thumb|direita|300px|Biblioteca Nacional, localizada no Rio de Janeiro, depositária do patrimônio bibliográfico e documental do Brasil.

A história do livro no Brasil relata o desenvolvimento do acesso aos recursos de editoração e de aquisição do livro no país, num período que se estende desde o início da atividade editorial, durante a colonização, até o mercado editorial atual, compreendendo a história das editoras e livrarias que permitiram a acessibilidade moderna ao livro.

Período Colonial Acredita-se que a tipografia só foi introduzida nas colônias pelos colonizadores, onde havia uma cultura autóctone altamente desenvolvida, que o poder colonial desejava suplantar ou reprimir. Tal ideia é defendida por Nelson Werneck SodréSODRÉ, Nelson Werneck, 1970, p. 291-293. In: Hallewell, L., 1985, p. 8 e outros. A tipografia, nos primeiros dois séculos da colonização portuguesa e espanhola, foi em parte um auxiliar da evangelização cristã, era implantada por iniciativa clerical, tanto que sua produção era destinada às necessidades do clero e das missões.Hallewell, 1985, p. 8

A organização dos aborígines brasileiros não fez surgir a necessidade imediata da tipografia para a sua catequização. Quanto às especulações de que os jesuítas tivessem trazido uma impressora com eles, na verdade nunca surgiu qualquer indício de material impresso com tal origem. 200px|thumb|direita|Colégio Santo Inácio, onde acredita-se terem sido feitos os primeiros impressos no Brasil, em 1724. A “História da Companhia de Jesus no Brasil”, de Serafim Leite,Hallewell, 1985, p. 10 informa que a biblioteca do Colégio Santo Inácio, no Morro do Castelo, Rio de Janeiro, possuía alguns trabalhos impressos na própria casa por volta de 1724, o que pode ter sido um engano, pois poderiam estar se referindo a dois livros da época, “Vocabulário de la lengua guarany”, de Antônio Luiz Restrepo (1722), e “Arte de la lengua guarany”, os quais foram impressos no Pueblo de Santa María la Mayor – entretanto, ao contrário da afirmação de Hallewell (1985) de que esta região atualmente seria brasileira, mas que na época teria pertencido ao Paraguai,, Molina (2015) diz que sua localização correta é na Argentina, próximo ao Brasil.MOLINA, Matías M. História dos Jornais no Brasil: da era colonial à Regência (1500-1840). Companhia das Letras, 2015, v. 1, .

Na maioria das colônias, as necessidades governamentais tornavam imperativo aceitar a tipografia, e apenas na América portuguesa a administração permaneceu tão elementar que a dispensava. Tal necessidade só se tornaria iminente quando o governo da colônia sofresse as transformações mediante o impacto da invasão napoleônica, alguns anos mais tarde.

A primeira tentativa efetiva de introduzir a tipografia no Brasil foi feita pelos holandeses, durante o período em que ocuparam o nordeste brasileiro, entre 1630 e 1650.

Durante a ocupação holandesa, as negociações entre Pernambuco e Holanda selecionaram um tipógrafo, Pieter Janszonon, como encarregado da tipografia no Recife, mas consta que ele morreu logo que chegou ao Brasil, em 3 de agosto de 1643.TAUNAY, Afonso d’Escragnolle, 1936. In: Hallewell, 1985, p. 13 Dois anos depois, a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais ainda procurava um tipógrafo, sem conseguir. Na época, Maurício de Nassau já havia partido, e os holandeses pressionados já não se preocupavam mais com o assunto.

Início da atividade editorial Cerca de 60 anos depois, Recife teve a 1ª impressora do Brasil segundo os historiadores Ferreira de CarvalhoCARVALHO, Alfredo Ferreira de, 1908. In; Hallewell, 1985, p. 13 e Pereira da Costa,COSTA, Francisco Agusto Pereira da, 1951. In: Hallewell, 1985, p. 13 mas o tipógrafo é desconhecido. Serafim Leite, em “Artes e Oficinas dos Jesuítas no Brasil”,Hallewell, 1985, p. 14 relata que a impressora funcionou de 1703 a 1706, e defende que o tipógrafo era um jesuíta, Antônio da Costa, mas não há nenhuma prova, entretanto, da existência de tal impressora.

