As Campanhas de Pacificação e Ocupação foram um vasto conjunto de operações militares, levadas a cabo entre 1838 e 1936 pelas forças armadas portuguesas nas províncias ultramarinas do Império português. Foram nestas que se travou o combate de Môngua, em Angola, e de Chaimite, em Moçambique, no qual Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque capturou o imperador vátua Gungunhana. Delas resultaram a criação dos actuais territórios de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor-Leste.

Estas campanhas deram-se após a Independência do Brasil mas sobretudo no contexto da Partilha de África. Portugal pretendeu compensar a perda do Brasil com a criação de um novo território em África mas, para isto, deparou-se com uma séria falta de meios, resistência indígena e rivalidade europeia, não só da parte da França, Alemanha e Bélgica, como até da sua próprio aliada, a Grã-Bretanha. Por outro lado, os portugueses beneficiaram de uma maior familiaridade com o palco colonial de entre todos os europeus, de grave hostilidade entre os povos indígenas, da erosão dos seus estados e de uma excepcional colaboração por parte de aliados locais. Portugal assegurou assim o controlo de cerca de 2,000,000 de quilómetros quadrados, habitados por cerca de 8,000,000 de pessoas, ainda que o número de soldados destacados para o ultramar não tenha nunca excedido os 13,000 homens em média, antes de 1910.Fernandes, 156, p. 156.

Embora tenham começado sob a égide do Marquês de Sá da Bandeira em 1838, os territórios de Angola, Moçambique, Guiné e Timor foram ocupados sobretudo entre 1890 e 1909. O Império de Gaza, no sul de Moçambique, foi anexado em 1895 mediante uma campanha gizada por António Enes.António José Telo: Moçambique - 1895: A Campanha de Todos os Heróis, Tribuna da História, 2004, pp. 44-78. A pacificação do vale do Zambeze seguiu-se, entre 1897 e 1902, culminando na campanha do Barué.Newitt, 1995, pp. 370-371. O norte foi ocupado entre 1899 e 1917.Newitt, 1995, p. 398; p. 419. Timor foi ocupado e pacificado entre 1894 e 1912. A ocupação de Angola deu-se no norte, centro e sul, tendo o norte sido ocupado entre 1886 e 1912, o centro entre 1890 e 1902 e o sul entre 1886 e 1915, embora só tenha sido pacificado em 1926.Carlos Bessa: "Angola. Do Feudalismo Luso-Africano à Ocupação" in Nova História Militar de Portugal, Círculo de Leitores, 2004, pp. 271-286. A pacificação da Guiné no continente deu-se por terminada em 1915 e dos Bijagós em 1936, concluindo assim as campanhas de pacificação.Carlos Bessa: "Guiné. Das Feitorias Isoladas ao "Enclave" Unificado", in Manuel Themudo Barata: Nova História Militar de Portugal, volume 3, Círculo de Leitores, pp. 268-270.

