right|thumb|Sacrifício humano conforme mostrado no Codex Magliabechiano, Fólio 70. A extração do coração foi vista como um meio de libertar o Istli e reuni-lo com o Sol: o coração transformado da vítima voa em direção ao Sol em um rastro de sangue. O sacrifício humano na cultura asteca era visto como uma missão aos deuses e era uma importante parte da relação da sociedade asteca. O sacrifício humano era comum em muitas partes da Mesoamérica, por isso o rito não era novidade para os astecas quando chegaram ao Vale do México, nem era algo exclusivo do México pré-colombiano. Outras culturas mesoamericanas, como os purépechas, os toltecas e os maias também realizavam sacrifícios. Segundo evidências arqueológicas, os sacrifícios humanos existiam desde a época dos olmecas (1200-400 aC), e talvez até mesmo durante as primeiras culturas agrícolas da região. No entanto, a extensão do sacrifício humano é desconhecida entre várias civilizações mesoamericanas.
Em 1519, exploradores como Hernán Cortés conquistaram a capital asteca de Tenochtitlán e fizeram observações e escreveram relatórios sobre a prática do sacrifício humano. Bernal Díaz del Castillo, que participou da expedição de Cortés, fez menções frequentes ao sacrifício humano em suas memórias História Verdadeira da Conquista da Nova Espanha. Existem vários relatos de segunda mão sobre sacrifícios humanos escritos por frades espanhóis, que se relacionam com depoimentos de testemunhas oculares nativas. Os relatos literários foram apoiados por pesquisas arqueológicas.
Desde o final da década de 1970, as escavações das oferendas na Grande Pirâmide de Tenochtitlán e em outros sítios arqueológicos forneceram evidências físicas de sacrifícios humanos entre os povos mesoamericanos. Em 2020, os arqueólogos encontraram 603 crânios humanos em Hueyi Tzompantli, na zona arqueológica do Templo Mayor.
Uma grande variedade de interpretações da prática asteca de sacrifício humano foi proposta por estudiosos modernos. Muitos estudiosos acreditam agora que o sacrifício humano asteca, especialmente durante tempos difíceis como pandemias ou outras crises, foi realizado em homenagem aos deuses. A maioria dos estudiosos da civilização pré-colombiana vê o sacrifício humano entre os astecas como parte da longa tradição cultural de sacrifício humano na Mesoamérica.
O papel do sacrifício na cultura asteca miniaturadaimagem|Prisioneiros, decorados tal qual seus captores, são conduzidos à força para o sacrifício. O sacrifício era um tema comum na cultura asteca. Na "Lenda dos Cinco Sóis" asteca, todos os deuses se sacrificaram para que a humanidade pudesse viver. Alguns anos após a conquista espanhola do Império Asteca, um grupo de franciscanos confrontou o sacerdócio asteca remanescente e exigiu, sob ameaça de morte, que desistissem desta prática tradicional. Os sacerdotes astecas se defenderam da seguinte forma:
O que os sacerdotes astecas se referiam era uma crença mesoamericana fundamental: que um grande e contínuo sacrifício dos deuses sustenta o Universo.
O sentimento de dívida estar presente nessa organização de mundo é uma das explicações mais aceitas na área. Para alguns estudiosos, a palavra nextlahualli, originalmente do náuatle, que surge da palavra pagamento e se torna a tradução para sacrifício ou oferenda de sangue, exemplifica este sentimento de dívida.
O sacrifício humano era nesse sentido o oferecimento mais significativo dentre todos os outros tipos de oferendas existentes na religião asteca, cujo objetivo era pagar os deuses por essas dividas. Alguns estudiosos afirmam que seu proposito era também de ajudar os deuses na manutenção do cosmos
Negacionismo e minimizações A minimização da violência do sacrifício humano entre os astecas começou já com Bartolomé de Las Casas, na obra Apologética Historia sumaria, e que não só os apresentou positivamente como expressão de grande piedade, mas afirmou que o seu número era inferior a cinquenta por ano, argumentando que de outra forma o número de habitantes não poderia ter sido tão elevado no império asteca.
