Livros de Sangue é uma série literária composta por seis antologias de contos de horror, reunindo histórias originais escritas pelo autor, dramaturgo e cineasta inglês Clive Barker entre 1984 e 1985. Conhecido principalmente por suas peças teatrais até então, Barker alcançou um público mais amplo e consolidou sua base de fãs graças a essa coletânea, o que impulsionou sua carreira como romancista.

Publicadas originalmente em seis volumes, as antologias foram relançadas posteriormente em duas edições reunidas, cada uma contendo três volumes. Cada volume traz entre quatro e seis histórias. A edição integral dos volumes 1 a 3 inclui um prefácio do também escritor de horror e conterrâneo de Barker em Liverpool, Ramsey Campbell. O mestre do terror Stephen King elogiou os Livros de Sangue, gerando uma frase de impacto que estampou a primeira edição norte-americana:

O Volume 6 da série se destaca por incluir o conto “A Última Ilusão”, que marcou a estreia do detetive ocultista Harry D'Amour, personagem recorrente na obra de Barker. D'Amour apareceria em outras histórias do autor, nos quadrinhos de Hellraiser publicados pela Boom! Studios e no filme Senhor das Ilusões, de 1995, baseado nesse mesmo conto e adaptado pelo próprio Barker.

Para algumas edições, a capa de cada livro foi ilustrada pelo próprio Clive Barker. Dezoito das histórias dos Livros de sangue foram adaptadas pela Eclipse Books na série de quadrinhos Tapping the Vein.

Várias das histórias foram adaptadas em filmes, Rawhead Rex (1986); The Forbidden (filmado em 1992 como Candyman)The last ilusion (filmado em 1995 como Lord of Ilusions); The Body Politic (filmado em 1997 como Quicksilver Highway); The Midnight Meat Train (2008); "The Book of Blood" e "On Jerusalem street" (filmados em 2008 como Book of Blood), e Dread (2009). "The Yattering and Jack"foi adaptado pelo próprio Barker em 1986 para a série norte-americana Tales from the Darkside.

No Brasil, a série foi publicada na íntegra pela DarkSide Books.

Visão geral O lema de Clive Barker para Livros de Sangue era:

A história de abertura, O Livro de Sangue, apresenta a premissa da série ao narrar o destino de um médium farsante que, certa noite, é atacado por fantasmas e espíritos reais. Eles o transformam em um verdadeiro mensageiro, escrevendo histórias em sua pele. Assim, ele se torna um “Livro de Sangue”, e a narração convida o leitor a ler essas histórias. Nas edições britânicas do Volume 6, a última história, "Na Rua Jerusalém", acompanha um homem que persegue esse médium com o intuito de arrancar sua pele e roubar seu “livro”. Com isso, forma-se uma espécie de narrativa moldura ao redor das antologias.

As histórias variam bastante em estilo e gênero. Algumas seguem a linha do horror clássico, outras são descritas por Barker como “fantasia sombria”; há contos com tons cômicos, e "A Última Ilusão" se destaca por mesclar horror com elementos do noir, além de apresentar o detetive ocultista Harry D’Amour. Um fio condutor entre os contos é o fato de que, na maioria deles, pessoas comuns, vivendo em contextos contemporâneos, se veem envolvidas em acontecimentos violentos, misteriosos e/ou sobrenaturais.

Barker declarou, na coletânea Faces of Fear, que se inspirou para criar Livros de Sangue ao ler Dark Forces, no início dos anos 1980. Foi quando percebeu que uma antologia de terror não precisava ter temas estreitos, tom uniforme ou seguir restrições rígidas para ser considerada válida. Pelo contrário, podia abarcar uma ampla gama de gêneros e tons — do cômico ao absolutamente aterrorizante.

Os volumes I a III costumam ser vendidos sob o título Livros de Sangue. O volume IV foi lançado como A Condição Desumana, o volume V como Na Carne, e o volume VI como Cabal, incluindo quatro ou cinco contos adicionais, dependendo da edição. No Brasil, todos os volumes são intitulados como Livros de Sangue, de I a VI, lançados pela editora DarkSide Books.