Pelo menos 430 campanhas foram levadas a cabo entre 1841 e 1936 na Guiné, Angola e Moçambique, totalizando 557 meses ou 46 anos em campo, envolvendo um total de 58,000 soldados regulares e centenas de milhares de tropas auxiliares Africanas.Paulo Jorge Fernandes: "O impacto da intervenção militar em Moçambique nos finais do Século XIX para o desenvolvimento das campanhas africanas" in Afonso, C. F.; Borges, V. L. Portugal e as Campanhas de África: da imposição de soberania à Grande Guerra, 2015 Colecção ARES, 8, Lisboa: Instituto Universitário Militar, 151-163, p. 157. Mais 56 campanhas foram realizadas em Timor de 1847 a 1913, envolvendo 2,200 soldados e cerca de 114,000 timorenses oriundos das milícias de "moradores" ou de reinos aliados."Por fim, em Timor nas décadas finais do século XIX até à República verificaram-se “apenas” 56 operações militares, 22 das quais atribuídas ao governador José Celestino da Silva, considerado o criador do Timor português neste período. Devido à distância a que se encontrava da metrópole, estas campanhas não puderam contar com a utilização de tropas regulares como o verificado em África, sendo apenas empregues 2.200 soldados brancos. Por outro lado, o sucesso das mesmas para os brancos deveu-se ao uso em maior profusão dos “moradores” (c. de 6.000) e dos guerreiros das tribos locais (c. de 108.000)" in Paulo Jorge Fernandes: "O impacto da intervenção militar em Moçambique nos finais do Século XIX para o desenvolvimento das campanhas africanas" in Afonso, C. F.; Borges, V. L. Portugal e as Campanhas de África: da imposição de soberania à Grande Guerra, 2015 Colecção ARES, 8, Lisboa: Instituto Universitário Militar, 151-163, p. 159. As campanhas de ocupação foram numerosas mas geralmente de pequena dimensão e mobilizaram sobretudo tropas indígenas."Na maioria das campanhas, contudo, as colunas lusas eram invariavelmente integradas por uma maioria de tropas auxiliares indígenas, enquadradas por oficiais europeus" in Costa, Rodrigues, Oliveira, 2014, p. 420.Essas campanhas militares foram em grande número, mas geralmente, de pequena dimensão. Tinham objectivos táticos de ocupação de território e submissão de populações relativamente limitados. Mobilizavam um reduzido número de efetivos, na sua maioria de tropas indígenas, mas gozavam de superioridade militar, dado o armamento que dispunham face aos africanos. Por vezes e, poucas foram, quando estavam em causa objetivos estratégicos e consequências políticas, isto é, quando estava em causa a soberania portuguesa ou a consolidação do império, as campanhas militares assumiram maior envergadura, com a mobilização não só das tropas coloniais, mas também das forças metropolitanas, e muito maior poder de fogo." in Nuno Severiano Teixeira: "Das Guerras Civis à "Pacificação do Império" in Francisco Contente Domingues, João Gouveia Monteiro, Nuno Severiano Teixeira: História Militar de Portugal, Esfera dos Livros, 2017, p. 419. Quando a soberania portuguesa era posta em causa, elas contaram também com tropas metropolitanas, melhor equipadas. Marcaram estas campanhas o grande número de tropas indígenas que combateram por Portugal, o que levou alguns autores a comentar que os novos territórios "se conquistaram a si próprios".Pélissier, 2000, II, p.. 446-447.Costa, Rodrigues, Oliveira, 2014, p. 421.

Contexto Após a Independência do Brasil e o fim da Guerra Civil Portuguesa, Portugal procurou proteger, desenvolver e expandir os seus restantes territórios ultramarinos em África e na Ásia, como forma de compensar a perda de receitas fiscais e alfandegárias, bem como para pagar a crescente dívida pública. A devastação causada pelas invasões francesas e pela guerra-civil, a falta de meios e a instabilidade política em Portugal tornou controverso o investimento além-mar mas gradualmente gerou-se um a consenso entre a elite política portuguesa quanto ao potencial das colónias. O modo como deviam elas ser administradas, porém, também gerou polémica, defendendo uns um governo mais indirecto, com mais autonomia, ao modo britânico e, outros, controlo directo a partir da metrópole. Salvaguardá-las da cobiça estrangeira, nomeadamente do Reino Unido e da Alemanha, revelar-se-ia também um grande desafio até ao fim da Primeira Guerra Mundial.

O impulso do Marquês de Sá da Bandeira miniaturadaimagem|O marquês de Sá da Bandeira. O Marquês de Sá da Bandeira foi o grande promotor da abolição da escravatura e de uma economia de mercado como forma de desenvolver os territórios além-mar. Sá da Bandeira foi comparado a William Wilberforce, pioneiro abolicionista britânico.Nowell, Charles E. “Portugal and the Partition of Africa” in The Journal of Modern History 19, no. 1, 1947, pp. 1–17, p. 3. A cultura do amendoim foi lançada na Guiné e ao longo do séc. XIX foram fundados alguns novos postos, fortes e vilas no sertão africano, como a cidade do Mindelo em Cabo Verde e Duque de Bragança em Angola.

A expansão do território ultramarino português foi retomada logo em 1838 em Angola, com a anexação da região de Calandula no rescaldo de um conflito local, sendo o seu nome mudado para Duque de Bragança.Collelo, Thomas: Angola: A Country Study, Federal Research Division, Library of Congress, 1991, p. 17.Jacopo Corrado: The Creole Elite and the Rise of Angolan Protonationalism, 1870-1920, 2008, Cambria Press,  p. 10. O forte de São Pedro foi fundado na região, bem como duas cidades novas, Santa Maria e Porto Novo.

