Levante camponês de 1932 em El Salvador foi uma série de protestos e revoltas de camponeses e indígenas nativos ocorridas no país, em virtude da desigualdade econômica e social reinante em El Salvador nas primeiras décadas do século XX, que terminou causando um etnocídio na nação.Payés, Txanba. El Salvador: la insurrección de un pueblo oprimido y el etnocidio encubierto . Consultado em 4 de maio de 2007..
Após a independência de El Salvador, governos sucessivos foram propiciando a criação de um sistema desigual, o qual deixava longe do progresso os povos nativos dos territórios do Senhorio de Cuzcatlán (Señorío de Cuzcatlán). El Salvador, em uma profunda crise econômica devido a queda dos preços do café e a crise de 1929, enfrentou uma onda de revoltas contra o sistema desigual de posse da terra, que se agravaram com as reformas presidenciais que retiraram dos camponeses suas terras para dar aos grandes latifundiários. Camponeses e índios se revoltaram contra o governo e atacaram instalações militares no oeste do país, coincidindo com uma rebelião organizada pelo Partido Comunista Salvadorenho (PCS), depois de perder as eleições que posteriormente acusaram de terem sido fraudulentas.
O resultado foi uma resposta militar do governo de Maximiliano Hernández Martínez, que ordenou a execução de qualquer um que se levantasse contra o regime. Alguns autores estimam uma cifra próxima de 25.000 mortes CISPES. La sangre de 1932. Consultado em 4 de maio de 2007.ORANGE. Oligarquía Cafetalera en Santa Tecla y Santa Ana. Consultado em 4 de maio de 2007.SELSER, Gregorio. Cronología imperial . Consultado em 4 de maio de 2007.Ministerio de Educación (1994), Historia de El Salvador, Tomo II. Até hoje, se segue comemorando os feitos como um dos episódios mais emblemáticos e determinantes na história de El Salvador, por suas seqüelas políticas, econômicas e, sobretudo, culturais.
Antecedentes Após a chegada dos espanhóis ao território salvadorenho, a situação econômica e social dos nativos se caracterizou pela constante decadência das condições de vida, o que aumentou nos anos próximos à independência do país Embaixada de El Salvador em Washington. Historia de El Salvador . Consultado em 4 de maio de 2007.Grégori, Ruth. Opinión de "Betti Pérez" para el artículo "Las huellas de la muerte en el presente de los indígenas" . Consultado em 5 de maio de 2007..
O desconforto social em El Salvador havia crescido ao longo de toda a década de 1920 devido ao abuso dos políticos e da grande disparidade entre latifundiários e camponeses NAVAS, Mario. El Salvador en los años 1920–1932. Consultado em 22 de abril de 2007.Fuerza Armada de El Salvador. Revolución 1932 . Consultado em 28 de maio de 2007., produto das políticas implementadas em grandes latifúndios. O desconforto foi agravado pela grande queda nos preços do café e o aumento do desemprego; é importante ter em conta que durante as duas últimas décadas do século XIX e as três primeiras décadas do século XX, a economia salvadorenha foi sustentada com o cultivo de café, de modo que esse período é conhecido como a "república cafeeira". Nesse sentido, a queda nos preços do café significou demissões em massa de camponeses e o fechamento de vários latifúndios, o que levaria a uma profunda crise econômica .