No Rio de Janeiro, em 1747, há provas definitivas de ter havido uma impressora, através de folhetos impressos na época. O tipógrafo era Antônio Isidoro da Fonseca, reconhecido tipógrafo de Lisboa, que vendera lá seu negócio e viera para o Brasil. Isidoro tivera problemas em Lisboa, com a inquisição, por ter sido o editor de “O Judeu”, Antônio José da Silva, carioca nascido em 1703 de uma família de judeus convertidos, e que acabou sendo queimado, posteriormente, num dos últimos autos de fé da inquisição, em 19 de outubro de 1739.Hallewell, 1985, p. 15 Na época, o governador do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, Gomes Freire de Andrade, estava interessado em estimular a vida intelectual da cidade do Rio de Janeiro. Estimulou a arte criando a Academia dos felizes, em 1736, que se tornou a Academia dos Selectos em 1752, que se reunia no próprio Palácio do Governo.Hallewell, p. 17 Prova concreta da existência da tipografia foram um folheto, de 1747, cuja autoria é atribuída a Luiz Antonio Rosado, e um volume denominado “Hoc est Conclusiones metaphysicae de ente real, praeside R. G. M. Francisco de Faria”, em 1747. Ainda há duas outras obras, referentes ao bispo Antonio do Desterro Malheyro. Tão logo a notícia da tipografia chegou a Lisboa, porém, houve ordem para fechá-la, por não ter sido considerada conveniente, no momento, a impressão na colônia.

Isidoro voltou a Portugal, mas, após três anos, solicitou licença real para instalar novamente sua impressora na colônia, no Rio de Janeiro ou em Salvador, prometendo jamais imprimir sem as devidas licenças civis e eclesiásticas, mas sua solicitação foi recusada.Hallewell, 1985, p.20

A proibição de Portugal para a impressão no Brasil foi o fator que fez com que todos os originais brasileiros passassem a ser publicados na Europa ou a permanecer na forma de manuscritos. Há vários trabalhos escritos por brasileiros e impressos, na época, em Portugal, entre eles as poesias de Cláudio Manuel da Costa, trabalhos de José de Santa Rita Durão, José Basílio da Gama (autor de “Uruguai”, de 1769), Tomás Antônio Gonzaga (cuja obra Marília de Dirceu teve quatro edições em Lisboa entre 1792 e 1800).

Em 1792, havia apenas duas livrarias no Rio de Janeiro,MACARTNEY, George, 1792- 1793. In; Hallewell, 1985, p. 25 e possivelmente uma das duas era de Paul Martim, natural de Tours e o primeiro livreiro carioca. Seu filho, Paulo Martim Filho, manteve a livraria funcionando até 1823. Os livros oferecidos eram, geralmente, de medicina ou religião, e a maior parte dos livros que chegavam ao Brasil, na época, era contrabandeada.

Chegada da família real ao Brasil thumb|direita|150px|António de Araújo e Azevedo, conde da Barca, que mandou instalar o 1º prelo no Brasil, em sua própria casa, no Rio de Janeiro. Em 1808, quando a família real, por pressão da invasão napoleônica, transferiu-se para o Brasil, levou consigo 60 mil volumes da Biblioteca Real.Hallewell, 1985, p. 31 Instalados na nova capital, Rio de Janeiro, Dom João VI e seus ministros criaram, entre os demais empreendimentos, a Biblioteca Real, atual Biblioteca Nacional, criada em 1810. O impacto provocou um aumento do número de livrarias, de duas existentes em 1808 (as de Paulo Martim e Manuel Jorge da Silva), para cinco em 1809 (além das anteriores, somaram-se a de Francisco Luiz Saturnino da Veiga, Manuel Mandillo — que após 1814 associou-se a José Norges de Pinho — e João Roberto Bourgeois); sete em 1812 (além das anteriores, Manuel Joaquim da Silva Porto — que em 1815 associou-se a Pedro Antônio de Campos Bellos — e José Antônio da Silva); doze em 1816 (além das anteriores, Fernando José Pinheiro, Jerônimo Gonçalves Guimarães, Francisco José Nicolau Mandillo, João Batista dos Santos), e em 1818, mais três (Antônio Joaquim da Silva Garcez, João Lopes de Oliveira Guimarães e Manuel Monteiro Trindade Coelho).Hallewell, 1985, p. 33 O periódico “Correio Braziliense”, de Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça, era produzido na Inglaterra. Em Paris, houve um desenvolvimento do comércio editorial em língua portuguesa, que iria durar muito tempo, praticamente até 1930.

