Nicolau I (; Njeguši, – Antibes, ) foi o soberano de Montenegro em duas ocasiões diferentes, primeiro de 1860 como Príncipe de Montenegro até sua proclamação como Rei de Montenegro em 1910, e depois ao assumir o trono como rei de 1910 até a abolição da monarquia em 1918.

Herdeiro aparente de seu tio Daniel I, que não possuía herdeiro homem, o Príncipe Nicolau ascendeu ao trono de Montenegro em agosto de 1860, após o assassinato de Daniel. Educado no exterior, em Paris e Trieste, Nicolau enfrentou durante seu reinado a difícil tarefa de popularizar as ideias ocidentais em um país tradicional e resistente à influência estrangeira. Como líder forte e competente, lutou contra os turcos em 1862 e novamente em 1876, quando conduziu uma brilhante campanha militar. No Congresso de Berlim de 1878, Montenegro teve sua soberania reconhecida e foi ampliado, passando a ter acesso direto ao Mar Adriático. Ao longo de seu reinado, Nicolau manteve uma estreita relação com Alexandre II da Rússia, que desde uma visita oficial a São Petersburgo em 1868 o apoiava com recursos financeiros e armas. Em determinado momento, o czar russo chegou a apoiar a candidatura de Nicolau ao trono da Sérvia. Hábil diplomata, Nicolau fortaleceu suas conexões dinásticas por meio dos casamentos de suas filhas. Sua filha Helena casou-se em 1896 com o futuro rei da Itália, Vítor Emanuel III; Zorka casou-se em 1883 com Pedro Karađorđević, mas morreu antes de ele se tornar rei da Sérvia; e outras duas filhas se uniram a grão-duques russos. Na política balcânica, Nicolau se envolveu em conspirações, por vezes aliando-se, outras vezes entrando em confronto com os governantes sérvios, com o objetivo de criar um estado eslava do sul unido.

Adotando o título de "Alteza Real" em dezembro de 1900, Nicolau adotou uma postura cada vez mais despótica, o que o levou a ser forçado a conceder uma constituição em 1905. No entanto, a dissensão política continuou, culminando no atentado de Cetinje contra sua vida, em 1907. Em 28 de agosto de 1910, Nicolau se autoproclamou rei, com a esperança de aumentar seu prestígio por meio da anexação de novos territórios. Para isso, participou da Guerra dos Balcãs de 1912-1913 contra o Império Otomano, mas suas conquistas territoriais foram decepcionantes. Durante a Primeira Guerra Mundial, ele apoiou a Sérvia na luta contra a Áustria-Hungria. Após a derrota, Nicolau concluiu uma paz separada com a Áustria-Hungria em janeiro de 1916 e se exilou na Itália. Com a derrota da Áustria-Hungria, as forças sérvias entraram em Montenegro, e em 26 de novembro de 1918, Nicolau e sua dinastia foram formalmente depostos por uma assembleia nacional. Montenegro foi então anexado à Sérvia e, posteriormente, se tornou parte do Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, que mais tarde se tornaria o Reino da Iugoslávia.

Nicolau era conhecido como um orador excepcional, ele também escreveu poemas patrióticos e épicos e dramas em verso. Entre suas obras mais relevantes destacam-se o canto patriótico sérvio Onamo, 'namo! ("Lá, mais além!") e o drama Balkanska carica ("A Imperatriz dos Bálcãs").Glas Crnogorca, 19 de outubro de 1999: Jovan Markuš: Dvije crnogorske himne (em sérvio)

Biografia Primeiros anos miniatura|esquerda|220px|Nicolau Petrović-Njegoš na infância, em seus tempos de escola em Trieste, em 1855. Nicolau nasceu na aldeia de Njeguši, berço da dinastia governante Petrović-Njegoš. Seu pai, Mirko Petrović-Njegoš, era um renomado duque montenegrino e irmão mais velho do Príncipe Daniel, que não possuía herdeiro homem. Sua mãe, Anastásia, pertencia à influente família Martinović. Quando Nicolau tinha doze anos, o duque Mirko prometeu-o em casamento a Milena Vukotić, então com seis anos, filha do abastado duque Petar Vukotić, amigo próximo de Mirko e companheiro de luta nas campanhas da década de 1850. Os dois decidiram selar sua amizade por meio da união de seus filhos.

