A língua miyako, conhecida pelos falantes como myākufutsu (宮古口 / ミャークフツ [mjaːkufutss̩]) ou sumafutsu (島口 / スマフツ [sumafutss̩]), é um grupo de variantes diversificadas faladas nas ilhas Miyako, localizadas a sudoeste das ilhas de Okinawa. Estima-se que a população combinada das ilhas era de 53 mil em 2013. O miyako, junto com a língua yaeyama, compõem o ramo das línguas sakishima, também chamadas de línguas ryukyuanas do sul, que, por sua vez, fazem parte de um dos ramos internos da família das línguas japônicas.

Embora seja essencialmente uma língua não escrita, o miyako possui um acervo amplo e diversificado de literatura oral. Em contextos contemporâneos, seus fonemas costumam ser representados por meio dos sistemas de escrita japoneses hiragana e katakana nos meios de comunicação do Japão, ou pelo Alfabeto Fonético Internacional, especialmente em estudos realizados por falantes e pesquisadores de outras regiões. miniaturadaimagem|312x312px|Um falante do miyako, gravado nos Estados Unidos. Em decorrência da política japonesa que classifica a língua como “dialeto de Miyako” (宮古方言 – Miyako hōgen), bem como das antigas políticas educacionais e culturais que proibiam e puniam o uso dos dialetos locais, restringindo o ensino ao japonês padrão nas escolas, sua transmissão foi significativamente afetada. Como resultado, pessoas com menos de 60 anos tendem a não utilizá-la, exceto em canções e rituais, enquanto as gerações mais jovens empregam exclusivamente o japonês como primeira língua. Em razão disso, o número de falantes nativos atualmente é de 20.000 pessoas, levando o miyako a ser classificado pela UNESCO como uma língua 'definitivamente em perigo de extinção' no seu Livro Vermelho das Línguas Ameaçadas, em fevereiro de 2009. Etimologia Myākufutsu (宮古口) e sumafutsu (島口), significam, respectivamente e em tradução livre, "língua miyako" e "língua da ilha", referentes às ilhas de Miyako, onde a língua surgiu e é falada até os dias de hoje.

A origem do nome "Miyako" (宮古 / ミャーク) é tradicionalmente associada aos kanji com os quais passou a ser grafado, utilizados pelos japoneses para designar a região correspondente às atuais ilhas Miyako. A partir dessa grafia, interpreta-se o topônimo como derivado da combinação dos caracteres 宮 e 古, que em japonês significam, respectivamente, “santuário” ou “palácio” e “antigo” ou “lugar”. No entanto, outra proposta sugere que o nome resulte da transformação de Miyamako (深山処 / ミヤマコ), entendido como “habitação nas profundezas da montanha”. Há ainda a hipótese de que o termo esteja relacionado a uma palavra da antiga língua ryukyuana com o sentido de “centro” ou “capital”. Contudo, tais interpretações não são consensuais na literatura acadêmica e carecem de comprovação etimológica conclusiva. Distribuição miniaturadaimagem|269x269px|Mapa das ilhas Miyako miniaturadaimagem|346x346px|Família da língua miyakoA língua miyako é falada ao longo das ilhas Miyako, as quais consistem nas ilhas de Miyako central, Ōgami, Ikema, Irabu, Shimoji, Kurima, Minna e Tarama. Não há consenso quanto à nomenclatura e à classificação das variantes da língua miyako. Em alguns estudos, ela é dividida nas variantes ikema, irabu, kurima, minna e ōgami como apresentado em The Language of Miyako: Oral Traditions, de Aleksandra Jarosz, em outras abordagens, como em A Grammar of Irabu, a Southern Ryukyuan Language, de Michinori Shimoji, a língua é classificada nas variantes ikema, irabu, miyako central, ōgami e tarama. Já outras analizes, como a de John R. Bentley no livro The Oxford Guide to the Transeurasian Languages, consideram que o miyako possui por volta de 20 dialetos.

