thumb|direita|300px|Campo de trigo no kibutz En Hashlosha O kibutz [quibúts]Dicionário escolar da língua portuguesa/Academia Brasileira de Letras. 2ª edição. São Paulo. Companhia Editora Nacional. 2008. p. 764. (hebraico: קיבוץ; plural: kibutzim: קיבוצים, "reunião" ou "juntos") é uma comunidade agrária coletiva israelita inicialmente utópica, sem uso de meios de produção privativos, uma coletividade comunitária voluntária baseada nos princípios do sionismo trabalhista (combinação de socialismo e sionismo). Comunidade para proteção da crescente onda de antissemitismo na Europa na época.
Apesar de existirem empresas comunais (ou cooperativas) em outros países, em nenhum outro lugar esse tipo desempenharam papel tão importante como em Israel, com função essencial na criação do Estado judeu.
Os kibutzim são considerados uma experiência única de Israel, e parte de um dos maiores movimentos comunais seculares na história. Fundados em um momento que a lavoura individual não era prática. Forçados pela necessidade de vida comunal e inspirados por ideologia socialista, os membros do kibutz desenvolveram modo de vida em comunidade que atraiu interesse mundial.
Enquanto que os kibutzim foram durante várias gerações comunidades utópicas, atualmente são semelhantes as empresas capitalistas, às quais supostamente seriam alternativa. Onde alguns são adicionalmente contratados trabalhadores externos (que vivem fora da esfera comunitária) e que recebem salários.
Os kibutzim forneceram a Israel uma parte desproporcionalmente importante dos seus líderes intelectuais, políticos e militares. Apesar de o movimento dos kibutzim nunca ter excedido 7% da população de Israel, poderá ter contribuído, como poucas instituições em Israel, para cunhar a identidade cultural do país.
Historicamente, com a colonização do Estado israelense, criado pela Organização das Nações Unidas em 1948, os kibutzim também exerceram importante papel estratégico militar quando dos primeiros conflitos árabes-israelenses, funcionando como bases avançadas, pois os colonos com treinamento militar e armamentos combateram o oponente até ocorrer a intervenção do Tzahal (exército israelense).
Origens e história
As condições de vida do Império Russo na virada do século XIX para o século XX eram ruins para todos os súditos, mas ainda piores para os judeus. Causar a emigração de um terço dos judeus, o batismo de outro terço e a morte por inanição do terço restante era um objetivo oficial do Império. Com a exceção de uma minoria de ricos, os judeus eram obrigados a viver na região fronteiriça chamada de cherta osedlosti (ou região de assentamento); e, mesmo dentro dessa, não podiam morar em cidades grandes como Kiev, ou tampouco em vilarejos com menos de 500 habitantes. Para aqueles que se aventuravam a chegar à capital Moscou, a polícia local estabeleceu recompensa para a captura de um judeu com valor equivalente à da captura de dois ladrões. (Dubrow, Vol III)
O número de judeus convocados para o exército do tzar era desproporcionalmente alto. Enquanto em outros países todos os militares eram tidos como dignos de honrarias, esses soldados judeus eram vítimas de profunda discriminação. Por exemplo, ainda que o serviço militar os levasse para longe da cherta osedlosti ou até mesmo para o extremo oriente russo, esses soldados eram obrigados a retornar para a região de assentamento quando em dispensa. Além disso, durante a Guerra Russo-Japonesa, vários juízes ucranianos aproveitaram-se da ausência dos soldados judeus para livrar-se de suas famílias, baseando-se em uma lei que permitia a expulsão de famílias judias sem um chefe homem que lhes garantisse o sustento. Essa última agressão foi de fato tão extremada que o governo russo opôs-se a ela; mas os termos da reprimenda do general Vyacheslav Plehve a seus subordinados eram claramente discriminatórios: "as famílias dos judeus convocados devem ser deixadas onde estão "até o fim da guerra" (ibidem)"
A ameaça aos judeus cresceu após a posse do tzar Alexandre III (1881–1894). O seu governo não só permitia, mas mesmo estimulava as agressões a seus vizinhos judeus por parte dos lavradores insatisfeitos. As chamadas "Leis de Maio", promulgadas pelo imperador em maio de 1882, estabeleceram regras de convivência, que proibiram a moradia de judeus em cidades com menos de 10 mil habitantes — expulsando várias famílias que há várias gerações viviam no mesmo lugar — e estabeleceram cotas que impediram o acesso de elevado número de judeus a universidades e profissões. Era portanto especialmente forte a repressão aos judeus na Rússia da virada do século XIX. As reações dos judeus a essas dificuldades foram variadas: envolveram-se na luta pelo socialismo no país; ou emigraram para o ocidente; ou mantiveram-se ortodoxos, ignoraram os problemas à sua volta; ou buscaram ser assimilados pela sociedade russa; ou tornaram-se partidários do sionismo, movimento político-social, cuja ideia central era construir uma nação judaica na terra em que o judaísmo nasceu, a Palestina (ou Eretz Israel).