O setor cafeeiro nacional tinha crescido devido à acumulação de riqueza por um pequeno grupo de fazendeiros e comerciantes Fuerza Armada de El Salvador. Revolución 1932 . Consultado em 5 de maio de 2007.Moreno, Ismael. Un paisito en peligro de extinción. Consultado em 6 de maio de 2007. que, aproveitando-se do negócio do café, tinham acumulado uma grande quantidade de terra, empregando agricultores, muitos deles índios DE LA ROSA, Juan. El Salvador: memoria histórica y organización indígena. Consultado em 5 de maio de 2007.. No entanto, deve-se ter em conta que o emprego oferecido pelos fazendeiros agricultores foi se convertendo em exploração, já que o salário era muito baixo e o tratamento dos camponeses era despótico Preselección Empresarial. Historia de El Salvador . Consultado em 4 de maio de 2007.Periódico Nuevo Enfoque. La insurrección indígena de 1932 . Consultado em 4 de maio de 2007.GUTIÉRREZ, Raúl. El Salvador: sinsabores de una ex guerrilla en tiempos de paz. Consultado em 4 de maio de 2007.. Até o final de 1930, o pagamento nos latifúndios consistiu de duas tortas (tortillas) e duas colheres de sopa de feijão no início e no final do dia MARTÍNEZ, Néstor. Las venas abiertas de los indígenas en El Salvador . Consultado em 22 de abril de 2007.Universidad de El Salvdor (1995), Causas y Efectos de la insurrección campesina de enero de 1932.. Para piorar a situação, as fichas (moeda local) com que se pagava nos latifúndios só podiam ser trocadas por mercadorias na loja, que pertencia ao mesmo dono do cafezal, por isso existindo monopólios locais que encareciam os alimentos. Estima-se que a alimentação na época de um jornaleiro não superava o custo de US$ 0,01 por dia , fazendo com que os benefícios dos agricultores fossem bastante consideráveis. De fato, para 1924, a produção total de café variava entre 32 e 53 milhões de quilos. O preço por cada quintal (46 kg), oscilava entre 42,55 colones; o cálculo dos custos de produção para um quintal era de 13 colones, dos quais dois estavam nas mãos do trabalhador, uma ia para os cofres do Estado, um aos vendedores de insumos e nove aos grandes latifundiários Universidad de El Salvador (1995), Causas y efectos de la insurrección campesina de enero de 1932..
O valor que o latifundiário dava ao trabalhador era muito baixo, segundo declarado em 5 de fevereiro de 1932 pelo encarregado da delegação estadunidense em San Salvador, W. J. McCafferty, em uma carta dirigida ao governo explicando a situação em El Salvador, onde ele afirmou que um animal de trabalho tinha mais valor que um trabalhador porque a demanda era alta e seu valor comercial deixava melhores dividendos . McCafferty relatou, a partir de seu ponto de vista, tudo o que aconteceu ao governo estadunidense Diario Co Latino [Salarrué(1898-1975) y Agustín Farabundo Martí (1893-1932)] consultado el 23 de abril de 2007..
Por outro lado, a situação económica mundial provocada pela crise de 1929 estimulou a falta de oportunidades em países como El Salvador, ao ponto de marcar os anos de menor progresso no país na primeira metade do século XX DE LA ROSA MUNICIO, Juan. El Salvador: memoria histórica y organización indígena. Consultado em 22 de abril de 2007.]. Embora a crise afetasse toda a população do país (e de quase toda a América Latina) ACOSTA ITURRA, Mónica Gabriela. Efectos de la crisis en América Latina. Consultado em 22 de abril de 2007., no oeste de El Salvador, a crise foi mais aguda, já que as políticas dos presidentes Pío Romero Bosque e Arturo Araujo tinham levado a quase completa espoliação das terras para latifundiários locais Preselección Empresarial. Historia de El Salvador . Consultado em 22 de abril de 2007., causando grande desconforto, o qual se unia as acções militares que de maneira tácita amendrontavam os camponeses para que se abstivessem de protestar. Esta área estava densamente povoada por índios de origem pipil Oficina Municipal de Turismo de Suchitoto. Historia de Suchitoto. Consultado em 22 de abril de 2007.. Os índios, sistematicamente separados do escasso progresso econômico, tentaram obter ajuda das autoridades reconhecidas pela sua centenária tradição hierárquica. Embora a lei não desse quaisquer regalias ou reconhecimento oficial para os chefes indígenas (caciques), os índios respeitavam e obedeciam a sua autoridade Diario Co Latino. Imagino a aquellos hombres fuertes . Consultado em 23 de abril de 2007.. Por outro lado, a classe política tinha procurado uma aproximação com os chefes indígenas para conseguir o apoio de seus governados em eleições e consultas populares, pela qual teriam alguma possibilidade de serem ouvidos pelas autoridades governamentais .
