Galécia () é uma região localizada no noroeste da antiga Hispânia, um território que corresponde aproximadamente ao da moderna região do norte de Portugal e da Galiza, Astúrias e Leão na Espanha. Depois da conquista romana, era parte da província romana da Hispânia Tarraconense e foi posteriormente transformada numa província independente conhecida como Hispânia Galécia, um território que posteriormente seria incorporado ao Reino Suevo. Entre as cidades romanas na região estavam Bracara Augusta (Braga), Portucale (Porto), os centros administrativos de Bracara Augusta, Lucus Augusti (Lugo) e Astúrica Augusta (Astorga), capitais respectivamente do convento bracarense, convento lucense e do convento asturicense.

Limites geográficos No tempo dos romanos a província da Galécia tinha como limites, ao sul o rio Douro, a oeste e norte o Atlântico, enfim a este o cursos dos rios Esla e Cea e os Picos da Europa. Embora a cultura castreja tivesse uma área de difusão muito mais extensa até ao centro do país como na região de Viseu, Seia. Na ótica dos conquistadores romanos a região era um "finis terrae" ou seja uma região bárbara por ser isolada o que explicaria por si a sua originalidade. "Todavia, o carácter incivilizado e selvagem não resulta apenas da tendência para a guerra, mas deve-se também ao isolamento. Estrabão III 3,8.Estrabão, Geografia, livro III, Introdução.tradução do grego e notas de Jorge Deserto, Susana da Hora Marques Pereira. Imprensa da Universidade de Coimbra" Na verdade, era ao contrário uma região de intercâmbio entre a fachada atlântica e o mediterrâneo. A sua riqueza em recursos minerais, romperam o seu isolamento desde pelo menos o tempo da Idade do Bronze.La originalidad de la cultura castreña, por Juan Maluquer de Motes Prof. cat. de la Univ. de Barcelona, 1973 Descrição

Os romanos chamaram Galécia (Gallaecia) à porção noroeste da Península Ibérica, do nome da principal tribo que habitava a região, os galaicos/galécios (gallaeci).<ref>Luján, Eugenio R. (2000) "Ptolemy's 'Callaecia' and the language(s) of the 'Callaeci', in: David N. Parsons & Patrick Sims-Williams, editors (2000) Ptolemy; towards a linguistic atlas of the earliest Celtic place-names of Europe: papers from a workshop sponsored by the British Academy, Dept. of Welsh, University of Wales, Aberystwyth, 11–12 April 1999, pp. 55-72.</ref>

Os galaicos, apareceram pela primeira nos registros históricos no épico do "Púnica", de Sílio Itálico, sobre a Segunda Guerra Púnica:

A região da Galécia estava, portanto, marcada no imaginário romano tanto por sua cultura céltica - a cultura castreja - quanto pela riqueza que emanava de suas minas de ouro. Esta cultura, que se estendia por toda a Galiza, o norte de Portugal, a porção ocidental das Astúrias, o "Berço" e a Póvoa de Seabra, era também distinta dos povos vizinhos de cultura lusitana que viviam ao sul de acordo com os autores clássicos Pompônio Mela e Plínio, o Velho.Entre eles os prestamarcos (praestamarci), supertamarcos (supertamarci), nérios (nerii) e ártabros (artabri), mas também todos os povos que viviam na costa com exceção dos gróvios (grovi) do sul da Galícia e do norte de Portugal - Pompônio Mela, Corografia, III.7-9. Em uma data muito posterior, o mito encapsulado na Lebor Gabála Érenn ("Livro da Conquista da Irlanda") credita a Galécia como o ponto de partida dos gaels que posteriormente conquistaram a Irlanda à força, como já haviam feito com a Galécia.

