right|thumb|Desenho de Cristiano Sardinha Fernando Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935) é um poeta plural, cujas criações literárias têm diferentes conceitos de vida e estilos próprios - os Heterónimos. Porém este não abdicou do seu próprio ser, produzindo, entre uma obra vasta e complexa, um grande conjunto de poemas líricos com o seu legítimo nome na autoria, onde é marcada a angustiada procura pela decifração filosófia e racional do enigma do ser e da vida, que tem como resultado a fragmentação do eu de Pessoa, tendência desde cedo presente devido à sua facilidade em criar um mundo fictício em seu torno, e a criação da teoria do fingimento poético, onde afirma que a base da arte é a expressão da emoção intelectualizada, transformação essa através da memória; Porém a excessiva inquietação racional leva-o a uma infelicidade perpétua, a uma dor de pensar e a uma profunda saudade da sua infância perdida em que era inconscientemente feliz. Deste modo o seu único refúgio é constituído pela tal nostalgia e pelos sonhos.
Linhas temáticas fundamentais right|300px|thumb|Pintura de Santa-Rita Pintor
Decifração do enigma do ser A procura angustiada pela própria identidade, uma verdade intangível devido à sua pluralidade no ser,Não sei quem sou, que alma tenho; Nunca me vi nem achei pois tendo muitos indivíduos fechados em si mesmo, torna-se ninguém.Não sei quantas almas tenho
Fragmentação do eu Perante o confronto do seu ser plural, cria a fragmentação do eu como a solução para o encontro de consigo mesmo, da sua auto-descoberta, uma vez que Ser um é cadeia,/Ser eu não é ser.Sou um evadido, (13-14) No entanto, é um caminho sem retorno e os fragmentos do espelho quebrado da sua alma nunca lhe revelarão a sua unidade, a sua identidade perdida.Torno-me eles e não eu
Tédio existencial A interrogação filosófica incessante acerca do mistério da vida, e por consequente do seu próprio ser, leva-o a um estado de melancolia, de desalento, de um profundo cepticismo e de angústia e tédio existenciais por saber que esta é irrespondível e torna-se incapaz de viver a vida, acrescentando-lhe ainda a solidão interior.
Sonho Insatisfeito com o presente e, devido à fragmentação, incapaz de atingir a felicidade tão desejada, Pessoa sente que tudo é do outro ladoContemplo o que não vejo, (9) - mesmo o próximo é sentido como longínquo -, e impelido pela sua permanente inquietação, recorre ao sonho como fuga da realidade -é onde existem coisas impossíveis e memórias de uma infância impossível-; mesmo estando consciente que os sonhos são dores,Não sei, ama, onde era,, (15) porque tem a consciência que os sonha, e que não é com ilhas do fim do mundo,/(...)/ que cura a alma do seu mal profundo.Não sei se é sonho, se realidade,, (19-21)
Nostalgia da infância Sente uma grande saudade pela infância irremediavelmente perdida pois esta remete para o tempo em que era feliz inocentemente sem saber que o era, porque ainda não se tinha procurado e, por isso, não se tinha fragmentado. Assim essa criança que foi é agora símbolo da inconsciência, do sonho e da felicidade longínqua como a pobre ceifeira que cantaEla canta, pobre ceifeira ou o gato que brinca na rua,Gato que brincas na rua cujas inconscientes felicidades o poeta inveja porque já não consegue senti-la sem pensar nela e, por isso, deixa de a sentir na totalidade.
Dor de Pensar A procura exaustiva da racionalidade e do conhecimento através da inteligência, que causa a intelectualização da sensaçãoFernando Pessoa, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, 1916, Ática. tem como preço a sua trituração mentalJacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, Verbo. e a inacessibilidade da felicidade.
Fingimento Poético Para Pessoa, a verdadeira emoção artísticaFernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, Ática. é aquela que foi intelectualizada. Deste modo procura escrever não no momento da emoção, mas no momento da recordação dela, uma vez que é na recordação, única parte da inteligência,(...) que pode conservar uma emoção. Assim o poeta finge apenas emoções imaginadas, sentidas no intelecto, afirmando que toda a arte é, não a insinceridade, mas sim uma sinceridade traduzida.
Linhas formais Contém uma intensa musicalidade, devido à curta métrica, ao uso frequente da quadra e às repetições - características tradicionais da lírica lusitana popular. Utiliza também um vocabulário simples mas sóbrio e com um tom espontâneo que oscila entre o interrogativo, negativo e o irónico. Está presente uma linguagem fortemente simbólica pelo recurso a imagens-símbolos e com abundantes metáforas inesperadas e desconcertantes paradoxos que aludem à racionalidade excessiva.
Síntese left|245px|thumb|Pintura de Amadeo de Souza-Cardoso Aspectos temáticos Aspectos formais Obsessão pela auto-análise; Linguagem simples e sóbria; Desconhecimento de si mesmo; Influências da lírica tradicional; Ansiedade metafísica; Musicalidade; Fragmentação do eu; Recurso de imagens-símbolo; Constante inadaptação à vida; Uso de metáforas e paradoxos; Tédio, angústia existencial, náusea, solidão interior, melancolia; Uso de repetições e reticências; Evocação da infância como símbolo da felicidade perdida; Distância entre sonho e realidade; Intelectualizão dos sentimentos; Fingimento poético; Sofrimento resultante da dor de pensar;
Bibliografia
Ligações externas
Categoria:Poesia de Fernando Pessoa