O número de falantes também permanece incerto. Os estudos mais recentes estimam um total entre 10.000 e 15.000 falantes, majoritariamente idosos bilíngues em japonês. No que se refere à variante ikema, Yuka Hayashi estimou, em 2010, cerca de 2.000 falantes, partindo do pressuposto de que toda a população com mais de 60 anos utilizasse a língua. Quanto à variante ōgami, o linguista Thomas Pellard estimou a existência de aproximadamente 100 a 150 falantes. Por sua vez, em A Grammar of Irabu, a Southern Ryukyuan Language, Michinori Shimoji calculou haver entre 2.000 e 2.500 falantes da variante irabu. Para as demais variantes, entretanto, os dados disponíveis são escassos ou inexistentes, o que impossibilita estimativas precisas sobre o número de seus falantes.

História miniaturadaimagem|214x214px|Máxima extensão do domínio Satsuma, 1586 História política Acredita-se que os primeiros falantes do japonês provenientes do Japão continental tenham migrado para as regiões mais ao norte do arquipélago de Ryukyu, especialmente Amami e Okinawa, entre os séculos II e VI. Após esse período, particularmente a partir do século VIII, houve pouco a nenhum contato sociocultural significativo entre o arquipélago e o Japão continental até o século XVII, em 1609, quando as ilhas de Ryukyu foram conquistadas pelo domínio de Satsuma, um feudo cedido em Kyushu, a ilha mais meridional do Japão. Esse prolongado isolamento, que perdurou por aproximadamente mil anos, contribuiu para o desenvolvimento independente das sociedades e das línguas japonesas e ryukyuanas.

No que diz respeito às Ilhas Sakishima - também conhecidas como ilhas ryukyuanas do sul - evidências arqueológicas e antropológicas indicam que não houve movimentos populacionais expressivos até o século XIII, quando a dinastia Ryukyuan se estabeleceu na ilha principal de Okinawa em 1429 e colonizou as Sakashimas, embora não esteja claro como a colonização foi realizada, nem qual foi a magnitude do movimento populacional.

Após a invasão do domínio Satsuma, a Dinastia Ryukyu foi colocada sob o seu controle e sujeita a altas cargas tributárias, o que resultou em dificuldades financeiras. Para compensar isso, foram exigidos pesadas taxas sobre a população das regiões de Miyako e Yaeyama. Os homens eram obrigados a pagar pelo milho, e as mulheres pelo "Miyako Kamifu", um delicado tecido que era destinado aos vestiários femininos. Este sistema tributário, conhecido como 'imposto de capitação', durou cerca de 300 anos e é considerado 'o imposto mais severo do mundo'.

História da língua A língua miyako integra o grupo sakishima das línguas ryukyuanas e sua formação está diretamente relacionada ao processo de diferenciação do conjunto japônico. Embora não existam documentos históricos com registros da língua miyako ao longo do tempo, estudos comparativos demonstram que as línguas ryukyuanas são geneticamente aparentadas ao japonês continental, hipótese já defendida por Basil Hall Chamberlain no final do século XIX, ao propor que o ryukyuano e o japonês seriam línguas-irmãs. Do mesmo jeito, Thomas Pellard, com base em inovações exclusivas das línguas ryukyuanas, defende a hipótese de que estas constituem um ramo irmão do japonês dentro da família japônica, tendo se separado antes do século VII.

No interior desse grupo, o sakishima apresenta inovações próprias que o distinguem das variedades do norte de Ryukyu, o que indica uma subdivisão posterior dentro do próprio ramo ryukyuano. Entre essas variações, destaca-se a carência de consoantes glotalizadas nas línguas do sul de Ryukyu e seu rico inventário de consoantes silábicas. Assim, a história da língua miyako pode ser compreendida como resultado de um processo de divergência em múltiplos níveis: primeiro, a separação entre o japônico continental e ryukyuano; em seguida, a diferenciação interna entre o ryukyuano do norte e sakishima; e, por fim, o desenvolvimento particular das variedades miyako no contexto específico das ilhas Sakishima.

