thumb|right|200px|Postal russo baseado em uma foto tirada em 1908 por S.I. Borisov, mostrando uma mulher xamã provavelmente da etnia Khakas.Hoppál, Mihály (2005) (hungarian) Sámánok Eurázsiában, Budapeste: Akadémiai Kiadó ISBN 963-05-8295-3 2. The title means “Shamans in Eurasia”, the book is written in Hungarian, but it is published also in German, Estonian and Finnish. (Wikimedia Commons)
O xamanismo é um termo genericamente usado em referência a práticas etnomédicas, mágicas, religiosas (animista, primal), e filosóficas (metafísica), envolvendo cura, transe, transmutação e contato entre corpos e espíritos de outros xamãs, de seres míticos, de animais, dos mortos. Essencialmente técnicas de contato com o sagrado ou êxtase e, como analisa Jerome Rothenberg (1951-2010), utilizando uma linguagem, de certo modo precursora, do que conhecemos como poesia, uma criação de circunstancias linguísticas especiais como a canção e a invocação.ROTHENBERG, Jerome. La poética del chamanismo, in: Ojo de Testimonio, Escritos Selectos de Jerome Rothenberg (1951-2010), Selección, traducción y notas de Heriberto Yépez, 2010, Siblila, Rev. de Poesia e Crítica Literária, ISSN 1806-289X
A palavra xamã vem do russo - tungue saman - e corresponde a práticas dos povos não budistas das regiões asiáticas e árticas especialmente a Sibéria (região centro norte da Ásia). Apesar, como assinala Mircea Eliade, da especificidade dessas práticas na região (em especial as técnicas do êxtase dos tungues, iacutes, mongóis, turco-tártaros etc.), não existe, contudo, origem histórica ou geográfica para o xamanismo como conhecido hoje, tampouco algum princípio unificador.ELIADE, Mircea. Xamanismo e as técnicas arcaicas do êxtase. São Paulo: Martins Fontes, 2002 Outros nomes para sua tradução seriam feiticeiros, médico-feiticeiros, magos, curandeiros e pajés.
Antropólogos discutem ainda na definição xamanismo a experiência biopsicossocial do transe e êxtase religioso, bem como as implicações sociais da definição do xamanismo como fato social. É considerado uma tradição equivalente à magia enquanto prática individualizada relacionada aos problemas e técnicas e ciência da sobrevivência cotidiana (agricultura, caça, medicina, etc.) ou ao fenômeno religioso, abstrato, coletivo, normatizador.DURKHEIM, E. As formas elementares da vida religiosa. SP, Paulinas, 1989,MAUSS, Marcell Esboço de uma teoria geral da magia in Sociologia e antropologia. SP, Cosac Naif, 2003
Xamã O sacerdote do xamanismo é o xamã, que geralmente entra em transe durante rituais xamânicos, manifestando poderes incomuns, invocando espíritos, plantas etc., através de objetos rituais, do próprio corpo ou do corpo de assistentes e pacientes. A comunicação com estes aspectos sutis da vida pode se processar através de estados alterados de consciência. Estados esses alcançados através de batidas de tambor, danças, sonhos e até ervas enteógenas.BARTOLOME, Miguel A.; BARABAS, Alicia M.. Os sonhos e os dias: xamanismo no México atual. Mana, Rio de Janeiro , v. 19, n. 1, p. 07-37, Apr. 2013 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-93132013000100001&lng=en&nrm=iso>. access on 27 Jan. 2016. http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132013000100001.DE SOUZA, P.A.. Alcaloides e o chá de ayahuasca: uma correlação dos "estados alterados da consciência" induzido por alucinógenos. Rev. bras. plantas med., Botucatu , v. 13, n. 3, p. 349-358, 2011 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-05722011000300015&lng=en&nrm=iso>. access on 27 Jan. 2016. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-05722011000300015.LEWIS, Ioan M.Êxtase religioso, um estudo antropológico da possessão por espírito e do xamanismo. SP: Perspectiva, 1977 ISBN 85-273-0522-4
As variações "culturais" são muitas, mas, em geral, o xamã pode ser homem ou mulher, a depender da cultura, e muitas vezes há na história pessoal desse indivíduo um desafio, como uma doença física ou mental, que se configura como um chamado, uma vocação.VILACA, Aparecida. O que significa tornar-se outro? Xamanismo e contato interétnico na Amazônia. Rev. bras. Ci. Soc., São Paulo , v. 15, n. 44, p. 56-72, out. 2000 . Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092000000300003&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 27 jan. 2016. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69092000000300003. Depois disto há uma longa preparação, um aprendizado sobre plantas medicinais e outros métodos de cura, e sobre técnicas para atingir o estado alterado de consciência e formas de se proteger contra o descontrole. Naturalmente o processo de aprendizagem e as "técnicas" empregadas variam de cultura para cultura.PEREZ-GIL, Laura. O sistema médico Yawanáwa e seus especialistas: cura, poder e iniciação xamânica. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro , v. 17, n. 2, p. 333-344, mar. 2001 . Disponível em <http://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2001000200008&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 27 jan. 2016. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2001000200008.
O xamã é tido como um profundo conhecedor da natureza humana, tanto na parte física quanto psíquica.
