A ditadura de Fábio Máximo (217 a.C. - 216 a.C.) corresponde a um período das histórias de Aníbal e da Segunda Guerra Púnica, em que o cargo de ditador na República Romana era exercido por Fábio Máximo.

Cenário

Declarada a guerra entre Roma e Cartago (Segunda Guerra Púnica), o comandante cartaginês, Aníbal, saiu da Hispânia, à frente de um exército e, transpondo os Alpes, invadiu a Itália. Ao confrontarem o invasor, os romanos foram derrotados em Ticino e Trébia. Na batalha travada às margens do lago Trasimeno, o exército consular de Caio Flamínio foi destroçado, deixando Roma à mercê de Aníbal.

Assim, na primavera de 217 a.C., a campanha de Aníbal, que parecera, de início, fadada ao desastre, tornara-se um triunfo. Triunfo só alcançado graças à sua estratégia e à disposição de arriscar chegar até a Etrúria por uma rota inesperada, e ainda por seu génio militar no lago Trasimeno. Essa recente vitória seria seguida por um golpe adicional contra Roma, quando uma força avançada de quatro mil cavaleiros enviada pelo outro cônsul, Servílio, foi encontrada por Maárbal e a cavalaria cartaginesa. Os romanos haviam acabado de cruzar os Apeninos e surgido na Úmbria, quando foram avistados por Maárbal, que fazia o reconhecimento à frente do corpo principal do exército de Aníbal. Na batalha que se seguiu, todos os romanos foram mortos ou capturados, sendo Servílio, assim, despojado de sua força de reconhecimento, bem como de uma parte essencial de seu exército. Uma vez que Servílio não podia mais deslocar com segurança suas legiões, Roma ficou, para todos os efeitos, desprovida de ambos os seus exércitos consulares e indefesa.

Não mais capaz de se comunicar com o cônsul sobrevivente, pois ninguém sabia onde o exército ou a cavalaria de Aníbal estariam de um dia para o outro, as notícias de mais esse desastre reduziram Roma ao estado de mais profundo choque. Ainda é interessante notar que, mesmo naquele momento, o desespero não penetrou na consciência romana. A derrota era algo tampouco conhecido para eles, e por tanto tempo haviam sido eles os senhores dos campos de batalha que escolhiam, que, como afirmam os historiadores, eles pareciam não ter se apercebido do real perigo de sua situação. Outras nações daquele período da história só precisavam de uma derrota maior em campo de batalha para que abandonassem as esperanças e demandassem a paz. Os romanos, contudo, perceberam que a situação exigia uma drástica mudança na constituição. "Eles fizeram o que nunca havia sido feito até aquele dia", escreve Tito Lívio, "criaram um ditador por eleição popular.

Dado que um dos cônsules (Flamínio) morrera e o outro (Servílio) estava ausente, pela primeira vez na história da República Romana a escolha do ditador foi confiada a assembleia das centúriasO ditador era tradicionalmente escolhido entre os dois cônsules do ano, que elegeram o senador Quinto Fábio Máximo. Outro detalhe inusitado foi que a assembleia também elegeu o comandante da cavalaria, recaindo a escolha em Marco Minúcio RufoCabia ao ditador escolher o comandante de sua cavalaria.A eles o senado confiou as tarefas de reforçar as muralhas e torres da cidade, de organizar as defesas como lhes parecesse melhor e de demolir as pontes sobre os rios (o Ânio e o Tibre): teriam que lutar por sua cidade e seus lares, já que não tinham sido capazes de salvar a Itália".

Aníbal era agora o indiscutível senhor da terra, livre para percorrer e devastar toda região onde seu desejo o levasse. Mas o seu exército, embora reconstituído, ainda era um exército de conquista, sem nenhuma capacidade para sustentar uma guerra de sítio. Ele não possuía quaisquer artifícios para sitiar — como torres de ataque, aríetes e catapultas, e certamente nem mesmo algum técnico para esse tipo de trabalho — tudo o que era preciso para subjugar cidades e guarnições e dominar uma região. Ademais, o que parecia consistir num ponto de triunfo patenteou o principal inconveniente da posição de Aníbal: ele podia conquistar mas não consolidar.

