thumb|upright=1.4|A última oração dos mártires cristãos, por Jean-Léon Gérôme (1883). A Perseguição de Diocleciano tinha o único fim de travar a rápida expansão do cristianismo, e terá sido a mais violenta de todas A perseguição de Diocleciano ou "Grande Perseguição" foi a última e possívelmente a mais sangrenta perseguição aos cristãos no Império Romano.Gaddis, 29. Em 303, o imperador Diocleciano e seus colegas Maximiano, Galério e Constâncio Cloro emitiram uma série de éditos em que revogavam os direitos legais dos cristãos e exigiam que estes cumprissem as práticas religiosas tradicionais. Decretos posteriores dirigidos ao clero exigiam o sacrifício universal, ordenando a realização de sacrifícios às divindades romanas. A perseguição variou em intensidade nas várias regiões do império: as repressões menos violentas ocorreram na Gália e Britânia, onde se aplicou apenas o primeiro édito; enquanto as mais violentas se deram nas províncias orientais. Embora as leis persecutórias fossem anuladas por diversos imperadores nas épocas subsequentes, tradicionalmente o fim das perseguições aos cristãos foi marcado pelo Édito de Milão de Valério Licínio e Constantino, o Grande.
Os cristãos eram alvo de discriminação a nível local no Império, embora os primeiros imperadores se mostrassem reticentes a formular leis gerais contra eles. Não foi senão na década de 250, durante os reinados de Décio e Valeriano, que este tipo de leis começou a ser aprovado.Rives, 135. Com esta legislação, os cristãos viram-se obrigados a sacrificar aos deuses pagãos ou a enfrentar a prisão e pena de morte.Clarke, 632 Depois da chegada ao trono de Galiano em 260, estas leis foram abolidas.Frend, "Genesis and Legacy", 516-517 A ascensão ao sólio imperial de Diocleciano — um camponês da Dalmácia — em 284, após o assassinato de Numeriano, não marcou um regresso imediato ao desprezo pelo cristianismo, mas prenunciou uma mudança gradual nas atitudes oficiais para com as minorias religiosas.Frend, "Genesis and Legacy", 516-518 Nos primeiros quinze anos do seu reinado, Diocleciano purgou o exército de cristãos, condenou os maniqueístas à morte e fez-se rodear de opositores públicos ao cristianismo. A preferência de Diocleciano por um governo de cariz pró-activo, combinada com a sua autoimagem de restaurador do glorioso passado de Roma, despoletaram a mais terrível perseguição na história de Roma. No inverno de 302, Galério pressionou Diocleciano para iniciar uma perseguição geral dos cristãos. Diocleciano, que não estava de todo convencido da sua utilidade e oportunidade, consultou o oráculo de Apolo. A profecia do oráculo foi interpretada como um apoio à posição de Galério e a perseguição generalizada iniciou-se em 24 de fevereiro de 303.Potter, 337; Williams, 176; Clarke, 650.
As discrepâncias no zelo com que os decretos foram cumpridos nas várias províncias do império deveram-se às posições pessoais dos diferentes tetrarcas. Enquanto Galério e Diocleciano foram ávidos perseguidores, Constâncio não se revelou muito entusiasta: éditos persecutórios posteriores, incluindo a chamada ao sacrifício universal, não foram aplicados nos seus domínios. O seu filho, Constantino, após a sua entronização em 306, restaurou a legalidade dos seguidores do cristianismo e devolveu-lhes as propriedades que lhes tinham sido confiscadas durante a perseguição. Nesse mesmo ano, na península italiana, o usurpador Magêncio substituiu o sucessor de Maximiano, Valério Severo , prometendo ao povo total tolerância religiosa. Galério deu por finalizada a perseguição no Oriente em 311. Contudo, esta foi retomada no Egito, Palestina e Ásia Menor pelo seu sucessor, Maximino Daia . Constantino e Licínio, o sucessor de Severo, assinaram o Édito de Milão em 313, que oferecia uma aceitação mais abrangente da Religião Cristã do que a proposta pelo Édito de Tolerância de Galério. Licínio expulsou Maximino em 313, finalizando assim a perseguição no Oriente.
A Grande Perseguição não logrou controlar o crescimento da Igreja. Em 324, Constantino era o único governante do império e o cristianismo era agora a religião por ele mais favorecida. Embora a perseguição tenha resultado nas mortes de cristãos — de acordo com estimativas recentes —, assim como na tortura, encarceramento ou deslocação de muitos outros, a maioria dos cristãos escaparam às punições imperiais. Todavia, a perseguição conduziu à divisão interna entre aqueles que tinham colaborado com as autoridades (os "traditores") e aqueles que se tinham mantido "puros". Alguns cismas, como o dos donatistas no norte de África e o dos melecianos no Egito, persistiram mesmo após o fim das perseguições. Os donatistas, por exemplo, não se reconciliaram com a Igreja senão depois de 411. Nos séculos posteriores, alguns cristãos criaram um "culto dos mártires" e exageraram as barbaridades praticadas na era das perseguições. Estes testemunhos foram criticadas durante o Renascimento e depois, de forma notável, por Edward Gibbon no . Historiadores modernos, como o marxista Geoffrey de Sainte Croix, continuaram esta tendência, procurando definir até que ponto vai o exagero que, porventura, permeia a perspectiva transmitida pelas fontes cristãs contemporâneas da perseguição de Diocleciano.Moss, Candida R. "The discourse of voluntary martyrdom: Ancient and modern." Church History 81.3 (2012): 531-551.
