Garo (também grafada Garrow, e conhecida como mandi ou mande) é a língua materna da grande maioria dos membros dos povos garo. Pertence ao subgrupo Bodo-Garo do grupo de línguas sal da família tibeto-birmanesa, que, por sua vez, é um ramo da família sino-tibetana.

O Garo é falado por 1.270.000 pessoas distribuídas nos estados de Assã, Megalaia, Nagalândia e Tripurá do Nordeste da Índia, no estado indiano de Bengala Ocidental, e nas divisões de Daca e Sylhet de Bangladexe.

Tem status de língua oficial somente na província de Megalaia, sendo primeira língua de uma parcela ainda significativa de seus habitantes. Por seu estado institucional (provincial), fontes apontam o Garo como não ameaçado; contudo, Glottolog o indica como vulnerável com base no critério AES (critério baseado em dados do Catálogo de Línguas Ameaçadas EClat e da Unesco).

A língua foi brevemente documentada por oficiais ingleses por volta de 1800, mas os primeiros registros amplos de Garo foram redigidos por missionários batistas americanos, que, durante o século XIX, desenvolveriam uma forma escrita e romanizada do Garo, elaborariam gramáticas e dicionários e iniciariam a difusão da alfabetização dentre os seus falantes. Desde então, a língua foi também adaptada à escrita bengali-assamesa, e um sistema de escrita próprio para o Garo foi criado: o A'chik Tok'birim.

As características distintivas da língua Garo são aglutinação e sua estrutura que, embora tenha abandonado a tonação característica a muitas línguas sino-tibetanas, faz distinção entre presença e ausência da oclusiva glotal de maneira similar a como contrastam-se tons nas línguas tonais. Garo costuma seguir ordem SOV, usa posposições, possui nove casos gramaticais, além de contar com classificadores numerais e de tempo verbal. Seu inventário fonético conta com 16 consoantes e 5 vogais.

Classificação A língua Garo pertence ao subgrupo Bodo-Garo, juntamente com as línguas Kohr, Deori, Megam e Tippera. Esse subgrupo é parte das línguas Sal (também ditas línguas Bramaputras), que é constituinte da família tibeto-burmanesa (em que se destaca o birmanês, com 32 milhões de falantes).

A família tibeto-birmanesa é um ramo da família de línguas sino-tibetanas, que contém o mandarim, a língua mais falada do mundo, e outras línguas siníticas, como o cantonês. Algumas das características mais relevantes da família sino-tibetana é a ocorrência de línguas tonais e com morfemas monossilábicos; embora o Garo tenha abandonado o uso de tons em favor de pausas glotais, preserva a estrutura comum a línguas tonais ao contrastar sílabas terminadas em pausas glotais com as que não o são.

Contraste com línguas similares +Cognatos entre línguas do grupo do RabhaPalavraRabhaGaroBoroKokbokokDimasaMoranDeorivermelhosakgit-chakjákɯcakgəjaokatasagirapretoakgit-simgɯsɯmkɯtalgisimkisimkoliyabrancobokgip-bokgupurkuphugupukufutpuruvelhomai-camgit-chamgɯjamkatamgəjamkətamcitunovopi-damgit-dalgɯdamkosongədaimkadangciba

Contexto histórico e cultural

Língua e identidade miniaturadaimagem|Homem Mandi (Garo), Dia Internacional do Indígena, 2014, Daca, Bangladesh Os membros do que chamamos de Povos Garo autodenominam-se Achik (que significa "colina", denominando o "povo da colina"), cujo plural Achikarang representa toda a comunidade Garo, e chamam às suas línguas Achik Kusik/Achik Ku Chik ("línguas do povo da colina" - provavelmente uma referência às Colinas Garo, onde residem diversos povos Garo) ou Mande Kusik/Mande Ku Chik ("línguas dos homens").Borah, Ashim. "A Study on Garo Language." (2020). Acredita-se que a denominação "Garo" tenha sido atribuída aos povos (e por associação, à sua língua) Garo por não-nativos. Embora não haja consenso sobre como essa atribuição se deu, ela explicaria porque o nome "Garo" não costuma ser utilizado pela comunidade de falantes.