Eulalia Gúzman, em 1958 no livro Relaciones de Harnán Cortés a Carlos V sobre la invasión de Anáhuac : Aclaraciones..., negou a própria existência desses sacrifícios. Esta teoria foi retomada e desenvolvida numa tese de Peter Hassler em 1992, Menschenopfer bei den Azteken? Eine Quellenkritische Studie, que pretendia demonstrar que se tratava de uma invenção dos espanhóis para justificar a sua conquista. Laurette Séjourné, em 1971 no livro Altamerikanische Kulturen, considerou que o principal objetivo dos sacrifícios humanos nas sociedades nativas americanas era suprimir a agressividade e o egoísmo. Especialistas contemporâneos como Michel Graulich criticam estas visões pela sua falta de objectividade e consideram-nas simples reacções emocionais a um assunto preocupante e perturbador.
Guerra das flores miniaturadaimagem|Exemplo de gravuras da Guerras das flores As guerras das flores eram uma forma de guerra ritualística entre as cidades da Tríplice Aliança Asteca, Tlaxcala, Huexotzingo e Cholula. Esse ritual surge provavelmente depois de 1450 após secas extensas que causaram fome e morte no planalto mexicano. Os desastres ambientais e os danos as plantações foram vistos como castigo divino dos deuses que não se sentiam apreciados e honrados corretamente. Assim, as guerras das flores eram uma maneira de adquirir humanos para sacrifícios de forma estruturada e cerimonial.
O principal objetivo deste tipo de guerra era capturar os soldados vivos para rituais de execução de oferenda aos deuses específicos. Ser morto na guerra das flores era compreendido como uma maneira muito mais nobre de morrer do que em um campo de batalha normal e muito mais prestigioso religiosamente, já que os mortos eram dados o privilégio de viver no céu com o deus da guerra, Huitzilopochtli.
Sacrifício ritual Rituais de sacrifício humano eram praticados em tempos específicos de cada mês ou em festivais, sendo feitos com um número específico de pessoas. Os indivíduos eram escolhidos previamente para serem sacrificados. De acordo com o relato de Sahagún, era esperado que os escolhidos para o sacrifício abençoassem crianças, ouvissem pedidos aos deuses, visitassem pessoas em suas casas, dessem discursos e guiassem canções sagradas, processões e danças. miniaturadaimagem|Representação de sacrifício humano no códice magliabechiano Um exemplo de um dos rituais descritos por Díaz del Castillo, descreve o abdômen de uma das vitimas sendo aberto por uma faca afiada feita de pedra, o coração arrancado e então oferecido para o deus a qual o sacrifício foi feito em honra. Após isso sua cabeça, pernas e braços foram cortados, o corpo do sacrificado foi canibalizado em banquetes e sua cabeça pendurada em um tipo de poste chamado tzompantli.
O códice magliabechiano também demonstra cenas de rituais parecidos onde o coração da vitima é cortado, enquanto seu corpo é jogado das escadas do templo.
Para indivíduos que não conseguiam completar suas obrigações, os rituais eram feitos de maneira menos honrosa. Os "insultos para os deuses" precisavam ser reparados então o sacrifício era feito de maneira repreensora ao invés de forma dignificante.
A extensão do sacrifício humano na cultura asteca Algumas fontes afirmam que na consagração do Templo Mayor em 1487, os astecas sacrificaram 80,400 prisioneiros em um período de quatro dias. Alguns historiadores julgam esses números como falsos já que a maioria dos registros escritos de sacrifícios astecas foram escritos por fontes espanholas para justificar a conquista da Espanha De acordo com o Códice Telleriano-Remensis, astecas que falaram com os missionários confirmam aproximadamente 4,000 sacrifícios no dia da consagração.
Michael Harner, no seu artigo de 1977 The Enigma of the Aztec Sacrifice cita um estimativo feito por Woodrow Borah, que afirma que cerca de um porcento de toda a população do Império Asteca era sacrificada anualmente no século 15. Borah calcula a morte de 250,000 pessoas todo ano, assumindo que a população do Império era de cerca de 25 milhões. Outros rejeitam esta estimativa por ser extremamente alta, argumentando que o número da população deveria ser menor, portanto o número de vitimas também era menor.
