O território do Camboja (também conhecido internacionalmente, durante alguns anos, como Campucheia), situado na fértil bacia do Rio Mekong, no sudeste asiático, é coberto por florestas tropicais e cortado por três grandes cadeias de montanhas. Diversos conflitos causaram a morte de milhões de cambojanos nas últimas décadas. Os Estados Unidos bombardearam massivamente o país até 1975. No contexto da Guerra de Vietnã, entre 600.000 e 800.000 cambojanos foram mortos durante esta campanha militar. Na década de 1970, o Camboja foi vítima do regime Khmer Vermelho, liderada por Pol Pot.
Pré-história thumb|esquerda|O exército Khmer indo para a guerra contra Champa. Pouco se sabe sobre a pré-história no território do Camboja. As esparsas evidências para a ocupação humana durante o Pleistoceno são algumas ferramentas feitas a partir de quartzo e quartzito, encontrados ao longo dos terraços do rio Mekong nas províncias de Stung Treng, Kratié e Kampot, mas não há datas para essa ocupação até ao momento.
Outras evidências arqueológicas mostram comunidades de caçadores-coletores habitando a região do atual Camboja durante o Holoceno. O sitio arqueológico considerado como mais antigo no país é a caverna de Laang Spean, em Battambang, e pertence ao período hoabinhiano. Escavações nas camadas mais profundas indicam uma ocupação desde 6000 a.C. Nas camadas mais superficiais do mesmo sítio, existem evidências de transição para o Neolítico, contendo dados das primeiras cerâmicas cambojanas.
Dados arqueológicos para o período entre o Holoceno e a Idade do Ferro são muito escassos. Outros sítios pré-históricos famosos na região são o Samrong Sen (não muito longe da antiga capital Oudong), onde as escavações na região se iniciaram em 1877, p.120 e Phum Snay, na província do norte de Banteay Meanchey. Artefatos pré-históricos também foram encontrados em Ratanakiri durante uma mineração.
A evidência pré-histórica que chama mais atenção, provavelmente são os canais circulares (possivelmente canais de drenagem ou de irrigação) descobertos em Memot e nas adjacências do Vietname nos anos 1950. Sua função ainda não está clara, mas as datas mostram que sua construção pode ter sido em 2000 a.C.
Um grande acontecimento na pré-história cambojana é a lenta introdução do cultivo de arroz na região norte do país, que se iniciou em torno de 3000 a.C.. Os povos que disseminaram essa cultura do arroz provavelmente falavam um língua mon-khmer., pp.13–22 O ferro começou a ser trabalhado em torno de 500 a.C. Grande parte das evidências arqueológicas que revelam a pré-história e história antiga no Camboja vem do planalto de Khorat, que atualmente é parte do território da Tailândia. No atual território do país, foram encontrados alguns assentamentos da Idade do Ferro em torno dos templos angkorianos, como Baksei Chamkrong, e alguns canais circulares — como Lovea — localizados a nordeste de Angkor. Sepultamentos, muito ricos, atestam a existência de fartura de alimentos e comércio (mesmo a longa distância: em 400 a.C. já existia comércio com a Índia), a existência de estruturas sociais e trabalho organizado na sociedade da época.
História antiga Reino de Funan
O Reino de Funan dominava grande parte do atual território cambojano, concentrando-se em torno do delta do rio Mekong. As poucas informações acerca do antigo reino são provenientes de textos históricos chineses, que basearam-se nos relatos de dois diplomatas do Reino de Wu Nanking que, juntos, peregrinaram por Funan em meados do século III. Entretanto, o nome "Funan" não é mencionado nos textos de origem cambojana, acreditando-se que estes tenham dado um outro nome ao antigo reino. thumb|200px|Esta estela encontrada no distrito de Thap Muoi, na província de Dong Thap, no Vietname, é um dos poucos escritos existentes que podem ser atribuídos ao Reino de Funan. O texto está em sânscrito, escrito em alfabeto Grantha, da dinastia Pallava, datado do século V, e conta a história de uma doação em honra de Vishnu por um príncipe da linhagem Gunavarman Kaundinya. Encontra-se no Museu da História, na Cidade de Ho Chi Minh (Vietname).