De acordo com Eliade (o.c.), entre os manchus e os tungues da Manchúria a tradição dos dons xamânicos costuma ser feita de avô para neto, pois o filho ocupa-se em prover as necessidades do pai, isso no caso dos amba xamã (xamãs do clã). Os xamãs independentes seguem a sua própria vocação. O reconhecimento como xamã só pode ser feito pela comunidade inteira depois de uma prova iniciática. Ainda segundo esse autor, que cogita certos distúrbios psicológicos, especialmente no processo de formação do xamã, o ideal iacuto de xamã é um homem sério, que sabe convencer os que estão à sua volta, não presunçoso, nem colérico. Entre os kazak-quirguizes o baqça, guardião das tradições religiosas é também cantor, poeta, músico, adivinho, sacerdote e médico.
Talvez pela experiência do sofrimento antes da iniciação ou experiência de possessão o xamã é confundido com indivíduos portadores de distúrbio mental tipo epilepsia, histeria e psicose, Lévi-Strauss citando os estudos de Nadel e de Mauss na introdução à obra de Marcel MaussLÉVI-STRAUSS, C. Introdução à obra de Marcel Mauss in: Mauss, Marcel. Sociologia e antropologia. SP, Cosac Naif, 2003 afirma que existe uma relação entre os distúrbios patológicos e as condutas xamanísticas, mas que consiste menos numa assimilação das segundas aos primeiros do que na necessidade de definir os distúrbios patológicos em função das condutas xamanísticas. Afirma, ainda, baseado em estudos comparativos, que a frequência das neuroses e psicoses parecem aumentar nas regiões sem xamanismo e que xamanismo pode desempenhar um duplo papel frente as disposições psicopáticas: explorando-as por um lado, mas, por outro canalizando-as e estabilizando-as.
Xamanismo na Grécia Antiga Não há, propriamente, a figura do xamã na Grécia Antiga, pois não se encontra uma palavra que o defina, tampouco é uma função social ou religiosa reconhecidap. 123 (nota 398) em CARVALHAR, C. A caça à sabedoria: a sophía a partir d’Apologia de Platão. Mestrado—Rio de Janeiro: UFRJ, 2020.. No entanto, existem elementos que permitem a discussão dessa figura no mundo grego antigo, apesar de ser um assunto polêmico entre estudiosos, com críticos e defensores. Através de um nome, o mais próximo para se nomear como xamã seria o ἰατρόμαντις (iatrómantis), uma espécie de médico ancestral (criticados pelos hipocráticos a partir do século V aC) que combina as noções de médico e mago, uma função reconhecida por agir através do uso da medicina, com unguentos e medicamentos, mas também pela recitação de palavras mágicas, encantamentos e orações.
A disputa teórica dos estudiosos sobre o xamanismo grego tem duas frentes, uma que reconhece em gregos como Empédocles, Pitagóras, Ábaris e Epimênides a manifestação da figura do xamã, e uma outra frente que se recusa a identificar o xamanismo no mundo grego. Do ponto de vista dos defensores, os mais destacados são Peter KingsleyKINGSLEY, P. In the dark places of wisdom. Inverness, Calif: Golden Sufi Center, 1999., Eric DoddsDODDS, E. R. Os gregos e o irracional. Tradução: Paulo Domenech Oneto. São Paulo: Escuta, 2002. e Nicolas Grimaldi,GRIMALDI, N. Sócrates, o feiticeiro. São Paulo: Edicoes Loyola, 2006. e dos críticos Jan BremmerBREMMER, J. N. Method and Madness in the Study of Greek Shamanism: the case of Peter Kingsley. Asdiwal, 2018. e Roberte HamayonHAMAYON, R. N. ‘Ecstasy’ or the West- Dreamt Siberian Shaman. In: WAUTISCHER, H. (Ed.). Tribal Epistemologies. 1. ed. New Jersey: Routledge, 2019. p. 175–187.. Xamanismo entre os viquingues (Seiðr) O seiðr, em muitos casos, foi descrito como uma feitiçaria realizada para "ferver" certos objetos imputados de poderes mágicos, sendo basicamente utilizado como um rito adivinhatório ou para assassinato, ou ainda como prescreve Boyer, relacionado a três ações básicas: prever o futuro, aprisionar, causar doenças/desgraças ou matar. A tradução do termo varia segundo os pesquisadores, mas geralmente é interpretada como sendo canto. Tratava-se de um ritual mágico de tipo divinatório e profético, com conotações xamanistas e uma arte mágica criada pela deusa Freia. Era um tipo de magia extática com transe, êxtase do celebrante e cantos da assembleia, geralmente realizada durante a noite e praticada sobre uma plataforma chamada de assento para encantamento (seiðhjallr). A sua realização era conectada com sons mágicos ou encantamentos, e a melodia era considerada bonita para os ouvidos. Também compreendia fórmulas mágicas para chamar tempestades e todos os tipos de injúrias, metamorfoses e predições de eventos futuros. Criada pela deusa Freyja, era praticada especialmente por mulheres chamadas seiðkonur (sing. Seiðkona). Para Neil Price seria antes de tudo uma forma de extensão do espírito e de suas faculdades, enquanto que para Zoe Borovsky a performance do seiðr simbolizaria o modelo vertical de universo (cosmológico) da árvore Yggdrasill. Como para o xamã, a praticante de seiðr devia descer ao mundo dos mortos para relatar os ensinamentos que buscam os vivos e para efetuar certos malefícios. A magia nórdica era tanto praticada por homens quanto por mulheres, com uma nítida especialização feminina. As Sagas estão repletas de práticas mágicas, mas maiores detalhes sobre o ritual do seiðr são desconhecidos.LANGER, Johnni. Religião e magia entre os viquingues. Brathair 5 (2) 2005
Xamanismo no Brasil
thumb|right|200px|Xamã guarani com maracá.