História Antes dos romanos thumb|Gravura rupestre da Solhapa Os galaicos são simplesmente os descendentes dos habitantes indígenas do Neolítico, porque há entre outros, uma continuidade nos ritos funerários e na arte presente na região. As gravuras rupestres do grupo dos petróglifos galaico-portugueses, do Neolítico até talvez ao inicio da Idade do Ferro (a única datação possível é de algumas armas representadas que foram produzidas entre o III e ), são relacionadas com a arte parietal megalítica. Como, por exemplo, as pinturas ou gravuras de motivos geométricos dos abrigos sob rocha, realizados entre o Neolítico final e final do calcolítico, que apresentam uma clara analogia com a arte megalítica e até com a Idade do Bronze como as do abrigo rupestre da Solhapa em Miranda do Douro. Por Juan Maluquer a primeira parte da cultura castreja (Castreja I) tem mesmo inicio durante a fase megalítica com a construção dos primeiros povoados de cabanas.La originalidad de la cultura castreña, por Juan Maluquer de Motes Prof. cat. de la Univ. de Barcelona, 1973 Segundo ele, por razões climáticas durante a fase sub-boreal no auge da Cultura megalítica houve uma grande concentração humana no NO, pelas condições propícias a pastorícia e abundâncias de metais em comparação a Meseta, e entre o terceiro e segundo milénio a.C. formou-se uma unidade étnica própria e original que os diferenciava, apesar das influências exteriores existentes e de outras que surgirem como as culturas meridionais ibéricas, celtibéricas, e do Mediterrâneo (fenícios, gregas e cartagineses). Viviam duma economia mista agrícola e pastoril plenamente em simbiose com o território. Integrada na cultura da Idade do bronze atlântica durante o Bronze final e dando origem a fase Castreja II. Durante a qual os povoados transformam-se em aldeias fortificadas chamadas, castros ou vilas fortificadas ópidos (citânias), por isso a cultura arqueológica que desenvolveram, é conhecida pelos arqueólogos como "cultura castreja". As primeiras alusões a este povo estão presentes em antigos autores gregos e latinos anteriores à conquista, o que permite a reconstrução de alguns acontecimentos históricos deste povo desde o Assim, graças a Tibério Cácio Ascônio Sílio Itálico, sabemos que entre os anos 218 e , durante a Segunda Guerra Púnica, algumas tropas galaicas vieram lutar nas fileiras do cartaginês Aníbal contra o exército romano , participando na batalha do Lago Trasimeno em e na Batalha de Canas em Depois de Sílio Itálico, Apiano de Alexandria, autor da obra ‘’Iberiké’’, menciona a primeira incursão dos romanos em território galaico. Apiano narra os acontecimentos ocorridos durante as guerras lusitanas , mencionando que neste último ano (), após ter sido ridicularizado pelo líder lusitano Viriato, o exército romano de Cepião assolou os campos dos galaicos e vetões. Este ataque às populações galaicas mais meridionais localizou-se possivelmente na região do Alto Douro, próximo da fronteira com os Vetões, tendo esta ação um carácter punitivo, pela ajuda prestada por estes povos aos lusitanos durante as campanhas de Viriato no sul.

A conquista romana thumb|350px|Campanhas militares romanas: Durante as Guerras Púnicas, os romanos iniciaram a conquista da Hispânia.

A seguir a morte de Viriato, nos anos 138 - 136 antes de Cristo, o cônsul romano Décimo Júnio Bruto Galaico,Topografia e urbanismo fundacional de Bracara Augusta, Manuela Martins Uminho, UAUM; Maria do Carmo Ribeiro UMinho; UAUM; Jorge Ribeiro Bolseiro de p6s doc FCT; Uminho e Ricardo Mar Universidade Rovira i Virgili, Tarragona lidera a primeira expedição no Noroeste e ganha, segundo ele, uma grande batalha, nas margens do rio Durius, contra a tribo dos galaicos, de homens segundo Paulo Orósio, em . O general romano vitorioso, Décimo Júnio Bruto, tornou-se um herói e recebeu o agnome Galaico (Gallaicus; "conquistador dos galaicos"), mas a conquista era relativa. Porque entre e , nova expedição romana, por P. Licinius Crassus que abriu aos romanos as portas da mineração no Noroeste. Pouco tempo depois em é a vez de M. Perpena, que terá tomado Cale. Por volta de , veio Júlio César na qualidade de procônsul numa expedição até Brigantium (Betanzos), Corunha. Os povos da regiões das Astúrias e Cantábria revoltaram-se por varias vezes e obrigaram os romanos a intervir no ano de 43 por Lépido; em 38 por C. Domício Flaco; em 35 por C. Norbano Flaco; em 34 por L. Márcio Filipo; em 33 por Ap. Claúdio Pulcro; em 29 Autarciapor T. Statílio Tauro e em 28 por Caio Calvísio Sabino. Só Augusto conseguiu pacificar a região com as violentas e implacáveis Guerras Cantábrias, entre 26 e A resistência dos galécios chocou os romanos: suicídios coletivos ao invés de rendições; mães assassinando os filhos antes de tirarem a própria vida; prisioneiros crucificados cantando hinos de triunfo; e finalmente constantes revoltas de prisioneiros escravizados que assassinavam seus guardas e voltavam para casa vindos da Gália. A partir daí, guerreiros galécios se juntaram às legiões romanas e serviram em territórios tão distantes quanto a Dácia e a Britânia.Estrabão, Geografia, livro III cap. 4, 17