Em Moçambique rebentaram em 1840 as Guerras do Zambeze, entre terratenentes, régulos e o governo português, após um período catastrófico de seca e invasões de povos angunes.Malyn Newitt: História de Moçambique, 1995, Publicações Europa-América, p. 285. Entretanto, numerosos sertanejos portugueses aventuravam-se cada vez mais para o interior do continente africano. Em 1848 o sertanejo Rodrigues Graça, por exemplo, estabeleceu relações diplomáticas e comerciais com o Império da Lunda.Carlos Bessa: "Angola. Do Feudalismo Luso-Africano à Ocupação" in Nova História Militar de Portugal, Círculo de Leitores, 2004, pp. 271-286.Nowell, Charles E. “Portugal and the Partition of Africa” in The Journal of Modern History 19, no. 1, 1947, pp. 1–17, p. 3. O reino de Cassange tornou-se um importante entreposto comercial no percurso entre Luanda e Lunda mas as caravanas de negociantes eram um alvo frequente de ataques, o que deu azo a conflitos e à fundação de um novo presídio em Malange. Em 1852, o célebre negociante e sertanejo Francisco da Silva Porto lançou-se nas suas viagens pelo interior do continente e esclareceu diversos problemas geográficos, tendo sido "valioso como conselheiro a exploradores mais científicos".Nowell, 1947, p. 4. Portugal reclamou para si a foz do rio Congo e ocupou Ambriz em 1855, disputada pelo Reino Unido. Depois de ter rebentado a Revolta Praieira no Brasil, refugiados luso-brasileiros fixaram-se em Moçâmedes e o governador do distrito, Sérgio de Sousa, firmou tratados com os sobas de Huíla e Gambos mas a morte deste último e a sua substituição por um régulo hostil trouxe instabilidade e dificuldades à região, que só seriam superadas em 1867.

A política económica portuguesa até à década de 1870 passava sobretudo pela exportação de produtos agrícolas, nomeadamente vinho, na substituição de importações através de um proteccionismo moderado e na contracção de empréstimos no estrangeiro para a construção de infra-estruturas.W. G. Clarence-Smith (1985) The Third Portuguese Empire, 1825-1975 A Study in Economic Imperialism, Manchester University Press, p. 81. No entanto, uma recessão global começada em 1873 afectou Portugal duramente. O défice disparou de forma alarmante, as receitas públicas diminuíram juntamente com as as reservas de ouro e o governo perdeu a capacidade de pagar a sua dívida externa. À medida que se agravava a crise, Portugal reagiu como os restantes estados da Europa Ocidental, protegendo primeiro o seu mercado interno para depois procurar expandi-lo para o exterior. Isto e a corrida para a "partilha de África" levaram Portugal a investir na aquisição de territórios além-mar.

A fixação no sul de Angola de refugiados bóeres, possuidores de grandes carroças, facilitou as comunicações com o interior mas o empurrar da fronteira para sul levou a conflito com os ovambos.

A Questão de Bolama miniaturadaimagem|O governador Honório Barreto, que ganhou fama como consolidador da Guiné Portuguesa e resistiu às ingerências britânicas e francesas sobre o território. Portugal detinha uma presença na Guiné desde o séc. XV mas o Reino Unido reclamou a posse da Ilha de Bolama entre 1792 e 1870. Um oficial e aventureiro britânico, Phillip Beaver, tentou fundar uma colónia na ilha em 1792 mas sem o aval das autoridades bijagós.Peter Karibe Mendy, Richard A. Lobban Jr: Historical Dictionary of the Republic of Guinea-Bissau, The Scarecrow Press, 2013, xliv. Os colonos britânicos foram atacados e alguns capturados, sendo mais tarde resgatados aos preços do mercado de escravos. A tentativa britânica foi abandonada ao fim de dezoito meses apenas.Schlish, Victor: "Portuguese Guinea Honors Pres. U.S. Grant" in AF Press Clips, July 19, 1973, Bureau of African Affairs, Department of State, U.S.A. p. 20.