Alguns estudiosos atuais têm especulado sobre a origem e o significado da palavra "Funan". Costuma-se dizer que o nome representa uma transcrição de algum idioma local para o chinês. O historiador francês Georges Coedes apresentou a teoria de que, ao usar a palavra Funan, antigos estudiosos chineses transcreveram uma palavra relacionada a "Vnam" (em khmer, significando "montanha").Georges Cœdès, "La Stele de Ta-Prohm", Bulletin de l'Ecole francaise d'Extreme-Orient (BEFEO), Hanoi, VI, 1906, pp.44-81; George Cœdès, Histoire ancienne des États hindouisés d'Extrême-Orient, Hanoi, 1944, pp.44-45; Georges Cœdès, Les états hindouisés d'Indochine et d'Indonésie, Paris, E. de Boccard, 1948, p.128. No entanto, o epigrafista Claude Jacques ressaltou que essa explicação foi baseada em uma tradução da palavra sânscrita "parvatabùpála", nas inscrições antigas, equivalente a uma identificação do rei Bhavavarman, visto como o conquistador de Funan.Claude Jacques: "Funan; Zhenla. A realidade escondida pelas visões chinesas da Indochina", RB Smith e W. Watson (eds.), História antiga do Sudeste Asiático: Ensaios em Arqueologia, História e Geografia Histórica. Nova Iorque; Universidade de Oxford, 1979, pp.371 -9, pp.373, 375; Ha Van Tan, "Ciências Sociais do Vietname, volumes 1, 2, 7 e 8, 1986, pp 91-101, pp.91-92. Também observa-se que o carácter chinês 南 é frequentemente usado em termos geográficos, podendo significar "do Sul", o que leva a acreditar, também, que os chineses usaram a palavra no sentido de nomear outros locais ou regiões do sudeste da Ásia. Assim sendo, Funan pode ser uma palavra originalmente chinesa que significa algo como "pacificada do Sul".Claude Jacques: "Funan; Zhenla: A realidade oculta pelas visões chinesas da Indochina", RB Smith e W. Watson (eds.), História antiga do Sudeste Asiático: Ensaios em Arqueologia, História e Geografia Histórica. Nova Iorque, Universidade de Oxford, 1979, pp.371-9, p.378.
Assim como a origem do nome do reino, a natureza etnolinguística do povo é objeto de muita discussão entre os especialistas. As principais hipóteses são de que os funaneses eram em sua maioria mon-khmer, ou que eles eram em sua maioria austronésios, ou que eles constituíam uma sociedade multiétnica. De acordo com Michael Vickery, a evidência disponível não é conclusiva sobre esta questão. Embora a identificação da língua de Funan não seja possível, as evidências sugerem fortemente que a população era khmer.Michael Vickery, "Funan revisado: Desconstruindo os antigos" - Bulletin de l'École Française d'Extrême Orient XC-XCI (2003-2004), pp 101-143 Os resultados arqueológicos demonstraram "uma verdadeira descontinuidade entre os pré-níveis angkorianos", indicando uma dominação linguística na área sob o controle de Funan.Pierre-Yves Manguin, "De Funan a Sriwijaya: continuidades e descontinuidades culturais nos estados marítimos históricos anteriores do sudeste da Ásia", 2002, p. 59-82.
