direita|thumb|250px|Escultura em Dublin em homenagem às vítimas da Grande Fome de 1845–1849 na Irlanda. A foi um período de fome, doenças e emigração em massa entre 1845 e uma data variável entre 1849 e 1852,Kinealy (1995), xvi–ii. em que a população da Irlanda se reduziu entre 20 e 25 por centoChristine Kinealy, This Great Calamity, Gill & Macmillan (1994), ISNB-10: 0 7171 4011 3, 357. inaugurando o primeiro período de crise da região.Wolfgang Münchau, Our lethargic leaders must work together on the crisis, The Financial Times, 8 February 2009: A fome provocou a morte de cerca de um milhão de pessoas e forçou mais de um milhão a emigrar da ilha, principalmente para os Estados Unidos e o Canadá.David Ross, Ireland: History of a Nation, New Lanark: Geddes & Grosset, 2002, p. 226. ISBN 1-84205-164-4 A causa mais próxima da fome foi uma doença provocada pelo oomiceto Phytophthora infestans, que contaminou em larguíssima escala as batatasCormac Ó Gráda, Ireland's Great Famine: Interdisciplinary Perspectives, Dublin: University College Dublin Press, 2006, p. 7. ISBN 1-904558-57 6 em toda a Europa durante a década de 1840. Apesar de a Europa inteira ter sido atingida, um terço de toda a população da Irlanda dependia unicamente de batatas para sobreviver, e o problema foi exacerbado por diversos fatores, ligados à situação política, social e econômica que ainda são matéria de debate na comunidade acadêmica.Cecil Woodham-Smith, The Great Hunger, Harmondsworth: Penguin, 1991, p. 19. ISBN 978-0-14-014515-1Christine Kinealy, This Great Calamity, Gill & Macmillan, 1994, pp. xvi–ii, 2–3. ISBN 0-7171-4011-3
A fome foi um choque social na história da Irlanda:Kinealy, This Great Calamity, p. xvii. os efeitos alteraram para sempre o plano demográfico, político e cultural irlandês. Entrou para a memória popular,A fome que atingiu a Irlanda entre 1845 e 1852 tornou-se parte integrante do folclore irlandês. Kenealy, This Great Calamity, p. 342. sendo desde então um dos pontos mais lembrados pelos movimentos nacionalistas irlandeses. A história da Irlanda geralmente é dividida entre os períodos "pré-fome" e "pós-fome". A grande fome é também recordada como a maior catástrofe demográfica a atingir a Europa entre a Guerra dos Trinta Anos e a Primeira Guerra Mundial, com um excesso de mais de um milhão de mortes na Irlanda em relação ao expectável se não tivesse existido. Causas e fatores que contribuíram para a fome Desde 1801 a Irlanda era governada segundo o Ato de União de 1800, como parte do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda. O poder executivo estava nas mãos do Lorde Tenente da Irlanda e do Secretário Geral da Irlanda, os dois apontados no cargo pelo Governo Britânico. A Irlanda enviou 105 membros do parlamento para a Câmara dos Comuns do Reino Unido, e os representantes irlandeses elegiam entre si 28 membros para um cargo perpétuo na Câmara dos Lordes. Entre 1832 e 1859, 70% dos representantes irlandeses eram donos de terras ou filhos de donos de terras.
