miniatura|Hans Baldung Grien: Bruxas. Xilogravura de 1508
Os termos bruxaria ou feitiçaria ou ainda, menos comumente, embruxação, bruxação, embruxamento, bruxamento, bruxedo, etc., têm sido de uso corrente da língua portuguesa, designando o uso de poderes de cunho sobrenatural, sendo também utilizada como sinônimo de magia, feitiçaria, sortilégio ou encantação. Conforme proposto pelo historiador norte-americano Jeffrey B. Russell, existem três pontos de vista principais sobre o que é bruxaria: o primeiro ponto de vista é o antropológico e demonstra que bruxaria é sinônimo de magia, curandeirismo, xamanismo; o segundo é o histórico, que através de documentos escritos analisa os julgamentos de bruxaria durante a inquisição; o terceiro é o da bruxaria moderna ou hodierna, que defende a bruxaria como uma forma de religião pagã (ou neo-pagã), esse último sendo um ponto de vista normalmente defendido por wiccanos.
Etimologia A etimologia da palavra é incerta, mas acredita-se venha do italiano "brucia" (queima), que vem do verbo "bruciare" (queimar) ou de "brixtia", que vem do nome da deusa gaulesa Bricta. Outros indícios indicam que a palavra bruxa nasce na Antiguidade na Península Ibéria, cuja origem seria anterior a invasão romana e, por consequência, anterior ao próprio latim. O mesmo processo ocorreu com as palavras bezerro, cama, morro e sarna, conforme o professor doutor em Letras Claudio Moreno (UFRGS) explica em seu livro Morfologia Nominal do Português. Esta hipótese é reforçada pelo fato de só aparecer nas línguas ibérica português, "bruxa"; em espanhol, "bruja"; em catalão, "bruixa"); se viesse do latim, deveria também estar presente no francês, que usa "sorcière"; e no italiano, que usa "strega", línguas também pertencentes à família das línguas românicas.
Já feitiço, deriva do latim "facticius", um ("fictício, artificial, não-natural"), um vocábulo muito antigo na língua portuguesa, sendo registrado já no século XV. Inicialmente significava "postiço, artificial": chave feitiça era uma chave falsa, e briga feitiça era apenas de faz-de-conta. Logo, no entanto, assumiu o seu significado atual de "encantamento". Com o avanço português pela costa da África, os nativos adotaram o termo, modificando-lhe a pronúncia para /fe.′ti.xu/; os franceses, que então conheceram o vocábulo, importaram-no com a forma de "fétiche", que foi reimportada no século XIX, com o sentido de "objeto ao qual se atribui um valor sobrenatural" ou "objeto ou parte do corpo em que certos indivíduos vão buscar excitação erótica".
Já do inglês, "witchcraft" ou "witchery", suponha-se que ela está "relacionada com as palavras inglesas "wit", "wise", "wisdom" [raiz germânica * weit-, * wait-, * wit-; raiz indo-européia * weid-, * woid-, * wid-], então "ofício dos sábios". Outra é do "wiccecræft" do inglês antigo, um composto de "wicce" ("bruxa") e "cræft" ("artesanato/ofício").
Na terminologia antropológica, as bruxas diferem dos feiticeiros porque não usam ferramentas físicas ou ações para amaldiçoar; seu malefício é percebido como algo que se estende de alguma qualidade interna intangível, e um pode não ter consciência de ser uma bruxa, ou pode ter sido convencido de sua natureza pela sugestão de outros. Esta definição foi pioneira em um estudo das crenças mágicas da África Central por EE Evans-Pritchard, que alertou que pode não corresponder ao uso normal do inglês.
Bruxaria e Ciência na Modernidade Europeia Estudos historiográficos recentes têm desafiado a visão iluminista que opõe ciência e superstição. Entre os séculos XV e XVII, a bruxaria não era vista apenas como uma crença popular marginal, mas como parte integrante da cultura intelectual europeia. Nesse período, bruxaria e demonologia eram discutidas em universidades, tratados e círculos eruditos, sendo usadas como explicações plausíveis para doenças súbitas, desastres naturais e comportamentos considerados anômalos.
Mais do que superstição, a bruxaria era entendida como parte de um sistema de pensamento complexo, que envolvia agentes sobrenaturais, como demônios e espíritos malignos. Essas ideias estavam conectadas à filosofia natural e às tradições religiosas do período, refletindo uma forma predominante de interpretar o mundo. Assim, o estudo da bruxaria também fazia parte do esforço intelectual para compreender a natureza e os fenômenos da realidade.
A ascensão da ciência moderna não representou uma ruptura total com esse contexto, mas uma reorganização de saberes herdados da Antiguidade e da Idade Média. Durante a transição para a modernidade, práticas mágicas, conhecimento empírico e crenças religiosas coexistiram. A bruxaria, nesse cenário, estimulava reflexões sobre causalidade, natureza e os limites da experiência e da percepção humana.
A historiografia da ciência tem ressaltado a influência da bruxaria na formação do pensamento moderno. Discussões sobre bruxas e demônios frequentemente envolviam debates teológicos e filosóficos sobre causas ocultas, ação à distância e funcionamento da natureza. Essas reflexões contribuíram para a consolidação de conceitos como “experiência”, “observação” e “explicação”. As fronteiras entre magia e ciência eram, nesse período, permeáveis e negociáveis.
Além de seu papel na história da ciência, a bruxaria também esteve ligada a transformações sociais e políticas mais amplas na Europa. A interação entre discursos racionais e sobrenaturais contribuiu para processos como a secularização, o fortalecimento do Estado e, segundo algumas interpretações, a "Grande Divergência", processo pelo qual a Europa Ocidental se diferenciou econômica e intelectualmente de outras regiões. Nesse sentido, a bruxaria não foi um vestígio medieval, mas um componente ativo da modernidade europeia.
