Eu Desatino é o sexto álbum de estúdio da cantora brasileira Angela Ro Ro, lançado em 1985 pela PolyGram, dentro do selo Polydor Records. O disco foi concebido em meio a uma série de limitações financeiras impostas pela gravadora, que inicialmente sugeriu à artista um trabalho minimalista, apenas com voz e piano. A produção acabou conduzida por Antonio Adolfo. Entre as canções, destaca-se "Mônica", composta em homenagem a Mônica Granuzzo Lopes Pereira, cuja morte, em 1985, gerou forte comoção pública e impulsionou o debate sobre feminicídio no país.

O lançamento do álbum foi marcado por controvérsias, sobretudo pela censura imposta à faixa "Blue Janis", proibida de execução nas rádios por mencionar heroína, o que levou o LP a ser comercializado com lacre indicativo de restrição para menores de idade. Angela manifestou publicamente sua frustração com o episódio, afirmando que a Nova República contrariava suas próprias promessas ao vetar uma canção que criticava abertamente o uso de drogas.

Críticos destacaram tanto a força confessional das letras quanto a mudança estética do disco, apontado como um trabalho mais rock, rítmico e variado que os anteriores. Eles elogiaram o papel de Antonio Adolfo na produção e ressaltaram a combinação entre vigor musical e contundência temática, observando que Ro Ro conseguiu equilibrar ironia, crítica social e depoimentos íntimos em um álbum considerado por muitos como um dos mais diretos e expressivos de sua trajetória. Comercialmente, vendeu mais de 30 mil cópias no Brasil, até 1989.

Produção e gravação Inicialmente, a gravadora PolyGram, chegou a sugerir que a artista gravasse um álbum com apenas voz e piano, algo que ela negou, pois acreditava que não era a hora, considerando que o momento pedia por algo mais wave. A produção contou com a orientação do pianista brasileiro Antonio Adolfo, que assumiu a função sem saber qual a verba que o projeto dispunha e não fez questão do seu pró-labore. Em entrevista ao Jornal do Commercio a cantora revelou: "Ele fez tudo quase de graça, porque se tivesse me revelado o quanto ganharia, teria feito um disco só de gargalhadas".

As gravações do álbum ocorreram enquanto a artista se recuperava de uma operação de apêndice, e foram feitas com estrutura reduzida devido às limitações econômicas da PolyGram. A artista, que nunca teve uma banda fixa, contou com diversos músicos, como o guitarrista Ari Mendes e o baterista Pena. As gravações foram as mais rápidas em um disco da Ro Ro, ocorrendo em apenas um mês.

A canção "Mônica" é dedicada à Mônica Granuzzo Lopes Pereira, cuja morte gerou grande comoção nacional em junho de 1985 e impulsionou o debate jurídico sobre a cultura do feminicídio no Brasil. Granuzzo era uma estudante de 14 anos que caiu do sétimo andar de um prédio no Rio de Janeiro após sofrer uma tentativa de estupro cometida pelo ex-modelo Ricardo Peixoto Sampaio.

Lançamento e divulgação O álbum foi proibido de ser vendido para menores de 18 anos no Brasil, e chegou às lojas com um lacre de censura, já que a faixa "Blue Janis" foi proibida de execução nas rádios por mencionar o uso de heroína. Sobre o episódio, a cantora declarou em entrevistas sua decepção com a Nova República, afirmando que, apesar das promessas de fim da censura, as autoridades acabaram vetando justamente uma canção cujo propósito era fazer uma crítica explícita às drogas.

Os trabalhos de divulgação nas rádios e imprensa ocorreram por volta de janeiro de 1986, com o primeiro show sendo agendado para o fim do mesmo mês. Esse foi o último fonograma da artista com a gravadora PolyGram. O rompimento deu-se com a troca da diretoria da empresa, que rescindiu, junto com o dela, contrato de vários artistas como Ivan Lins e Emílio Santiago. Segundo a cantora, mesmo com seis discos lançados sob o selo, ela nunca contou com o apoio da máquina administrativa da gravadora em termos de divulgação e promoção.

