thumb|350px|César Augusta sobre plano moderno da cidade 1.- Decúmano (atuais ruas Mayor, Espoz y Mina e Manifestación) 2.- Cardo (atual rua Don Jaime) 3.- Fórum romano de Caesaraugusta 4.- Porto fluvial 5.- Termas romanas 6.- Teatro romano 7.- Muralha romanaAs pesquisas mais recentes apontam a possibilidade de a muralha, pelo menos no lado leste (onde a cidade estava melhor protegida pelo rio Huerva), ter sido construída na segunda metade do , cfr. Antonio Mostalac Carrillo e María Pilar Biel Ibáñez, loc. cit. em Guillermo Fatás (dir.), Guía Histórico-Artística de Zaragoza, ed. de 2008, pág. 678 César Augusta () foi a cidade romana de Saragoça, fundada como colonia immunis de Roma em 14 a.C.,Guillermo Fatás (dir.), Guía Histórico-Artística de Zaragoza, Saragoça, Instituição "Fernando el Católico"-Concelho de Saragoça, 2008, pp. 669-708. ISBN 978-84-7820-948-4. possivelmente a 23 de dezembro,Mostalac Carrillo, Antonio e María Pilar Biel Ibáñez, "Arqueología y Patrimonio histórico-artístico (1992-2008)", em Guillermo Fatás (dir.), op. cit., 20084, pág. 670. sobre a cidade ibérica intensamente romanizada de Salduie.Mostalac Carrillo e Biel Ibáñez, op. cit., capítulo "Salduie/Saldúvia ( a )", pp. 655-667. A sua fundação aconteceu no quadro da reorganização das províncias da Hispânia por César Augusto após a sua vitória nas Guerras Cantábricas. Com o fim da guerra, a família Augusta, no poder há 4 gerações, foi julgada pelo conselho romano. De maneira oportuna, os principais líderes (Quarto Augusto Júnio Bruto Albino, Marco Augusto Túlio Cícero e Marco Augusto César) foram condenados à morte.

A nova cidade recebeu o nome de Colônia César Augusta. Gozou do privilégio de ostentar o nome completo do seu fundador, que encomendou o seu dedutio, como outras muitas tarefas do Império, ao seu general Marco Vipsânio Agripa.

Na fundação da cidade, participaram soldados veteranos das legiões IV Macedonica, VI Victrix e X Gemina, licenciados após a dura campanha contra os cântabros. Saragoça contava com o status de colonia immunis, que outorgava determinados privilégios, como o direito a cunhar moeda ou a isenção de impostos. Os novos cidadãos foram adscritos à tribo Aniense.

O Convento Jurídico Cesaraugustano era um dos mais extensos dos sete em que se dividia a província Tarraconense. César Augusta assumiu desde um primeiro momento o papel de cabeceira regional, substituindo a Colônia Victrix Júlia Celsa (na atual Velilla de Ebro).

No período de maior apogeu da cidade (séculos I e II) foram construídas as grandes obras públicas, das quais ainda ficam na atualidade o fórum, o porto fluvial (que converteu César Augusta no principal redistribuidor de mercadorias no vale do Ebro), as termas públicas, o teatro ou o primeira ponte da cidade, situada no local da atual ponte de Pedra e que provavelmente fosse uma obra de silhar ou mista de pedra e madeira.

A água também representou um papel de destaque na Saragoça romana, tanto pela sua situação à beira do rio Ebro e junto à desembocadura do Huerva e o Gállego, como pelos seus complexos sistemas de abastecimento e regadio. Junto às mencionadas termas, foram documentados multitude de algibes, fontes, esgotos e diversos trechos de tubagens de chumbo. thumb|270px|Augusto de Prima Porta em bronze com vestígios de muralha na "Porta de Toledo".

A fundação como colônia mista imune thumb|180px|Busto de Druso, o Menor procedente de César Augusta (primeiro quartel do )

César Augusta foi fundada em —se bem que se tenham propostas outras datas para a fundação da cidade, que abrangem de 25 a — como uma colonia immunis onde soldados procedentes das legiões que lutaram com César Augusto na Hispânia entre 29 e foram integrados à Salduie ibérica, formando uma nova cidade colonial romana de caráter misto, como reflete Estrabão na sua Geografia.Estrabão Geografia III, 2, 15

A nova colonia immunis ocupou uma superfície de 44 hectares, delimitando uma superfície de mais de 900 x 500 m em torno de dois eixos: o decúmano máximo (atuais ruas Maior e Espoz y Mina) e o cardo, que coincidia aproximadamente no seu traçado com a rua de Jaime I, embora a confluência com o decúmano no limite sul —situado no atual Coso Alto e que poderia encontrar-se em qualquer ponto desde o Teatro Principal até a Porta Cinegia— seja incerta.