Até então, os judeus que migravam para a Palestina o faziam ou em idade avançada para lá morrer, ou iam na juventude para participar nas yeshivás (local de estudo do talmud/torá) ao redor de Jerusalém e Hebron. Em ambos os casos a migração era por motivação religiosa (e não político-social). e esses indivíduos, não se sustentavam do próprio trabalho, viviam de doações de judeus de outras paragens (doações chamadas chaluká).
Já o movimento sionista — não obstante suas profundas raízes na história judaica — só passou a ser uma força significativa por volta da década de 1880. Quando cerca de 5 mil famílias, oriundas principalmente do sul da Rússia, mudaram-se para a Palestina com a intenção de lá viver e de trabalhar com a lavoura, ao invés de estudar, dessas quais algumas sobreviviam com doações do Barão Rothschild, banqueiro e político britânico. Essa primeira leva de judeus dispostos a viver uma vida normal na Palestina recebeu o nome de "Primeira Aliá", e seus membros foram chamados de "Biluim". No final do século XIX, cerca de 50 mil judeus já viviam na Palestina, porém a maioria ainda sobrevivia dependendo do dinheiro chaluká. Nesse período também ocorreu a consolidação do sionista na Europa com os movimentos nacionalistas.
Neste ponto, é importante observar que o trabalho na terra é componente importante do sionismo. É bastante difundida a ideia de que esse era um movimento de cunho nacionalista. Deve-se notar, no entanto, que sua componente econômica pregava o retorno ao cultivo da terra como principal ocupação dos judeus, substituindo assim as ocupações típicas dos judeus europeus: possuir pensões e lojas de penhora, praticar "comércio pequeno" etc. esquerda|thumb|350px|A Primeira Aliá: os assentamentos agrícolas de Biluim nos anos 1880 foram os pioneiros do movimento dos kibutz De fato, a geração da Primeira Aliá acreditava que a decadência dos judeus da Diáspora era explicada pela aversão desses ao trabalho físico. Não só defendiam que do cultivo da terra palestina adviria a redenção física e espiritual do povo judeu, como chegavam a acreditar que o solo da Palestina tinha o poder mágico de transformar os fracos comerciantes judeus em lavradores nobres e fortes. Uma manifestação dessa crença pode ser vista na edição de 1883 de The London Jewish Chronicle: "os pálidos e curvados comerciantes judeus de alguns meses atrás" tornaram-se "lavradores bronzeados, de mãos calejadas e másculos" (Silver-Brody, 33,36).
Em espírito semelhante ao da "religião do trabalho" exposto acima, o manifesto dos Biluim proclamava orgulhosamente a intenção de "encorajar e fortalecer a imigração e colonização de Eretz Yisrael através da criação de uma colônia agrícola, de base cooperativa social". Afinados com a ideologia sionista (que até então ainda não havia recebido esse nome), os Biluim também exortavam o povo judeu ao renascimento sociopolítico, espiritual e nacional na Palestina.