Em 2002, a Universal Music relançou o álbum em uma versão remasterizada em compact disc (CD), na série intitulada Tudo, que incluía os seis primeiros álbuns que a cantora lançou na PolyGram.

Recepção crítica Antonio Carlos Miguel da revista Manchete afirmou que o trabalho era o disco mais roqueiro da artista e o que melhor a retratava como cantora e compositora. Ele destacou o "excelente" trabalho de Antonio Adolfo como produtor, arranjador, regente e tecladista de todas as faixas. Ayrton Mugnaini Jr. do jornal O Pasquim avaliou o disco como "mais um ótimo" trabalho da artista, considerando "bela" a "meia-valsa "Marisa Amada" e conclui com um convite irônico, sugerindo que o disco é ideal para que o público, "do quarto sexo ou não", dance e "desatine à vontade".

Tárik de Souza do Jornal do Brasil descreveu Eu Desatino como um álbum em que Angela Ro Ro abandona o blues para mergulhar em um rock mais direto e comunicativo, priorizando letras confessionais e incisivas. Segundo o crítico, as canções funcionam como um diário de bordo em que a artista aborda, com franqueza e sem pudores, temas como sexualidade, moralismo, drogas, violência e censura. Ele destaca faixas nas quais Ro Ro condena a promiscuidade, combate o uso de drogas, critica a impunidade em crimes sexuais e comenta a omissão social diante da AIDS, construindo um painel intenso e visceral que, para Tárik, reafirma sua postura combativa e sua escrita "incandescente".

Edgar Augusto do Diário do Pará afirmou que o álbum de se destaca pela autenticidade e coragem em explorar dramas pessoais e questões sociais, dispensando fórmulas pré-estabelecidas da música popular. O jornalista ressaltou que, apesar de algumas faixas abordarem temas como AIDS, relações de gênero e o meio artístico com ironia e deboche, é nas canções em que Angela expõe suas dores íntimas e homenageia a música como sua "musa amada" que ela alcança maior genuinidade e impacto.

Waldemir Marques, escrevendo em A Tribuna, avaliou Eu Desatino como um trabalho musicalmente atípico na trajetória da cantora, observando a ausência dos tradicionais rocks-balada que marcaram seus discos anteriores. Para o crítico, o álbum adota uma seleção rítmica mais variada e, sobretudo, mais alegre, o que pode causar estranhamento aos fãs mais ortodoxos. Ainda assim, ele destaca que Ro Ro mantém seu talento como compositora e intérprete, equilibrando diferentes climas sonoros em faixas como "Isca de Piranha", "Nós, Eu. Não!", "Musa Amada" e "Mônica", reforçando a consistência musical do projeto.

Listas +Classificações de Eu Desatino em listas de fim de ano. Publicação Lista Classificação Manchete Seleção dos Melhores de 85 — MPB 2

Desempenho comercial O álbum atingiu vendas de 30 mil cópias no Brasil, até 1989.

Lista de faixas Créditos adaptados do encarte do LP Eu Desatino, de 1985.

Créditos Créditos adaptados do encarte do LP Eu Desatino, de 1985.

Direção de produção: Antônio Adolfo e Angela RoRo Coordenação da produção: Maria Helena Técnicos de gravação: Luiz Cláudio Coutinho, João Moreira, Julinho, Jairo Gualberto Auxiliares de gravação: Manoel, Charles, Barroso, Marquinhos Mixagem: Luiz Cláudio Coutinho e João Moreira na música “Musa Amada” Supervisão técnica: Luigi Hoffer Montagem: Ricardo Pereira Corte: Américo Capa e coordenação gráfica: Jorge Vianna Fotos: Paulo Ricardo Gravado nos Estúdios da Polygram – Rio de Janeiro

Categoria:Álbuns de 1985 Categoria:Álbuns de Angela Ro Ro