A torre sineira de Leiria é uma torre sineira setecentista em estilo barroco localizada na referida cidade, em Portugal. Sita no Largo D. Manuel de Arriaga, na cidade portuguesa de Leiria, tem a particularidade de estar separada da Sé dessa cidade.

Em 23 de Outubro de 2014, o conjunto constituído pela Sé de Leiria, incluindo o claustro, adro envolvente, a torre sineira e a casa do sineiro, foi classificado como monumento nacional.

História

Origens A torre remonta ao projecto original da Sé de Leiria, iniciado cerca de 1550, o qual previa a edificação de uma torre no flanco esquerdo da fachada. Embora a obra tenha sido principiada, foi posteriormente abandonada em favor de uma localização distinta.

A decisão de erguer o campanário afastado do templo principal, num local de cota superior, prendeu-se fundamentalmente com a necessidade de garantir a audibilidade dos toques nas zonas mais distantes da cidade, nomeadamente no Arrabalde da Ponte, no bairro de Santiago e na zona do convento e igreja de São Francisco, onde começava a haver crescimento urbano.

O local escolhido para a implantação definitiva correspondia a uma das antigas entradas da muralha medieval, a Porta do Sol, que dava acesso ao castelo. Existem indícios de que uma estrutura anterior, possivelmente uma torre provisória ou mais modesta, terá sido afectada pelo terramoto de 1755.ALMEIDA, Álvaro Duarte de; BELO, Duarte (2007). Portugal Património: Guia-Inventário. III. Lisboa: Círculo de Leitores. p. 352

A construção actual A configuração monumental que hoje se observa deve-se à iniciativa de D. Frei Miguel de Bulhões e Sousa, Bispo de Leiria, que ordenou a sua construção. A data de 1770 figura na edificação, assinalando a intervenção deste prelado, cujo brasão marca visualmente a obra, funcionando como um testemunho do poder eclesiástico na paisagem setecentista.

O equipamento foi sendo actualizado ao longo dos tempos. Em 1772, André de Aregos fundiu um dos sinos, mas foi no início do século XIX, sob a égide do Bispo D. Manuel de Aguiar, que o conjunto ganhou a sua configuração sonora definitiva com a execução de sete sinos por João Craveiro, em 1801. Durante muito tempo o maior foi ainda usado para anunciar incêndios e outros acontecimentos de vulto, através do deciframento das badaladas.

A Torre e a contígua Casa do Sineiro desempenharam um papel fulcral no quotidiano da cidade até ao final do século XX. O espaço foi habitado por gerações de sineiros, sendo o último residente o sacristão António Caetano de Lima.

A função dos toques ia além do uso litúrgico, servindo como sistema de aviso para incêndios — com códigos sonoros específicos que indicavam se o fogo ocorria na malha urbana ou nos arredores — e até como veículo de manifestação política, havendo registos da execução de melodias republicanas como A Portuguesa após a mudança de regime em 1910. Numa fase posterior, o cónego José de Oliveira Rosa, organista, notabilizou-se pela execução de modinhas populares no carrilhão.

A torre sineira serviu de inspiração a Eça de Queirós para o romance O Crime do Padre Amaro, cuja acção decorre sobretudo na cidade de Leiria. Embora na ficção o autor descreva a torre e a residência como estando anexas à Sé, na realidade estas encontram-se separadas. A Casa do Sineiro é retratada na obra como o local dos encontros clandestinos entre as personagens Amaro e Amélia, sob o pretexto de visitas de caridade. Aqui se apresenta o excerto:Encontravam-se todas as semanas, ora uma ora duas vezes, de modo que as suas visitas caridosas à paralítica perfizessem ao fim do mês o número simbólico de sete (…). Na véspera, o padre Amaro tinha prevenido o tio Esguelhas, que deixava a porta da rua apenas cerrada, depois de ter varrido toda a casa e preparado o quarto para a prática do senhor pároco.

Mas se ao entrar em casa do sineiro, o não encontrava, ia logo, sem se deter ao pé da cama da Totó, postar-se à janela da cozinha, vigiando a porta maciça da sacristia de que ela conhecia uma por uma as chapas negras de ferro.QUEIRÓS, Eça de – O crime do Padre Amaro: cenas da vida devota. Fixação de texto e notas de Helena Cidade Moura. Carnaxide: Livros do Brasil, 2013A casa e o terreno anexo foram devolvidos à posse do Estado em 1951. Décadas mais tarde, em 2010, o Cabido da Sé propôs a classificação formal do conjunto, o que culminou no decreto de 2014. Mais recentemente, em 2016, estabeleceram-se acordos para a musealização do espaço, visando a recuperação da memória sonora de Leiria.

O piso térreo da torre já foi usado como prisão; no edifício anexo situa-se actualmente a esquadra da PSP.

Descrição O imóvel, caracterizado pelo seu estilo barroco, apresenta uma planta quadrangular e caracteriza-se por uma vincada verticalidade, desenvolvendo-se em dois registos distintos. A estrutura assenta sobre o local de um antigo baluarte defensivo, do qual já não restam vestígios visíveis, tendo a porta da muralha anexa sido alargada para permitir a construção da habitação do sineiro.

Arquitectonicamente, a torre exibe fachadas rebocadas e pintadas de branco, delimitadas por cunhais de cantaria que reforçam a solidez do edifício. O primeiro registo possui porta e janela de traçado rectilíneo, enquanto o registo superior, separado por frisos e cornijas, é integralmente executado em cantaria. Neste nível superior, rasgam-se em cada face duas ventanas em arco de volta perfeita, onde se alojam os sinos de João Craveiro. Sobre a cimalha saliente, encontram-se os mostradores quadrangulares dos relógios.

O remate da torre é constituído por uma cobertura em coruchéu bolboso, ladeada nos quatro ângulos por pináculos decorativos. No vértice da cobertura, ergue-se um catavento metálico com a forma de um anjo. Na face Norte, exibe-se a pedra de armas de D. Manuel de Aguiar. O sino maior ostenta uma inscrição que documenta a construção da torre sineira:SENDO Bº DESTA CID. E DE LRª O EXMº E REMº SR. D. MANOEL DE AGUIAR FOI FEITO ESTE SINO E TODO O INSTRUMENTO DESTA TORRE EM 8.ª POR JOÃO CRAVEIRO NO ANO DE 1801A Casa do Sineiro, edificada contiguamente à torre, completa o conjunto edificado neste afloramento rochoso que antecede a subida para o Castelo.

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