Nicolau raramente via sua futura esposa, pois passou parte de sua infância estudando entre a França e Itália sob os cuidados da Princesa Darinka, esposa do Príncipe Daniel e tia de Nicolau. A Princesa Darinka era uma grande francófila, e, por insistência dela, o potencial sucessor de Montenegro foi enviado para estudar no Lycée Louis-le-Grand, em Paris. Após o assassinato do Príncipe Daniel em Kotor, em 1860, o Duque Mirko recusou assumir o trono, que então passou a Nicolau. Ele ainda se encontrava em Paris quando ascendeu ao título principesco, em 13 de agosto de 1860, aos 19 anos. Pouco depois, adoeceu gravemente de pneumonia e chegou a correr risco de morte.

miniatura|230px|Nicolau e sua esposa Milena Vukotić na década de 1860. Quando Nicolau se restabeleceu, decidiu-se que seu casamento com Milena deveria ocorrer o quanto antes, garantindo assim um herdeiro para o país. O duque Petar Vukotić viajou a São Petersburgo para informar o Imperador Alexandre II sobre a união. O casamento realizou-se na Igreja Valáquia, em Cetinje, em novembro de 1860.

Príncipe de Montenegro Os líderes montenegrinos há muito consideravam Montenegro o último remanescente invicto do Império Sérvio medieval e o centro em torno do qual esse império seria reconstruído. O estabelecimento do Principado da Sérvia, um estado autônomo no interior do Império Otomano, deu a Montenegro um aliado importante, mas também um concorrente pela supremacia na luta para libertar outras áreas de população sérvia. Montenegro estava localizado na periferia da Península Balcânica, enquanto a Sérvia, mais rica e desenvolvida, estava localizada em seu centro. Além disso, Belgrado era uma escolha melhor para a capital de um estado sérvio unificado do que a remota e pequena Cetinje.

miniatura|esquerda|260px|Estandarte pessoal de Nicolau como Príncipe de Montenegro. Após o assassinato de seu tio, o Príncipe Daniel, Nicolau foi escolhido como o novo príncipe, depois que seu pai, Mirko, havia anteriormente recusado o trono. Juntamente com sua tia, a Princesa Darinka, seu pai e uma grande comitiva, ele participou do funeral de Daniel. Durante a cerimônia, a Princesa Darinka retirou o toucado de Daniel do caixão e o colocou na cabeça de Nicolau, declarando: Aqui está, senhores e irmãos de Montenegro, um novo e feliz príncipe e senhor, assim foi o que o falecido ordenou e recomendou para mim. Darinka foi a primeira a beijar a mão do novo príncipe, e o jovem Nicolau, em resposta, disse às pessoas reunidas: Obrigado, meus queridos irmãos! Sou vosso e vós sois meus! Tentarei não subjugar os mais velhos e recomendo isso a vocês. Após esse gesto simbólico, ele se sentou ao lado da princesa. Seu pai, o Duque Mirko, beijou sua mão, seguido pela princesa, e todos os presentes fizeram o mesmo. Após o funeral de Daniel, uma grande celebração teve início, marcando o início do reinado de Nicolau sobre Montenegro. miniatura|260px|Toucados principescos de Milena e Nicolau.

Logo após sua ascensão ao trono, o Príncipe Nicolau recebeu em Cetinje a visita de Vuk Stefanović Karadžić, que trazia uma mensagem do Príncipe sérvio Miguel Obrenović, propondo ações conjuntas de libertação contra o Império Otomano. Tanto Miguel Obrenović quanto Nicolau haviam ascendido rapidamente ao trono, uma vez que Miloš Obrenović falecera pouco após Nicolau se tornar príncipe. Nos primeiros anos de seu reinado, Nicolau contou com o apoio e a cooperação de seu pai, o Duque Mirko. Nicolau continuou a apoiar a resistência das tribos da Herzegovina, lideradas por Luka Vukalović, acreditando que Montenegro se beneficiaria dessa revolta contra os turcos. Em 1862, liderou a primeira guerra contra o Império Otomano pela libertação da Herzegovina. No entanto, a guerra foi difícil para Montenegro, pois as grandes potências da Europa não apoiaram as aspirações de Nicolau. Em 1862, o exército turco, sob o comando de Omer Pasha, infligiu uma pesada derrota militar e política aos montenegrinos. A intervenção das grandes potências, como a França e a Rússia, impediu a conquista de Cetinje pelos turcos. Como resultado, Montenegro foi forçado a aceitar a soberania turca sobre algumas partes de seu território. As consequências dessa derrota moldaram significativamente a futura estratégia do país. Antes desse revés, Nicolau havia apoiado a política do Estado montenegrino de seu predecessor, o Príncipe Daniel. Contudo, após a derrota, ele se voltou para as políticas de Pedro I e Pedro II Petrović-Njegoš, adotando a ideia de criar um novo Império Sérvio e considerando-se o legítimo herdeiro imperial.

O príncipe Miguel Obrenović enviou seu emissário, Milan Piroćanac, a Montenegro para propor ao príncipe montenegrino uma aliança entre a Sérvia e Montenegro. O Príncipe Nicolau e o Duque Mirko buscavam uma plena cooperação militar imediata, enquanto a Sérvia, temendo a interferência da Áustria, preferia apenas harmonizar a política de defesa. O acordo foi finalmente concluído em 23 de setembro de 1866, apesar da resistência do Duque Mirko. Os dois principados concordaram em trabalhar de forma contínua pela libertação e unificação do povo sérvio, incitando rebeliões armadas nas regiões fronteiriças do Império Otomano. O acordo também previa que o príncipe montenegrino anexasse seu principado à Sérvia e reconhecesse o Príncipe Miguel como governante supremo, colocando-o em segundo lugar na linha de sucessão ao trono montenegrino. No entanto, nenhum dos lados cumpriu totalmente os termos do acordo, já que os interesses dinásticos entre as famílias Petrović-Njegoš e Obrenović estavam em desacordo. A falha em implementar o acordo gerou uma hostilidade latente e duradoura entre as duas dinastias.

miniatura|esquerda|220px|Príncipe Nicolau na década de 1870. Em 1867, o Príncipe Nicolau fez uma visita ao imperador francês Napoleão III em Paris, e, no ano seguinte, em 1868, viajou à Rússia, onde foi recebido com grandes honras pelo imperador russo Alexandre II. Durante sua estadia, Nicolau fortaleceu ainda mais os laços que seus ancestrais haviam estabelecido com a Rússia. Também se hospedou nas cortes de Berlim e Viena, o que aproximou significativamente o príncipe da família imperial russa. Ao retornar de suas viagens, Nicolau iniciou um trabalho ativo na reorganização do Estado montenegrino. Sua principal preocupação era a reorganização do exército, mas também fundou tribunais e escolas em várias partes do país. Um dos marcos de sua reforma foi a fundação de Danilovgrad, o primeiro assentamento planejado de Montenegro. O imperador e a imperatriz russos da Rússia contribuíram substancialmente para o sistema educacional montenegrino, enviando grandes remessas de equipamentos e munições para Cetinje.

Após consolidar seu poder, uma revolta, conhecida como a Revolta de Boka, estourou em Krivošija em 1869, em resposta à introdução do serviço militar obrigatório pela Áustria-Hungria. Embora tenha secretamente oferecido apoio aos rebeldes, o Príncipe Nicolau adotou uma postura oficial de neutralidade, impedindo que os montenegrinos se envolvessem mais diretamente na revolta.

Guerra Montenegrina-Turca (1876–1878) miniatura|360px|O retorno dos refugiados montenegrinos à sua aldeia natal, por Jaroslav Čermák, 1877. Com o fim da da Guerra Montenegrina-Turca, em 1878, Montenegro conseguiu triplicar seu território e dobrar sua população.