Hipótese de empréstimo das línguas Bodo Uma especulação é a de que o termo "Garo" tenha sido derivado da palavra Boro Gao, que significa "separar", ou de Gar, que pode ser "amar" ou "abandonar". Essa hipótese é baseada numa crença entre os Povos Boro e os Dimasa, de que os Garo foram separados de suas comunidades no passado - algumas fontes chegam a mencionar que os Boro considerariam Garo como "irmãos".

Hipótese dos Gara Janching Uma outra teoria se ancora numa lenda passada dentre os povos Garo, que diz que havia um líder muito poderoso nas Colinas chamado "Gara", e que seus seguidores se denominariam "Garo".

A versão corroborada pelos anciãos dos povos Garo diz que o termo Garo foi derivado de uma divisão do povo denominada Gara Janching, Gara ou Gaching, que habitaria o sul das Colinas. Gara teria passado do nome de uma tribo para o termo que se referiria a todos os habitantes das Colinas, e com o tempo, teria se transformado em "Garo".

Hipóteses de associação geográfica Dr. Bimal MajumdarGaro Janajatir Parichoy in Janajati Gamaj Sanskriti, Ed. Padma Pator, Ringchang Publications, Guwahati, P.P – 148-149 aponta que a sede do Distrito de Tura nas Colinas Garo era conhecida como Dhura, e afirma que "Dhura" teria se tornado "Garo". Portanto, os habitantes das colinas do sul de Goalpara passariam a ser conhecidos como "Garo".

A opinião mais aceita entre antropólogos e pesquisadores é, contudo, que a despeito da real origem da palavra Garo, os povos habitando as Colinas Garo, na jurisdição do estado de Megalaia, são conhecidos como Garo puramente por associação ao nome da região.

História da documentação As documentações mais antigas referentes à língua Garo são de proveniência estrangeira: curtas listas de palavras coletadas por oficiais britânicos (Elliot 1994, Hamilton 1940 ) por volta de 1800, que seriam seguidas por registros mais longos escritos por missionários batistas americanos. Os registros americanos geraram as primeiras gramáticas e dicionários da língua, e foram também estes que introduziram a [hoje já bem estabelecida] romanização do Garo.

Essa forma romanizada da língua que, até então, não possuía sistema de escrita foi desenvolvida pelos missionários nas últimas décadas do século XIX. Os missionários basearam a ortografia no dialeto do nordeste das Colinas Garo, o A'we. Essa foi a área com o primeiro número substancial de membros do povo Garo alfabetizados e a terem acesso a educação básica, e à medida que o sistema de escrita foi adotado pelos demais falantes de Garo, certas características do A'we foram passadas aos demais dialetos.

Desde então, a língua Garo tem sido usada como meio de educação fundamental nas Colinas Garo. Algumas coleções de histórias dos Povos Garo foram publicadas, e uma pequena quantia de jornais redigidos na língua surgiu - entretanto, se exclusos livros escolares, as publicações mais importantes em Garo são religiosas. Como a maioria dos Garo foi cristianizada, nos referimos à tradução Garo da Bíblia, livros de canções e outros textos cristãos. O Garo escrito é usado para correspondência privada e alguns avisos são emitidos no idioma; porém um leitor fluente de Garo provavelmente não precisaria de mais que alguns meses para ler todo o corpus de literatura Garo impressa existente.

A despeito disso, pelos parâmetros das línguas do Nordeste da Índia, a comunidade Garo detém uma boa quantia de dicionários Garo-Inglês. O exemplar mais produzido e melhor distribuído é o Dicionário Escolar, Garo-Inglês (Nengminza 1946 e edições seguintes). Ele pode ser suplementado com dois outros: Marak 1975, e Holbrook 1998 .

Um dos primeiros dicionários Inglês-Garo, Mason 1905, é reimpresso periodicamente, e outros glossários fortemente baseados nele, mas sob o nome de outros autores foram publicados. Os dicionários de Inglês para Garo consistem de definições em Garo de palavras do inglês, e não de palavras Garo equivalentes aos termos anglófonos - o que é útil para os Garo, mas causa estranheza a estrangeiros que não falam a língua. Keith (1873) e Phillips (1904) foram esboços da gramática escrita pelos missionários. Após um período de trabalho de campo etnográfico, Burling escreveu uma gramática superficial (Burling 1961), ou, em suas próprias palavras, "ligeiramente amadora".