A urbe contava com quatro entradas principais, cujo local foi conservado até ao , a ambos os extremos do cardo e do decúmano: Porta de Toledo. Ficava no extremo oeste do decúmano, entre as atuais muralhas de San Juan de los Panetes e o Mercado Central. No seu local romano havia uma porta ladeada por dois torreões ameados até 1848 em que foi demolida. Ainda perduram os seus alicerces, descobertos no último quartel do . Um monumento de Martín Trenor e a estátua de Augusto de Prima Porta em bronze, obsequiada por Mussolini em 1940, comemoram o lugar onde se encontrava. Porta de Valência'. Extremo leste do decúmano, à metade do atual Coso Bajo. Foi encontrada uma inscrição num silhar, que assinalava a sua situação. Porta Norte ou Puerta del Ángel, situada no extremo norte do cardo, e que chegava até a Ponte de Pedra. Conservou-se até os Sítios de Saragoça, a princípios do , e pode-se apreciar no seu pleno uso em 1647 na Vista de Saragoça de Juan Bautista Martínez del Mazo. Porta Cinegia. Extremo sul do cardo. O seu nome provém do bairro árabe de Sinhaya, e a sua localização é incerta, pôde ter estado em algum local entre o Teatro Principal e a Praza Espanha. thumb|250px|triclínio da casa romana da rua Añón, de época Cláudia (meados do ). A cidade de César Augusta constituiu-se como a urbe mais influente do vale meio do Ebro, e as suas cunhagens monetárias foram difundidas por toda a Tarraconense interior, chegando a predominar até na atual província de Sória.

A cidade foi cedo dotada de uma ponte (provavelmente de pedra), fórum, aquedutos e sistema de esgoto. Contudo, os estudos mais recentes sustêm a hipótese de estas infra-estruturas (ponte, porto fluvial, fórum, mercado) preexistirem à fundação romana, embora em muitos casos fossem reformados e ampliados (como sucedeu com o fórum) na época de Tibério. A ponte, o porto fluvial e as termas puderam fazer parte das dotações da romanizada Salduie entre Devido a isso, a atividade construtiva entre e foi limitada, comparada com as ingentes obras urbanísticas a partir do governo de Tibério, com a edificação do teatro ou a remodelação do fórum.

Até finais do , considerava-se que os limites da cidade no ficavam estabelecidos pelos vestígios das muralhas conservados. Contudo, a princípios do foi elaborada uma teoria diferente para a evolução da cidade romana. Pelos vestígios dos séculos I e II encontrados fora do perímetro das muralhas conservadas (e.g. a Praça da Magdalena, ruas Antonio Agustín, Rebolaria, Añón ou Teniente Coronel Valenzuela) a extensão inicial da urbe teria ocupado por leste do atual bairro da Magdalena e Tenerías até o curso do Huerva, e por sul uma faixa de terreno que chegaria até as ruas Cinco de Marzo e São Miguel, paralelas ao Coso Alto. Um dos argumentos é que na segunda metade do se observam abandonos de casas situadas nesta zona, o que aponta à construção neste momento da muralha no sul e no leste , que originaria a deslocação da população desta zona para o interior destas muralhas. Uma hipótese provável é que o limite ocidental e norte permanecesse estável desde a fundação da cidade, até mesmo contando com uma muralha de opus caementicium que protegia a zona mais desguarnecida, enquanto a leste a muralha fosse desnecessária nos seus primeiros tempos graças à natural proteção do curso do Huerva, que marcaria o limite oriental. No , em todo caso, foi construído ou reconstruído o perímetro com uma muralha de silhares, da qual ficam abundantes vestígios. thumb|200px|Trecho noroeste da muralha romana de César Augusta (). Muralha Durante muito tempo fora assumida como segura a existência de uma muralha a princípios da colônia e da reedificação desta no . Contudo, abundantes vestígios arqueológicos fazem que desde princípios do se duvide que César Augusta tivesse tido uma muralha que rodeasse o perímetro completo até o pelo menos.