História da documentação miniaturadaimagem|192x192px|Edição do Kojiki em francês Embora a língua miyako seja essencialmente não escrita, ela possui um corpus rico e diversificado de literatura oral que ocupa um lugar de destaque na história do folclore japonês. Considera-se que alguns dos géneros musicais mantêm camadas formais ainda mais antigas do que as refletidas nas crónicas japonesas mais antigas preservadas, o "Kojiki" (古事記 - "Registos de assuntos antigos") e o "Nihon Shoki" (日本書紀 - "As crónicas do japão"), ambos do século VIII. miniaturadaimagem|Documentos da casa Tana No entanto, apesar do seu estatuto de língua não escrita, existem alguns registos modernos antigos do miyako que remontam ao século XVIII. Trata-se das oito canções épicas incluídas na crónica do Reino de Ryukyu "Yōsei Kyūki" (雍正旧記 - "Crónicas da era Yōsei", 1727), que faz parte de uma trilogia de crónicas relacionadas com Miyako, informalmente designada por "Miyakojima Kyūki" (宮古島旧記 - "Crônicas da ilha de miyako"). As canções estão registadas no que é considerado o ryūkyūgana (琉球名), uma ortografia baseada na escrita hiragana japonesa com a adição de sinogramas kanji, utilizada pela primeira vez para fins de notação do antigo okinawano e em alguns documentos antigos, como os decretos do reino reunidos no "Danake Monjo" (田名家文書 - "Documentos da casa Tana").

As investigações acadêmicas modernas sobre as tradições orais de Miyako começaram no final do século XIX com o "Miyakojima-no Uta" (宮古島之歌 - "Canções da ilha de Miyako"), uma coleção de 89 peças gravadas por Risaburō Tajima, lançada em 1893. A usabilidade do volume, no entanto, se viu diminuída pelo uso das convenções do ryūkyūgana, a insuficiência para fornecer uma interpretação fonológica pronta e inequívoca das transcrições e a falta de traduções completas das canções. Assim, embora tenha um alto valor documental, Miya-kojima-no Uta, não é considerado um estudo académico em si. No entanto, serviu de base para vários estudos dos sucessores de Tajima, principalmente Fuyū Iha e Nikolay Nevskiy.

Nevskiy, que conduziu o seu trabalho de campo em Miyako na década de 1920, pode ser considerado o pai dos estudos literários modernos do miyako. Ele foi o primeiro a transcrever o material da língua miyako numa notação fonética (baseada no IPA) e também forneceu uma análise linguística e de conteúdo detalhada de muitos dos seus textos gravados. Algumas das canções e histórias que ele documentou também tiveram traduções completas para o russo e/ou japonês.

A documentação e o estudo da literatura oral do miyako tiveram um verdadeiro surto no período pós-guerra, predominantemente através dos esforços de Shuzen Hokama, Kōshō Shinzato e Eikichi Hateruma. As suas coleções de canções incluem notações fonéticas e silábicas, bem como traduções completas para o japonês, Hokama sendo reconhecido como o colaborador mais ativo na pesquisa teórica/classificatória da poesia miyako.

História de ensino A história do ensino da língua miyako é marcada, sobretudo, pela sua exclusão do sistema educacional formal. Classificada pelas políticas linguísticas japonesas como o “dialeto de Miyako” (宮古方言 - miyako hōgen) - apesar de sua falta de inteligibilidade mútua com o japonês, e de seu desenvolvimento histórico independente ao longo de séculos - a língua foi historicamente negada ao reconhecimento como um sistema linguístico autónomo. Durante décadas, as políticas educacionais e culturais do Estado priorizaram o ensino do japonês padrão nas escolas, proibindo e, em muitos casos, punindo o uso de variedades locais. Nesse contexto, o miyako deixou de ser transmitido no ambiente escolar e começou a sofrer uma progressiva desvalorização social. Como resultado, as últimas duas a três gerações tem deixado de adquirir a língua em casa, utilizando exclusivamente o japonês como primeira língua, enquanto seus falantes, principalmente idosos, a utilizam apenas em interações limitadas entre pares e em contextos cada vez mais raros, como canções e rituais tradicionais.

Fonologia A descrição aqui é baseada nas variantes irabu e ōgami, cujas análises se fundamentam, respectivamente, nos textos acadêmicos de Michinori Shimoji (2008) e de Thomas Pellard (2009), duas das investigações mais completas sobre variantes da língua miyako.