Galécia romana Até ao , a Galécia fazia parte da Hispânia Tarraconense e fazia fronteira ao sul com a Lusitânia. Ela estava dividida em dois conventos (conventi) - lucense e o bracarense. No , Diocleciano reformou completamente a administração das províncias e criou uma divisão administrativa que incluía os convento da Galécia, Astúrica e, possivelmente, Cluniense. A nova província passou a ser chamada de Galécia, pois ela era a região mais populosa e importante da província. Em 411, conforme ruía o controle romano, as conquistas suevas transformaram a Galécia romana (lucense e bracarense) no Reino da Galiza (o Galliciense Regnum relatado por Idácio de Chaves e Gregório de Tours).

Governadores romanos Fábio Acônio Catulino Filomácio, presidente antes de 338

Cultura A Romanização foi relativamente menor no Noroeste Ibérico. Mesmo adotando gradualmente nomes e língua latinos, a base cultural da organização, da hierarquia, do social e da religião mantinha-se. A relativa baixa romanização via-se pela falta de monumentos importantes ou iluminuras destacando a província e suas cidades, restando somente algumas inscrições.Nicols, J. (1987). Indigenous Culture and the Process of Romanization in Iberian Galicia. The American Journal of Philology, 108(1), 129–151. https://doi.org/10.2307/294918 Religião As evidências arqueológicas são poucas. Adotaram-se alguns deuses romanos gradualmente ao lado dos ancestrais e antigos deuses íbero-celtas, embora já se verificasse o uso da língua latina e instrumentos romanos de culto, como o Altar Tradicional.Nicols, J. (1987). Indigenous Culture and the Process of Romanization in Iberian Galicia. The American Journal of Philology, 108(1), 129–151. https://doi.org/10.2307/294918

Deuses Galaicos: Nabia (e variação Habia), "Capriocieco, Bandua, Reve, Aegiamuniaegus, Senaicus, Bormanicus, Ancestrais etc.

Deuses Romanos: Lares, Diana, Júpiter, Marte, Mercúrio, Ninfas, Telo/Terra / O Sincretismo entre deuses galaicos e romanos era especialmente maior, conforme as evidências parciais, no Convento Bracarense.Nicols, J. (1987). Indigenous Culture and the Process of Romanization in Iberian Galicia. The American Journal of Philology, 108(1), 129–151. p. 144. https://doi.org/10.2307/294918

Depois dos romanos

Na noite de 31 de dezembro de 406, diversos povos — alanos (de origem iraniana) e vândalos e suevos (povos germânicos) — atravessaram a fronteira romana no Reno, que havia congelado. Eles avançaram para o sul saqueando a Gália e atravessaram os Pireneus em 409 d.C. Dois anos mais tarde, dividiram entre si as províncias romanas da Hispânia: Cartaginense, Tarraconense, Galécia e Bética. Os suevos se apoderaram duma parte da Galécia e lá fundaram um reino. Depois que os vândalos e os alanos partiram para conquistar o norte da África, os suevos assumiram o controle da maior parte da Península. Porém, a maior parte do território foi perdido para os visigodos, que, depois de emergirem vitoriosos das inúmeras guerras que se seguiram, anexaram a Galécia.