Iúçufe ibne Taxufine Naceradim ibne Talacaquinim (, Yūsuf ibn Tāshfīn Nāṣir al-Dīn ibn Tālākākīnīn; , Yusef ag Tacfin ag Talakakin Alemtan; 1009/10–), mais conhecido apenas como Iúçufe ibne Taxufine, Iúçufe ibne Texufine, Iúçufe ibne Texefine, Iúçufe ben Texufine e Iúçufe ben Taxefine, foi o primeiro emir do Império Almorávida, governando entre 1061 e sua morte. Natural do Suz, integrou-se cedo ao movimento almorávida, no contexto das reformas religiosas e políticas lideradas pelos sanajas do deserto. Destacou-se rapidamente tanto por sua capacidade militar quanto administrativa, qualidades que lhe permitiram ascender dentro da hierarquia do movimento. Após a morte de Iáia, passou a servir a Abu Becre, assumindo o controle da administração setentrional do movimento, função na qual consolidou progressivamente sua autoridade pessoal sobre as tribos sanajas e sobre os territórios conquistados no Magrebe.
A partir de 1061, Iúçufe conduziu uma política sistemática de expansão, unificação e estabilização do Magrebe, combinando campanhas militares com reorganização administrativa. Conquistou cidades estratégicas como Sefru e Fez, onde promoveu reformas urbanas, estabeleceu guarnições permanentes e integrou as elites locais ao novo poder almorávida. Avançou também sobre territórios controlados por confederações amazigues rivais, alcançando o Mediterrâneo e incorporando centros importantes como Tremecém e Argel. Paralelamente, estruturou um Estado centralizado com sede em Marraquexe, cidade fundada como capital, onde estabeleceu divisões administrativas, fortaleceu o exército profissional e garantiu a sustentabilidade financeira do império por meio da cobrança de impostos considerados legais e do controle das rotas do ouro saariano.
No Alandalus, Iúçufe inicialmente interveio como aliado dos reis de taifas, que se encontravam ameaçados pelo avanço cristão e pela fragmentação política interna. Após assegurar o controle de Ceuta, atravessou o estreito de Gibraltar e obteve uma vitória decisiva sobre na Batalha de Zalaca (1086), o que reforçou enormemente seu prestígio. Diante da incapacidade dos soberanos andalusinos de resistir de forma eficaz à pressão cristã e de manter a ordem interna, rompeu com as taifas e iniciou sua deposição sistemática. Entre 1090 e 1092, tomou cidades como Córdova, Sevilha e Málaga, dissolvendo definitivamente o sistema de taifas e integrando seus territórios ao Império Almorávida.
Nos últimos anos de seu reinado, Iúçufe buscou reforçar a legitimidade de seu poder ao reconhecer a supremacia simbólica do Califado Abássida e adotar o título de comandante dos muçulmanos. Empenhou-se também em consolidar a sucessão em favor de seu filho Ali, garantindo a continuidade dinástica e administrativa do Estado. Manteve o controle almorávida sobre quase todo o Alandalus, à exceção de Saragoça, e preservou a coesão de um império que se estendia do Saara à Península Ibérica. Morreu em Marraquexe em 1106, quase centenário, deixando uma imagem duradoura de governante austero, piedoso e particularmente habilidoso na organização política e militar.
Vida Primeiros anos
De acordo com a tradição, Iúçufe ibne Taxufine nasceu em 1009/10 na região amazigue do Suz, onde passou a infância e a juventude. Sabe-se que pertencia ao clã dos tarfutitas dos sanajas lantunas e era filho de Taxufine ibne Ibraim e primo-irmão de dois dos primeiros seguidores do ideólogo Abedalá ibne Iacine, Iáia e Abu Becre ibne Omar. Começou sua carreira junto a Abu Becre, que tornou-se o segundo chefe militar almorávida após a morte de Iáia. Foi provavelmente governador da região de Tafilete durante vários anos, após sua conquista em 1056 pelos almorávidas, e participou nas campanhas de submissão das planícies costeiras do rio Suz. Em 1070, segundo Ibne Idari, Abu Becre, chefe militar do movimento após a morte de seu irmão Iáia, fundou Marraquexe, que tornar-se-ia a capital do ascendente Império Almorávida, em substituição de Agmate; em certas datações, sobremaneira amparadas na data apresentada em algumas fontes árabes (Ibne Abi Zar e Ibne Caldune), assume-se que a cidade foi fundada em 1062 (Dreses dá o improvável ano de 1178). Algumas tradições, por conseguinte, colocam erroneamente Iúçufe como fundador da cidade. De todo modo, nesse mesmo ano, Abu Becre deixou sob comando de Iúçufe os territórios almorávidas ao norte e a continuidade das campanhas contras os zenetas, enquanto ele marcharia para enfrentar os sanajas massufas, que se tinham rebelado contra o movimento, invejosos dos privilégios dos lantunas, seus rivais tradicionais.