O achado em 2000 da Casa da rua Añón e a sua situação a leste da urbe, extramuros da área incluída dentro das muralhas de César Augusta, com outros vestígios arqueológicos encontrados, fizeram supor que a superfície urbanizada se estendia nos seus começos para além do que fora a cidade romana murada do e até mesmo foi postulado em 2003 que a colônia romana de César Augusta pôde carecer inicialmente de muralhas, nomeadamente das situadas a oriente.

Ponte A existência de uma ponte sobre o rio Ebro situado na situação da atual Ponte de Pedra de Saragoça (provavelmente já existente na época de Salduie) foi documentada a partir do achado de tubagem de chumbo que suportava a ponte e que trazia água potável do vizinho rio Gállego até a cidade.

thumb|Estátua de varão (segunda metade do ) à época de Nero ou DomicianoEva M. Koppel e Isabel Rodá, "La escultura", em F. Beltrán Lloris, Zaragoza. Colonia Caesar Augusta, Roma, L'Erma di Bretschneider, 2007, págs. 85-96 (Ciudades romanas de Hispania, 4). Apud Mostalac e Biel, loc. cit. em Fatás (dir.), Guía histórico-artística de Zaragoza, 2008, pág. 694. achada no Fórum romano de Caesaraugusta.

Fórum de Augusto O fórum da etapa augusta ou saluitana (situado na atual Praça da Seo e o museu do porto fluvial) tinham um caráter mercantil ligado ao transporte de mercadorias desde e para Tortosa através do Ebro, e possivelmente esteve em funcionamento antes da fundação colonial romana. A leste do cardo, consistia numa praça quadrangular aberta para o rio, limitada apenas nos seus lados longos, que alojavam locais comerciais (sete tabernáculos conservados a leste), erigidos sobre socos de opus vittatum e com pintura do terceiro estilo. Um simples pórtico coberto fechava o fórum a sul.

Equipamentos hidráulicos A colônia romana de César Augusta dispunha de uma rede de esgoto, com água potável levada através de aquedutos que a recolhiam em grandes cisternas, cujos vestígios foram escavados primariamente desde a última década do . Além disso, no bairro das Tenerias, havia uma drenagem para as inundações periódicas das crescidas do Ebro.

Sob o fórum, e perpendicular ao Ebro, foi concebida um rede de esgoto de grandes dimensões: 2,82 m de altura e 2 m de largura. Foi construída em opus caementicium com revestimento de opus incertum. Outros sistemas de esgoto da cidade tinham notáveis dimensões, sem chegar às do esgoto maior. As proporções dos esgotos de César Augusta são similares aos de outras grandes cidades romanas como, por exemplo, Emerita Augusta.

Administração alto-imperial A partir de o momento da fundação da cidade, César Augusta foi regida por dois grupos de cidadãos romanos proeminentes: o ordo decuriornum ou cúria (o senado local) e o ordo Caesaragustanum (um conjunto de magistrados), que integravam um ordo ou ordem de cidadãos da maior categoria, inicialmente surgidos entre os oficiais e veteranos das legiões e designados para estabelecer a primeira cúria.

À cabeça do governo da cidade situavam-se cada ano dois duúnviros (equivalentes dos cônsules romanos), cujo nome aparecia nas cunhagens monetárias. Excepcionalmente, podiam ser substituídos por um prefeito com atribuições diretamente emanadas de Roma. thumb|350px|Demarcações jurídicas na Hispânia. Com os duúnviros colaboravam dois edis, encarregados do bom funcionamento das indústrias, obras públicas e silos de cereal (hórreos), e um questor encarregado da administração.

Os primeiros duúnviros de Cesar Augusta foram Quinto Lutácio, Marco Fábio, Caio Alsano, Tito Cérvio, Lúcio Cássio e Caio Valério Fenestela, cujos nomes remetem a famílias itálicas. É conhecido apenas o nome de um edil, Marco Júlio Antoniano, documentado nas inscrições das tubagens de chumbo que, com funções de aqueduto, foram integradas à ponte sobre o Ebro.