arcos, a ornamentar abóbadas, gabletes e pináculos ou a cobrir superfícies planas como painéis (de coro por exemplo) ou paredes.
História e características thumb|Rosácea sul da Notre-Dame de Paris, exemplo de frontão gótico em França
A traceria é um elemento de cantaria geralmente incorporado numa janela gótica, tímpanos e portais, muros interiores e trifórios, enjuntas de arcos, contrafortes e pinhões. Teve a sua origem estrutural e ornamental nos trifórios, onde os espaços planos de pedra (tímpanos) situados entre os arcos internos e o arco de descarga exterior começaram a ser decorados e, posteriormente, perfurados com aberturas redondas, ou lóbuladas. Existem dois tipos principais: a traceria de placa e a traceria de barras. A primeira, dominada pela pedra perfurada em vez do vidro, é característica do Gótico Inicial. Nela, o foco do arquiteto residia exclusivamente no formato das perfurações, ou seja, nas "estrelas de luz", desconsiderando a estética da pedra circundante. A segunda é composta por elementos pétreos mais finos, conferindo-lhe aspeto mais delicado, com estrutura independente em elementos lineares de pedra — montantes retos, circulares ou subarcos. Esta transição, descrita por John Ruskin como o "divisor de águas da arte gótica", marcou a substituição da massa pela linha como elemento de decoração, fazendo com que os traçados de pedra fossem gradualmente considerados pela sua flexibilidade e entrelaçados como uma renda de pedra.
O termo é referido pela primeira vez por Christopher Wren, mas a sua aplicação remonta já ao estilo românico aplicado a janelas onde uma circunferência colocada na parte superior da flecha do arco inscreve um lóbulo simples. À medida que as janelas se começam a subdividir em mais partes (por exemplo, janelas geminadas ou bifíforas, de duas luzes) vão-se preenchendo os espaços entre os arcos quebrados com traceria. Na arquitetura gótica os lóbulos podem também estar inscritos em quadrados ou triângulos e as formas geométricas tornam-se mais complexas. É normal encontrar na flecha de um arco quebrado lóbulos cujos “gomos” se prolongam em longos braços terminando também, por sua vez, em trilóbulos.;
A partir da segunda metade do e durante o a tipologia formal torna-se mais intrincada dando lugar a áreas que se assemelham a filigrana pela sua complexidade. É na França e nas suas catedrais que se encontram dos mais variados exemplares desta técnica. Com o passar do tempo as formas tornam-se mais delgadas e a composição passa a ser executada conjugando perfis isolados e finos de pedra (arrendado de varões) em vez de se perfurar a superfície em si (arrendado plano). Muitas vezes tornava-se necessário reforçar a estrutura delgada com barras de ferro. Nesta altura a sua aplicação já é muito variada, não se limitando ao coroamento de janelas.
No último quartel do século XIV e no os padrões geométricos tornam-se mais fluidos e ondulantes eglobando curvas e contra-curvas, no que ficou denominado como gótico flamejante (de chama). A Inglaterra, por outro lado, assume no seu gótico perpendicular uma traceria composta de elementos rectilíneos dispostos vertical e horizontalmente forming uma malha perpendicular. As tracerias apresentam diferentes padrões. As formas mais antigas eram simples, baseadas em figuras geométricas, evoluindo depois para desenhos mais complexos. Após o período Geométrico, que se estendeu até cerca de 1270, a introdução da curva canopial (convexa e côncava), conhecida como ogeia (ogee), transformou o estilo, dando origem a linhas que assumiam formas onduladas de folhas, chamas ou redes. Entre os principais padrões, distinguem-se:
Folíolo (subdivide-se, segundo o número de lóbulos, em trifólio, quadrifólio, cincifólio e multilóbulo); Pisciforme (fischblase) — também conhecido como traceria fluida, foliada ou reticulada, cuja utilização constante da curva ogeia acabou por se desenvolver, no continente europeu, no estilo Flamejante; caracterizado por uma cabeça arredondada ou pontiaguda e uma cauda curva e afilada, com forma que recorda a de um girino.