Durante a ausência de Abu Becre, que durou até finais de 1072 (ou 1062), Iúçufe empreendeu uma crucial reorganização militar e administrativa do território. Graças a sua liberalidade e dotes de comando, ganhou as simpatias de seus subordinados. Além disso, obteve muitos escravos do Sudão e cativos cristãos do Alandalus, de modo que não dependia mais exclusivamente dos contingentes sanajas. Antes de partir, Abu Becre divorciou-se de sua esposa Zainabe, que então foi desposada por Iúçufe. Quando Abu Becre retornou, Iúçufe recusou-se a devolver-lhe o poder. Por intermédio de Zainabe, Iúçufe concordou em dar-lhe grande quantidade de presentes para dissuadi-lo. Desejando evitar um novo conflito no seio do movimento, Abu Becre aceitou os presentes partiu ao sul para combater os Estados negros do deserto. Abu Becre nunca mais retornou ao fronte norte, mas seguiu sendo reconhecido como líder do movimento até sua eventual morte em 1087. Outrossim, a cunhagem emitida no período seguiu apresentando o nome de Abu Becre, o que reforça que Iúçufe manteve-se leal ao primo. Nesse ponto, Iúçufe dedicou-se a organizar a administração do novo Estado e o exército, que ficou dividido em cinco grupos; reservou para si o comando do maior, que abarcava metade das tropas.
Consolidação do Magrebe
Estabelecida a estrutura administrativa do Estado e reorganizado o exército, Iúçufe retomou as campanhas de unificação, avançando para a planície do Saís. Dali, apoderou-se de Sefru e dedicou algum tempo a controlar toda a área circundante a Fez, antes de investir contra ela e tomá-la. Em 1063, investiu contra a cidade, cujo emir Muançar ibne Hamade foi derrotado em combate e decidiu abandoná-la. Com essa conquista, todo o norte do atual Marrocos estava sob controle almorávida, salvo Ceuta e Tânger. Algum tempo depois, contudo, os magrauas rebelaram-se, Muançar ibne Hamade depôs o tenente almorávida instalado ali e retomou sua capital. Isso obrigou Iúçufe a conduzir uma campanha contra eles, depois da qual submeteu os gomaras do Rife e alcançou o Mediterrâneo. Após essas novas vitórias, Fez foi atacada, o que causou a morte de Muançar. O filho de Muançar, Tamime, resistiu por algum tempo aos ataques, mas foi derrotado e executado e sua capital foi conquistada. A depender da cronologia adotada, a data da conquista é variadamente descrita como pertencendo aos anos 1060 ou 1070. Alguns autores colocam que ela caiu em 1069, enquanto outros sugerem 1070 ou 1074/5. Fez foi amplamente reformada, para minimizar os danos decorrentes dos vários ataques: Iúçufe uniu o bairro andalusino e o cairuanês, ergueu uma nova muralha e uma fortaleza para o governador e a guarnição e construiu novas mesquitas e banhos. Além disso, Iúçufe designou Omar ibne Solimão Almassufi como governador.