Baseado no Códice Florentino, Caroline Dodds Pennock estima que 500 pessoas podem ter sido sacrificadas em cada ciclo tonalpohualli na capital asteca. Considerando a possibilidade que os sacrifícios fossem realizados em cada distrito calpulli da capital, o número total seria 20 vezes mais alto, totalizando em todo império um número de 1,000 a 20,000 vitimas anuais plausível. Alguns estudiosos acreditam também que já que os astecas muitas vezes tentavam intimidar seus inimigos, eles podem ter propositalmente inflado seus números de vitimas como um instrumento de propaganda política.
Em 2003, Elizabeth Graham notou que o maior número de crânios já achados em um tzompantli é de cerca de uma dúzia. Até 2020, 603 crânios já foram identificados como pertencentes a um tzompantli, comumente identificado como uma das sete torres em Tenochtitlan formado por crânios de sacrificados
Ainda existe muito debate sobre quais grupos sociais constituíam as vitimas comuns destes sacrifícios. Escravos, que eram a maior parte das vitimas, não eram pertencentes a uma classe social permanente podendo ser qualquer pessoa da sociedade asteca que tenha entrado em divida ou cometido algum crime. Outras fontes iniciais afirmam que, igualmente, os prisioneiros de guerra eram de diversos níveis de status social e que praticamente todos os sacrifícios de crianças eram oferecidas por seus parentes que vinham de famílias locais nobres.
Sacrifícios para deuses específicos miniaturadaimagem|Representação do Deus Huitzilopotchli
Huitzilopochtli Huitzilopochtli era a entidade tribal representante do povo Mexica. Ele era considerado o deus principal do sul e uma oposição ao deus principal do norte, Tezcatlipoca.
Huitzilopochtli era adorado no Templo Mayor, a principal estrutura religiosa da capital de Tenochtitlan. O templo era constituído de duas pirâmides, uma para ele e outra para o deus Tlaloc.
Quando os astecas sacrificavam alguém para Huitzilopochtli, de acordo com o testemunho de Sahagún, a vitima era colocada em uma pedra onde um padre cortaria seu abdômen com obsidiana ou uma faca de pedra. Seu coração seria então arrancado ainda batendo e segurado em direção ao céu. Após isso, o corpo era empurrado pirâmide abaixo para a pedra Coyolxauhqui. O corpo seria cremado ou entregue ao guerreiro responsável por sua captura. Ele decidiria se o corpo seria cortado em pedaços e enviado como oferenda a pessoas importantes ou usado para rituais canibais. Os guerreiros eram recompensados por seu sucesso de aprisionarem cativos para serem sacrificados ao subirem mais na hierarquia social Asteca.
Tezcatlipoca miniaturadaimagem|Máscara do Deus Tezcatlipoca Tezcatlipoca era o deus da noite, feitiçaria e destino. Considerado um dos mais poderosos e o deus representante do norte. Tezcatlipoca tinha o poder de perdoar pecados e acabar com doenças, entretanto tinha uma natureza caprichosa e frequentemente trazia o oposto de sorte, gerando secas e fomes.
O frade Sahagún detalha alguns dos rituais para esse deus. Um deles era o sacrifício gladiatório onde o cativo amarrado a uma grande pedra circular chamada de temalacatl recebia uma arma falsa feita de madeira com penas e lutava contra os guerreiros-jaguar.
Outro ritual se referia ao mês de Toxcatl. De acordo com Sahagún, um jovem era escolhido por sua beleza física para ser o representante de Tezcatlipoca, sendo chamado de ixiptla. Nesse ritual aprendia a tocar flauta e recebia quatro esposas. No dia do seu sacrifício subia a pirâmide, quebrando suas flautas uma a uma em cada degrau antes de ter seu coração removido.
Huehueteotl/Xiuhtechutli