Há discordância sobre o fato de haver ou não um prelo no Brasil por ocasião da chegada da família real. Consta que a imprensa com tipos móveis foi finalmente trazida ao Brasil pelo próprio governo que antes a proibira com tanta veemência. António de Araújo e Azevedo, então Ministro do Exterior e posteriormente Conde da Barca, trouxe e mandou instalar o prelo no Rio de Janeiro, no andar térreo de sua própria residência, na Rua do Passeio, 44. O Irmão José Mariano da Conceição Veloso, religioso mineiro que fora para Lisboa em 1790, voltou ao Brasil com a família real para trabalhar na impressora do Rio, a Imprensa Régia. A inauguração do novo prelo foi em 13 de maio de 1808, com a publicação de um folheto de 27 páginas, acompanhado da Carta Régia. Nos quatorze anos do monopólio da Impressão no Rio foram produzidos mais de mil itens.Hallewell, 1985, p. 37

Mercado editorial na província Minas Gerais

A primeira impressão de livro na província foi em Vila Rica, Minas Gerais, posteriormente Ouro Preto, em 1807, antes do surgimento da Imprensa Régia. O governador Athayde de Mello, futuro Conde de Condeixa, ficou tão satisfeito com um poema feito em sua honra por Diogo de Vasconcelos, que desejou vê-lo impresso. Tal impressão foi feita pelo padre José Joaquim Viegas de Menezes, em uma pequena prensa para fins domésticos. Associado ao português Manuel José Barbosa Pimenta e Sal, aos poucos foram criando a “Typographia Patriota de Barbosa & Cia”, que ficou pronta em 1821.

Após 1807, os primeiros livros impressos em Ouro Preto foram uma coleção das “Leis do Império do Brasil”, em 1835, por um impressor chamado Silva, e o “Diccionario da Língua Brasileira”, de Luís Maria da Silva Pinto, em 1832. Surgiram, posteriormente, outras tipografias em São João Del Rei (1827), Diamantina (1828) e Mariana (1830).Hallewell, 1985, p. 56

Bahia thumb|200px|direita|Clóvis Bevilaqua, dono da Livraria J. L. da Fonseca, na Faculdade de Direito do Recife entre os anos de 1891 e 1895. Fotografia de Alberto Henschel. Na Bahia, logo que a família real chegou ao Brasil, um livreiro de Salvador, Manuel Antônio da Silva Serva, natural de Portugal, pediu permissão para ir à Inglaterra e conseguir uma impressora para a Bahia; tal permissão foi concedida em 1809, e começou a imprimir em 1811; aventa-se que possuía, na época, duas impressoras. Serva morreu em 1819, e a tipografia continuou com seu sócio e genro José Teixeira e Carvalho, ficando conhecida como “Typographia da Viúva Serva, e Carvalho”. Mais tarde, seu filho Manuel começou a trabalhar na firma. A publicação conhecida da Silva Serva é de 176 títulos, e a editora sobreviveu com várias mudanças de nome até 1846, porém perdeu sua posição de monopólio em 1823. Durante a luta pela independência do Brasil, as tropas da junta pró-Portugal invadiram a “Typographia da Viúva Serva”, para interromper a publicação do jornal nacionalista “Constitucional”; os editores fugiram para Cachoeira, onde instalaram sua própria gráfica para imprimir a continuação, o semanário “O Independente Constitucional”.Hallewell, 1985, p. 61 A tipografia de Serva continuou produzindo a Gazeta da Bahia, pró-Portugal, mas quando a causa nacionalista triunfou, em junho de 1823, sua publicação teve que ser interrompida.