Livro de Sangue I A edição brasileira tem introdução do escritor Cesar Bravo. "O Livro de Sangue" É a espinha dorsal de toda a série. Uma pesquisadora psíquica, Mary Florescu, contrata um médium charlatão chamado Simon Mcneal para investigar uma casa supostamente assombrada. Sozinho em um quarto no segundo andar, Mcneal inicialmente fingia ter visões. Mas, então fantasmas realmente vem ate ele. O atacam e escrevem palavras em sua carne, e essas palavras, afirma o narrador, contam o resto das historias, historias escritas em um livro de sangue vivo e literal. Este prólogo, juntamente com a historia final "On Jerusalem street" do Volume Seis, foi adaptado para o filme Livro de sangue, escrito e dirigido por John Harrison.

"O Trem de Carnes da Meia-Noite" O trabalhador de escritório Leon Kaufman adormece em um vagão da linha noturna do metrô de Nova York. Quando acorda, descobre uma cena de assassinato no vagão a frente, com vários corpos, nus e sem pelos, pendurados como peças de açougue, e desmaia. Ao recuperar a consciência, percebe que o trem continuou além do final da linha. Kaufman encontra um homem chamado Mahogany, responsável pelo desaparecimento e morte de várias pessoas nas linhas noturnas do Metro de Nova York. Mahogany é forçado a matar Kaufman para proteger seus segredos. Kaufman enfrenta Mahogany e o mata. O condutor do comboio, despreocupado com a morte de Mahogany, leva o comboio ao seu destino - uma estação secreta. As portas do trem abrem e estranhas criaturas humanoides embarcam no trem. As criaturas alimentam-se dos passageiros mortos e dizem a Kaufman que o Mahogany estava ficando velho e não poderia fazer o trabalho por mais tempo, e que Kaufman deve agora servi-los. É revelado que as criaturas também foram os governantes secretos da cidade de Nova York durante séculos. Uma das criaturas, de maior porte físico, arranca a língua de Kaufman para garantir o seu silêncio. Kaufman descobre que ele é agora o novo "açougueiro" e parte da organização e infraestrutura dedicada a servir os "Pais da Cidade", trazendo-lhes carne.

"O Yattering e Jack" Jack Polo é um importador de pepinos que é assombrado por um demônio chamado Yattering. O demônio é enviado para atormentar Jack por Belzebu, o "Senhor das Moscas", porque um dos antepassados de Jack renegou um pacto feito com o líder dos demônios. O Yattering frustra-se quando seus melhores esforços para conduzir Jack a loucura são respondidos com tranquilidade e aparente resignação. Desconhecido para o Yattering, Jack está deliberadamente ignorando o demônio, a fim de frustrá-lo e, simultaneamente manter sua própria sanidade. O Yattering o submete a tormentos cada vez mais severos, incluindo matar seus gatos e aterrorizar sua família, mas esses esforços falham. Eventualmente, Jack engana-o e o obriga a violar suas ordens, permitindo que Jack se aproveite de uma brecha e faça do Yattering seu escravo.

Incomum para a obra Barker, esta história é ligeiramente cômica. Foi transformado em um episódio da série de TV Tales from the Darkside (Temporada 4 - 1987/88, episódio 76, transmitido em 8 de novembro de 1987) com Barker como roteirista.

"O Blues do Sangue de Porco" O ex-policial Redman começa a trabalhar em um centro de recuperação infantojuvenil, onde descobre um segredo mortal envolvendo um menino chamado Lacey. Lacey afirma que um garoto desaparecido chamado Henessey está presente no centro na forma de um fantasma. Ao aprofundar suas investigações, Redman descobre que as coisas não são o que parecem, e que um porco gigante em um chiqueiro no terreno é possuído por Henessey, tendo este transferido sua alma o animal com o intuito de viver para sempre

"Sexo, Morte e Estrelas" Terry Calloway está dirigindo Noite de Reis em um teatro decadente. Ele mantém um caso com a protagonista, Diane Duvall, e espera que a fama dela como atriz de novela atraia um grande público — embora a considere uma péssima atriz. Um homem misterioso e mascarado, Sr. Lichfield, demonstra insatisfação com a escolha de Diane para o papel de Viola. No dia do ensaio final, Lichfield declara que sua esposa, Constantia, interpretará o papel na noite de estreia. Diane arranca a máscara de Lichfield e revela que ele é um cadáver animado. Ele a beija, e Diane entra em coma. Constantia assume o papel de Viola.