Com base nos testemunhos dos historiadores chineses, acredita-se que o Reino de Funan tenha se estabelecido no primeiro século d.C, no delta do rio Mekong, apesar de pesquisas arqueológicas apresentarem que a extensa ocupação humana na região tenha sido datada até o século IV a.C. Embora considerado por autores chineses como uma única organização política unificada, alguns estudiosos modernos suspeitam de que Funan pode ter sido uma coleção de cidades-estados que, por vezes, guerrearam entre si e em outros momentos constituíam uma unidade política, como foi sugerido pelo historiador vietnamita Hà Văn Tấn.Ciências Sociais do Vietname, volumes 1, 2, 7 e 8; 1986, pp.91-101. Escavações em Angkor Borei, no sul do Camboja, também deixa evidências de que Funan era uma sociedade complexa e sofisticada, com alta densidade populacional, tecnologia avançada — possuindo um porto na costa litorânea entre o Vietname e Camboja — e abastecido por um sistema de canais.Luong Ninh, "Reino de Funan: um ponto de viragem histórico", Arqueologia do Vietnã, 3/2007: 74-89.Charles Holcombe, Comércio e Budismo: o comércio marítimo, a imigração e a terra firme budista no início do Japão, p. 280
Na suposição de que Funan possuía uma única política unificada, os estudiosos avançaram vários argumentos linguísticos sobre a localização de sua "capital". Uma teoria, baseada na conexão presumida entre a palavra "Funan" e a palavra khmer "Phnom", sugere a capital do reino nas proximidades de Ba Phnoṃ, na província de Prey Veng. Outra teoria, proposta por George Coedes, é que a capital era uma cidade identificada em inscrições angkorianas como "Vyādhapura".Coedes, George, Os Estados Indianizados do Sudeste Asiático, p.36 Coedes baseou sua teoria em uma passagem nas histórias chinesas que identificam a capital como "Temu" (特 牧, pinyin: temu), atribuindo este nome a uma transcrição da palavra Khmer "dalmāk", que ele traduziu como "caça". Esta teoria foi rejeitada por outros estudiosos, alegando que "dalmāk" significa "caçador", e não "caça".Michael Vickery, Sociedade, Economia e Política no Camboja pré-angkoriano: O sétimo e oitavo séculos, pp 36. Embora haja discordãncia, os historiadores e estudiosos afirmam que a provável capital (ou capitais) do Reino de Funan estava localizada no sul do Camboja.
Reino Chenla
Chenla é, provavelmente, o primeiro estado khmer a existir no período de cerca de 550 a 802 d.C, abrangendo além do atual Camboja, partes de províncias do sul do Vietnã moderno. O nome do reino, Chenla, é visto como uma designação chinesa para a região do Camboja após a queda de Funan, apesar de alguns estudiosos modernos usarem o nome para identificar o Estado Khmer surgido no final do século VI e tendo permanecido até ao IX.Vickery, Society, Economics, and Politics in pre-Angkor Cambodia, pp. 71 ff. Os reis da dinastia de Chenla se originaram a partir de figuras mitológicas, como Campu e Lây-Naga (filha do deus da água, uma jovem mulher que tornou-se sólida).
O reino esteve na condição de um estado vassalo de Funan por cerca de 60 anos (aproximadamente até 550 d.C). Por volta do século VI, Chenla conquistou o norte de Funan. Finalmente, no século VII (aproximadamente no período entre 612–628), este estado conquistou todo o Funan e sua população, absorvendo sua cultura. Em 613, Ishanapura tornou-se a primeira capital do novo império.
Para sua administração, Chenla foi dividida em dois estados: o do norte, referido como "Chenla da Terra", e o do sul, como "Chenla do Mar". Chenla da Terra abrangia a região central até à província do sul do Laos, onde hoje é Champassak. Já o sul, ou Chenla do Mar, ocupava o território ao longo do Delta do rio Mekong e o litoral. Em 715, o reino foi dividido novamente, desta vez em pequenos estados.
Império Khmer
thumb|direita|Angkor Wat, um dos monumentos do país. Durante os séculos III, IV e V, os estados indianizados de Funan e Chenla se uniram e tiveram domínio sobre o atual Camboja e sudoeste do Vietname. Esses estados são encarados por muitos estudiosos como sendo parte do Khmer. O domínio substituiu o budismo mahayana pelo hinduísmo, no quesito religioso, que permaneceu como religião oficial durante toda a dominação de Funan e Chenla. Durante mais de , o Camboja, assim como Myanmar, foi influenciado pela Índia e pela China, fazendo com que sua influência fosse para fora de seu atual território reduzido e passando esse conhecimento e cultura para outras civilizações do sudeste asiático, que correspondem hoje ao leste da Tailândia, sudoeste do Vietname e ao Laos. Em torno do século XIII, o budismo teravada foi reintroduzido no país por monges do Sri Lanka, que eram vistos como os homens mais respeitáveis dentro das comunidades e vilas que surgiam em torno dos templos. Isso resultou no crescimento e predominância do budismo teravada e a perda de influência do hinduísmo e budismo mahayana.