Nos 40 anos de união que se seguiram, os sucessivos governos britânicos tentaram resolver os problemas de governação de um país que, de acordo com Benjamin Disraeli, em 1844, tinha "uma população morrendo de fome, uma aristocracia ausente, uma Igreja alienígena, além do mais fraco governo executivo do planeta".Citado em Blake (1967), p. 179. Um historiador calculou que entre 1801 e 1845 houve 114 comissões e 61 comitês especiais que visitaram o estado da Irlanda e "todos sem exceção profetizavam um desastre; a Irlanda estava à beira de uma fome em massa, a população crescendo rapidamente, três quartos dos trabalhadores desempregados, péssimas condições de habitação e um nível de vida inacreditavelmente baixo".Woodham-Smith (1964), p. 31. Isso era um contraste com o estado britânico, que tinha começado a aproveitar a prosperidade moderna da Era Vitoriana e a Era Industrial. Leis contra a educação católica e a posse de terras tornavam esse progresso impossível na Irlanda, até que o código penal fosse abolido 50 anos após a fome, mas a recuperação da economia foi lenta, devido às famílias donas de terra terem continuado com suas propriedades. O governo britânico tinha começado a tributar pesadamente a agricultura e forçado a região a exportar a maior parte dos seus alimentos para a Grã-Bretanha, o que elevou a dependência da população local por tubérculos, o que tornava suscetível o plantio à pragas. Donos de terra e propriedades A emancipação católica foi atingida em 1829. Os católicos eram aproximadamente 80% da população, a maioria vivendo em condições de pobreza e insegurança. No topo da pirâmide social estava a classe protestante ascendente, os ingleses e as famílias anglo-irlandesas, que eram donas da maiorias das terras, e que tinham poder ilimitado sobre seus domínios. Algumas dessas propriedades eram vastas: por exemplo, o Conde de Lucan era dono de hectares. Muitos desses donos de terras viviam em Inglaterra e eram chamados de "aristocracia ausente". Eles usavam agentes para administrar suas propriedades, e o lucro era enviado para a Inglaterra.Helen Litton, The Irish Famine: An Illustrated History, Wolfhound Press, 1994, ISBN 0 86327-912-0 Uma boa parte deles nunca chegou a ir à Irlanda. Pagavam salários mínimos para plantação, ou a criação de gado para exportação.Edward Laxton, The Famine Ships: The Irish Exodus to America 1846-51, Bloomsbury, 1997, ISBN 0 7475 3500 0
Em 1843, o governo britânico considerou a questão de terra a principal causa dos problemas no país, e foi criada uma Comissão Real, liderada pelo Conde de Devon, para fazer um inquérito das leis sobre a ocupação de terras na Irlanda. Daniel O'Connell descreveu a comissão como totalmente tendenciosa, composta apenas por donos de terras.Cecil Woodham-Smith, The Great Hunger, Harmondsworth: Penguin, 1991, ISBN 978-0-14-014515-1, pp. 20–1 Em fevereiro de 1845, Devon relatou que era "impossível descrever adequadamente as privações que os trabalhadores irlandeses e suas famílias aguentavam… em muitos distritos seu único alimento era a batata, e sua única bebida a água… seus barracos mal protegiam contra o tempo… cama ou cobertor era luxo… e quase em todas, seus porcos e pilhas de excremento consistiam sua única propriedade". Os comissionados concluíram que não "podem esquecer a enorme paciência que a classe trabalhadora tem mostrado ao aguentar um sofrimento maior, nós acreditamos, que qualquer povo de qualquer país da Europa tem que sustentar".Cecil Woodham-Smith, The Great Hunger, Harmondsworth: Penguin, 1991, ISBN 978-0-14-014515-1, p. 24
A comissão concluiu que a principal causa era a péssima relação dos donos de terra com seus empregados. Não existia realeza hereditária, laço feudal ou paternalismo como na Inglaterra. A Irlanda era um país conquistado, como se depreende do discurso do Conde de Clare sobre os donos de terras: "o título é confiscar a terra". De acordo com Woodham-Smith, os donos de terra irlandeses achavam que as suas terras eram apenas fonte de riqueza de onde se devia extrair a maior quantidade de dinheiro possível, com os irlandeses "expressando seu descontentamento em quieta indignação". De acordo com o Conde de Clare, a Irlanda era um lugar hostil para se viver, e como consequência a aristocracia ausente era comum, com alguns visitando suas propriedades apenas uma ou duas vezes em suas vidas. O dinheiro do aluguel das terras era todo gasto na Inglaterra, sendo estimado que um total de seis milhões de libras foram enviados para fora da Irlanda apenas em 1842. A coleta desses valores ficava nas mãos dos agentes dos donos das terras, cujo talento era avaliado de acordo com a quantidade de dinheiro que conseguiam extorquir às pessoas.Cecil Woodham-Smith, The Great Hunger, Harmondsworth: Penguin, 1991, ISBN 978-0-14-014515-1, p. 21