Após a "recuperação" de Diane, Terry faz sexo com ela e percebe, tarde demais, que ela agora está entre os mortos-vivos, pouco antes de ser morto por ela. A peça estreia com a casa lotada. Depois da apresentação, os atores percebem que a plateia é formada inteiramente por fantasmas e mortos reanimados. Tallulah, curadora do teatro recém-falecida, incendeia o prédio, matando todos os atores vivos.

Alguns dos artistas e Terry juntam-se então a Sr. Lichfield e Constantia na estrada, formando uma companhia itinerante de mortos-vivos.

"Nas Montanhas, as Cidades" Em uma área rural isolada da antiga Iugoslávia, duas cidades inteiras, Popolac e Podujevo, criam criaturas comunais gigantescas unindo os corpos de seus cidadãos. Quase 40 mil pessoas se movem como um único corpo colossal, com a altura de um arranha-céu. Esse ritual ocorre a cada dez anos, mas, desta vez, algo dá terrivelmente errado: o gigante de Podujevo desaba, matando horrivelmente dezenas de milhares de pessoas. Em choque, toda a população de Popolac enlouquece e se torna, de fato, o gigante ao qual está amarrada. Popolac passa a vagar sem rumo pelas colinas.

Ao cair da noite, muitos dos que compõem o corpo do gigante morrem de exaustão, mas a criatura continua andando. Mick e Judd, um casal gay em lua de mel na região, encontram os corpos destroçados dos habitantes de Podujevo em uma ravina coberta de sangue. Um morador local tenta roubar o carro deles para alcançar Popolac e tentar fazê-lo parar antes que desmorone e destrua os que ainda o compõem. Ele explica toda a verdade a Mick e Judd, mas eles não acreditam em sua história.

Buscando abrigo, o casal se refugia em uma fazenda remota, onde Popolac acaba colidindo com a casa, matando Judd acidentalmente. Mick e o casal de idosos dono da fazenda enlouquecem de medo. Obcecado, Mick decide se juntar a Popolac. Ele escala a torre de cordas e corpos humanos e é levado com a criatura enquanto ela continua caminhando pelas colinas.

Uma frase deste conto, "incenso velho, suor antigo e mentiras", aparece na música “Sin”, do álbum Pretty Hate Machine, da banda americana de rock industrial Nine Inch Nails.

Livro de Sangue II A edição brasileira tem introdução do escritor Bruno Ribeiro.

"Pavor" Steve, um jovem universitário, acaba se aproximando de Quaid, um colega de classe mais velho, um intelectual com uma mórbida fascinação pelo medo. Quaid revela a Steve que sequestrou uma colega vegetariana e a trancou em um quarto onde havia apenas carne bovina para se alimentar. Ela só foi libertada quando, vencendo o pavor de comer carne para não morrer de fome, cedeu — mesmo com a carne já estragada.

Steve se torna o próximo alvo dos experimentos de Quaid. Ele é mantido preso em um quarto escuro e silencioso, forçado a reviver um período de sua infância em que ficou temporariamente surdo, uma experiência que o aterrorizava. A privação sensorial extrema o enlouquece, até que finalmente consegue escapar. Desorientado, Steve vai parar em um abrigo para pessoas em situação de rua, onde é confundido com um viciado em drogas. Lá, recebe roupas e sapatos novos, que não lhe servem direito. Está insano, pálido de choque, com os lábios vermelhos e rachados pela desidratação. Mais tarde, ele rouba um machado de incêndio no abrigo e invade a casa de Quaid.

Os experimentos de Quaid sempre tiveram como objetivo tentar compreender a verdadeira natureza do medo, numa tentativa de curar sua própria coulrofobia — o medo de palhaços. Ironicamente, ele acaba sendo brutalmente assassinado por Steve, cuja aparência cadavérica, roupas desajustadas e sapatos grandes o fazem parecer um palhaço grotesco.