As tracerias incorporadas em pinhões, e usadas para decorar paredes ou painéis designam-se por tracerias cegas.
Os cogulhos são uma espécie de ornamentos foliares que decoram cornijas e coroam pináculos, frontões e pinhões. Apresentam-se regularmente espaçados, em forma de folhas enroladas, botões ou flores, usados para adornar as bordas dos elementos arquitetónicos.
O florão gótico, por seu lado, era o ornamento em forma de flower frequentemente usado como remate de pináculos ou frontões; no intradorso das abóbadas, serve de chave nos terciarões – interseções das nervuras de aresta – como nos estilos Inglês Primitivo, Ornado e Perpendicular.
A rosácea, de forma circular, apresentava intrincada traceria, frequentemente preenchida com vitrais, e era utilizada sobretudo na extremidade ocidental da nave e nos extremos do transepto. Embora as rosáceas do período Geométrico (século XIII) fizessem uso pleno da traceria de placa, a sua origem remonta às janelas redondas normandas do século XII, com colunelos radiais. Estas estruturas primitivas funcionavam de forma oposta aos avanços posteriores. Após o período românico —, a traceria desenvolveu-se de forma significativa. Na traceria geométrica, característica do gótico inicial francês e inglês, o tímpano era perfurado por um óculo circular ou por um quadrilóbulo; posteriormente, o número e a complexidade das perfurações aumentaram. Encontram-se exemplos notáveis deste tipo na Catedral de Chartres e na rosácea Dean's Eye, da Catedral de Lincoln (c. 1225).
A partir de cerca de 1220, os arquitetos ingleses passaram a conceber o tímpano como uma série de aberturas separadas por finas barras de pedra, dando origem à traceria de barras. Em França, uma variante com círculos rendilhados foi usada nas capelas absidais da Catedral de Reims antes de 1230. A partir de cerca de 1240, a traceria de barras tornou-se comum, ganhando rapidamente maior leveza e complexidade. No gótico radiante francês, a traceria passou a usar molduras de diferentes secções, ajustadas à dimensão dos mainéis e das nervuras — de que são exemplo notável as rosáceas da Catedral de Notre-Dame de Paris (c. 1270). No final do século XIV, em Inglaterra, o estilo perpendicular substituiu a traceria curvilínea por mainéis retilíneos contínuos, ligados por travessas horizontais; a introdução destas linhas retas e verticais pelos maçons ingleses serviu para fortalecer e conferir maior sobriedade estrutural à cantaria, contrapondo-se ao estilo canopial continental. Com a proliferação das grandes janelas de vitrais, a nova traceria perpendicular passou a atuar como uma grelha ou moldura de suporte para as composições de vidro decorado, abandonando as antigas formas sinuosas de chama. Um dos melhores exemplos desta reação retilínea perpendicular encontra-se nos vitrais da Capela do King's College, em Cambridge (1446–1515).
A janela lanceolada — alta, estreita e rematada por um arco lanceolado — proporciona normalmente pouca iluminação e surge, em regra, agrupada em conjuntos de duas ou mais. As janelas lanceoladas são habitualmente geminadas, separadas por um mainel e inscritas sob um arco de descarga comum, encimadas por um óculo polilobulado ou por uma abertura secundária integrada na zona do tímpano. Ocorrem também composições polilobadas, em que o intradorso do arco da janela é subdividido por lóbulos recortados, constituindo formas precursoras da traceria gótica mais complexa.
Fontes bibliográficas CALADO, Margarida, PAIS DA SILVA, Jorge Henrique, Dicionário de Termos da Arte e Arquitectura, Editorial Presença, Lisboa, 2005, ISBN 20130007 KOEPF, Hans; BINDING, Günther (Überarbeitung), Bildwörterbuch der Architektur, Alfred Kröner Verlag, Stuttgart, 1999, ISBN 3-520-19403-1
Categoria:Elementos da arquitetura religiosa Categoria:Arquitetura gótica Categoria:Arquitetura eclesiástica