Durante o século XVIII um novo sistema para negociar com os donos de terra foi criado, o sistema do "intermediário". Isto garantia aos donos de terra um fluxo contínuo de rendimento, e lhes retirava qualquer responsabilidade; o locatário porém era sujeito a humilhações pelo intermediário. Descritos pela comissão como os "mais opressivos tiranos que ajudaram à destruição do próprio país", eram descritos como "tubarões de terra" e "vampiros".Cecil Woodham-Smith, The Great Hunger, Harmondsworth: Penguin, 1991, ISBN 978-0-14-014515-1, p. 22
O intermediário alugava grandes quantidades de terra dos donos a uma taxa plana, que era definida como eles bem entendiam. Então dividiam essa terra em vários pequenos lotes para aumentar a quantidade de aluguéis que podiam obter, um sistema conhecido como germinação. Os locatários podiam ser expulsos por razões como não pagamento dos aluguéis, que eram extremamente altos, ou pela decisão do dono da terra de criar ovelhas em vez plantar grãos. O locatário pagava o aluguel trabalhando para o dono da terra.The Irish Famine: An Illustrated History, Helen Litton, Wolfhound Press, (2006 RP), ISBN 0 86327 912 0 , pp. 9–10
Qualquer melhoria feita nas propriedades era tornada automaticamente propriedade dos donos das terras quando o contrato terminava, o que agia como um desestimulante para melhorias. Os locatários não tinham nenhum tipo de segurança em relação à terra, e podiam ser expulsos a qualquer momento. Esta classe de locatários formava a maioria dos camponeses na Irlanda, exceto em Úlster, onde existia uma prática conhecida como "direito do locatário", onde os locatários eram compensados por qualquer melhoria feita na propriedade feita por si. Os comissários disseram, de acordo com Woodham-Smith, que "a superior prosperidade e tranquilidade de Ulster, comparada à do resto da Irlanda, era devida ao direito do locatário".
Os donos de terra da Irlanda usavam os seus poderes sem nenhum remorso, e as pessoas temiam-nos. Nessas circunstâncias, diz Woodham-Smith, a "indústria e as empresas eram extintas, e os camponeses criados eram por isso dos mais destituídos da Europa". Locatários, subdivisões e falências Em 1845, 24% de todas as fazendas de locatários irlandeses tinham área entre 0,4 e 2 hectares, enquanto 40% iam de 2 até 6 hectares. As propriedades eram tão pequenas que davam apenas para plantar batata, pois nenhuma outra plantação rendia o suficiente para sustentar uma família. O governo britânico sabia que um pouco antes da Grande Fome a pobreza era tão generalizada que um terço de todos os fazendeiros de pequeno porte não podiam nem mesmo sustentar suas famílias, após pagar o aluguel, a não ser através de ganhos do trabalho sazonal feito na Inglaterra e na Escócia.Robert Kee, The Laurel and the Ivy: The Story of Charles Stewart Parnell and Irish Nationalism p. 15. Após a fome, reformas foram feitas proibindo a divisão de terras até um certo tamanho.Jill and Leon Uris, Ireland A Terrible Beauty (New York, Bantam Books,2003), p. 15.
O censo de 1841 mostrou uma população de apenas 8 milhões, dos quais dois terços dependiam da agricultura para sobreviver, mas raramente recebiam um salário para trabalhar. Estes tinham que trabalhar para os donos de terra em troca do seu próprio pedaço de terra, assim conseguindo plantar alimentos suficientes para as suas famílias. Esse sistema forçou os irlandeses a praticar a monocultura, e apenas a batata rendia quantidades suficientes para sustentar toda uma família. O direito por um pedaço de terra podia ser a diferença entre a vida e a morte na Irlanda no início do século XIX. Dependência da batata 250px|direita|thumb|A infestação de batatas com Phytophtora infestans foi uma das causas principais da grande fome na Irlanda.