Porém, a grande fraqueza do cartaginês era não ter um objetivo político de alguma eficiência. Sua estratégia política imediata era extrair de Roma os aliados participantes de sua confederação, restaurando-lhes a liberdade. Mas liberdade para quê? Eles haviam conhecido as vantagens de se viver sob a lei e o jugo romanos, e muito dificilmente se disporiam a deixar isso e retornar à condição parecida com a das antigas cidades-estados gregas. Aníbal não propunha que Cartago tomasse para si o papel dominante ora desempenhado por Roma, substituindo suas instituições por leis, modos e controle financeiro cartagineses. Seu objetivo final, ao que parece, consistia em não mais que um retorno ao status quo anterior à Primeira Guerra Púnica. Se Roma, seus aliados e dependentes ficassem satisfeitos em permanecer no interior da Itália, mesmo concedendo a Sicília a eles, então tudo estaria bem. Cartago continuaria conduzindo seus negócios por todo o Mediterrâneo e outras regiões, e o Mediterrâneo seria comodamente repartido entre as esferas cartaginesa e romana de influência.

Pode-se solidarizar com Aníbal, mas a lição da história — se é que existe uma — ensina que "não se pode voltar atrás". O mundo anterior à Primeira Guerra Púnica, o mundo que seu pai Amílcar lhe havia feito rememorar, além de fazer com que prometesse revivê-lo, estava há muito perdido e arruinado. O colapso da Grécia no leste, bem como a decadência dos Estados gregos que haviam caído sob o controle dos generais de Alexandre, o Grande e seus sucessores, deixaram um vácuo de poder que um dia deveria ser preenchido. A ausência total de ambição territorial por parte de Cartago — sua própria falta de poderio humano — significava que o poder enérgico e expansionista de Roma, no final, preencheria esse vácuo.

O protelador

O homem escolhido para atuar como ditador e reorganizar Roma e os aliados latinos nessa hora de necessidade era um romano do tipo antigo — um daqueles cujas faces vigorosas e bem barbeadas nos fitam em bustos que retratam os homens da República Romana. Quinto Fábio Máximo, que devido à sua cautela seria apelidado de Cunctator - "o protelador" - provaria ser o homem certo na hora certa. Ao contrário dos cônsules, ele não estava preso a qualquer obrigação do cargo e não tinha "nome a fazer".

A família de Fábio era tão bem situada na história de Roma que teria sido difícil encontrar alguém que superasse seu brilho. Descendente de Fábio Ribulano, que em cinco ocasiões havia sido feito cônsul no século V a.C. — a despeito do fato de ter-se ele oposto aos patrícios — Fábio, agora eleito para o supremo encargo de enfrentar Aníbal, era um homem capaz de fazer jus tanto ao apoio das velhas famílias aristocráticas como ao da plebe. Moderado por natureza, Fábio foi o primeiro a avaliar o quanto os romanos vinham negligenciando uma série de cerimónias religiosas, e praticando outras incorretamente. Certificou-se de que sob todos os aspectos o elemento divino não fosse negligenciado, restaurando, grandemente, desse modo o moral dos cidadãos, enquanto seus esforços práticos para assegurar a defesa da cidade tranquilizavam tanto o religioso quanto o pragmático.