Em 1071, Iúçufe conquistou a região do rio Mulucha. Em 1072/3, o exército conquistou a cidade de Adimna, ao sudeste de Tânger, a um dia de marcha de Ceuta. De lá, marchou para o monte Aludane, nos territórios gomaras. Em meados de 1073, tomou o controle de Calate Almadi em Fazaz. Em 1074/5, subjugou várias tribos mequinaças entre Fez e Taza. Em 1076, Ibraim, filho de Abu Becre e governador de Segelmeça, veio a Agmate reivindicar o poder do qual seu pai fora privado. Assim que soube, Iúçufe enviou o oficial Masdali ibne Tilancane, que se reuniu com Ibraim. Com habilidade, ele contornou a crise, dissuadindo Ibraim de manter seus reclamos. Ao oferecer presentes que Ibraim aceitou, como seu pai fizera, ele voltou ao Saara. Em 1077, o general Sale ibne Inrane tomou Tânger, após derrotar seu governante, o ex-excravo Sucute Albarguati. Na segunda metade de 1079 (Vincent Lagardère datou a expedição em 1075), Iúçufe deu a Masdali o comando de 20 mil soldados e o enviou para subjugar Tremecém. As forças almorávidas avançaram pelo vale do Mulucha, onde enfrentaram o inimigo — uma força armada dos ialaítas, em algum ponto entre o Mulucha e o Zá. Masdali esmagou os inimigos zenetas e executou Ialá, um provável filho do emir Alabás ibne Iáia Azanati.
O cronista Ibne Abi Zar se contradiz nesse ponto ao afirmar que Masdali conquistou e arrasou Tremecém em 1080, enquanto em 1081 Iúçufe marchou contra ela e a conquistou. É provável que Masdali tenha conseguido capturar os territórios ao sul da cidade, mas não teve condições logísticas para conquistar a capital, talvez pela incapacidade de suas forças ou as baixas excessivas que pode ter sofrido no transcurso da expedição. É possível que tenha avançado em demasia em território inimigo, sem antes subjugar outros grupos hostis como os isnassanitas, que eram aparentados aos magrauas, e controlavam a cidade de Ujda. Ao contrário de outros períodos, os isnassanitas podem ter se unido momentaneamente e formado um bloco defensivo que impediu a concretização dos planos de Masdali. Como consequência, Masdali retornou a Marraquexe para anunciar seus feitos.
Com o retorno de Masdali, Iúçufe em pessoa conduziu uma grande campanha em 1081. Partindo de Fez, penetrou o Rife. Passando pelo corredor de Taza, alcançou o Mulucha por Agarsife (Guercife), que foi ocupada pela primeira vez pelos almorávidas. Seguindo o curso baixo do Mulucha até o Zá, submeteu as populações dessa região e, tomando a direção noroeste, penetrou no Rife e percorreu com seu exército toda a região compreendida entre o Mulucha e o uádi Guis, povoada pelas tribos zuagas, matematas, cabedanas, marnisas e outras. Tomou a cidade de Melilha e arrasou Necor. Refazendo o caminho, voltou a Guercife e dali a Zá, povoado no entroncamento das rotas de Ujda a Segelmeça e a Fez. Submeteu e ocupou totalmente o território dos isnassanitas, a leste do Mulucha, e, desdobrando suas forças pela planície dos Angade, entrou em Ujda. Em seguida, dirigiu-se a Tremecém e, apoderando-se da cidade, ordenou a execução do governador Alabás, os membros de sua família e a guarnição magraua. No lugar de Alabás, nomeou Maomé ibne Tinaguemar. Em 1082, Iúçufe conquistou Orã e Argel. Naquela época, Iúçufe fundou ao lado de Agadir a cidade de Tacrarte, que mais tarde fundiu-se com Agadir no período almóada para se tornar a cidade atual de Tremecém.
Na mesma época, Iúçufe também entrou em conflito com o Reino Hamádida de Alcalá. De Tremecém, os almorávidas estavam atacando território sanaja com conivência dos zenetas, eles próprios incitados pelos macuquitas, apesar da relação deles por casamento com o emir Almançor ibne Anácer . Almançor puniu os macuquitas e investiu contra Tremecém, obrigando Iúçufe ibne Taxufine a pedir a paz. Os almorávidas logo quebraram a paz, mas foram novamente forçados a se retirar. Mais tarde, em algum momento provavelmente após 1091, Almançor foi derrotado por zenetas sob Macuque e foi obrigado a voltar para Bugia. Em retaliação, matou sua esposa, filha de Macuque, e saqueou Tremecém em 1103. Em 1104, uma tratado de paz hamádida-almorávida foi assinado e Almançor ficou livre para reprimir os zenetas do Magrebe Central. Desse ponto em diante, Argel tornou-se seu posto avançado mais oriental dos almorávidas.