Distribuição geográfica Status oficial O Garo tem status de língua oficial no estado de Megalaia, em que se localiza o local mais fortemente associado com a língua Garo: as colinas Garo.

Nos outros locais na Índia em que concentram-se falantes de Garo, esse não é reconhecido como língua oficial pelo governo indiano. São eles os distritos de Goalpara, Kamrup, e Karbi Anglong do estado de Assã; o distrito de Kohima em Nagalândia; os distritos de Udaipur, Kailasahar e Sadar, em Tripurá; e em Jalpaiguri e Koch Bihar na Bengala Ocidental.

Em Bangladesh, os falantes de línguas Garo se concentram nas cidades de Daca, Jamalpur, Madhupur, Netrokona, Sherpur e Mymensingh da divisão de Daca, e nos distritos de Sylhet e Sunamganj da divisão de Sylhet. Embora a língua não seja institucionalizada no país, os falantes a utilizam de forma vigorosa, a ponto de o Ethnologue classificá-la no status em desenvolvimento.

Dialetos Há treze dialetos do Garo distribuídos entre a Índia e Bangladesh, cada um associado a uma tribo: A'we, Chisak, Dual, Matchi, Matchangchi, A'beng, Kotchu, Chibok, Ruga, Gara Ganching, Megam, Atiagras e Mandi.The Garo Language (MS Sangma), p.57. Os Atong também são considerados parte dos Povos Garo, mas o idioma falado sobre eles não é um dialeto da língua Garo, e sim um sistema linguístico independente.

São mutualmente inteligíveis para estrangeiros, mas para falantes nativos cujas variantes são distantes, reporta-se que há estranhamento e ocasional necessidade de explicação na fala. Os dialetos não representam nenhum tipo de divisão política ou hierárquica entre os povos Garo, sendo mais um reflexo da dispersão geográfica e consequentes diferenças culturais de seus falantes.

A'we é o dialeto falado ao norte e nordeste das Colinas Garo e nas planilhas de Assã. A primeira igreja Garo foi estabelecida na vila Rajasimila dessa região pelos missionários batistas da América, que escolheram e tornaram o dialetro A'we a língua de instrução em escolas, bem como a utilizada para a escrita de literatura Garo e tradução da Bíblia. Como resultado, esse dialeto vem se tornando o padrão e a língua franca dos Garos, o que vem fazendo com que os demais lentamente se descaracterizem e saiam de uso. Chisak abrange desde o norte do distrito do Colinas Garo do Leste, tangenciando a área do A'we no norte, até poucos quilômetros do rio Simsang no sul, e do leste das Colinas Khasi do Oeste até cerca de vinte quilômetros a oeste. Os dialetos A'we e Chisak são muito similares. Dual é o dialeto da tribo que habita a área ao sul dos Chisaks; suas vilas ficam nas margens do Simsang, o maior rio das Colinas Garo, e também nas colinas na margem sul do mesmo rio. Muitos membros dos Duals desceram a Mymensing como resultado de guerra por territórios, e criaram assentamentos nas planícies de lá. Matchi significa "meio", e como sugere o nome, a tribo falante deste dialeto ocupa a região central das Colinas Garo. Eles encontram o território dos A'we em alguns pontos, e sua ocupação se estende acima até as colinas próximas ao centro de Tura. Matchangchi, o dialeto do povo Matabeng que se encontra entre os Matchi e os A'beng. Matchangchi pode ser tomado como um dialeto independente, mas se originou como intermediário (uma mistura) entre os dialetos A'beng e Matchi. A'beng ou Ambeng é o dialeto falado pelo maior grupo na tribo. Seus falantes habitam todas as Colinas do Oeste, incluindo a área do vilarejo de Tura e boa parte das colinas ao sul, até perto do rio Bugi. Uma pequena colônia de A'bengs também mora nas colinas sudoeste, quase adentrando o distrito das Colinas Khasi do Oeste.