Fábio supôs que Aníbal marcharia para Roma, e concentrou os seus esforços em preparar a cidade e seus cidadãos para tal fato; mas ele devia estar ciente de que o cartaginês não possuía um equipamento para sítio com o qual pudesse investir contra a capital. O não aparecimento de Aníbal lhe deve ter sugerido que o cartaginês estava longe, preparando suas tropas e fazendo as adequações mecânicas e técnicas necessárias para o cerco. Fábio teve tempo, enquanto isso, para considerar a aproximação desse general cartaginês que havia invadido a Itália — algo que ninguém imaginava ser possível — e que ainda demonstrara uma aptidão para a guerra que revelara com severidade as deficiências do sistema republicano. Como defensor da terra, ele detinha em suas mãos tempo e poderio humano. Assumiu o comando de duas legiões do cônsul Cneu Servílio e adicionou mais duas legiões ao exército que agora se encontrava à sua disposição. Ao mesmo tempo, dava ordens para que todas as pessoas situadas à frente da linha de marcha de Aníbal abandonassem suas fazendas, queimassem suas propriedades e destruíssem suas colheitas. (Séculos mais tarde sua estratégia básica seria adotada pelo general russo Kutuzov, contra Napoleão.) O povo da Itália deveria retirar-se de sua terra, deixando o mínimo possível para trás, e ele próprio — como comandante do único exército organizado — evitaria uma batalha extrema a qualquer custo.

Táticas de guerrilha, tais como acossar os flancos do inimigo, isolá-lo das áreas de forragem e gradualmente sangrá-lo até a morte eram os métodos que Fábio iria empregar contra o general que, muito sabiamente, ele não estava disposto a encontrar em circunstâncias normais. A única coisa que Fábio tinha a fazer, como percebeu, era evitar a derrota. A vitória que almejava não era do tipo tradicional em campo de batalha — algo que o génio de seu oponente mostrou improvável — mas o sucesso obtido através de um longo período de tempo, se necessário. A presença de suas tropas deve ter sido utilizada para assegurar aos aliados e suas cidades que Roma olhava por eles. O tempo e a própria extensão da terra, trabalhariam por ele em seu benefício. O exército cartaginês deveria ser degredado lentamente, seu moral demolido, e suas chances de levá-lo a uma batalha convencional reduzidas ao mínimo.

Aníbal havia se decidido contra um assalto à própria Roma e tinha se deslocado com suas tropas através da Úmbria e do Piceno na costa oriental da Itália. Seu exército, carregado de saques e conduzindo o gado à sua frente, alcançou o Adriático e parou para apreciar os frutos de seu sucesso, enquanto Aníbal aguardava que o clima e o bom repasto restaurassem a saúde de seus homens; afinal eles haviam resistido a um duro inverno, foram obrigados a dar o máximo de si ao transpor-os pântanos do Arno, e finalmente prosseguiram até conquistar uma grande e decisiva vitória. Entre os seus espólios estavam armas e armaduras capturadas em Trasimeno, e Aníbal começou a reequipar seus próprios homens e os gauleses, treinando esses últimos no uso de suas novas armas e tentando inculcar-lhes um pouco da disciplina do soldado profissional.

Os surtos de escorbuto das tropas eram laçados com frutas frescas e óleo, enquanto os cavalos que sofriam de sarna restabeleciam-se com boa forragem e massagens com álcool (vinho). Enquanto os cavalos ficavam lustrosos e os homens cansados mais fortes e saudáveis, ele enviou mensageiros pelo mar, possivelmente usando embarcações capturadas na costa, para relatarem a situação a Cartago. Em nenhum momento cometera o erro de pensar que somente suas campanhas pudessem trazer à sua cidade uma vitória conclusiva. Ele precisaria de apoio por mar ou por terra através dos Alpes, e era importantíssimo que a segurança do império cartaginês na Península Ibérica fosse preservada.

Quando Aníbal moveu-se para o sul, Fábio o seguiu, mantendo seus homens no sopé dos Apeninos, de onde ele poderia despachar grupos de ataque para isolar forrageadores e acossar os flancos do inimigo. Deixou claro desde o início que evitaria qualquer batalha extensa e, todas as vezes que Aníbal parecesse lhe oferecer tal oportunidade, ele cautelosamente a ignoraria. O cartaginês, agora, havia cruzado novamente os Apeninos e rumado para a planície de Cápua, a mais exaltada de toda a Itália, tanto por sua fertilidade quanto por sua beleza.