Tipos de Bruxaria A confusão entre bruxaria e magia levou muitos praticantes e leigos a criarem equivocadamente a dicotomia "bruxos brancos" e "bruxos negros", supondo que os que praticassem apenas o "bem" seriam bruxos brancos, e os que praticassem apenas o "mal" seriam bruxos negros. Porém, praticantes de bruxaria, em seu sentido mais lato, não se pautam pelos conceitos vulgares de bem e mal, considerando toda e qualquer magia como cinzenta (um misto da dualidade expressa metaforicamente de várias formas, e.g. luz e escuridão, positivo e negativo, "bem" e "mal"). A grande divisão que se pode fazer atualmente entre grandes grupos na bruxaria é entre a tradicional e a moderna.
Bruxaria Moderna Bruxaria moderna é considerada pela maioria das tradições de feitiçarias como um sinônimo para as surgidas embasadas ou a partir da fundada por Gerald B. Gardner, por vezes considerada sinônimo de Wicca, muito embora Raven Grimassi, referência mais conhecida da stregheria (bruxaria italiana), considere Charles Leland o pai da bruxaria moderna.
É importante ressaltar que determinadas ramificações modernas (como a Wicca) não reconhecem o diabo ou outros elementos judaico-cristãos em suas práticas. Segundo a leitura do fundador da Wicca (uma vertente da bruxaria moderna), Gerald Gardner,Gardner, Gerald B., A Bruxaria Hoje. Madras, São Paulo, SP, 2003 - em consonância com fontes de outras vertentes,Grimassi, Raven. Bruxaria Hereditária: Segredos da Antiga Religião. Gaia - Buckland, Raymond. O Livro Completo de Bruxaria do Buckland. Gaia - muitas ramificações hodiernas da bruxaria praticam o culto à Deusa e/ou ao Deus em sistemas que variam de uma deidade única hermafrodita ou feminina à pluralidade de panteões antigos, mais notadamente os panteões celta, egípcio, assírio, greco-romano e normando (viquingue). Grande parte dos grupos de praticantes hodiernos considera, inclusive, que diversas deusas antigas são diferentes faces de uma única Deusa.
A reintegração do ser humano à natureza é parte fundamental das crenças vinculadas à Wicca, o que se evidencia na celebração do fluir das estações do ano em até oito festividades chamadas sabás, sendo dois nos equinócios, dois nos solstícios e quatro em datas fixas.Farrar, Janet; Farrar, Stewart. Oito Sabás para Bruxas. Anubis - O fluxo de um curso completo de tais eventos chama-se comumente de Roda do Ano. Paralelamente aos sabás, muitas vertentes modernas contam com os esbás, que celebram as lunações. Aqui, todavia, há grandes diferenças entre vertentes, com alguns grupos comemorando todas as quatro fases, outros comemorando apenas o plenilúnio.
Ainda que supostamente iniciado por bruxas tradicionais, Gardner juntou, junto aos conhecimentos que elas teriam lhe passado, simbólicas e práticas ritualísticas de Alta Magia, bem como o princípio ético formulado pelo controverso ocultista Aleister Crowley ("faze o que tu queres, há de ser o todo da Lei"), ligeiramente modificado como "se a ninguém prejudicares, faze o que desejares", firmando assim as bases de uma nova crença.
Stregheria
Tradição de bruxaria natural da região onde hoje é a Itália, tendo suas raízes nos cultos neolíticos a uma deusa-mãe naturais da região do Mediterrâneo e do Egeu e construída sobre mitos de diversos povos, dentre eles os micênicos e etruscos. A veneração da stregheria é centrada na Deusa Diana Nemorensis e, segundo sua tradição, a linhagem formal das streghe teve início com uma sacerdotisa da Deusa Diana chamada Arádia.
Tradição Alexandrina
Contemporâneo de Gerald Gardner, Alex Sanders fundou a Tradição Alexandrina, bastante similar à Wicca, porém pertencente a outra linha iniciática e mais liberal quanto à exigência de nudez ritual.
Tradição Diânica
Caracterizada pela supremacia do culto à Deusa, em relação ao culto ao Deus, a Tradição Diânica é considerada a linha feminista da bruxaria, sendo que alguns de seus grupos só admitem membros do sexo feminino.
Tradição Ibérica Tradição de bruxaria que cultua antigos deuses da Península Ibérica, em especial da Lusitânia. A origem de tal linhagem se perde no tempo. Apesar de os registros mais antigos de linha iniciática da Tradição Ibérica datarem de fins do , cogita-se que por motivos de perseguição religiosa não eram tomados registros antes do início do , sendo provável que tal tradição tenha sido fundada pelas bruxas de aldeia da região onde hoje é Portugal em cima de práticas e conhecimentos da cultura celtibera, anteriores à conquista romana.
Tradição Escandinava Forma de bruxaria reconstrucionista, voltada as práticas de magia e feitiçaria entre os povos Escandinavos pré-cristãos, como o Seiðr, Galdr e magia rúnica, bem como também os Galdrastafur, bastões mágicos islandeses. Normalmente praticantes dessa tradição estão ligados aos movimentos religiosos do neopaganismo germânico.
Wicca Tradicional ou Tradição Gardneriana
Mãe de diversas tradições de bruxaria modernas, a Wicca tradicional foi fundada por Gerald Gardner em meados do século XX, a partir do sincretismo entre a bruxaria tradicional inglesa e a alta magia ensinada na Ordem Hermética da Aurora Dourada. Diversos iniciados por Gardner deram origem a outras tradições, ainda assim consideradas wiccanas, motivo pelo qual passou a se chamar a bruxaria ensinada por Gardner de Wicca tradicional.
Embruxamento