Para aliviar a crise econômica, os índios se organizaram em associações de cooperação, através dos quais davam emprego aos índios desempregados que, em troca, colaboravam com as festividades católicas. Os encarregados de dirigir as ditas associações eram os caciques, que representavam os desempregados diante das autoridades e supervisionavam o trabalho realizado . Feliciano Ama, por exemplo, um dos caciques mais ativos e estimados pela população indígena MARTÍNEZ PEÑATE, Oscar. José Feliciano Ama es un mártir popular . Consultado em 23 de abril de 2007.; tinha feito gestões de ajuda econômica com o presidente Romero, em troca de colaboração na sua candidatura. Por outro lado, a crise aprofundou-se pelo conflito permanente entre os povos indígenas e os habitantes da área que não pertenciam a sua etnia Periódico Nuevo Enfoque. La insurrección indígena de 1932 . Consultado em 23 de abril de 2007.. Obviamente, os povos "não-indígenas" estavam melhor relacionadas com o governo urbano e, portanto, quando ocorriam revoltas ou combates, o exército prendia os líderes indígenas e os condenava à morte.
Outro elemento que precedeu a revolta dos camponeses foi a instabilidade política do país. Durante as eleições de 1931, foi eleito Arturo Araujo, que reduziu os salários em mais de 54% EXORDIO. República de El Salvador. Consultado em 22 de abril de 2007.. Depois de várias acções de rebelião militar, o presidente Arturo Araújo foi derrubado e substituído por um diretório cívico WEBDOC. El Salvador y su historia. Consultado em 28 de maio de 2007.; logo depois se deu a chegada ao poder do general Maximiliano Hernández Martínez em dezembro de 1931, o qual marcou o início do período que é conhecido como "ditadura militar" EL ROJO, Heródoto. El Salvador, de la esperanza a la desilusión . Consultado em 23 de abril de 2007.. A gestão de Hernández Martínez foi caracterizada pela severidade de suas leis e de suas decisões judiciais. A pena para o roubo era a amputação de uma mão, por exemplo ESCOBAR, Iván. "Jornadas de abril y mayo del 44" cumplen hoy 61 años. Consultado em 23 de abril de 2007.. Martínez fortaleceu as forças de segurança e se mostrou especialmente agressivo em matéria de rebeliões, decretando a morte para qualquer um que se levantasse contra o regime . Gozava de grande popularidade, tanto que até à data, algumas pessoas aprovavam suas medidas em matéria de segurança; muito pouco se escreveu de tal sentimento popular, mas é facilmente verificável ao conversar com as pessoas idosas que viveram sua gestão. Seus mais fiéis defensores foram empregados diretos, tal como o caso do empresário Luis Escalante Arce, que serviu como ajudante de uma das secretarias de Estado durante a gestão de Hernández Martínez SILVA, José Enrique. Don Luis Escalante Arce: su tiempo y su obra. Consultado em 6 de maio de 2007..
Personagens do conflito Antes dos eventos de maior magnitude, se acumularam acontecimentos e situações que finalmente teriam um impacto direto sobre o conflito. Por um lado, o exército salvadorenho estava organizado para repelir qualquer levante. Os camponeses (indígenas e não indígenas), começaram a se levantar contra as autoridades locais de forma desordenada; por outro lado, o PCS realizava atividades a nível oficial que iria levá-los a serem incluídos no levante.
O exército salvadorenho em 1932 O exército foi organizado em regimentos de infantaria, artilharia, metralhadoras e cavalaria. As armas mais utilizadas foram os fuzis Mauser de fabricação alemã. Naquela ocasião, o papel da força aérea não foi determinante, visto que sua participação se limitou a tarefas de reconhecimento. O exército estava sob as ordens diretas do presidente da república e tinha por objetivo fundamental a defesa do Estado. As forças de segurança eram a Polícia Nacional (PN), a Guarda Nacional (GN) e a Polícia da Fazenda (hacienda) (PH), as quais haviam sido treinadas por pessoal militar espanhol.
Os militares que foram designados para liderar o exército no conflito foram: