Mato Grosso foi um contratorpedeiro da classe Pará operado pela Marinha do Brasil, de 1909 a 1946. Mato Grosso foi construído pela empresa naval britânica Yarrow Shipbuilders, com o batimento de quilha ocorrendo em 1908, o lançamento ao mar em 23 de dezembro do mesmo ano e a comissão na armada em 24 de julho de 1909. Tinha um peso em deslocamento em carga total de 650 toneladas, media 70,24 metros de comprimento, boca de 7,16 metros, pontal de 4,27 metros e calado de 2,31 metros. Seus armamentos principais eram dois canhões de 101,6 milímetros e dois lançadores de torpedos de 457 milímetros. Alcançava a velocidade máxima de 27 nós (aproximadamente 50 quilômetros por hora).
Mato Grosso participou de forma relativamente ativa dos dois maiores conflitos da história, a primeira e segunda guerras mundiais, operando no patrulhamento da costa brasileira e auxiliando no treinamento de aspirantes a oficial. Além disso, o contratorpedeiro teve participação ativa nos principais conflitos domésticos, começando pela Revolta da Chibata, em 1910, onde marinheiros insatisfeitos com os maus tratos que recebiam se rebelaram e tomaram importantes navios da armada. Participou da expedição ao Paraguai, integrando a frota brasileira destinada a assegurar a neutralidade do país diante da guerra civil que assolava o país vizinho em 1911–1912.
Durante os movimentos tenentistas de 1924 participou da ocupação do Porto de Santos, na Revolta Paulista, e subiu o rio Amazonas para combater as forças navais da Comuna de Manaus. O contratorpedeiro retornou a Santos na Revolução Paulista de 1932, quando participou do bloqueio naval para impedir a chegada de suprimentos aos rebeldes. Mato Grosso também participou, no fim de 1932, da patrulha ao longo dos rios fronteiriços com a Colômbia e o Peru, durante a guerra que ambos travavam, com o objetivo de impedir ações dentro do país de navios dos beligerantes. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o contratorpedeiro passou por reformas para garantir sua navegabilidade, mantendo o serviço ativo por mais um ano, até ser aposentado em 13 de setembro de 1946.
Construção No início do século XX, o governo brasileiro estudava planos para a modernização de sua marinha de guerra, que após o período imperial, estava completamente defasada. Seguiu-se dois planos: do almirante Júlio Cesar de Noronha, em 1904, e do almirante Alexandrino Faria de Alencar, em 1906. Apesar do primeiro plano ter sido aprovado pelo congresso legislativo, com a mudança de governo, o plano concretizado foi o último. Foram adquiridos os encouraçados Minas Geraes e São Paulo; cruzadores Bahia e Rio Grande do Sul, e os contratorpedeiros da Classe Pará, que incluía o Mato Grosso.
A classe Pará foi desenvolvida tendo como base o projeto de contratorpedeiros ingleses da classe River. Mato Grosso foi construído nos estaleiros da construtora naval britânica Yarrow Shipbuilder, em West Glasgow. O contratorpedeiro teve a batimento de quilha em 1908, com progresso positivo na construção permitindo o lançamento ao mar em 21 de dezembro daquele ano. A construção foi finalizada e em seguida foi oficialmente entregue ao governo brasileiro em 5 de maio de 1909. É o primeiro navio na Marinha do Brasil a ostentar o nome em homenagem ao estado brasileiro de Mato Grosso. O outro navio foi o também contratorpedeiro CT Mato Grosso (D-34).
Características esquerda|miniaturadaimagem|Projeto da classe ParáO contratorpedeiro Mato Grosso apresentava uma estrutura robusta construída com chapa de aço de cinco mm e reforços horizontais, dividida em doze compartimentos estanques para garantir segurança em caso de danos, embora não possuísse couraçamento adicional. Seu layout funcional acomodava áreas operacionais e acomodações da tripulação e oficiais de maneira eficiente. Com um deslocamento de 650 toneladas a plena carga e 560 toneladas em condição normal, tinha um comprimento de 70,24 metros, boca de 7,16 metros, pontal de 4,27 metros e calado de 2,31 metros.
No aspecto armamentístico, o Mato Grosso contava com dois canhões de 101,6 mm, quatro canhões de 47 mm, uma metralhadora de 7 mm, dois tubos lançadores de torpedos e um lança-bombas foguete MK 22 para defesa e ataque. Sua propulsão era assegurada por duas caldeiras a carvão Yarrow e 2 motores de tríplice expansão que geravam 8 mil HP de potência, que permitiam uma velocidade máxima de 27 nós e um raio de ação de 1 600 milhas a 15 nós. O navio estava equipado com instrumentos de navegação, incluindo agulhas magnéticas e odômetros, bem como sistemas de comunicação telegráfica e visual. Em tempos de paz, a tripulação consistia em onze oficiais, quatro suboficiais, 89 marinheiros e sete taifeiros, podendo ser reforçada em tempos de guerra.
História
Início de carreira Após a entrega oficial do navio ao governo brasileiro, o Mato Grosso partiu para o Brasil em 31 de maio de 1909, sob comando do Capitão de Corveta Augusto Theotonio Pereira, em uma viagem que passou por diversos portos europeus, entre eles Gourock, Falmouth, Brest, Vigo, Lisboa, Las Palmas e São Vicente. O primeiro porto brasileiro em que a embarcação atracou foi em Recife, região nordeste. Por fim, Mato Grosso aportou no Rio de Janeio, região sudeste, em 20 de julho. O contratorpedeiro foi oficialmente incorporado na Marinha do Brasil em 24 de julho, em uma cerimônia que foi realizada também no Rio de Janeiro. Na ocasião, Mato Grosso foi classificado como navio de terceira classe, recebendo em seguida o número indicativo 25, que mais tarde seria alterado de maneira definitivo para 10 (CT-10).
Os encouraçados Minas Geraes e São Paulo, que também faziam parte do programa naval de 1906, chegaram ao Brasil em 1910. Minas Geraes aportou no Rio de Janeiro em abril e o São Paulo em outubro. O Mato Grosso foi destacado para realizar a escolta durante a vinda de cada um. Em 11 de junho, a armada brasileira incorporou o contratorpedeiro na Divisão Naval do Centro, divisão naval que em 1917 também era composta pelos encouraçados Minas Geraes e São Paulo e pelos contratorpedeiros CT Amazonas (CT-1), CT Parahyba (CT-5), CT Alagoas (CT-6), CT Paraná (CT-8) e CT Pará (CT-2). O comandante da divisão era o Contra-Almirante Francisco de Mattos.
Revolta da Chibata
miniaturadaimagem|Edição do dia 24 de novembro de 1910 do jornal Correio da Manhã Em 1910, uma grande parcela dos marinheiros da armada, que em sua grande maioria era de afrodescendentes, estava organizando uma revolta contra seus superiores devido aos castigos físicos que sofriam. Os oficiais destinavam trabalhos rígidos e disciplinas cruéis. Os marinheiros eram disciplinados severamente por qualquer falta que cometiam. Não importava se aquele castigado tinha um bom comportamento anterior ou se fosse sabidamente indisciplinado. Os castigos físicos eram corriqueiros e se resumiam a golpes de chibata. Há registros de marinheiros que recebiam quinhentas ou, até mesmo, oitocentas chibatadas em um mesmo dia. O limite preestabelecido de açoites era constantemente ignorado e ultrapassado, com pouca ou nenhuma consequência para o oficial que os aplicava. Em sua pesquisa, o escritor Álvaro Pereira do Nascimento registra apenas um processo penal contra um oficial por exagero nas chibatas. O oficial processado foi José Cândido Guillobel, que recebeu como punição apenas uma advertência. Por isso, sob liderança de João Cândido, os marinheiros se rebelaram no episódio conhecido como Revolta da Chibata.
No dia 22 de novembro, os revoltosos tomaram o controle dos encouraçados Minas Geraes, São Paulo e Deodoro, e do cruzador Bahia. No entanto, o governo dispunha de algumas embarcações, mas enfrentava um desafio significativo diante dos navios rebeldes. As únicas embarcações em posse do governo capazes de enfrentar imediatamente os amotinados eram o cruzador Rio Grande do Sul, o veterano cruzador Barroso e oito contratorpedeiros da classe Pará incluindo o Mato Grosso. No entanto, em termos de poder ofensivo, esses navios eram consideravelmente inferiores se comparados a apenas um dos dreadnoughts pertencentes aos revoltosos.
Mesmo com essa desvantagem, o presidente ordenou que essa modesta esquadra atacasse os navios rebeldes em 25 do referido mês. No entanto, os navios rebeldes não se encontravam na baía de Guanabara. Pelo contrário, eles navegavam próximos à costa, uma estratégia adotada para evitar um possível contra-ataque do governo. Essa situação enfatizava a complexidade do conflito e as dificuldades enfrentadas pelo governo para lidar com a revolta naval. A tripulação manteve-se em prontidão de batalha, mas não houve combate entre o Mato Grosso e os amotinados.
Expedição ao Paraguai No início do século XX, o Paraguai vivenciou diversas revoluções e golpes, resultando em sérios abalos na política daquele país. Em 1911, ocorreu uma guerra civil que resultou na morte de milhares de pessoas. De um lado, havia os liberais radicais que apoiavam o governo do presidente deposto Manuel Gondra. Do outro, os liberais cívicos que defendia o presidente em exercício que assumiu o governo através de um golpe, Albino Jara. Os dois grupos pertenciam à facções opostas dentro do Partido Liberal. Os membros do Partido Colorado, históricos opositores dos liberais, se mantiveram oficialmente neutros no conflito, mas simpatizavam simbolicamente com os cívicos.
O governo brasileiro declarou sua neutralidade no conflito, inclusive a Argentina, visto que o Brasil não desejava comprometer as relações com o vizinho por questões no Paraguai. Apesar disso, ambos os países despacharam navios de guerra até a capital Assunção para não permitir que o conflito saísse das fronteiras paraguaias e também impedir a chegada de suprimentos que alimentassem a guerra. O Brasil enviou os navios da Flotilha de Mato Grosso, além do cruzador torpedeiro Tymbira e dos contratorpedeiros Rio Grande do Norte e Mato Grosso. A frota brasileira ficou sob o comando do Capitão de Mar e Guerra Oliveira Santos. Na ocasião, Mato Grosso era comandado pelo Capitão de Corveta Avarim Costa. O conflito encerrou-se em 1912.
Pré-Primeira Guerra Mundial As atividades do Mato Grosso em 1913 foram repletas de movimentos. Em 17 de fevereiro, ambos os navios partiram para uma série de exercícios na Ilha Grande, partindo do Rio de Janeiro e passando por Abraão, Tapera, Canibuy e Palmas antes de retornar à cidade no final do mês, em 28 de fevereiro. No mês de março, no dia 17, esses navios partiram novamente do Rio em direção à Ilha Grande, desta vez acompanhados pelo cruzador torpedeiro Tupy e pelos contratorpedeiros Rio Grande do Norte, Paraná e Sergipe. Durante essa jornada, visitaram Abraão, Cantuy e Angra dos Reis, regressando em 30 de março.
Em 19 de julho, houve uma nova suspensão, dessa vez para realizar exercícios com torpedos e treinamento dos aspirantes da Escola Naval, com o retorno no mesmo dia. Em 16 de agosto, Mato Grosso partiu novamente, dessa vez para encontrar o encouraçado Minas Geraes que estava retornando de uma viagem aos Estados Unidos, trazendo consigo Lauro Müller, Ministro das Relações Exteriores. A volta ocorreu no mesmo dia. Ainda no mesmo mês, em 16 de agosto, o Mato Grosso partiu para realizar exercícios na Ilha Grande, voltando em 31 de agosto. Entre 15 de setembro e 25 de outubro, o navio passou por manutenção no Dique Santa Cruz na Ilha das Cobras, onde uma chapa do costado foi substituída e outros reparos foram feitos. Naquele ano, o Mato Grosso permaneceu baseado no Rio de Janeiro e se encontrava em bom estado operacional.
No ano de 1914, mais precisamente em 12 de janeiro, o Mato Grosso desempenhou um papel importante na 4.ª Divisão Naval, juntamente com o navio transporte Carlos Gomes e outros contratorpedeiros, incluindo o Amazonas, Para, Piauhy, Rio Grande do Norte, Parahyba, Alagoas, Paraná e Santa Catarina. Nesse contexto, eles se uniram para realizar exercícios com a Esquadra na costa de Santa Catarina. O desfecho dessa missão ocorreu em 27 de fevereiro.