Contexto Antecedentes Desde a sua primeira aparição até à legalização durante o mandato de Constantino, o Grande, o cristianismo foi considerado como uma religião ilegal para o estado romano,Frend, "Genesis and Legacy", 503. mas não constituía nenhum problema especial, uma vez que parecia ser uma variante do judaísmo, que era religio licita Durante os dois primeiros séculos da sua existência, o cristianismo e os seus praticantes tinham demonstrado ser impopulares junto do público em geral.Frend, "Genesis and Legacy", 511; de Ste-Croix, "Persecuted?", 15–16. Desta forma, os cristãos eram sempre suspeitos, e, quais membros de uma "sociedade secreta", comunicavam entre si com códigos confidenciaisDodds, 111. mantendo-se à margem da esfera social.MacMullen, 35. Certamente se poderia então afirmar que não foram as acções legais a causa das primeiras perseguições, mas muito mais a hostilidade popular, observável na ira das massas. Em Lugduno (atual Lião) em 177, só a intervenção das autoridades civis deteve uma horda pagã cujo propósito era retirar os cristãos das suas casas e linchá-los. O governador de Bitínia e Ponto, Plínio, o Jovem, recebeu numerosas listas de denúncias feitas por cidadãos anónimos, as quais o imperador Trajano recomendou ignorar.Dodds, 110.
Para os seguidores dos cultos tradicionais, os cristãos eram como "criaturas estranhas": não de todo romanas, embora nem de todo bárbaras.Schott, Making of Religion, 2, citando Eusébio, Praeparatio Evangelica 1.2.1. As suas práticas representavam, em grande medida, uma ameaça para os ritos mais tradicionais do povo romano. Os cristãos, por seu lado, recusavam as festas públicas, negavam-se a participar no culto imperial, evitavam os cargos públicos e criticavam inclusivamente, de forma pública, as tradições antigas do próprio império.Schott, Making of Religion, 1. As conversões destruíam as famílias: Justino Mártir fala de um homem pagão que denunciou a sua esposa cristã, deserdando-a assim com aos seus filhos por se converterem em cristãos.Dodds, 115–16, citando Justino, Apologia 2.2; Tertuliano, Apologia 3. A religião tradicional romana estava entranhada intimamente na sociedade e estado romanos, e os cristãos negaram-se a observar as suas práticas.Castelli, 38; Gaddis, 30–31. Nas palavras de Tácito, os cristãos mostravam "o ódio da raça humana" (odium generis humani).Tácito, Annales 15.44.6, citado em Frend, "Genesis and Legacy", 504; Dodds, 110. Entre os mais crédulos, acreditava-se que os cristãos faziam uso de magia negra na consecução de objectivos revolucionários,Frend, "Genesis and Legacy", 504, citando Suetónio, Nero 16.2. assim como na prática do incesto e do canibalismo.Dodds, 111–12, 112 n.1; de Ste-Croix, "Persecuted?", 20.
No entanto, nos dois primeiros séculos da era cristã, nenhum imperador emitiu leis contra a fé ou a sua Igreja. Conforme iam ocorrendo, as perseguições eram realizadas sob a autoridade dos funcionários de governos locais,Clarke, 616; Frend, "Genesis and Legacy", 510. Ver também: Barnes, "Legislation"; de Sainte-Croix, "Persecuted?"; Musurillo, lviii–lxii; e Sherwin-White, "Early Persecutions." sendo apenas esporádicas e não sistemáticas, e dirigidas contra pessoas ou grupos isolados. Assim, a primeira perseguição foi a do imperador Nero , dirigida à comunidade romana. Na de Bitínia e Ponto em 111, o governador imperial, Plínio foi o responsável por levar a cabo o fustigamento,Drake, Bishops, 87–93; Edwards, 579; Frend, "Genesis and Legacy", 506–8, citando Plínio, Epistaules 10.96. enquanto que em Esmirna (Izmir) em 156 e em Escílis, perto de Cartago, em 180, foi o procônsul o encarregado de a dirigir;Martyrium Polycarpi (= Musurillo, 2–21) e Eusébio, Historia Ecclesiastica 4.15; Frend, 509 (Smyrna); Martyrium Scillitanarum acta (= Musurillo, 86–89), citado em Frend, 510 (Scilli). finalmente, em Lugduno em 177, o governador da província foi quem esteve encarregue de semelhante ofício.Eusébio, Historia Ecclesiastica 5.1 (= Musurillo, 62–85); Edwards, 587; Frend, 508. Certamente, o facto de Nero ter executado cristãos pela sua alegada implicação no incêndio do ano 64 — um assunto puramente local —, não significou que a série de execuções necessariamente se deveria estender além dos limites da cidade de Roma.G.W. Clarke, "The origins and spreade of Christianity," in Cambridge Ancient History, Volume X: The Augustan Empire, ed. Alan K. Bowman, Edward Champlin, e Andrew Linott (Cambridge: Cambridge University Press, 1996), 869–70. Embora estas primeiras perseguições fossem violentas, ao mesmo tempo eram esporádicas, breves e de alcance limitado.Clarke, 616; Frend, "Genesis and Legacy", 510; de Ste-Croix, "Persecuted?", 7. Em conjunto, não eram mais que uma ameaça limitada para o cristianismo.Robin Lane Fox, The Classical World: An Epic History of Greece and Rome (Toronto: Penguin, 2006), 576. O próprio capricho da acção legal, porém, fez com que a ameaça da coacção do estado tivesse maior importância na imaginação cristã.Castelli, 38.
thumb|250px|Septímio Severo , mais de um século antes da perseguição de Diocleciano, já publicara um rescrito geral que proibia a conversão ao judaísmo ou ao cristianismo