A esperança dos Biluim de sucesso na lavoura era grande, mas seu entusiasmo era maior do que sua habilidade agrícola. Em apenas um ano, os Biluim já eram dependentes de caridade como os estudantes que os precederam. Mas os Biluim investiam o dinheiro recebido em terras e equipamentos, e as doações — vindas tanto de judeus riquíssimos como o Barão de Rotschild quanto dos "normais" leitores do The London Jewish Chronicle — permitiram que prosperassem. Suas cidades, Rishon LeZion e Zihron Yaakov, tornaram-se comunidades saudáveis e atraentes. A vitória foi concomitante ao fato de que já na virada do século XIX os imigrantes empregavam árabes em suas terras, ao invés de trabalhá-las eles mesmos (como inicialmente pretendiam). A revolução econômica sionista ainda estava por vir.
A Segunda Aliá e a fundação dos primeiros kibutzim direita|250px|thumb|Bandeiras mostrando a origem dos fundadores do kibutz Gaash (1951). Em primeiro plano, a bandeira do Brasil. Os pogrom surgiram novamente na Rússia nos primeiros anos do século XX. Em 1903 em Kishinev as massas campesinas eram incitadas a agir contra os judeus depois de um massacre que ficou conhecido como o primeiro pogrom de Kishinev. Revoltas aconteceram de novo logo após a derrota da Rússia na Guerra Russo-Japonesa e na Revolução de 1905. A ocorrência de novos pogrom inspiraram a emigração de outra leva de judeus russos. Na década de 1880, a maioria dos emigrantes ia para os Estados Unidos e a minoria, para a Palestina. Era a geração que incluiria os fundadores dos kibutzim
Como os membros da Primeira Aliá que vieram antes deles, a maioria dos membros da Segunda Aliá queria ser fazendeiro na Palestina. Aqueles que viriam a fundar os kibutzim dirigiram-se em primeiro lugar a um dos vilarejos antigos dos Biluim, Rishon LeZion, em busca de trabalho. Os fundadores do primeiro kibutz ficaram moralmente arrasados com o que viram entre os colonos judeus do vilarejo "com seus supervisores judeus, trabalhadores camponeses árabes e guardas beduínos." Viram as novas vilas e recordaram-se dos lugares que haviam deixado no leste europeu. Ao invés do começo de uma comunidade judaica pura, sentiram que haviam visto a recriação da estrutura socioeconômica judaica dos Assentamentos, onde os judeus trabalhavam em empregos limpos, enquanto outros grupos étnicos faziam o trabalho sujo. (Gavron, 19)
Joseph Baratz, que viria a fundar o primeiro kibutz, escreveu acerca de sua época de trabalho em Zihron Yaakov:
Apesar de Joseph Baratz e outros trabalhadores quererem cuidar da terra eles mesmos, tornar-se fazendeiro independente não era uma opção realista em 1909. Como Arthur Ruppin, um proponente da colonização agrícola judaica da Palestina diria mais tarde, "A questão não era se o assentamento coletivo era preferencial ao assentamento individual; era uma das formas de assentamento coletivo ou nenhum assentamento." (Rayman, 12)
A Palestina Otomana era um ambiente duro, que nada se parecia com as planícies russas com as quais os imigrantes judeus estavam familiarizados. A Galileia era pantanosa, os morros rochosos, e o sul do país, o Negueve, era um deserto. Para tornar as coisas ainda mais desafiadoras, a maioria dos primeiros colonos da Segunda Aliá não tinha experiência prévia com agricultura. As condições de saneamento também eram pobres. A malária era mais que um risco, era praticamente uma garantia. Juntamente com a malária, também havia o tifo e a cólera.
Em adição a ter um clima difícil e solo relativamente infértil, a Palestina Otomana era sob alguns pontos de vista um lugar sem leis. Beduínos nômades atacavam frequentemente fazendas e áreas de assentamento. Sabotavam os canais de irrigação e a queima de colheitas também era comum. Viver em coletividades era simplesmente a maneira mais lógica para estar seguro em uma terra que não os desejava.